Katy da Voz e as Abusadas: Muito além do meme, nada é mais punk do que ser Travesti
Trio do Grajaú reflete sobre humor, viralização, música e como a vivência travesti atravessa sua arte, estética e performances.
Katy da Voz e as Abusadas: Muito além do meme, nada é mais punk do que ser Travesti
Trio do Grajaú reflete sobre humor, viralização, música e como a vivência travesti atravessa sua arte, estética e performances.
Nesta semana, o FFW Sounds destaca Katy da Voz e as Abusadas, trio formado por Katy da Voz, Palladino Proibida e Degoncé Rabetão, artistas do Grajaú, na zona sul de #SãoPaulo, que transformaram humor, deboche e performance em uma linguagem própria.
Conhecidas por seus virais, memes e performances intensas, as três construíram uma trajetória que vai muito além da internet. Entre o funk, o eletrônico, o pop, o rock e o camp, o grupo desenvolveu uma identidade artística marcada por direção visual apurada, estética maximalista e letras que misturam ironia, provocação e vivências travestis.
Em entrevista ao produtor de conteúdo Guilherme Rocha, Katy e Palladino falaram sobre o surgimento do grupo, processo criativo, referências musicais e visuais, o impacto dos memes na carreira e a nova mixtape, “Sandra Eletrônica”.
QUEM SÃO KATY DA VOZ E AS ABUSADAS?
Criado por Katy da Voz, nome artístico de Lua Silva, o grupo surgiu no Grajaú, na zona sul de São Paulo, a partir da amizade de infância entre Katy, Palladino Proibida e Degoncé Rabetão. Filha de músico, Katy teve contato com a arte desde criança, acompanhando ensaios e shows do pai, e passou a sonhar com a música ainda na pré-adolescência. Após iniciar sua carreira solo em 2016, a artista convidou as amigas para transformar a química entre as três em um projeto coletivo, dando origem ao trio que hoje mistura música, performance e humor em uma linguagem própria.
UMA MÚSICA PARA COMEÇAR: “GORDINHA MAS TÁ BOM”
Com participação da Clementaum e da Flávia Verso a faixa ajuda a entender a essência do grupo, que é a capacidade de transformar humor em algo que vai além da piada.
Na faixa, o trio equilibra deboche, carisma e ironia em uma música que viralizou justamente por abrir espaço para múltiplas leituras, da brincadeira à autoestima. Como observou Flavia Verso ao comentar o fenômeno da música, diferentes pessoas parecem se reconhecer nela de maneiras muito próprias.
“SANDRA ELETRÔNICA”: MÚSICA ELETRÔNICA, CULTURA DE PISTA E REFERÊNCIAS DA QUEBRADA
As meninas mergulham de vez na música eletrônica, mas do jeito delas: com caos, deboche e zero interesse em fazer tudo “certinho”. Ao longo da mixtape, elementos de techno, funk e club music se misturam a referências que vão de Carnaval Eletrônico, de Daniela Mercury, à cultura pop e às memórias afetivas da periferia paulistana. Essa combinação também aparece no visual do projeto, que transforma elementos cotidianos da quebrada, como o icônico Dolly, em peças centrais de sua narrativa estética.
MUITO ALÉM DO MEME
Para muita gente, o primeiro contato com Katy da Voz e as Abusadas veio pelos memes e vídeos virais que circularam nas redes. Faixas como “Gordinha Mas Tá Bom” ajudaram a ampliar esse alcance de forma orgânica, a ponto de até Virginia Fonseca compartilhar o trabalho do trio. Como lembra Palladino, a música carregava “várias mensagens dentro de um meme só”. Mas, se o viral abriu portas, também trouxe um desafio. “As pessoas têm a imagem da Katy da Voz e as Abusadas como meme, sendo que temos uma discografia, temos um show, temos um repertório”, reflete Katy. Por trás do humor, do deboche e das performances intensas, existe um trabalho artístico marcado por direção visual, pesquisa estética e uma linguagem própria.
SER TRAVESTI É UM ATO POLÍTICO
“Não existe nada mais punk do que ser travesti” é uma frase que ajuda a entender uma das camadas mais potentes de Katy da Voz e as Abusadas. Para o trio, a dimensão política do trabalho não está apenas nas letras ou nos discursos, mas no próprio ato de existir, ocupar espaço e ser vista. Em um cenário que ainda marginaliza corpos trans e travestis, subir ao palco, performar e construir uma carreira artística também se torna uma forma de resistência. Essa vivência atravessa toda a identidade do grupo, da música ao humor, da estética ao deboche, transformando experiências muitas vezes duras em potência criativa, conexão e liberdade.
