Da moda à música, a direção intimista de Olívia Mucida
Diretora de filmes para marcas como Misci e Boticário, clipes de Giulia Be e projetos editoriais, a criativa imprime uma estética afetiva e contemporânea em seus trabalhos.
Da moda à música, a direção intimista de Olívia Mucida
Diretora de filmes para marcas como Misci e Boticário, clipes de Giulia Be e projetos editoriais, a criativa imprime uma estética afetiva e contemporânea em seus trabalhos.
Jovem nome criativo na direção audiovisual, Olívia Mucida tem transitado entre moda, beleza e música, em trabalhos que vão de filmes publicitários para marcas de moda como Misci e Haight, passando por comerciais para Havaianas e Boticário até o videoclipe da cantora Giulia Be.
Criada em um sítio no interior de Minas Gerais, onde começou a escrever roteiros e filmar com os primos usando uma câmera digital, Olívia Mucida transformou um repertório íntimo – feito de locadoras de filme, capas de CD observadas antes mesmo de serem ouvidas e um olhar atento às emoções – na base de uma direção hoje reconhecida pelo olhar íntimo e afetivo, quase palpável.
Formada em Publicidade pela PUC Minas e atualmente baseada em São Paulo, a diretora transita entre moda, música e beleza com uma assinatura que mantém coerência mesmo em diferentes formatos, de videoclipes a campanhas globais, sempre partindo de uma mesma lógica: imagem como experiência sensorial, pensada nos detalhes.
Nossa repórter de moda e cultura Laura Budin conversou com Olívia sobre as origens desse olhar, o processo por trás de trabalhos recentes e o que ainda move sua pesquisa.
Confira a entrevista completa abaixo:
Quando você entendeu que queria trabalhar com imagem e direção? Teve algum momento-chave?
As primeiras memórias que eu tenho sobre construção de imagem, mesmo sem saber na época o que isso significava, vêm da minha infância e adolescência. Morei em um sítio até os 16 anos, o que me levou a criar com o que tinha ao meu redor, muito conectada à natureza. Desde nova, escrevia roteiros com meus primos e a gente apresentava para a família, levávamos tudo muito a sério.
Quando surgiram as câmeras digitais, foi uma revolução. Tudo chegava com atraso no interior, mas quando conseguimos uma Olympus, começamos a filmar nossas próprias histórias, criando pequenos filmes e videoclipes com direito a efeitos especiais. No início, tudo era em plano sequência, e depois, quando tive acesso a programas de edição, passamos a construir cena a cena.
Um dos presentes preferidos do meu pai para mim e minha irmã eram CDs. Tenho uma memória muito viva de abrir os discos e passar horas olhando as capas antes mesmo de ouvir. Eu ficava imaginando como aquelas imagens eram feitas.
Naquela época, meus pais tinham uma locadora de filmes, então cresci rebobinando fitas e assistindo aos mesmos filmes inúmeras vezes. Sempre fui muito atenta aos detalhes, às falas, às emoções. Isso continua comigo até hoje. As narrativas que mais me marcavam eram as que despertavam emoção intensa, e percebo que é isso que busco no meu trabalho. Meus gêneros preferidos eram terror e drama, e assisti incontáveis vezes filmes como Efeito Borboleta, O Massacre da Serra Elétrica e Psicose ainda muito nova. Além de assistir, eu também recriava cenas com meus primos.
Na adolescência, achei que faria moda, até entender que não era exatamente o que eu buscava. Mesmo assim, acompanhava os desfiles de Paris pela internet discada, depois da meia-noite. Era um sonho distante para quem vivia no interior de Minas. Hoje, já ter frequentado desfiles de marcas como Dior, Balenciaga e Rabanne através do meu trabalho, emociona muito a minha versão de 14 anos.
Quando fui pesquisar cursos, escolhi Publicidade porque ali eu poderia unir moda e cinema. Meus pais nunca tiveram contato com esse meio, mas sempre me incentivaram a seguir meu coração. Mais do que apoio financeiro, que existiu nos primeiros 2 anos de faculdade, eles sonharam comigo. Isso fez tudo parecer possível.
Como você definiria sua estética hoje? Existe algo que precisa estar presente em todos os seus projetos, mesmo que o público não perceba diretamente?
