Gordofobia, Etarismo e Sexualização: ainda olhamos o corpo assim
Gordofobia, Etarismo e Sexualização: ainda olhamos o corpo assim
O Met Gala 2026 trouxe uma difícil constatação: ainda não aprendemos a olhar para o corpo de um outro jeito que não seja o sexualizado, o gordofóbico e o etarista. Ao refletir sobre a dinâmica de interpretação e de destaque dos looks do tapete vermelho do evento, me deparei com uma declaração do curador da exposição Costume Art (que acompanha o evento), que ajuda a explicar o porquê desse comportamento. Andrew Bolton primeiro faz uma distinção entre estar pelado (“naked” em inglês) e nu (“nude”). Ele ressalta que, enquanto estar pelado evoca vulnerabilidade, a nudez se apresenta como uma construção, uma mediação. “O corpo nu nunca está nu de fato: ele sempre está vestido da cultura de uma determinada época”, completa.
A partir dessa ideia de Bolton, voltamos ao Met Gala. Apesar de ter havido alguma diversidade de corpos, de raça e de idades no red carpet, as imagens destacadas são as do corpo jovem, magro e quase sempre sensualizado. Porque a nudez, e consequentemente o corpo, na nossa cultura atual, estão impregnados desses valores. São esses atributos que, ainda hoje, formam, para citar um termo derivado do pensamento do sociólogo francês Pierre Bourdieu, o “capital corporal” das mulheres na sociedade. E é verdade que os homens também são valorizados (ou desvalorizados) na sociedade segundo sua aparência, desde inclusive os tempos de Bourdieu, nos anos 1960. Mas as mulheres, por historicamente terem seu principal valor atribuído à beleza e à juventude, são as mais julgadas e as que mais perdem quando não correspondem aos padrões estéticos (não à toa, o capital corporal vem de um desdobramento das teorias de Pierre Bourdieu sobre capital simbólico e distinção social).
Assim, o evento do Met Gala mira em arte e nossa reação revela uma lógica de hierarquia dos corpos que imaginávamos mais superada (não?). Isso não vem apenas de quem observa. Muitas dessas imagens também são construídas dentro desse repertório. E isso não é uma questão de uma escolha individual: é um código visual que a sociedade reconhece e reproduz.
A exposição, por outro lado, traz uma oportunidade de refletir com mais profundidade sobre essa relação do corpo, da arte e da moda ao longo da história. De um lado, ela traz o corpo representado na arte; de outro, o papel dele na moda. No segundo caso, essa relação nunca é neutra, como uma tela em branco a ser pintada. Afinal, o corpo interage com a roupa e muda não só sua “arte” (sua forma) como sua mensagem.
Se em uma parte da mostra, chamada Corpo Abstrato, vemos como a moda foi usada para submeter o corpo feminino a um padrão que o deformava e o distorcia, em outra, , chamada Reclaimed Body, ou Corpo Reivindicado, são principalmente estilistas mulheres que usam a moda pra desafiar essas convenções e propor outros olhares, incluindo corpos que historicamente ficaram de fora de um padrão que gera o tal capital corporal: o corpo grávido, o corpo corpulento ou gordo e o corpo com deficiência. Aqui, nomes como Rei Kawakubo e Michaela Stark, entre outras, entram em ação.
Entre a arte no museu e os looks no red carpet, percebemos que, mesmo com avanços na diversidade de corpos nos últimos anos (e alguns retrocessos também, vide a volta da magreza na moda), o nosso olhar ainda responde a uma educação muito específica. Se olharmos o percurso da história, porém, quero acreditar que estamos evoluindo.
Quanto a gente ainda vai demorar para conseguir olhar para o corpo de outro jeito?