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    A pesquisa ancestral por trás do figurino de “A Nobreza do Amor”

     

    A pesquisa ancestral por trás do figurino de “A Nobreza do Amor”

     

    POR Guilherme Rocha

    Quando vi as imagens feitas por Pedro Pinho para divulgar ‘A Nobreza do Amor’, o que mais me chamou atenção foi como o protagonismo preto aparece não só na imagem com o elenco, mas também na forma como os personagens são apresentados e caracterizados. Depois, as imagens do desfile durante a Rio Fashion Week só reforçaram este impacto. 

    Ambientada nos anos 1920, a novela mistura uma fábula afro-brasileira com referências de diferentes culturas africanas e do Nordeste. Assinado por Marie Salles, o figurino é parte central dessa construção, resultado de uma pesquisa extensa que se traduz em peças cheias de significado.

    Fui entender melhor esse processo e, em entrevista à ffw, a figurinista compartilha detalhes dessa criação.

     

    Você cita algumas referências de pesquisa como a coroa do Benin numa declaração no release sobre o desfile no RFW, gostaria de te perguntar quais outras culturas e etnias foram pesquisadas pra compor o figurino e o que você buscava, em termos de imagem, quando começou a fazer a pesquisa?

    A primeira coisa que acho fundamental dizer é que a África é um continente extremamente múltiplo. Desde o início, tanto os autores quanto a direção tinham o desejo muito claro de mostrar uma África potente, rica, forte, complexa, com inúmeros processos estéticos, técnicos e simbólicos. Estamos falando de uma cultura visual que envolve estamparias sofisticadas, técnicas diversas, uma tradição de ourivesaria muito ampla, com muitos métodos e materiais. Então, a busca inicial da pesquisa de imagem era justamente essa: construir visualmente uma África opulenta, vibrante, que comunica poder. Isso era muito importante porque, de modo geral, ainda existe um imaginário muito recorrente de uma África associada apenas à miséria, e isso não corresponde à realidade. A África é potente, tem culturas fortíssimas e uma diversidade enorme de etnias dentro de um único continente. É uma complexidade cultural riquíssima.

    Nesse processo de pesquisa, buscamos entender os signos de poder, de riqueza e de status que pudessem nos ajudar nessa construção. Por isso, elementos como os búzios e o coral aparecem com tanta força. O búzio não é apenas decorativo, é um elemento de poder, de valor simbólico e econômico. O coral também carrega essa mesma noção. Esses signos foram sendo usados conscientemente para evidenciar poder, status e autoridade dentro da narrativa.

    Ao mesmo tempo, era importante situar isso com muito cuidado. A África está presente no Brasil através de muitas etnias diferentes, e é um continente vasto, amplo, diverso. Por isso, era essencial delimitar um território simbólico para Batanga. Dentro do conceito desenvolvido junto ao diretor artístico Gustavo Fernandes, foi definido que Batanga estaria situada na Iorubalândia, região que compreende áreas da atual Nigéria, Benin, Gana e Costa do Marfim. Essa escolha também dialoga geograficamente com a história, já que é a região africana mais próxima do Rio Grande do Norte.

    A partir dessa delimitação, a pesquisa passou a se aprofundar nas etnias desses territórios. Trabalhamos principalmente com referências da etnia iorubá, mas também com a etnia Ashanti e outras etnias estudadas ao longo do processo. Cada escolha era feita a partir do que era pertinente à dramaturgia e da necessidade de cada personagem.

    Portanto, a pesquisa não foi um levantamento genérico sobre o continente, mas um estudo cuidadoso, localizado e respeitoso, sempre guiado pela narrativa, pela ideia de potência e pela construção simbólica desse reino ficcional.

     

    Os figurinos acabam sendo uma mistura de várias culturas, ou há peças que são réplicas de alguma indumentária? Poderia exemplificar?

    Existem algumas referências diretas e réplicas, mas o processo não foi simplesmente copiar uma indumentária inteira. É importante entender uma coisa fundamental: eu não faço moda, eu faço dramaturgia. Eu trabalho a partir do texto. O texto é o que me guia, eu costumo dizer que ele é sagrado. É a partir da escrita que esses personagens existem, e os figurinos nascem para servir a esses personagens, não o contrário.

    Por exemplo, o Jendal. Ele é um homem ambicioso, invejoso, com sede de poder. Ele quer ser o rei de Batanga. E aí entra uma decisão dramatúrgica importante: se Batanga é um reino vermelho, um reino associado a Xangô, e se sua principal referência é a cidade nigeriana de Oyo, então fazia sentido que o rei e o núcleo central estivessem ligados à etnia iorubá.

    Mas o Jendal, justamente por ser uma força de ruptura e de disputa de poder, não poderia pertencer à mesma etnia. A partir disso, comecei a procurar referências que dialogassem com a personalidade dele. Foi quando cheguei aos Ashantis. Pesquisando imagens e estudos históricos, percebi que os Ashantis tinham uma relação muito forte com o ouro, uma ourivesaria extremamente elaborada, tecidos ricos, tons mais terrosos, mais ligados à terra. Era uma etnia que comunicava visualmente poder e riqueza, era tudo aquilo que o personagem precisava expressar sem uma única fala. Então, esse foi o método: buscar as etnias a partir dos personagens, e não o contrário. As escolhas visuais vinham sempre da dramaturgia e das necessidades narrativas.

    Outro exemplo claro é o da Alika, a princesa. Ela usa uma pulseira Maasai, aquela pulseira dourada, forte, marcante. Os Maasai são da África Oriental, não do mesmo território simbólico de Batanga. Mas por que essa escolha? Porque é um signo visual que todo mundo reconhece imediatamente. Os Maasai são amplamente conhecidos por seus adornos, pela força estética e simbólica dessas peças. Quando eu coloco essa pulseira na princesa, eu comunico instantaneamente que ela é uma mulher guerreira, altiva, forte. Essa leitura é captada de forma muito rápida pelo público, quase intuitivamente.

    Então, o figurino acaba sendo uma construção a partir de várias culturas africanas, mas sempre com muito critério, muito respeito e muito estudo. A gente trabalha com uma herança cultural riquíssima e aplica esses elementos de forma consciente, sem descaracterizar, sem estereotipar, e sempre a serviço dos personagens e da história.

     

    Qual o impacto que você pensou em causar quando imaginou o figurino?

    Quando eu pensei no figurino, eu queria apresentar uma África potente, rica, vibrante, uma África que muitas pessoas não estão acostumadas a ver, mas que é real. Batanga nasce dessa ideia de potência, é vermelha, quente, intensa. Ela carrega ouro, personalidade e força. Tudo nela comunica energia e presença. A intenção era que, visualmente, o público percebesse imediatamente essa intensidade.

    No caso de Barro Preto, o figurino foi pensado a partir dessa mesma lógica, mas como um núcleo oposto. Se Batanga é quente, Barro Preto é frio. Se Batanga vibra em vermelhos e dourados, Barro Preto se constrói a partir de verdes, azuis e tons mais fechados. Essas cores remetem ao mar do Nordeste, às falésias, à terra. Temos também o tom telha, que reforça essa conexão com o território.

    São mundos distintos, com atmosferas próprias. Embora muita gente fale principalmente de Batanga, Barro Preto também foi cuidadosamente pensado, e em diálogo com o universo africano da novela, justamente para que esse contraste visual fosse ainda mais potente.

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