Eu definiria minha estética hoje como sensorial, contemporânea e cinematográfica, uma mistura de emoção, moda, beleza e narrativa visual. Gosto de trabalhar com imagens que parecem ter vida própria, onde cada detalhe – luz, textura, movimento, silêncio – carrega um significado dentro da narrativa.
Algo que precisa estar presente em todos os meus projetos, mesmo que de forma invisível, é a intenção emocional e a sinestesia. Eu busco não só criar uma imagem, mas ativar outros sentidos, como se quem vê pudesse sentir o cheiro, a textura, a temperatura. Como se a imagem atravessasse o olhar e chegasse no corpo. Para mim, essa é uma das formas mais profundas de conexão.
Além disso, a estética precisa ter coerência com identidade: tudo tem que parecer parte do mesmo universo, mesmo quando os projetos são diferentes. E quando é possível também gosto de explorar a criação de outros universos dentro do meu trabalho — construir realidades paralelas, onde referências surrealistas fazem parte da pesquisa e ajudam a expandir os limites do que uma imagem pode ser.
No fundo, meu trabalho é mais sobre atmosfera. Seja no autoral ou no comercial, busco acessar camadas inesperadas de quem vê e provocar uma experiência sensível que permanece mesmo depois da imagem desaparecer.
Existe diferença no seu approach entre um fashion film, um videoclipe e uma campanha?
Existe uma diferença de linguagem e formato, mas o meu ponto de partida é sempre o mesmo.
Levo para todos os projetos a mesma sensibilidade e o mesmo cuidado em cada etapa, do roteiro à imagem final. Independentemente do formato, busco construir narrativas com intenção, onde estética e emoção caminham juntas. Meu olhar não se divide entre autoral e comercial, ele se adapta, mas mantém a mesma essência.
No fashion film, gosto de trabalhar a imagem de forma mais livre e provocativa, explorando construções visuais contemporâneas, tensionando códigos da moda e misturando referências. É um espaço onde posso experimentar mais e criar imagens que causem estranhamento e tenham força estética.
No videoclipe, minha abordagem se aproxima mais do universo íntimo do artista e da atmosfera que a música desperta. Busco criar uma relação orgânica entre som e imagem, com uma pesquisa profundamente conectada às emoções, referências e decisões que constroem o álbum.
Na campanha, existe um direcionamento mais claro em relação à mensagem e à identidade da marca, além da presença do produto como protagonista. Eu enxergo isso como uma oportunidade de construir narrativas onde esse destaque aconteça de forma orgânica, sem abrir mão de camadas e sensibilidade.
Em todos os formatos, o que me guia é a atenção aos detalhes e a construção de um universo consistente. Penso na luz, na textura, no ritmo e trato cada projeto como um mundo próprio.
No fim, meu objetivo é manter uma coerência estética e emocional que atravesse diferentes linguagens, criando trabalhos que carregam uma assinatura clara — transitando entre o artístico e o publicitário sem perder profundidade, sensibilidade e intenção.
Como foi dirigir projetos com artistas como Giulia Be e Céu, onde a música já carrega uma identidade tão forte?
Ambas as experiências foram muito enriquecedoras e especiais. São artistas que eu admiro profundamente, e foi uma honra construir imagens para universos tão potentes. Cada projeto trouxe seus próprios desafios, intenções e formas de criação.
Com a Giu, foi muito marcante poder dar vida a músicas que ela escreveu ao longo de mais de 10 anos, dentro de um projeto extremamente grandioso. Foi um trabalho contratado e aprovado pela Sony Latin Music, com um time baseado em Miami, e foi um prazer recebê-los no Brasil para as filmagens. Em dois meses, reunimos uma equipe incrível e estruturamos todo o projeto. Foram 21 videoclipes filmados em cinco diárias, em um processo intenso de construção e precisão. Cada detalhe foi pensado de forma muito cuidadosa para que tudo funcionasse dentro de um tempo tão desafiador. Teve dia em que filmamos seis clipes. Mergulhei profundamente no universo dela para traduzir, em imagem, o que cada música carregava. É um projeto trilíngue, com sete músicas em espanhol, sete em inglês e sete em português, e os lançamentos vêm acontecendo de forma gradual desde outubro do ano passado. Ainda tem muita coisa linda por vir.