A seguir, leia a conversa de Katy e Palladino com o produtor de conteúdo de moda e cultura, Guilherme Rocha da FFW.
Como vocês se conheceram? O que aproximou vocês naquele momento?
Katy: “Eu conheci as meninas desde criança. Primeiro conheci a Degoncé, quando tinha 8 anos de idade, e aí quando completei 11, para 12, conheci a Palladino, que a gente tinha a mesma idade, e, desde sempre, a gente se fortaleceu, desde criança. Então, vi elas crianças, pré-adolescentes, adolescentes e agora adultas, sempre estivemos juntas, com muitos altos e baixos, toda aquela coisa de adolescente – e hoje, adultas, nos orgulhamos muito do que nossa amizade construiu”.
Em que contexto nasceu Katy da Voz e as Abusadas? Houve um momento específico em que vocês pensaram: “isso precisa virar um grupo”?
Katy: “Então, eu já tinha minha carreira solo como Katy da Voz, iniciei em 2016, e daí em diante, lancei músicas, feats, inclusive estou no primeiro EP da Kaya Conky, “Sarrada” o nome da nossa música, então, já desde muito cedo já estava trabalhando como Katy da Voz, realizei alguns shows em São Paulo, Jundiaí, gravei dois clipes, dois ou três, e é isso. E eu acho que o momento certo foi quando veio aquela quebra, aquele bloqueio criativo, aquela coisa de ‘Meu Deus, preciso ir para frente, preciso mudar, preciso evoluir’, então tive a grande ideia de chamar essas duas meninas que eu já conhecia para montar esse grupo. No início, queria que fosse um grupo meio MC Loma e as Gêmeas Lacração, Linn da Quebrada e Jup do Bairro, que estavam no seu auge ali em 2017. Essas eram as referências que usei de base, para que fosse uma vocalista e as duas ali atrás”.
Antes do grupo existir oficialmente, vocês já imaginavam trabalhar juntas ou tudo aconteceu de forma mais espontânea?
Katy: “A Degoncé já chegou a dançar para mim na minha carreira solo. Ela chegou a dançar em uns dois, três shows que eu fiz sozinha como Katy da Voz, mas nunca era nada muito demais, né? Ela só dançava ali mesmo e ficava por isso. Mas, eu não nunca imaginei assim chegar nesse nível. Acho que nenhuma das três imaginamos que um dia iríamos fazer um grupo juntas. Quando eu as convidei, elas toparam na hora. Eu lembro que a Palladino falou que meio que já sabia que era isso que eu ia falar para elas, né? Eu falei: ‘Eu preciso falar com vocês’ e tal. Convidei elas para fazer esse grupo, elas toparam, mas, a gente começou assim meio desacreditadas, sabe? Teve muita, muita coisa, muita luta até chegar onde a gente chegou”.
Como surgiu o nome “Katy da Voz e as Abusadas”? Tem alguma história por trás?
Katy: “Eu já era Katy da Voz, já tinha minha carreira, meu trabalho, né? Então, eu só queria adicionar. Não queria que fosse o nome de um grupo sólido. Queria que tivesse uma coisa meio MC Loma e as Gêmeas Lacração, sabe? Por isso que surgiu o Katy da Voz e as Abusadas. As Abusadas veio do grupo Maíra e as Abusadas, que é um grupo de funk que existiu antigamente que a Degoncé ouvia bastante. Então, eu sempre gostei muito desse nome As Abusadas, né? Então, ficou por isso”.
No início, qual era a visão de vocês para o projeto? Ela mudou com o tempo?
Katy: “No início, sempre quis que fosse realmente essa coisa Linn da Quebrada e Jup do Bairro, né? Então, queria que a Palla ficasse ali como segunda voz, no microfone dela, eu ali tomando a frente do espetáculo e a Degoncé ali dançando, né? Queria um diferencial, eu queria a Degoncé dançando, uma doidinha dançando. Meio que que foi isso que que deu esse diferencial e até hoje as pessoas perguntam, né? A Degoncé não canta? E, não, ela não quer cantar, ela não gosta de cantar, o propósito dela não é esse no grupo. E o propósito sempre foi, de início, isso que somos hoje”.
