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    Gabi Lins apresenta “Tudo Pelo Show” sem medo do exagero

    Cantora baiana faz début que mistura estética dramática, referências da música brasileira e relatos sinceros sobre os altos e baixos da vida artística

    Gabi Lins apresenta “Tudo Pelo Show” sem medo do exagero

    Cantora baiana faz début que mistura estética dramática, referências da música brasileira e relatos sinceros sobre os altos e baixos da vida artística

    POR Guilherme Rocha

    Nesta semana, o FFW Sounds destaca Gabi Lins, cantora e compositora nascida em Salvador que vem chamando atenção por criar uma identidade sonora intensa e teatral dentro de um universo pop com referências ecléticas. Com inspirações que transitam entre  clássicos da MPB como Gal Costa, canções de musicais, synth pop, pelo rock e música baiana, a artista acaba de lançar seu primeiro álbum, “Tudo Pelo Show”, em que mistura teatralidade, brasilidade e um forte universo visual.

    Em entrevista ao produtor de conteúdo Guilherme Rocha, a cantora falou sobre processo criativo, direção estética, referências musicais e os desafios de ser artista independente hoje. 

     

    QUEM É GABI LINS?

    Nascida em Salvador, Bahia, em 1996, é cantora e compositora. Sua relação com a música começou cedo: aos 9 anos, ganhou o primeiro violão e descobriu que poderia transformar sentimentos em composições. Cresceu ouvindo referências como Gal Costa, Elis Regina e Queen, influências que até hoje aparecem em sua forma intensa e teatral de criar música. Antes de mergulhar definitivamente na carreira artística, Gabi se mudou para São Paulo para cursar administração e trabalhou em empresas de diferentes áreas, incluindo uma passagem pela MTV. Foi durante a pandemia, aos 24 anos, que decidiu abandonar o “momento perfeito” e apostar de vez na música.

     

    UMA MÚSICA PARA COMEÇAR: “Os Moços da Rádio”

    A faixa resume muito do que torna a artista interessante: letra confessional, teatralidade, brasilidade e um olhar crítico sobre os bastidores da indústria musical. Na canção, Gabi aborda machismo e relações de poder dentro do entretenimento, falando sobre a pressão que muitas mulheres enfrentam para serem levadas a sério profissionalmente. A própria cantora define a música como uma das mais “diretas e provocativas” do álbum.

    Além da letra afiada, a faixa também apresenta bem sua identidade sonora, misturando pop, música brasileira e performance dramática sem se prender a um único gênero.

     

    “TUDO PELO SHOW”:  UM POP TEATRAL E VULNERÁVEL

    Existe algo de intenso e muito humano em “Tudo Pelo Show”. No álbum de estreia, Gabi transforma os altos e baixos da vida artística em um pop dramático, teatral e vulnerável, onde ansiedade, desejo, insegurança e exaustão emocional aparecem sem filtros. Ao longo de 12 faixas, a cantora baiana mistura referências que vão da MPB ao synth pop, passando pela música nordestina e pelo glamour melancólico de grandes performances.  O resultado é um disco que soa íntimo, mas ao mesmo tempo grandioso, como alguém transformando sentimentos difíceis em espetáculo. Em “Eu Conheço as Estrelas” aparece como um dos momentos mais emocionais do álbum, em que Gabi fala sobre persistir mesmo nos períodos mais difíceis da carreira.

     

    O CONCEITO ESTÉTICO DE “TUDO PELO SHOW”

    Para Gabi, “Tudo Pelo Show” vai muito além da música. O álbum foi pensado como um universo visual completo, onde estética, performance e emoção caminham juntas. Na entrevista a cantora contou que pensa visualmente o tempo inteiro e que, enquanto compõe, já imagina figurinos, cores, cenas e performances. A artista revelou ainda ter criado um “documento gigantesco” organizando toda a direção criativa do projeto, com referências de textura, maquiagem, enquadramento e sensação emocional. A estética nasce justamente desse encontro entre glamour decadente, teatralidade e um certo clima nostálgico que conversa com o tom emocional do disco.

