Quem é Bia Soull? Artista lança álbum ”Pornografia Auditiva” e debate sexo na música
Em seu primeiro álbum, artista mistura gêneros, investe em storytelling e coloca o prazer feminino no centro de uma narrativa ainda pouco explorada na música brasileira.
Quem é Bia Soull? Artista lança álbum ”Pornografia Auditiva” e debate sexo na música
Em seu primeiro álbum, artista mistura gêneros, investe em storytelling e coloca o prazer feminino no centro de uma narrativa ainda pouco explorada na música brasileira.
Falar sobre sexo em 2026 não é mais, necessariamente, um gesto de ruptura, no entanto, depende muito de quem está falando. No meio da semana de moda no Rio, entre um desfile e outro, ouvi ‘‘Pornografia Auditiva’’, novo álbum de Bia Soull, e me dei conta de um desconforto antigo que eu mesma reconheço: o de raramente me ouvir como protagonista nas narrativas que têm como ponto central o sexo. E não apenas o sexo, mas o sexo de maneira explícita. Em outras palavras, a chamada putaria. Algo que os homens, no funk, já fazem há muito tempo e que mais mulheres artistas passaram a fazer nos últimos anos. Como mulher e bissexual, assim como Bia, existe sempre um ajuste fino: ou você performa para o olhar masculino, ou você se suaviza e se explica. Aqui, não.
Bia fala de fetiches, de curiosidade, de prazer, de gostar de mulheres e de homens, mas sem transformar isso em espetáculo para alguém além dela mesma. E talvez seja isso que mais desestabiliza: não é o que ela diz, é o fato de dizer a partir de um lugar que historicamente foi negado. Eu ouvi e pensei, com uma certa surpresa: por que isso ainda soa novo?
Isso ganha outra camada quando você pensa no histórico do funk – um gênero que sempre falou de sexo com naturalidade, mas quase sempre a partir de uma lógica masculina, onde o corpo da mulher é descrito, projetado e consumido. O que Bia faz em ‘‘Pornografia Auditiva’’ não é inverter esse jogo de forma óbvia, é deslocar o eixo com precisão. O desejo parte dela, o corpo responde a ela, e a narrativa não gira em torno de ser apenas desejada, mas de desejar também. E, para quem cresceu entendendo o próprio desejo muitas vezes a partir do olhar dos outros, isso não passa batido.
Talvez seja isso que “putaria” signifique em 2026 – um modo de maximizar a mensagem, na tentativa de quebrar o tabu de uma vez por todas . De Madonna à própria história do funk, a provocação por meio do sexo nunca deixou de existir. Mas, enquanto Madonna o fazia de maneira ensaiada e performática, aqui o verso é cru, quase cortante. Ouvi o álbum e, pela primeira vez em muito tempo, senti que o desejo também podia ser dito assim: direto, de maneira quase crua e, sobretudo, meu.
Confira a entrevista completa com Bia Soul abaixo:

Você pode me contar um pouco da sua história? Em que momento você começou a fazer música ou decidiu que queria fazer música?
Então, nossa, que momento. Eu venho de uma família de artistas, meus pais tinham uma banda de blues quando eu era criança. Minha mãe cantava, meu pai cantava e compunha também. Com uns 14 anos eu comecei a entender as possibilidades de fazer música e, aos 16, minha mãe e eu criamos um duo chamado Crias MC’s.
Era um duo de rap. A gente fazia rap em eventos da cidade onde morávamos, no interior do Paraná. Foi assim que comecei a entender que era possível fazer música, sabe? Mas eu fazia uma parada muito mais política.
Quando fiz 18 anos, comecei a escrever mais putaria, da minha ótica, das minhas experiências. E, com 20, decidi que queria trabalhar com isso de fato.
Você disse que a partir dos 18 anos começou a escrever nessa linha. Você se definiria como uma artista de funk? Como você se definiria?
Ai, como uma artista. Ponto. De vários gêneros. Eu gosto de fazer música, não só funk. É porque a putaria está muito mais presente no funk, né? Então é um universo onde me sinto mais confortável também. Mas não é só onde eu gosto de fazer isso. Acho interessante levar para outros estilos, porque é um assunto que pode estar em qualquer gênero, entendeu? As pessoas não conseguem compreender isso, mas é uma realidade. E eu estou fazendo um trabalho para que isso seja mais comum.
Teve algum momento específico que virou essa chavinha de começar a escrever nessa linha?
Teve a primeira música que escrevi, “iFude”, que já foi lançada. Eu tive literalmente a experiência de um entregador muito bonito e pensei: “Caralho, queria transar com ele”. E escrevi uma música sobre isso. Foi a primeira música com storytelling que fiz, que é uma parada que gosto muito e trago bastante no álbum: criar cenários para as pessoas imaginarem. Por isso o nome “Pornografia Auditiva”, porque te leva para uma cena.
Foi esse momento, esse start. Uma experiência que virou música. Eu pensei: “Nossa, isso aqui tem alguma coisa”.
Você acha que a maneira como você fala sobre sexo ainda falta na cena ou já existem outras pessoas criando assim?
Existem mulheres falando sobre sexo, principalmente mulheres trans, de uma forma mais complexa, não tão falocêntrica. Cada uma tem sua forma. Gosto muito do que a Nanda faz, trazendo uma ótica mais espiritual. Gosto do que a Ebony faz também, acho foda. O que a Valesca Popozuda faz, a MC Carol de Niterói, que também traz muito storytelling – é uma grande inspiração para mim. Tem outras pessoas fazendo, mas cada uma do seu jeito. Eu tenho um jeito muito específico, que é testar isso em outras vertentes. Não vejo muita gente fazendo isso como fiz em “Pornografia Auditiva”.