O humor, a ironia e o deboche são marcas muito fortes de vocês. Quando entenderam que essa seria uma linguagem central do trabalho?
Katy: “Desde sempre, eu sempre quis que o humor fizesse parte. Porque o humor é uma coisa que faz muito parte da nossa amizade. A minha amizade com a Palladino, principalmente, sempre foi regada, recheada de humor, a gente sempre foi engraçada, sempre muito irônica. Então, nunca quis que não fosse isso, sabe? Sabia que as três juntas teriam muito carisma e muito humor. Eu queria que todo o diferencial do grupo fosse essa coisa mais caricata, né? Que não fosse realmente um grupo onde você já tinha visto antes. Eu queria que realmente o humor entrasse e penetrasse no grupo Katy da Voz e as Abusadas. Então, é por isso que no início a gente apelava um pouco mais para uma letra um pouco mais engraçada, apelava para uma performance um pouco mais engraçada. A gente ainda faz isso hoje, né? Mas um pouco mais sérias, porque a gente é toda adulta, né? Mas o humor sempre foi a graça da Katy da Voz e as Abusadas. Acho que se não fosse pelo humor, talvez não seria o mesmo grupo”.
Existe uma inteligência muito própria no exagero e no camp que vocês trazem. Quais referências, musicais, visuais ou culturais, ajudaram a construir isso?
Katy: “Eu acho que o mais legal disso tudo é que as três são totalmente diferentes uma das outras, né? Eu, por ser a pessoa central, por ser a pessoa que está de frente, acabo transmitindo o rock para o grupo todo. Para toda a performance, para toda a música e visual. Mas, a real verdade mesmo é que cada uma tem o seu estilo. Cada uma tem o seu gosto e cada uma tem um gosto muito diferente da outra. A Degoncé, por exemplo, ela gosta mais de um de um funk, furacão 2000, Beyoncé, Mariah Carey, Ludmila, Pagode, ela é totalmente diferente da Palladino, por exemplo, que já gosta mais de pop, Lady Gaga, Marina and the Diamonds, RBD, Shakira. A Palladino, ela é muito mais pop anos 2000, 2010. Eu gosto de pop também, eu escuto pop, mas eu gosto muito de rock, né? O rock, o metal sempre foi a frente para mim. Então, as minhas inspirações chaves são pessoas do rock. Aquela grandiosidade do rock dos anos 80, daquela coisa Joan Jett, Debbie Harry, David Bowie. Como sou a pessoa central do grupo, acabo transmitindo isso para o grupo todo, mas a verdade é que cada uma tem um gênero específico, cada uma tem um gênero que gosta mais, sabe? Então, isso acaba misturando bastante, porque cada uma tem o seu jeito diferente de performar, cada uma tem o seu jeito diferente de fazer uma foto, de gravar um vídeo, né? Cada uma tem a sua essência. Isso acaba ficando mais interessante”.
Em algum momento o meme ajuda a abrir portas, mas também pode reduzir o trabalho a uma piada. Vocês já sentiram isso?
Katy: “Com certeza, ao mesmo tempo que o meme colocou a gente para cima, ele trouxe também essas dificuldades das pessoas não levarem a gente tão a sério. Das pessoas terem a imagem da Katy da Voz e as Abusadas como meme, né? Sendo que temos uma discografia, temos um show, temos um repertório, temos aí músicas rodando. Então, eu acho que a real, é, que a gente tenta não focar muito nos memes. A gente acha muito legal quando viraliza. Adoramos, amamos, compartilhamos, achamos graça e damos risada, mas a gente tenta não focar muito nisso, porque a gente sabe que se ficar somente nisso, talvez o grupo fique um pouco de lado”.
Existe algo que as pessoas costumam assumir sobre vocês que está completamente errado?
