Como Letícia Zambon criou um dos clubes de leitura mais provocadores de São Paulo
O Great Books, Great Tits acompanha a ascensão dos clubes do livro entre mulheres e uma geração que transformou livros, desejo e trocas afetivas em novos espaços de comunidade e convivência cultural.
Como Letícia Zambon criou um dos clubes de leitura mais provocadores de São Paulo
O Great Books, Great Tits acompanha a ascensão dos clubes do livro entre mulheres e uma geração que transformou livros, desejo e trocas afetivas em novos espaços de comunidade e convivência cultural.
Existe algo curioso acontecendo em torno da leitura atualmente. Em meio a uma internet cada vez mais cansada de si mesma, ler voltou a ocupar um espaço de desejo (e não só intelectual). Clubes do livro viraram ponto de encontro, livros passaram a circular como objeto de estilo, e discussões literárias saíram de um ambiente excessivamente acadêmico para ganhar contornos mais afetivos, íntimos e sociais. No Great Books, Great Tits (em português, “Ótimos Livors, Ótimos Peitos”, uma brincadeira que sugere o estilo do projeto), isso aparece de maneira muito clara: mulheres se reunindo para falar sobre erotismo, desejo, amor, violência, sexo e vulnerabilidade por meio de autoras como Anne Carson, Hilda Hilst e Fernanda Young.
Fundado há pouco mais de um ano, o clube já passou por diversos endereços e agora passa a ser todos os meses no CRN 932, o bar da loja da Carnan, em São Paulo. Luz baixa, mesas ocupadas por meninas arrumadas para “o date do mês” e um drink intenso inspirado na leitura da vez, o ambiente parece uma extensão da própria vida de Leticia. Ver tantas garotas – mulheres – juntas, falando abertamente sobre desejo, livros e experiências pessoais foi muito especial. Letícia fala bastante sobre horizontalidade durante nossa conversa: não existe posição de poder no clube, apenas mulheres olhando umas para as outras de igual para igual. Em tempos tão individualistas, criar espaços de comunidade talvez seja uma das coisas mais radicais – e bonitas – possíveis.
As camisetas com a frase “Great Books, Great Tits” – um sucesso de vendas no site greatbooksgreatits.com – ajudam a traduzir um pouco dessa nova geração que não vê mais sentido em separar intelectualidade de diversão, sensualidade ou estética. Ao invés de transformar a leitura em uma performance inalcançável, o Great Books aproxima livros da vida real, da mesa do bar, das amizades, dos dates que surgem entre um encontro e outro. A leitura nunca deixou de ser cool, mas agora ela parece mais viva, mais coletiva e menos solitária. E mais feminina.
Confira a entrevista completa abaixo:

Seu trabalho sempre teve um olhar muito voltado para mulheres. O que te interessa nesse universo?
Eu fui criada majoritariamente por mulheres, eu vim de uma família muito matriarcal e eu sou um bebê – como diz a minha avó – da casa e eu tive uma casa muito feminina, então, eu não lembro em algum momento que minha vida não foi cercada pelo universo feminino e pelos códigos do que se diria o universo feminino.
E enfim, eu fui crescendo e mulheres sempre foram muito mais interessante para mim, o universo feminino, ouvir mulheres falando, mulheres mais velhas do que eu, sempre me fascinaram muito, e enfim, acho que tem uma entrevista até não me não me lembro se é da Mônica Bellucci, mas ela fala que se ela ver um filme e não tem uma mulher na tela, ela perde completamente o interesse na hora.
Para mim o que torna a vida interessante são as mulheres que estão ao meu redor, são as mulheres que eu vou aprendendo junto, são as mulheres da minha família que me criaram e depois as artistas que eu fui conhecendo e depois as minhas amigas e as mulheres em posição de liderança que eu também conheci no audiovisual. Eu não imagino uma vida sem mulheres, a minha vida é completamente rodeada de mulheres e eu acho que é o que torna ela mais interessante e é o que mais me interessa no mundo.
E foi natural o meu trabalho com fotografia, e agora com o Clube do Livro ir migrando para esse lugar de ser mais englobado no universo feminino e nas mulheres, porque é o maior interesse da minha vida. Eu não planejei nenhuma das minhas decisões profissionais, mas a única coisa que eu sabia é que eu queria que elas tivessem muitas mulheres envolvidas.
Existe uma conexão entre a forma como você fotografa mulheres e a forma como conduz o clube?