     

    ENTRE A BAHIA, O TEATRO E O POP

    A música de Gabi nasce do encontro entre mundos muito diferentes, e talvez seja justamente isso que faça sua sonoridade soar tão particular. Criada em Salvador, a cantora cresceu cercada pela força da música baiana, mas também por musicais, grandes vozes da MPB e bandas de rock carregadas de dramaticidade. Gabi explica que prefere carregar suas origens de forma mais subjetiva, deixando a Bahia aparecer na interpretação intensa, na liberdade rítmica e na sensualidade presente em suas músicas, em vez de recorrer a referências óbvias ou caricatas. Ao mesmo tempo, sua construção artística também passa pela teatralidade. Fã assumida de performance, cinema e grandes interpretações, a cantora cita influências que vão de Raul Seixas a Queen, combinação que ajuda a entender o tom dramático e quase cinematográfico. Essa mistura aparece até em “Encanto”, releitura de “Toda Menina Baiana”, clássico de Gilberto Gil.

     

    A seguir, leia a conversa de Gabi com o produtor de conteúdo de moda e cultura, Guilherme Rocha da FFW.

     

    • O que você acha que diferencia o seu olhar dentro da música hoje? Como isso aparece no seu trabalho?

    Acredito que o meu diferencial dentro da música seja o meu comprometimento com a vulnerabilidade. Eu sou uma artista que escreve as próprias músicas, então tudo parte de experiências, sentimentos e pensamentos muito reais meus. Gosto de falar sobre as coisas de um jeito honesto, mesmo quando isso envolve assuntos mais delicados ou íntimos. Sempre me interessou transformar em música coisas que às vezes são difíceis de dizer em voz alta, seja sobre carreira, sexo, saúde mental ou até questões sociais e políticas, como acontece bastante nesse álbum.Também adoro brincar com a língua portuguesa. Gosto de escrever de forma meio torta, provocativa, cheia de metáforas, imagens e duplos sentidos. Pra mim, música não é só refrão chiclete, é criar um universo. Cada faixa tem sua própria atmosfera, sua própria personagem, versões múltiplas de mim mesma. E eu amo quando, no final, tudo se encaixa como uma grande novela meio caótica e sentimental. 

    Ao mesmo tempo, minha música não se limita a um único gênero musical. Eu gosto de explorar diferentes sonoridades e referências porque enxergo a arte como um espaço livre, em constante transformação. Sinto que levo a Bahia para o pop de uma forma nada óbvia. Mesmo tendo vivido intensamente o dia a dia de Salvador e carregando isso em mim, não gosto de trabalhar essas referências de maneira caricata ou previsível. Elas aparecem na minha musicalidade, na liberdade rítmica, na sensualidade, na força da interpretação e até na forma como enxergo performance. Como uma grande fã de Raul Seixas, meu conterrâneo, eu também cresci entendendo o poder da experimentação dentro da música brasileira. Acho que isso me inspira muito a não me limitar artisticamente e a permitir que cada projeto tenha sua própria identidade, explorando tudo o que eu posso ser como artista. 

     

    • O que te motivou a criar esse álbum e como foi o processo criativo — da ideia inicial até as gravações?

    Esse álbum nasceu depois de cinco anos vivendo a montanha-russa emocional que é tentar existir como artista independente no mundo moderno sem enlouquecer completamente. E olha… quase enlouqueci várias vezes, o que rendeu ótimas composições. Acho que foi justamente aí que o disco começou a nascer. Porque eu sou o tipo de pessoa que transforma absolutamente tudo em música. As 12 faixas foram escritas ao longo de tudo o que fui vivendo nesses cinco anos. Cada música é meio um retrato emocional de alguma fase específica da minha vida. Por ser o meu primeiro álbum, eu sentia uma vontade muito forte de começar minha trajetória oficial contando a minha história de forma escancaradamente honesta. Sem tentar parecer mais leve, mais “digerível” ou mais agradável o tempo inteiro. 

    E acho que uma das coisas que mais me irritaram nesses anos trabalhando com arte foi perceber a cobrança absurda que existe pra artistas mulheres performarem felicidade e simpatia o tempo inteiro. Parece que você tem que estar sempre leve, linda, engraçada, pronta pra agradar e fazer dancinha enquanto sua cabeça está pegando fogo. Eu nunca consegui me identificar com isso. Pra mim, arte também serve pra provocar desconforto, questionar, cutucar ferida e fazer as pessoas pensarem um pouco sobre elas mesmas. Acho até suspeito quando tudo é agradável demais.