Katy: “Sim, as pessoas acham que a gente sempre é essas doidas de shopping que fica gritando e batendo palma no cinema. Eu recebo muita mensagem do povo falando: ‘Me chama para ir no cinema com vocês’ e etc. Mas nem sempre é assim, né? Não é sempre que a gente tá fazendo graça, não é sempre que a gente tá gritando, não é sempre que a gente tá escandalizando, né? A gente também é uma pessoa normal e gostamos de coisas normais também. É muito diferente e estranho, porque, pelo menos eu, vejo a Katy da Voz, e vejo que eu sou muito diferente no palco, do que da minha vida pessoal, como Lua Silva. As meninas nem tanto, mas eu encaro esse personagem, porque eu preciso encarar esse personagem. As meninas são Palladino 24 Horas, Degoncé Rabetão 24 horas, não muda. Mas, eu sempre tenho que estar encarando esse personagem, isso é uma coisa que eu aprendi com o tempo, a separar as duas coisas. Então, as pessoas acham que eu, Lua Silva, sou a Katy da Voz, né? Que sou aquela pessoa raivosa, que sai xingando e que quer mostrar o espeto e que sai batendo palma. Mas, a verdade é que eu não sou assim, né? Fora dos palcos eu sou totalmente diferente”.
O que vocês sentiram falta de ouvir e decidiram criar dentro do próprio trabalho?
Katy: “Putaria. Putaria de verdade, né? Falar palavrão, do A ao Z. A gente não tem como negar. Eu senti antes de “Vai Tomar no Cu” que a gente tava só falando sobre sexo, sexo, sexo, sexo, sexo, sexo. E daí eu falei: ‘Poxa, por que não fazer uma música que só fale palavrão?’ E aí lançamos. E eu sinto que depois de ‘VTNC’, as pessoas perderam o medo de falar arrombado, desgraçada, filha da puta, vai tomar no cu, né? As pessoas perderam esse medo de falar isso nas músicas e é isso que eu estava sentindo falta. Então, eu sempre digo pras pessoas que existe um antes e o depois de ‘VTNC’ e sempre fico muito orgulhosa disso”.
Como nasce uma música de vocês? Ela começa pela letra, pelo beat, por uma frase, por uma piada?
Katy: “Sempre gostei de escrever música quando eu tô lavando louça ou quando eu tô tomando banho. A maioria das músicas das Abusadas veio assim. Geralmente é muito axé. Quando eu estou escrevendo uma música na minha cabeça, já vem a melodia. Já aconteceu algumas vezes isso e isso realmente é um axé muito grande porque eu já tenho a música pronta em segundos. Mas, quando eu tô com um pouco menos tempo, peço um beat ou uma melodia, alguma coisa ali que eu pensei para música, peço para o FKOFF fazer e dali eu já vou escrevendo. Mas, varia muito mesmo. Eu já, por exemplo, acordei no meio da noite e comecei a escrever uma música porque eu sonhei que eu estava cantando essa música e aí eu corri para o meu gravador, gravei e voltei a dormir”.
Vocês pesquisam referências para construir sonoridade e conceito? O que costuma alimentar o processo criativo?
Katy: “Sim, com toda certeza. Eu sou a rainha das referências. Eu sou a rainha do sample. Então, tem muita música das Abusadas que existe realmente de fato referências, né? Eu acho que não tem nenhuma música assim que não há referências, porque todas têm. Eu gosto muito de ouvir música, eu gosto muito de descobrir música e eu passo o dia inteiro ouvindo música. Não tem um dia da minha vida que eu não escute música. Então, eu acho que a referência vem disso, né? Vem do que eu escuto”.
Quando surgem bloqueios criativos, como vocês lidam?
Katy: “Olha, é um pouco difícil. Eu sou uma pessoa que não tenho mais essa dificuldade de bloqueio criativo. Graças a Deus. Mas a Palladino, por exemplo, ela teve um tempo atrás, então eu tive que segurar os projetos sozinha. Então, vários projetos eu fiz assim, sozinha. Mas em ‘A Visita’, ela já chegou me ajudando em algumas letras. Agora, ‘Sandra Eletrônica’ também, mas isso foi um bloqueio criativo que ela teve e eu respeitei, sabe? Mas, mesmo eu fazendo, ela estava ali com os dedinhos dela. Então, quando existe isso de bloqueio criativo, a gente tenta se ajudar uma ou outra para que saia alguma coisa de alguma forma naquele momento. E se não sair também, tá tudo bem. A gente respeita o momento uma da outra e tá tranquilo”.
Tem alguma faixa que vocês sentem que traduz perfeitamente a essência do grupo?