O que eu falei antes de que não me importava o que eu fosse fazer de trabalho, eu queria que envolvesse mulheres e trocar com mulheres, eu acho que isso acaba se relacionando um pouco a fotografia e o clube, porque eu acredito numa horizontalidade muito forte. Então, fotografar alguém e fotografar majoritariamente mulheres, como eu fotografo, é um lugar de muita conexão e de muita troca e de muita intimidade.
Essa é a forma que eu acredito que o Great Books foi sendo conduzido também. Ele nasceu de um lugar de muita intimidade com outras mulheres e de uma horizontalidade. Não existe uma posição de poder em nada do que eu faço e eu acho que talvez essa seja a grande conexão entre o clube e a fotografia na minha vida também. Tudo que eu estou fazendo, ou conduzindo, eu estou olhando de igual para igual, porque é assim que eu quero estar com as outras mulheres ao meu redor.
Como o nome “Great Books, Great Tits” surgiu?
Eu acho que é muito engraçado o nome ‘‘Great Books, Great Tits’’, porque ele surgiu de uma epifania. Eu ainda fazia o clube do livro na minha casa em ambientes menores e um dia eu falei: ‘‘Eu vou fazer uma camiseta’’. Eu sempre gostei muito de camisetas divertidas, de graphic tees, eu sou apaixonada pela coleção de camisetas da Sinéad O’connor, ela sempre teve camisetas com frases incríveis. Eu amo o trabalho da Jenny Holzer, que é uma artista visual que sempre fez murais com frases, então eu sempre fui meio fascinada por essa ideia de você fazer um statement.
E aí eu tive essa ideia do nome ‘‘Great Books, Great Tits’’ em uma epifania e eu fui em uma loja qualquer no início – hoje em dia a gente desenvolveu a camiseta – mas a primeira camiseta eu que fiz. Eu abri meu Photoshop, fiz uma letra super simples, Arial, e vesti para o mesmo dia, porque a gente tinha encontro.
Ela acabou se tornando o que ela se tornou e outras mulheres começaram a usar e a gente melhorou esse produto, a Lua (Galvani) entrou junto comigo para a gente poder fazer uma marca e poder fazer com que a camiseta ela virasse uma coisa maior, um coletivo.
E eu acho que o nome ‘‘Great Books, Great Tits’’ vem porque eu amo essa frase, eu pensei nela e eu amo ela, mas acho que ela conversa muito com o que eu sou que é esse lugar de eu não sou uma acadêmica, eu fui adentrando esse ambiente da intelectualidade muito por conta própria e começando a trabalhar no ambiente da indústria criativa e adentrando e tendo mais acessos e aí eu vi às vezes como era sério em algum lugar e como ele era excludente em algum lugar e como ele dizia que te colocava numa caixinha de: ‘se você vai ser essa intelectual, você não pode se divertir em algum lugar e brincar com as coisas ou ser sexy’ e eu meio que não concordo com isso, até porque as mulheres mais sexys que eu conheci são mulheres brilhantes, inteligentíssimas e que se divertem muito.
Você sente que existe uma nova geração de mulheres buscando espaços culturais mais íntimos, menos elitistas e mais afetivos?
Eu acredito muito que essas mulheres estão buscando esses ambientes mais intimistas, menos elitistas, menos acadêmicos – falo por mim, eu mesma criei esse clube um pouco por isso, eu queria me sentir mais acolhida em um ambiente, eu queria que fosse um ambiente divertido e de troca e horizontal.
No Great Books, a gente preza muito de todo mundo dar opinião, todo mundo se apresenta, é íntimo, é caloroso. Pela aderência do clube, eu entendi que sim, tinham outras mulheres que estavam procurando isso e algumas se tornaram grandes amigas, o que eu acho muito mágico. Eu não vim de um ambiente de elite cultural, não vim de um ambiente que a literatura esteve sempre presente crescendo na minha casa, então foi um ambiente que eu adentrei, que eu fui tateando e descobrindo e que é muito mágico e maravilhoso para mim, mas que eu nunca me senti parte, porque eu não sou parte desse ambiente acadêmico intelectual.
Então, eu queria criar um ambiente de trocas intelectuais, mas que também fosse mais do que isso, fosse um lugar de trocas afetivas e íntimas e que possa ser divertido e que a gente possa olhar uma para outra.
Quais livros mais movimentaram discussões dentro do clube até agora? OU Quais livros em geral são o foco do clube do livro?