    Quando senti que tinha encontrado a alma do álbum, fui com uma pasta cheia de composições na voz e no violão mostrar pros meninos do Los Brasileiros e pro Dmax, na Head Media. E foi muito bonito porque eles entenderam completamente o universo do trabalho desde o começo. Nunca tentaram me podar ou me transformar numa versão mais “aceitável” de mim mesma. Pelo contrário. Me incentivaram a enlouquecer artisticamente ainda mais. E eu achei isso maravilhoso.

     

    • Você costuma pesquisar referências para construir seus projetos? Como isso entra no seu processo?

    Estou sempre pesquisando. Acho que a curiosidade é uma das coisas que mantém um artista vivo. O dia que eu parar de sentir fascínio pelas coisas, provavelmente viro aquelas pessoas que reclamam da música atual no almoço de família, e eu me recuso a chegar nesse lugar.  Pra mim, as referências de um artista vêm de três lugares principais: de onde ele vem, das experiências emocionais que ele vive e do que ele consome. No meu caso, a Bahia já existe em mim naturalmente, quase por osmose. Mesmo quando isso não aparece de forma explícita, está em tudo.  E tem também a parte emocional, que talvez seja a mais forte no meu processo. Sou uma pessoa muito observadora e muito visceral, então absolutamente qualquer coisa pode virar material criativo. Mas além disso eu sou uma pesquisadora compulsiva de arte. Tenho fascínio por descobrir o que pessoas do outro lado do mundo estão criando. Amo consumir músicas diferentes do que eu to acostumada, entender novas estéticas, novas formas de performance, novos sons, novas imagens.  E referência, pra mim, vai muito além da música. Está em cinema, literatura, entrevista velha no YouTube, exposição, conversar com as pessoas. Tudo pode servir. Ler, por exemplo, influencia muito a minha composição. Me ajuda com vocabulário, metáfora, construção de imagem, ironia.No fundo, eu acho que tudo pode inspirar uma artista se ela estiver realmente prestando atenção no mundo. A pesquisa nunca acaba. Ainda bem. 

     

    • E quando surgem bloqueios criativos, como você costuma lidar com esses momentos?

    Nesse sentido eu sou bem pragmática. Acho que ele funciona meio como uma virose artística. Você percebe os sintomas, aceita que está intoxicada e toma providências antes de se desesperar achando que perdeu o talento pra sempre. Normalmente, quando entro nesse lugar, já entendo que minha cabeça está saturada. Rede social demais, informação demais, comparação demais, gente demais opinando sobre tudo o tempo inteiro. Então a primeira coisa que faço é fugir um pouco da internet e voltar a ter contato com o mundo real. Respirar ar livre, caminhar, abraçar árvore (brincadeira, só fiz isso uma vez), ouvir conversa aleatória, lembrar que existe uma vida que não envolve algoritmo. E uma coisa que me salva muito nesses momentos é o método da Julia Cameron, no livro “O Caminho do Artista”. Todo santo dia eu escrevo três páginas matinais. Mas não é pra escrever bonito, genial ou profundo. É literalmente despejar o lixo emocional da cabeça no papel. Reclamação, paranoia, medo, vergonha, lista de mercado, vontade de sumir, tudo junto. Porque às vezes o bloqueio criativo não é falta de criatividade. É excesso de barulho mental. A cabeça fica tão entupida de ansiedade, estímulo, preocupação e autocobrança que não sobra espaço pras ideias respirarem.Também acredito muito no poder do tédio. Hoje em dia todo mundo está ocupado demais performando existência na internet. E a criatividade odeia ambiente barulhento. Às vezes a melhor coisa pra uma artista é simplesmente sentar, olhar pro teto e enlouquecer em paz por vinte minutos.

     

    • Existe um conceito central que conecta o álbum, certo? Como surgiu o título e o que ele representa pra você?

    O conceito central do álbum é justamente a jornada do artista. Essa loucura emocional, psicológica e até física que é escolher viver de arte, principalmente no Brasil. Acho que existe muita romantização em volta da carreira artística, mas pouca gente fala sobre o quanto ela exige vulnerabilidade, obsessão, entrega e coragem. E coragem mesmo. Porque ser artista hoje também é aprender a lidar com instabilidade, exposição, rejeição, comparação, pressão estética, ansiedade e ainda assim continuar criando. E foi muito pensando nisso que surgiu o título “Tudo Pelo Show”. Porque ele soa quase como uma frase dita por alguém completamente obcecado pelo palco. Meio exagerada, meio suspeita. E eu adoro títulos que provocam uma pequena desconfiança. Porque quando alguém escuta “Tudo Pelo Show”, inevitavelmente vem a pergunta: “Mas tudo mesmo?”. E acho que o álbum inteiro existe dentro dessa dúvida. Porque não é tudo. E o disco fala muito sobre perceber os próprios limites emocionais, sobre o desgaste, sobre o que a gente sacrifica tentando existir artisticamente num mundo completamente acelerado e performático. Mas ao mesmo tempo… também existe uma entrega muito profunda minha pra arte. Pro palco. Pra música. Pra essa necessidade quase irracional de transformar a vida em narrativa.