Com a Céu, o processo foi diferente. Desenvolvi o projeto como uma espécie de trailer para o relançamento do vinil de um álbum clássico e premiado de 20 anos atrás, que marcou a música brasileira. A criação começou a partir do som. O disco tem uma forte presença de sample, delay e referências ao reggae, e isso me levou a construir um rascunho sonoro antes mesmo de pensar em imagem. Queria entender, primeiro, a atmosfera dessa São Paulo que existe no imaginário dela. A partir disso, surgiu a ideia de olhar a cidade por um outro ângulo, quase invertido, revelando uma cidade quente, pulsante e sensorial. Relacionei esse conceito com os lados do vinil, como se cada faixa fosse uma tradução da forma como ela percebe a cidade. O desfecho nasce como um encontro entre tempos, uma espécie de homenagem da Céu de hoje à Céu de 20 anos atrás.
Meu caminho no audiovisual começou pelo fashion, mas para mim moda e música sempre estiveram profundamente conectadas. Inclusive, meu interesse por moda nasceu a partir dos videoclipes e da cena musical, tanto brasileira quanto internacional, então poder transitar entre esses dois universos hoje faz muito sentido dentro da minha trajetória. Por meu pai trabalhar com música eu cresci rodeada dos vinis e discos que hoje herdei. Agora, no atual momento da minha carreira, tenho muita intenção de adentrar-me cada vez mais no universo da música.
Você também vem explorando campanhas globais, como Havaianas e o projeto trilíngue da Giulia através da Sony Music Latin. O que muda quando o projeto ganha essa escala?
Alem da escala das responsabilidades o que muda também são os direcionamentos e aprovações que geralmente vem do time internacional. Considero muito valioso trabalhar com times multiculturais. Alem da relevância que o projeto alcança, tenho a possibilidade de ouvir e trocar com pessoas que vivem em outras culturas e que tem outros pontos de vista muitas vezes diferentes do meu. Acho isso especialmente precioso. E na parte prática as reuniões e apresentações são feitas em inglês e geralmente passa por mais etapas de aprovação e avaliação de qualidade de forma mais minuciosa. Quero poder cada vez mais levar meu olhar a nível global.
Você sente que existe um “olhar brasileiro” no seu trabalho?
Com toda certeza. Por mais que eu tenha uma bagagem e uma pesquisa ampla também conectadas ao universo internacional, especialmente dentro da moda, a minha base é profundamente brasileira. Eu sou uma mineira criada em um sítio no interior de Minas Gerais, por um pai artista que trabalhava com música e uma mãe assistente social. Eles me ensinaram, desde muito cedo, a valorizar a cultura brasileira de forma viva e prática. Eles foram minhas primeiras grandes referências.
Minha mãe, dentro da sua profissão, sempre fez questão de me levar, junto com a minha irmã, para conhecer de perto diferentes realidades e contextos de vida. Isso me deu, desde muito nova, uma percepção profunda das desigualdades do nosso país e me fez atuar como voluntária em projetos sociais. Esse olhar segue muito presente em quem eu sou hoje. Inclusive, essa influência foi tão forte dentro da nossa família que minha irmã fundou uma ONG que atua na periferia de São Paulo.
Meu pai foi DJ nos anos 70 e depois criou uma empresa de som para eventos, promovendo grande parte da cena cultural da região onde vivíamos. Ele era extremamente criativo e, junto com a minha mãe, sempre encontraram formas de fazer muito com pouco. Eles organizavam eventos, muitos deles beneficentes, e ali existia uma potência muito grande: de encontro, de invenção, de improviso, de sensibilidade coletiva. Eu cresci vendo isso acontecer e fazendo parte disso ativamente.
Até hoje me surpreendo com o quanto do meu pai existe em mim. Recentemente, encontrei registros dos moodboards que ele criava para festas temáticas que produzia — grandes painéis feitos com recortes de revistas de moda, capas de discos, colagens. Aquilo me atravessou de um jeito muito forte, porque reconheci ali, quase intuitivamente, um gesto que também faz parte do meu processo hoje. Mesmo sem uma referência direta, é como se essa linguagem já existe em mim.