Eu digo que o clube, o Great Books, ele tem uma Bíblia que foi ‘‘Eros’’ da Anne Carson, porque foi um livro muito importante para mim, pessoa física Letícia e para o Great Books também. E eu sinto que o Great Books de uma forma não proposital, não intencional, de nenhuma maneira, ele foi migrando para um lugar de falar sobre erotismo e desejo feminino. É um tema que a gente explora muito, é um tema que é uma grande pesquisa na minha vida – acho que tanto em fotografia, quanto literatura – o desejo feminino ele é um uma grande pauta, o Eros, o desejo em si e eu acho que a gente foi migrando para esse lugar no Great Books.
O que eu acho que é um outro fator que eu gosto muito, porque a gente virou um clube de mulheres falando abertamente sobre sexo, sexualidade e erotismo de uma forma muito vulnerável, muito engraçada, às vezes, contando as experiências umas das outras e isso para mim é mais do que eu podia imaginar ou pedir.
Então, a gente acaba sempre lendo mulheres, que eu digo que eram mulheres que não pediam desculpa para falar as coisas que elas queriam falar e mulheres que falam sobre erotismo, amor, desejo.
A gente já leu Hilda Hilst, a gente já leu Anne Carson, a gente acabou de ler Mary Jones, a gente já leu Mary Gaskell que tem mau comportamento, que também é um livro super impactante nesse sentido. E, enfim, são as mulheres que me inspiram e agora a gente vai ler Fernanda Young também. Então, eu gosto de dizer que a gente lê mulheres que tão falando sobre o amor e sobre o desejo delas, sem pedir muita desculpa por isso.
O merch virou quase um símbolo do clube nas redes. Você imaginava que teria essa repercussão?

Eu nunca imaginei que ia ter a repercussão que teve. Acho que todas as coisas que eu faço são um pouco nesse lugar do instinto, de ‘vou fazer, vou me divertir com isso’, é um jeito que eu tento levar minha vida e meu trabalho – e que eu acho que é bem político quando você é uma mulher, você fazer as coisas sem pensar muito no sentido de botar um milhão de barreiras em você e se divertir.
E eu nunca imaginei que [as camisetas] iam ter a repercussão que tiveram, que iam chegar em mulheres que eu admiro, pessoas que eu admiro que conheceram a camiseta, que postaram a camiseta e para mim ainda é muito mágico toda vez que eu vejo alguém usando a camiseta e uma uma menina compra e ela se sente super inteligente e gata – ela se sente intelectual, mas ela se sente uma gostosa, porque eu acho que isso é tão importante e uma coisa não deveria anular a outra, na verdade, deveriam estar andando juntas.
Como foi levar os encontros para o espaço da CRN 932? O ambiente influencia a experiência?

Tem sido muito mágico poder fazer o clube no CRN, porque, eu e a Lua, que está junto comigo no clube, a gente gosta muito de bar, a gente gosta muito de ir tomar um drink, um vinho. E o clube foi indo um pouco para esse lugar intimista também e de ser divertido, porque eu acho que quando você tá num lugar legal, num ambiente como um bar, você tira um pouco a intimidação que dá de estar num ambiente intelectual, de que você vai ter trocas literárias e parece extremamente sério – e óbvio que tem esse ambiente e que tem que ser sério e eu respeito muito isso, sou uma grande viciada em ir em rodas de conversa, e literatura e afins – mas eu acho que a coisa mais linda para mim de estar em um bar é ver as meninas sentadas na mesa, todas juntas, e de repente elas se tornam grandes amigas que estão sentadas numa mesa horizontal e elas estão todas conversando e falando sobre a literatura com a luzinha baixa.
A gente fez um drink agora, a gente vai fazer uma carta de drinks no CRN inspirado nas autoras e no que a gente tiver lendo, porque isso cria também toda uma experiência de você trocar um drink com alguém e aí você paquera, teve date que já saiu do do Great Books entre mulheres ou vira de repente uma amiga e outros grupos se formam.
Ser em um bar tira esse lugar intimidador da coisa, da troca intelectual e literária. E você acaba fazendo grandes amigas ali, você se conecta, é quase um night out, sabe? A gente até brinca no grupo que é o nosso grande date do mês, se arrumar, as meninas mandam: ‘Ai, comprei saltinho’, ‘Comprei uma lingerie’, elas se arrumam para aquilo e isso para mim é a coisa mais especial do mundo.
Quais outras mulheres (escritoras, artistas, diretoras, fotógrafas) mais influenciam sua visão criativa?