    • Tem alguma faixa que você sente que resume bem a essência do disco?

    Acho que “Os Moços da Rádio” e “Meu Lugar” resumem muito bem a essência do disco justamente porque são quase dois extremos emocionais, mas nenhum deles se esconde. As duas músicas são completamente vulneráveis, cada uma à sua maneira. “Os Moços da Rádio” talvez seja a faixa mais direta e provocativa do álbum. Ela fala sobre uma troca de favores que ainda existe de forma muito velada dentro da indústria do entretenimento. E eu coloquei “rádio” no título justamente porque isso vem de muito tempo atrás. A estrutura mudou esteticamente, a tecnologia mudou, mas certas dinâmicas continuam assustadoramente parecidas.  A música fala muito sobre machismo dentro da indústria e sobre essa expectativa silenciosa de que mulheres precisem entregar mais do que talento pra conseguir espaço. E eu me recuso profundamente a entrar nesse jogo. Uma coisa é uma mulher desejar alguém genuinamente. Outra completamente diferente é sentir que precisa se aproximar romanticamente de homens influentes só pra conseguir sobreviver profissionalmente. Isso é uma violência emocional que ainda existe em muitos lugares. E a faixa também fala sobre o quanto ambientes criativos ainda são dominados por homens. Ainda é muito difícil se posicionar em rodas de composição majoritariamente masculinas sem ser interrompida, reduzida ou tratada como alguém que não sabe tanto quanto eles. O que é ruim pra a nossa sociedade no geral. Afeta diretamente quais histórias são contadas, quais perspectivas ganham espaço e até o pensamento político e social das pessoas, porque música também é ferramenta de consciência coletiva. E isso vai muito além da música. Acontece no audiovisual, na publicidade, em qualquer ambiente artístico. É impressionante como praticamente toda mulher tem uma coleção de histórias absurdas de desrespeito pra contar.  Já “Meu Lugar” é  uma música completamente despida de ego. Talvez a mais vulnerável que eu já escrevi. Ela fala sobre comparação, ansiedade, medo de fracassar, medo de não ser suficiente, medo de ver todo mundo avançando enquanto você tenta entender onde exatamente se encaixa no mundo. Acho que existe uma pressão muito grande, principalmente no pop, pra artistas parecerem confiantes o tempo inteiro. E eu sentia falta de ver mulheres falando abertamente sobre esse lado mais frágil da carreira no Brasil. Então acho bonito que essas duas músicas coexistam dentro do álbum. 

     

    • Como descreveria a sonoridade deste trabalho em comparação aos anteriores? Houve alguma mudança de direção no estilo ou algo novo que vocês decidiu explorar musicalmente?

    Acho que esse álbum é a primeira vez em que a minha cabeça musical, meu emocional e minha personalidade conseguiram finalmente sentar na mesma mesa sem sair no tapa. Porque, no fundo, eu sempre quis fazer um disco assim. Mas antes eu precisava me perder um pouco primeiro, experimentar, testar coisas e entender qual era realmente a minha voz no meio de tanta referência e tanta possibilidade. Agora sinto que cheguei num lugar mais maduro. Ainda experimental, porque eu jamais conseguiria fazer um álbum completamente comportado sem morrer de tédio no estúdio, mas ao mesmo tempo mais orgânico, mais quente, mais humano. Um disco menos preocupado em soar perfeito e mais preocupado em ter personalidade, textura e verdade. Com o tempo também percebi uma coisa muito importante: a Gabi Lins do palco estava ficando muito diferente da Gabi Lins das plataformas digitais. Ao vivo, eu sempre fui muito intensa, teatral, dramática, visceral. Já na internet, às vezes parecia que existia uma versão mais contida, mais polida, quase editada emocionalmente. E sinto que esse álbum foi o momento em que essas duas finalmente se encontraram através da sonoridade.  Inclusive, pensei a tracklist exatamente como penso a setlist dos meus shows. Ela faz uma curva em “U”. O disco começa lá em cima, grandioso, performático, depois mergulha num lugar mais vulnerável e introspectivo, quando você começa a ter pensamentos perigosamente sinceros. E depois sobe de novo até terminar quase como um grande encerramento de espetáculo. Na minha cabeça convivem ABBA, Elis Regina, música nordestina, synth europeu, blues melancólico, axé dos anos 90, sem o menor conflito diplomático. E acho que esse álbum mostra isso.  