Katy: “Olha, parece besteira, mas eu acho que ‘Segura a Piroka’. ‘Segura a Piroka’ e ‘Tira a Mão do Ku’, que é da mixtape ‘Cantigas de Para se Cantar na Roda’ de 2021. Eu acho que essa música, essas duas músicas traduzem muito do Katy da Voz e as Abusadas. Acho que quem viveu essa época de 2021, 2022, sabe do que eu tô falando, né? Então, são as músicas que são a nossa cara”.
Em uma entrevista passada, vocês disseram que “nada é mais punk do que ser travesti”. O que essa frase significa para vocês hoje?
Katy: “Eu continuo afirmando, né? Eu continuo afirmando que não existe nada mais punk do que ser travesti. Eu acho que o punk é ser realmente contra. O punk é ser o underground que a gente vive. E ser travesti é tudo isso, ser travesti é ser marginalizada, é ser contra. Então, a gente não precisa usar um estilo punk, né? O movimento punk já acompanha a gente todos os dias”.
O que existe de político no simples ato de vocês ocuparem espaço, performarem e serem vistas?
Katy: “Eu acho que essa pergunta já responde. O simples ato de ocupar um espaço já é um ato político, né? Eu acho que o sair de casa já é uma coisa, né? Já é uma vivência, já é uma luta. Sair do portão de casa ou até mesmo dentro de casa, né? Para travesti, a gente sabe que é três vezes mais difícil. Então, para uma travesti que está em cima de um palco cantando para milhares de pessoas com microfone na mão e dando a voz, seguindo, comandando aquele show é com certeza, sem sombra de dúvidas, um ato político”.
Existe uma responsabilidade que vocês sentem em relação a outras pessoas trans e travestis que acompanham o trabalho?
Katy: “Sim, com certeza. Existe uma responsabilidade, existe um cuidado muito grande de fomentar, de performar, de falar e todo discurso que a gente vai fazer também. Eu acho que essa responsabilidade é mais sobre mostrar para essas pessoas que elas também podem, que elas também conseguem chegar nesse ambiente, nesse local que a gente chegou, que a gente está construindo e que isso não é difícil. Hoje em dia a gente consegue invadir esses espaços também”.
Vocês claramente se importam com imagem, styling e direção visual. Como nasce o universo estético de cada era?
Katy: “Eu sempre cuidei de toda a imagem e toda a direção visual, a direção artística de cada era desde a primeira mixtape em 2021. Então, eu sempre quis alternar, mudar a cada era para que as pessoas lembrassem que aquele cabelo, aquela maquiagem, aquela roupa é daquela era, sabe? Sempre quis fazer diferente, não queria que a gente só ficasse bonita nas capas. Eu queria que as pessoas realmente lembrassem, né? O que cada coisa, detalhe que seja, um um um óculos que seja, lembrasse que aquele óculos é daquela era. Então é um cuidado muito grande, é um é um processo criativo muito muito bem pensado que a gente tem sempre que está pensando e pensando e pensando e revisando o que cada uma vai usar, o que que vai ser para essa era, do que a gente vai abordar nessa capa. Para que isso se realmente se torne histórico e icônico de alguma forma. É um trabalho que não não nunca foi difícil para mim. Eu sempre fui uma pessoa que gosta muito de capas de álbuns. Eu amo as capas de álbuns, por exemplo, da Grace Jones, David Bowie. Eu sei o que é uma capa de álbum bonita e é isso que eu quero trazer para que a Katy da Voz e as Abusadas”.
O figurino de vocês comunica tanto quanto a música? O que vocês querem transmitir visualmente?
Katy: “Eu acho que mais Katy da Voz, né? De alguma forma, eu sempre quero transmitir, principalmente nos shows, essas trocas de look, para que as pessoas sintam essa energia de show mesmo, de que elas foram em um show, e que elas, aproveitaram esse show. Essa coisa de troca de looks é uma coisa que eu venho acompanhando desde ali de Companhia do Calypso, de Banda Calypso, e achei sempre isso muito magnífico, porque nos DVDs era coisa de uma música para outra. Daí fui acompanhando, vendo o que é realmente ali a verdade dos backstages e isso me encantou sempre. Então, acho que sempre foi muito importante não só dar performance para o público, mas também dar um visual bonito”.
Quais referências de moda, beleza ou cultura pop ajudam a construir essa identidade?