As mulheres influenciam o meu trabalho 100%, sempre influenciaram, começando pela minha família, porque eu fui criada por mulheres que eu digo que são extremamente fortes e sensuais, e extremamente sensuais num amor pela vida, num tesão pela vida. Minha avó é uma das mulheres mais apaixonadas que eu conheço, e acho que isso foi muito carregado para mim nas outras referências que eu busquei. Eu acho que eu sempre busquei num lugar de mulheres que não pedem desculpa, como eu falei dos livros. Então eu posso falar muito da Nan Goldin, que é a minha grande referência fotográfica, que é uma fotógrafa maravilhosa e que retratou a intimidade. Para mim, o que ela faz na fotografia é muito do que eu acredito, porque não era sobre técnica, mas sobre o olhar e o cuidado que ela tinha com as pessoas que ela estava retratando. Isso, para mim, é a coisa mais importante do mundo.
Posso falar sobre a Hilda Hilst, que para mim é uma das minhas escritoras favoritas e que ama muito as palavras, e que fala sobre o desejo tão abertamente, e que foi tão criticada por falar sobre o desejo abertamente, por ser uma mulher que escrevia sobre sexualidade, e que me inspira absurdamente. A gente tem a Isabella Burley, que é a dona da Climax Books, em Nova York.
A Isabella é uma grande inspiração para mim e para o Great Books na forma como ela conduz a livraria, na forma como ela criou uma livraria para garotas, quase num lugar de ser jovem, ser cool, ser dentro do tempo dela, e criar um merch, e fazer com que as pessoas desejassem aquilo, e que fosse esse ambiente que vai muito além dos livros e que, por ser muito além dos livros, acaba sendo muito sobre os livros. Porque, enfim, vira esse lugar para o qual as pessoas querem ir, e elas acabam descobrindo livros maravilhosos e tendo trocas literárias maravilhosas.
Acho que todas as autoras do Great Books em si, que posso citar, foram muito importantes para mim, para a minha formação, e são. Eu vou integrando uma coisa na outra e construindo uma coisa na outra e ligando. Então, a gente pode falar tanto, como eu falei, da Hilda Hilst, que é muito importante para mim numa consolidação de mulher que deseja e que não tem medo de falar sobre os desejos, quanto também da Fernanda Young, que para mim é uma mulher que é isso, que não tinha medo de falar e que não tinha medo de ser, em algum lugar, malvista, sabe? E que era divertida.
Eu amo mulheres divertidas. “Saia Justa”, a primeira temporada, é meu grande mantra, talvez, que tem ela e a Rita Lee conversando e não se desculpando pelas coisas que estão falando, e sendo tão sinceras e tão sem medo de um cancelamento, em algum lugar assim, muito honestas e muito abertas sobre seus desejos, sobre seus erros e sobre quem elas são.
Acho que são mulheres que me influenciam absurdamente, que eu posso pensar no meu processo. Outra mulher pela qual eu sou completamente afeccionada, tenho vários livros dela e vários livros de trabalho dela, é a Sophie Calle, que é uma artista visual francesa. Porque eu acho que, para mim, o que a Sophie Calle faz é tornar a vida dela interessante. Talvez a vida dela seja uma grande performance e um trabalho de arte dela, e eu acho que é um pouco como eu tento levar a minha vida, o meu trabalho e tudo que eu faço: um grande lugar de tornar interessante para mim mesma e divertido para mim mesma. Porque, no fim do dia, eu também sou uma garota de 25 anos que quer se divertir e querer coisas para que outras mulheres se divirtam.
Existe algo politicamente potente em mulheres se reunirem para discutir livros escritos por mulheres?
Eu acho que é extremamente político mulheres se reunirem e ponto. Mulheres juntas numa mesa, mulheres conversando é político por si só. Quando a gente se reúne para comentar sobre livros ou falar sobre literatura com outras mulheres e uma literatura feita por outras mulheres, não tem como ficar mais político do que isso. É, inclusive, algo que a gente a gente faz e às vezes nem se dá conta de como é político quando a gente tá ali juntas, conversando, e como é transformador, eu falo até para mim, eu virei outra pessoa, talvez, até com um pouquinho mais de raiva – uma feminista mais raivosa, como diria a Agnès Varda – mas eu acho que é extremamente político e a gente se preocupa muito para que seja.
A gente abriu agora o Great and Black que é o clube de Autoras Negras da Great Books com a Emira Sophia, que é maravilhosa e uma grande amiga. A gente tem encontros híbridos para que a gente também leia mais mulheres negras no clube e a gente também tem esse clube que é só para mulheres negras mediado pela Emira para que elas tenham esse espaço de leitura.