Ele já não está mais aqui, mas sinto que criar é também uma forma de continuar essa história. De alguma maneira, o que eu faço carrega a presença dele — como uma extensão, uma continuidade sensível. Isso tem muita força para mim.
O olhar brasileiro, então, não é algo que está necessariamente fora, é algo que faz parte do meu repertório emocional, cultural e estético. Está na forma como eu construo imagens, na maneira como eu me sinto, nas camadas de afeto, na intensidade e na profundidade com que busco me conectar com o que estou criando.
O que te inspira fora do audiovisual?
A pintura teve um papel muito importante na minha formação. Pintei dos 8 aos 15 anos, e isso me trouxe uma base forte de cor e composição. Foi ali que comecei a construir uma personalidade visual de maneira orgânica e intuitiva. Hoje, visitar museus e galerias é essencial para mim. Sinto na pintura, tanto o ato de apreciar quanto também o de pintar, uma grande inspiração para minhas criações no audiovisual. Acho muito precioso o quanto a arte tem essa capacidade de atravessar universos que em teoria são completamente diferentes, mas no final são uma extensão um do outro.
As relações humanas também são uma grande fonte de inspiração, sejam elas vividas por mim ou observadas no cotidiano. Me interessa muito o comportamento, os afetos, as tensões, os conflitos — tudo aquilo que não é dito de forma explícita, mas que carrega muita verdade.
E, para mim, desenvolver uma carreira vai muito além de repertório técnico ou artístico — no fim, é sobre relações, troca e construção ao longo do tempo. Isso também me inspira. É estar em movimento, lidar com recusas, com portas que se fecham, e ainda assim continuar. É sustentar uma visão, mesmo quando ela ainda não é totalmente compreendida. Existe algo de muito íntimo nesse processo, uma espécie de convicção sobre o que eu quero colocar no mundo e sobre como quero tocar as pessoas. As referências visuais, as experiências, os encontros e os desafios, se misturam e alimentam o meu trabalho. É desse lugar que surgem as ideias: de uma escuta atenta, de uma curiosidade constante e de um desejo de transformar sensações em imagem.
Além de tudo que já me atravessa artisticamente, uma das maiores fontes de inspiração tambem na minha vida hoje vem dos meus retiros espirituais e dos meus estudos no tantra. É algo que se tornou prioridade para mim, porque me coloca em um lugar de conexão muito profunda comigo mesma.
A gente vive em uma era em que estamos cronicamente online, expostos a um excesso constante de referências, estímulos e informações externas. E, para mim, buscar esse espaço interno de silêncio e escuta é essencial. É nesse lugar que consigo me reconectar com a minha própria percepção, com o meu corpo e com a minha intuição.
Sinto que é daí que nasce uma originalidade mais verdadeira. Quando você acessa um repertório interno, que é só seu, você começa a criar a partir de um lugar que não pode ser replicado. E isso, para mim, é muito potente, porque abre espaço para ideias e sensações que ainda não existem fora, mas que podem ganhar forma através do meu trabalho.
O que você ainda quer explorar que ainda não conseguiu colocar em prática?
Sinto que, em cada área em que atuo, existe um desejo diferente que ainda quero explorar mais profundamente.
No fashion, tenho muita vontade de expandir para campanhas globais e expandir meu trabalho dentro das revistas, que é um espaço onde sinto que posso ousar, experimentar e criar com profissionais que eu admiro.
No mercado da música, quero me aproximar de mais artistas e produzir mais projetos ao longo deste ano. É uma área que me instiga muito e onde sinto que ainda tenho muito para explorar.
Já na parte de narrativa, estou vivendo um momento especial: vou lançar meu primeiro curta-metragem em breve. Filmei em outubro do ano passado, em Paris, e ele ficou pronto essa semana — estou muito animada com esse processo e com tudo que ele representa para mim. Esse projeto abriu ainda mais meu desejo de me aprofundar no universo do cinema.
Paralelamente, estou escrevendo um outro curta há cerca de dois anos. Esse próximo é mais longo e mais profundo e tem como um dos assuntos o processo do luto. É um projeto muito íntimo, que exige um tempo diferente de maturação, mas uma das minhas grandes metas é conseguir finalizá-lo e filmar ainda este ano. Vamos ver.