Katy: “Bom, é como eu disse na pergunta anterior, né? Eu acho que cada uma das três tem a sua essência. A Degoncé já gosta de uma coisa um pouco mais leve, um cropped, uma saia, um short, né? Ela sempre gosta de uma coisa que ela se sinta melhor para dançar. A Palladino, ela tem um gosto dela, que é sempre ligado a referências de pop, do que ela assiste em pop. Então, é um corset, com uma sainha, sabe? Uma coisa muito vestidinho, né? E eu já gosto de uma coisa um pouco mais pontuda, umas ombreiras, uma luva. Então, cada uma tem o seu jeito de se vestir, cada uma gosta de se vestir dali da sua forma. E eu acho que, querendo ou não, a cultura pop ajuda muito nesse cumprimento, porque é tudo o que a gente sempre assistiu desde criança”.
A internet foi essencial para construir a comunidade de vocês. Como é a relação com esse espaço hoje?
Katy: “Eu acho que hoje em dia a internet continua ajudando bastante o crescimento de Katy da Voz e as Abusadas, principalmente por causa dos memes e a nossa relação é sempre muito boa, mas, ao mesmo tempo, muito cuidadosa. Eu já fui uma pessoa que errei muito na internet, né? Então, eu sempre tento acertar com os meus erros, sabe? Corrigir os meus erros para que eu não faça isso de novo, principalmente no Twitter”.
Quando uma influenciadora do tamanho da Virginia Fonseca compartilha o trabalho de vocês, isso amplia muito o alcance. Como vocês lidam com essa visibilidade quando ela vem de figuras controversas?
Katy: “Foi bizarro, eu talvez esperaria isso de qualquer outra pessoa no mundo, tá? Menos da Virgínia, assim. Foi uma coisa muito bizarra, muito louca, né, de se pensar que Katy da Voz e as Abusadas chegaram na mesa de jantar da Virgínia Fonseca, né? E é doido saber que o underground invade esses espaços e talvez invada até mais, só que a gente não sabe, né? Então, é doido, é tudo muito doido”.
Existe uma linha entre usar a lógica da internet a favor de vocês e não deixar que ela dite tudo?
Katy: “Sim, com certeza, com certeza, existe sim e é uma lógica de que a gente precisa aceitar, né? É o que eu sempre falei para Palladino. No início, ela não gostava muito, quando os vídeos dela viralizavam, e eu falei para ela: ‘Amiga, é isso, a partir de agora é isso’. Mesmo que você não goste, se você falar que não está gostando, as pessoas vão continuar postando. Então, encara isso de uma forma boa, vê isso por um lado bom, e tenta não alimentar essa raiva, porque isso pode trazer muitos bons resultados. Então, depois disso, dessa conversa que tivemos, ela começou a até querer fazer mais vídeos. Então, eu acho que a gente sempre tem que apelar um pouco mesmo para o para o para a aceitação, né? De como as coisas vêm e como elas vêm rápido na internet”.
Nesta mixtape, dá para perceber uma construção sonora mais definida e, ao mesmo tempo, mais ambiciosa em relação aos trabalhos anteriores. O que mudou no processo criativo de vocês entre um lançamento e outro?
Katy: “Olha, você acredita que não mudou muita coisa dos trabalhos anteriores para esse? Talvez tenha mudado um pouco da sonoridade de ‘A Visita’ com ‘Sandra Eletrônica’, mas a forma de compor, de escrever, de pensar, continua a mesma. Eu acho que a magia do ‘Sandra Eletrônica’ é que ele é um EP fechado, né? Onde a gente pode transformar todas as músicas em um grande set. E foi o que a gente fez na última música. Na ‘Mixtape da Sandra’, tentei pegar todas as quatro músicas e fazer um set, porque realmente as músicas se casam muito bem. Isso foi uma coisa que a gente não fez em um ‘Verão Triste, Porém Abusado’. Não que ele seja ruim, mas a gente acabou misturando muita coisa e daí no final ele ficou um pouco confuso, né? Acho que o ‘Sandra Eletrônica’ não é confuso. Ele é muito fechado e quando isso acontece é uma benção, porque a gente tem um projeto muito bonito. Tem um projeto que a gente vai lembrar das músicas, tem um projeto que a gente vai lembrar do conceito, que a gente vai falar: ‘Opa, isso daqui parece com o ‘Sandra Eletrônica’’. Isso é muito bom”.
Quais foram as principais influências sonoras nesse projeto?