     

    • Tem alguma música ou verso que te atravessa de forma mais pessoal?

    Na verdade, todas as músicas do álbum me atravessam de forma muito pessoal. Acho até difícil escolher só. Mas “Eu Conheço as Estrelas” talvez tenha um lugar especial. É uma música muito confessional. Fala sobre olhar pra trás pra toda essa jornada e reconhecer que em alguns momentos eu pensei em desistir do meu sonho. Porque existe uma parte da carreira artística que não aparece no feed bonito. A exaustão emocional, a ansiedade, o medo constante de não dar certo, a sensação de inadequação, o cansaço psicológico de transformar a própria vida em performance o tempo inteiro.  Só que ao mesmo tempo ela também é uma música muito espiritual. Porque, por mais que eu tenha pensado em desistir várias vezes, parecia que existia sempre alguma coisa invisível me empurrando de volta pra música. Como se a vida dissesse: “minha filha, aguente mais um pouquinho”. E a gravação dessa faixa foi uma das experiências mais emocionantes que já vivi em estúdio. No final da música, mulheres incríveis, lavadeiras de Salvador, entram cantando quase como entidades espirituais me acolhendo depois de toda a tempestade emocional do disco. E eu juro: enquanto fazia a direção vocal delas, teve momentos em que parecia que eu estava recebendo conselho ancestral ao vivo dentro do estúdio. Foi muito forte. Muito mesmo. Elas cantavam com uma verdade tão absurda, uma força tão bonita, que eu saí daquela gravação me sentindo espiritualmente protegida. Como se aquelas vozes estivessem me lembrando que continuar acreditando também é um ato de coragem.

     

    • Quais sentimentos ou ideias você queria que as pessoas levassem ao ouvir o álbum?

    Acho que, acima de tudo, eu queria que as pessoas ouvissem esse álbum e sentissem que não estão sozinhas. Porque, no fim das contas, todo mundo está tentando sobreviver emocionalmente de algum jeito, mesmo as pessoas que parecem mais confiantes, mais bonitas, mais bem resolvidas ou mais felizes na internet. Esse disco fala muito sobre altos e baixos, sobre insegurança, desejo, ego, comparação, medo de fracassar, vontade de sumir do mapa e, ao mesmo tempo, uma vontade quase teimosa de continuar acreditando nos próprios sonhos. Ele é vulnerável, mas também é muito corajoso. Porque acho que existe coragem até em admitir que você está cansada. Coragem em continuar criando mesmo insegura. Coragem em não se anestesiar completamente num mundo onde todo mundo parece estar performando felicidade profissional em tempo integral Acho bonito quando a arte consegue pegar sentimentos confusos, feios, difíceis, e transformar isso em alguma coisa que faz outra pessoa se sentir compreendida por três minutos. Pra mim, música tem muito essa função de companhia emocional. Quase como alguém sentando do seu lado e dizendo: “calma, eu também estou surtando um pouquinho”. Também queria que as pessoas se permitissem sentir mais ouvindo o álbum. Chorar, rir, desejar, lembrar de alguém, questionar coisas, se incomodar. Hoje em dia está todo mundo tão ocupado tentando parecer bem o tempo inteiro que às vezes esquecemos como é ser humano de verdade. 

     

    • Como foi pensar o universo visual do projeto — capa, estética, identidade?