E e eu falo que é tão político porque ser um clube lendo muito sobre o erótico, o desejo, a violência – porque a gente a gente tem muitos livros que acabam falando de violência também – sentadas juntas como mulheres para ler, é extremamente político porque a gente já teve relatos de mulheres falando: ‘Ah, eu li esse livro e aí eu vinha para cá e aí eu repensei meu casamento’ ou ‘Cara, eu não tinha tido um orgasmo, mas aí eu ouvi essas meninas falando sobre isso e eu estou repensando o sexo desse jeito para mim’. Ou uma mulher confessar uma violência que ela tava sofrendo e outras mulheres falarem: ‘Cara, eu passei por isso’. E aí a gente se acolher e, enfim, chorar juntas e vibrar juntas uma pela outra e dar força uma para outra como comunidade. E não tem nada mais político do que comunidade.
Você acha que a leitura voltou a ser cool?
A leitura nunca parou de ser cool para mim, ela sempre foi muito cool, ela sempre foi para mim o maior luxo do mundo. Eu lembro de eu criança na Bienal e eu queria comprar todos os livros e ter livros para mim sempre me parece um luxo e uma coisa muito legal. A gente está tendo um boom de uma leitura que está saindo de uma concentração de uma elite cultural – e óbvio que a gente pode chegar em todos os papos sobre performance e afins – mas eu acho que a gente tá popularizando algumas coisas com alguns movimentos de clube do livro. E eu fico muito feliz com isso, porque eu acho que tem que ser acessível e tem que ser para o máximo de pessoas possíveis as discussões literárias e intelectuais.
Então, eu fico muito feliz que a gente esteja nesse movimento de achar que a leitura é cool, eu não sou oposta a isso, eu sei que muita gente é, temos muitas críticas boas sobre performance de intelectualidade, mas eu acho que performance ou não, se você vai fazer pessoas chegarem aos livros e chegarem para ter trocas com outras pessoas e chegarem principalmente mulheres para trocar uma com a outra, eu acho a coisa mais linda, especial do mundo e a gente deveria estar celebrando que tá todo mundo achando leitura cool.
O que você gostaria que as pessoas sentissem quando saem de um encontro do clube?
A coisa que eu queria muito que as pessoas sentissem quando elas saíssem de um encontro do clube – por isso que eu prezo muito que os encontros sejam presenciais – é que elas sintam que saíram de um grande momento de drinques com amigas e que elas falaram sobre a vida, choraram, se emocionaram, riram, principalmente, e elas tiveram uma noite muito gostosa, um momento muito gostoso e que aquilo vai ficar com elas, porque elas vão levar aquilo para o resto da semana e talvez até para o próximo mês
Eu quero que elas se sintam num lugar de muita vulnerabilidade, que elas possam se sentir muito bem, como elas tivessem acabado de ter um jantar com as amigas delas e elas saiam extasiadas dali.
Qual livro escrito por uma mulher você acha que toda garota criativa deveria ler pelo menos uma vez?
Inclusive, trazendo mais mulheres artistas que são muito importantes para mim: a Annie Ernaux, que a gente já leu no clube e que eu amo de paixão. É isso, outra mulher que não pede desculpa, que quer e faz, e que me inspira muito criativamente. E também a Lena Dunham, que acabou de lançar “Fame Sick”, e que é isso, essa mulher que vai, faz, fala e se permite errar.
É muito difícil dizer um livro que talvez toda menina criativa deveria ler, mas eu diria que tem dois livros que eu gosto muito. Um deles é “Pão dos Anjos”, da Patti Smith. Na verdade, eu indicaria qualquer livro da Patti Smith, porque eu acho que ela é talvez uma das maiores artistas que a gente tem. A forma como ela lida com a vida vem de um lugar de encantamento, de não perder a criança interior, esse lugar de brincar, experimentar as coisas e estar sempre extremamente emocionada pela vida.
Talvez isso seja algo que garotas criativas, pela dureza do mundo e da gente ser mulher, vão perdendo. E é muito bom ler Patti Smith por causa disso. “Pão dos Anjos”, que é o mais recente que saiu, é maravilhoso porque, para mim, ela sempre resgata um emocionamento pela vida que eu acho muito importante para a gente criar e fazer as coisas em que acredita.
E também “Um Quarto Todo Seu”, da Virginia Woolf. Esse livro é uma Bíblia para mim, política em todos os sentidos para as mulheres, porque ele fala sobre como, para a gente criar, precisa existir segurança e estabilidade financeira, e como isso é importante. Quando a gente é mulher criativa, também é muito político, e a gente precisa falar sobre dinheiro, sobre construir ambientes confortáveis e estar em lugares confortáveis e seguros para conseguir criar e fazer as coisas.