Katy: “Quando eu comecei a escrever ‘Sandra Eletrônica’ foi durante o Carnaval. Eu estava trabalhando bastante no Carnaval e eu lembro que eu estava às vésperas de subir no nosso primeiro trio elétrico, que foi o do Exatamente. Então, naquela época, eu já tava começando a escrever o ‘Sandra Eletrônica’ e o que me inspirou bastante foi o álbum ‘Carnaval Eletrônico’ da Daniela Mercury, porque ainda mais quando eu fui atrás da história do ‘Carnaval Eletrônico’, que ela, uma cantora de axé, fez esse álbum eletrônico, ela misturou o axé com a música eletrônica e isso despertou um interesse tão grande em muitas coisas, porque eu lembro que no início de ‘Sandra Eletrônica’ eu queria que ele fosse mil coisas, queria que ele fosse uma loucura, que tivesse até reggae nele, que fosse uma coisa muito diferente. Mas, daí eu percebi que o que talvez isso poderia complicar um pouco, e que o ‘Sandra Eletrônica’ tinha que ser eletrônico, né? Ele tem que resgatar tudo aquilo que a gente já fez de música eletrônica, e a gente já fez muita música eletrônica. Então, por que não fazer um projeto fechado só de música eletrônica? Foi uma oportunidade que eu tive muito gostosa, muito grandiosa e que, com certeza, eu quero repetir de novo”.
Visualmente, este trabalho também parece marcar uma nova era para vocês, da capa ao styling e à direção de imagem. Como surgiu esse conceito visual e o que vocês queriam comunicar com essa estética?
Katy: “De início, eu queria que a capa fosse só nós banhando de Dolly e uma senhorinha na frente tomando cerveja. Eu queria que essa fosse a capa, essa era minha ideia inicial, tanto que a gente tem essa foto banhada de Dolly. Só que aí eu conheci o César Berge, que foi um dos ilustradores da capa e ele me despertou um interesse muito grande em desenhos, em desenhos ilustrados. E daí isso me levou à primeira capa da Madonna de ‘Everybody’, né? O primeiro single dela, que tem uma foto e tem desenhos. A capa de ‘Alright, Still’, da Lilly Allen também é desse jeito. Então isso me despertou muita, muita, muita vontade de fazer essa coisa pop-art, sabe? Quis trazer essa coisa mais colorida para o ‘Sandra Eletrônica’ porque eu acho que isso combina com a música eletrônica e de alguma forma o visual todo em si, ajudou de uma forma muito nítida, porque isso despertou o interesse nas pessoas, né? Eu acho que a ideia do Dolly, de trazer o refrigerante Dolly, é exatamente o que eu falei. No início, eu queria que fosse só nós três se banhando de Dolly, igual aquela foto que tem das meninas quando caiu o caminhão que elas se banham de Guaraná, sabe? Aquela foto foi a maior inspiração que a gente teve para fazer a capa. E daí eu falei: ‘Vamos ao Dolly’, porque o Dolly é uma coisa que a gente sempre bebeu na infância, bebe até hoje. É uma coisa muito aqui da quebrada, né? É uma coisa muito da comunidade. É uma coisa que marcou muito as mesas das nossas famílias, né? É uma coisa que marcou muito os nossos almoços de domingo, os nossos almoços de sábado, os nossos aniversários. Então, por que não trazer o Dolly? E foi muito bonito usar visualmente o Dolly como uma referência para essa capa, né? E é como eu falei nas perguntas anteriores sobre as pessoas lembrarem que o Dolly é o de ‘Sandra Eletrônica’, sabe? Aquilo vai ser lembrado pelo Sanda Eletrônica”.
Existe alguma faixa que vocês sentem sintetizar melhor a proposta da mixtape? O que faz essa música ser tão representativa para vocês?
Katy: “Eu acho que ‘Drogas, Sexo, Techno, Repete!’ é a música que leva o EP, que dá o início, é o single, a música oficial, tanto que ela abre o EP, mas, a minha música favorita é ‘Diz Aquendei’, é uma música muito triste, tive que escrever ela em uma tristeza que eu estava, é um desabafo, uma música que tenho guardada há muito tempo, um desabafo que tive que fazer, soltar de alguma forma, então acho que ela sempre vai ser minha favorita do ‘Sandra Eletrônica’. O ‘Sandra Eletrônica’ é um projeto que eu pretendo continuar, talvez fazer uma parte 2, não sei, mas é um projeto que talvez no futuro retorne e acho que as pessoas vão gostar bastante”.