    Foi tudo muito intuitivo. Acho que meu cérebro já vem com um pequeno diretor de arte desgovernado instalado de fábrica. Eu penso visualmente o tempo inteiro, então enquanto estou compondo já começo a enxergar o visual. Acho que canção ganha outra dimensão quando encontra dança, teatro, cinema, fotografia, performance. Então desde o começo eu queria criar um universo muito consciente pra abrigar essas músicas. Quase como construir a casa onde elas iam morar. Estou meio saudosista e fazer atividades analógicas tem me tirado um pouco a ansiedade. E foi daí que nasceu essa estética meio nostálgica, dramática e decadentemente glamourosa de “Tudo Pelo Show”. E eu amo essa parte da criação. Sou obcecada por direção criativa. Fiz literalmente um documento gigantesco organizando toda a estética do álbum. Tinha referência de cor, textura, fonte, enquadramento, figurino, maquiagem, sensação emocional, tudo. E uma coisa que eu sabia desde o começo era que queria lançar três clipes antes do álbum sair. Porque eu queria contextualizar emocionalmente as pessoas antes delas entrarem no disco. Queria que elas fossem entendendo esse universo aos poucos. 

    • O que você imagina pros desdobramentos visuais, como clipes e apresentações ao vivo?

    Fizemos quatro clipes até agora e acho que, nesse momento, estou muito curiosa pra observar quais músicas vão atravessar mais as pessoas. Gosto da ideia de deixar o álbum respirar um pouco também, entender as possibilidades junto ao público antes de decidir os próximos passos. Mas, sinceramente, minha cabeça já está cheia de ideias. Infelizmente ela nunca desliga. Pra mim, os desdobramentos visuais do disco precisam continuar muito coerentes com tudo o que já foi construído até aqui. Eu penso álbum como universo mesmo então tudo precisa conversar entre si. Acho bonito quando existe uma sensação de continuidade, quase como se a pessoa estivesse entrando cada vez mais fundo naquele mundo. E acho que o ao vivo talvez seja a parte mais importante disso tudo. Porque é o momento em que aquilo que existia nas telas finalmente ganha corpo. É quando as pessoas realmente mergulham naquele universo que viram online. Vou dar o meu máximo pra levar a mesma sensação no presencial. 

     

    • O que esse álbum representa dentro da sua trajetória?

    “Tudo Pelo Show” é o meu verdadeiro TCC. (risos). Sinto que esse álbum representa um momento muito importante de maturidade pra mim, não só musicalmente, mas emocionalmente também. Acho que foi a primeira vez em que consegui olhar pra tudo o que vivi nesses últimos anos e transformar isso numa obra que realmente me representa por inteiro. Sem me esconder, sem tentar suavizar quem eu sou artisticamente. Depois de cinco anos tentando, errando, aprendendo, me reinventando e insistindo mesmo em momentos muito difíceis, esse disco acabou virando quase um atestado de coragem pra mim. E existe também uma sensação muito forte de realização artística. Acho que eu precisava fazer esse álbum pra entender que era capaz de construir um universo inteiro do jeito que sempre imaginei na minha cabeça. Desde as composições até a estética, os clipes, os conceitos, os detalhes emocionais… tudo nele carrega muito de mim. Inclusive, chorei no lançamento. E não foi nem por número, expectativa ou ansiedade. Foi porque, depois de tanta coisa que vivi pra conseguir chegar até esse momento, percebi que o próprio lançamento já era o sucesso. O álbum existir da forma como eu sonhei já era uma vitória gigantesca. Acho que às vezes a gente passa tanto tempo correndo atrás de algum grande momento idealizado que esquece de reconhecer o tamanho das coisas que já conquistou. E quando o disco finalmente saiu, tive uma sensação muito forte de: “meu Deus… eu consegui”. Foi um dos sentimentos mais bonitos da minha vida artística até agora.

     

    • E olhando pra frente, que caminhos você ainda quer explorar na sua música?

    Acho que agora o céu é o limite mesmo. Esse álbum me ajudou a encontrar minha voz de um jeito muito profundo. Não só musicalmente, mas artisticamente, emocionalmente, visualmente. Foi a primeira vez em que senti que todas as versões de mim finalmente entraram num acordo diplomático dentro do mesmo projeto. Isso me deixa animada pro futuro. Porque agora que entendi melhor do que sou capaz, quero me testar de novo. E de novo. E de novo. Acho que reinvenção é uma das coisas que mais me movem. Tenho pavor da ideia de virar uma artista que passa a carreira inteira repetindo a mesma fórmula. Quero fazer coisa sofisticada, coisa brega, coisa dramática, coisa estranha, coisa íntima, coisa exagerada. Quero continuar tendo liberdade pra mudar de pele sem perder minha essência. E sinceramente? Espero nunca me sentir completamente pronta. Acho artistas prontos um pouco entediantes. Quero continuar me desafiando até quando eu puder, mesmo que isso signifique enlouquecer algumas vezes no caminho. 

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