Você enxerga um conservadorismo dentro do funk hoje ou acha que está mais aberto?
Eu vejo que, apesar de não existir medo do que falar, existe um conservadorismo muito machista. Os homens não estão tão acostumados a ouvir mulheres falando sobre sexo da própria ótica. Ainda seria chocante para um MC ouvir “Malandro Touchscreen”, porque fala de um assunto delicado para eles. “Menage” também. Eu abordo outras temáticas de sexo, inclusive o prazer masculino. Ainda é chocante por uma ótica machista. Tipo: mulher falando sobre sexo, ok, mas com limites. E eu quero ultrapassar isso.
O que significa para você colocar o prazer da mulher no centro e tirar a ótica masculina da criação?
Liberdade. Liberdade poética, artística, de expressão. E necessidade também, de trazer esses assuntos. Ainda existem muitas mulheres criando com uma ótica voltada para agradar homens. Não é isso que quero fazer. É o meu prazer para me agradar, o homem é uma ferramenta para isso.
Você se limita ao escrever ou cria sem se preocupar com o que vão achar?
Muito pelo contrário. Trago minhas experiências, minha imaginação, mas também quero que as pessoas se choquem. Acho que ainda explorei pouco. Existem muitos fetiches e assuntos para explorar. Eu gosto desse burburinho, de criar discussão, porque isso também é político. Sexo é político. Falar sobre sexo é político. Trazer essas temáticas e provocar catarse é necessário.
Você percebe diferença na reação entre homens e mulheres ouvindo o álbum?
Sim. Eu sempre passei por muitos públicos: funk, rap, rolês LGBTQIA+, eletrônica. São públicos diferentes. “Pornografia Auditiva” está unindo essas galeras. As mulheres se sentem muito representadas, mas é interessante ver homens que não têm masculinidade frágil também se identificando. Recebo mensagens de caras falando que curtiram, que mandaram para a namorada. Existe um público aberto. Ainda existe conservadorismo e hate, mas tem muita gente abraçando. Principalmente mulheres bissexuais, que se identificam com o que trago.
Você tem medo de ser mal interpretada?
Eu tinha antes do lançamento. Meu medo era não ser entendida, não ter público. Agora entendi que existe um público para mim. Então não estou mais ligando tanto para o hate. Estou focando em quem está aberto para ouvir.
Como foi o processo de produção do álbum? Quanto tempo levou e como foram as escolhas?
A ideia inicial era um estudo sobre o funk, com cada faixa em uma vertente diferente. Mas percebi que isso me limitaria. Quis explorar outras sonoridades e levar o erotismo para outros gêneros. Foi um processo fluido, com muitos artistas, produtores e instrumentistas.
O Luquinhas fez a mix e master e ajudou na direção. O Carlos produziu algumas faixas. Isso ajudou a amarrar o som. Foram cerca de um ano e meio. Eu compus tudo sozinha, e gosto de escrever ouvindo beats. Foi um caminho que foi se fazendo.

A letra vinha antes ou depois da produção?
Às vezes componho a capela, mas na maioria das vezes escrevo em cima do beat. Eu pedia para os produtores: “quero algo assim”. Por exemplo, “Melaço”: pedi algo que me desse medo, para escrever sobre bruxaria e amarração amorosa. Ele fez o beat e eu escrevi.
Teve alguma faixa que te surpreendeu no processo?
Sim. “Menage”, que é mais R&B anos 2000, com referência em Destiny’s Child. “Malandro Touchscreen” foi difícil vocalmente. “Melaço” me surpreendeu porque achei que não conseguiria acompanhar o beat. E “Coração Puro”, quando ouvi o beat, chorei. Na verdade, o álbum inteiro me surpreendeu. Eu não me limitei.
Como você imagina os shows do álbum?
Depende do contratante e da estrutura. Mas, no cenário ideal, quero entregar performance.
Na Audio, por exemplo, conseguimos fazer algo completo, com visual, coreografia, direção de movimento. Quero entregar isso sempre. O álbum merece um show estruturado, tipo diva pop mesmo.
A dança faz parte essencial da performance?
Muito. Acho super importante. Queria que mais homens fizessem isso também.
Como foi construída a estética do projeto?
A Aline trabalha comigo há um tempo. Construímos juntas. A Bruna Souti fez a direção criativa da capa, que sintetiza o álbum. É uma estética dos anos 2000 futurista, com tecnologia “obsoleta” como MP3, iPod. É sexy, com elementos fetichistas, mas sem vulgaridade. Uma parada fashion.
Essa estética vai continuar durante a divulgação?
Sim, é uma prioridade. Moda é expressão e complementa o álbum. Vamos seguir explorando isso durante toda a era.
Vocês têm planos para videoclipes?
Sim. Quero muito fazer de “Melaço”, porque foi central na estética. E provavelmente “Malandro Touchscreen” também.
Você tem medo de ser reduzida a uma artista explícita?
Não. Eu faço isso de forma tão bem construída que não me incomoda. Talvez no futuro não seja o foco, mas agora é. Só não quero ser reduzida a artista de funk. Não sou só isso.
Para quem é o álbum? Quem deveria escutar?
Pergunta difícil. Quero que pessoas que desejam viver sua liberdade sexual, mas têm medo, escutem. Que isso ajude a mudar algo nelas. É sobre entender que está tudo bem falar e sentir isso. Não existe nada mais humano do que ter desejo. Quero que o álbum encontre pessoas que querem se libertar da culpa.