Quando perceberam que o projeto estava ganhando uma dimensão maior do que vocês imaginavam?
Palladino: “Bom, eu acredito que tanto eu quanto as meninas percebemos que o projeto estava ganhando uma dimensão diferente quando começou a alcançar outro tipo de público alvo, né? Quando começou a estourar a bolha, quando começou a sair do underground, quando começou a acessar lugares que a gente jamais imaginaria acessando e também, lógico, alcançando esse público a gente também alcançou lugares inimagináveis para a gente. Alcançamos lugares que se a gente olhar para trás agora, a gente não imaginaria há 5 anos atrás, por exemplo. E essa é uma parte muito boa, né? Uma realização muito boa porque você vê que o seu trabalho é bom e alcança lugares bons”.
Para vocês, o humor serve mais como entretenimento, crítica ou sobrevivência?
Palladino: “Eu acredito que seja um pouco dos 3, o humor é um sentimento bom, uma sensação boa e é legal levar alegria para as pessoas por meio do humor, principalmente quando ele vem de uma forma leve, natural nas nossas vidas, que é o que acontece com as Abusadas – e é muito bom poder transmitir e levar um pouco disso para as pessoas também”.
Vocês acham que o público às vezes ri sem perceber todas as camadas do que vocês estão dizendo?
Palladino: “Bom, eu acredito que sim, principalmente, quando se trata de Katy da Voz e as Abusadas, acho que cada uma sabe levar o humor da sua forma para o público, né? Através de vídeos, através de música, através de roteiros na qual a gente participa e já fizemos. Então, acredito que são diversas formas de levar o humor para o público e também a forma em que o público acata esse humor acaba sendo diferente e somativo para a gente também, então, acredito que isso seja muito bom”.
Vocês viralizaram muito com “gordinha mas tá bom”. Como enxergam o impacto desse tipo de viral na trajetória de vocês?
Palladino: “Eu costumo dizer que o sucesso de ‘Gordinha Mas Tá Bom’ foi algo muito de surpresa nas nossas vidas. Lógico que quando a gente lançou o remix, a gente esperava uma certa repercussão, mas, antes disso, a gente não esperava. E isso hitou de uma forma muito natural e muito orgânica, na qual a gente conseguiu levar não só uma mensagem, mas, acredito, que várias mensagens dentro de um meme só, dentro de uma música só, dentro de um remix só. E, ‘Gordinha, mas tá bom’, chegou de uma forma que foi interpretada de um jeito para cada pessoa. E é muito bom poder levar esse tipo de mensagem para essas pessoas e poder ter chegado onde a gente chegou com esse meme, e com esse hit que foi o meme e que foi a música também”.
Muita gente chega pelo meme e depois descobre um trabalho muito maior. Vocês sentem que ainda são subestimadas artisticamente?
Palladino: “Com toda certeza sim. É muito bom, né, nosso trabalho ser descoberto de diversas formas pelas pessoas. Nem todo mundo vai conhecer a gente diretamente pela música. Às vezes alguém vê o nosso trabalho através de algum vídeo, através de algum meme, através de algum viral nas redes sociais. E isso é bom, né, porque isso traz notoriedade pra gente também de uma certa forma. Mas, sim, é, eu acredito que o nosso grupo ainda é muito subestimado pelas pessoas. Acredito que a nossa arte é única e ela pode chegar de diversas formas. Às vezes nem todo mundo tá preparado pra receber esse tipo de arte. Mas, é, acredito que sim, que a subestimação, ela existe sim”.
Como a experiência travesti atravessa a arte de vocês, na música, no humor, na estética e no palco?
Palladino: “Bom, acredito que a vivência de ser uma travesti é algo muito singelo, muito único e muito individual para cada um, para cada uma, né? E acredito que ela chega na arte também de uma forma diferente, na qual a gente leva a nossa vivência na arte, por exemplo, através de letras musicais, através de sátiras que fazemos de nossas vivências sexuais, pessoais, íntimas e acredito que levar isso para arte é algo muito bom, algo muito foda, no qual a gente leva realmente ali a nossa vivência e a gente conta ela cada uma do seu jeito individual e de uma forma leve, né? Porque a gente sabe o quão é difícil ser uma travesti e o quão pesado são algumas vivências, né?”.