Os jovens estão trocando os drinks pelo vinho artesanal
Vinhos naturais, autorais e independentes: por que eles conquistaram uma nova geração
Os jovens estão trocando os drinks pelo vinho artesanal
Vinhos naturais, autorais e independentes: por que eles conquistaram uma nova geração
Atualmente, não é necessário saber diferenciar um vinho natural de um biodinâmico para aproveitar um bar de vinho. E talvez isso seja exatamente o que importa. Os vinhos de baixa intervenção, que incluem desde os naturais até os orgânicos, embalados por rótulos atraentes, vem crescendo no gosto dos consumidores.
Um aspecto crucial que vale destacar é que o que conquista a nova geração de consumidores vai além do conteúdo da garrafa. Eles são atraídos por tudo que envolve a experiência: a história do produtor, a estética do rótulo, os locais onde o vinho é apreciado e a comunidade que se forma ao seu redor.
Pensando no mercado brasileiro, o consumo de vinhos cresceu, se tornou mais jovem, mais feminino e menos elitizado. Aqui temos um dos poucos mercados que está vivendo um crescimento do consumo de vinhos. O público consome mais conteúdo sobre o assunto e temos uma grande oferta de conteúdo acessível, com uma linguagem mais jovem. Além disso, o vinho tem participado mais do dia a dia do consumidor ao invés de ser relacionado somente a uma bebida para momentos especiais.
MAÍRA FREIRE, SOMMELIER
Se millennials e gen z bebem menos do que gerações anteriores, quando escolhem beber,
a tendência parece ser optar por experiências. Assim como aconteceu com o café de grão especial, o matcha, os perfumes de nicho ou a cerâmica artesanal, o vinho vem assumindo um repertório cultural, e quase nunca envolve os rótulos clássicos que dominaram o imaginário do vinho por décadas. O fascínio está justamente no desconhecido, de garrafas importadas em baixa escala a indicações de amigos.
Para a diretora criativa e apreciadora de vinhos autorais Marina Costa, a história é importante:
”Eu gosto muito de vinhos que me trazem uma história. Às vezes vejo que faz parte de um processo familiar também. O que mais me atrai nesse tipo de vinho é a experiência mais autêntica e menos industrial.”
Uma mudança importante que ocorreu nos últimos anos, e que entendo ser uma resposta à demanda desse consumidor mais jovem, é com relação à potência alcoólica, frescor e peso. Em geral se consome cada vez mais vinhos com graduação alcoólica mais baixa, menos intensidade de taninos [compostos químicos naturais] e corpo.
MAÍRA FREIRE, SOMMELIER
Grandes cidades pelo pais vêem um crescimento dos wine bars, que passaram a funcionar como pontos de encontro culturais. O ritual de sair para beber vinho ganhou força como programa social. Bares como Clementina, Silo, Vinícola Urbana, Beverino, Tão Longe, Tão Perto e Prosa e Vinho, na capital paulistana, ajudam a consolidar essa cena que mistura vinho, gastronomia e música.
A estética também virou parte central dessa nova cultura. Se o mercado tradicional ainda opera sob códigos mais conservadores, marcas independentes passaram a investir em direção criativa forte, embalagens menos sérias e identidades visuais que circulam naturalmente entre a moda, o design e a internet. Rótulos maximalistas, ilustrações experimentais, tipografias divertidas e nomes irônicos ajudam a construir um imaginário mais acessível e menos intimidante.
”A versatilidade de sabores e rótulos acaba chamando atenção e sinto que o valor também. É fácil de achar garrafas num preço mais acessível, lugares que vendem apenas taças, então acaba sendo chamativo.”, relata a jornalista Eduarda Bogo, grande consumidora desses vinhos.
Exemplos como Sip Sip e Suspeito mostram como o vinho independente passou a dialogar com lifestyle e cultura visual de uma maneira que o mercado tradicional raramente conseguiu.
Dessa forma, o vinho natural, autoral e independente parece crescer justamente por ocupar um espaço híbrido: bebida, repertório cultural e experiência estética. É esperado um crescimento de 40% no consumo desse tipo de vinho até 2030 segundo estudo recente do Organic Wine Market. Mais do que entender tecnicamente cada taça, existe um interesse em consumir algo que pareça menos óbvio e mais conectado a uma certa ideia de comunidade e descoberta.