Duas vezes por ano, Paris desacelera o ritmo frenético da indústria para dar lugar a um evento que funciona quase como uma cerimônia cultural: a Semana de Alta Costura. Muito além de desfiles, ela é um sistema próprio, com regras rígidas, tradição centenária e um nível de excelência artesanal que não existe em nenhum outro ponto do calendário de moda.
Diferente das fashion weeks de prêt-à-porter, a Haute Couture é regulamentada pela Chambre Syndicale de la Haute Couture. No entanto, apenas casas aprovadas podem desfilar oficialmente, entre elas nomes históricos como Chanel, Dior e Schiaparelli. Além de designers convidados e membros correspondentes como Giambattista Valli, Elie Saab, Zuhair Murad e Valentino (este falecido em janeiro deste ano).
Ademais, para receber o título de alta-costura, as peças precisam ser sob medida, à mão, com equipes de ateliê em Paris e técnicas artesanais específicas. É moda no seu nível mais técnico, artístico e raro.
Grandiosidade que vai além
Mas a grandiosidade não está só nas roupas. A própria estrutura da semana é única. Os desfiles acontecem em salões históricos, hotéis particulares, museus e sedes das maisons. Ademais, os convites são limitados, e o público conta com clientes de altíssimo padrão, imprensa especializada, embaixadores das marcas e figuras cuidadosamente escolhidas.

“A Haute Couture não responde à lógica da pressa ou da tendência imediata”, explica a consultora de moda e PR Pamela Ferreira, que possui grande experiência em semanas de moda. Inclusive, foi ela quem levou Bia do Brás à sua primeira experiência na Semana de Moda de Paris. “Ela responde ao tempo longo, ao gesto humano, ao silêncio do ateliê”. É esse ritmo diferente que faz da semana um espaço onde a moda se aproxima da arte, da escultura e da memória.
Entretando, nos bastidores, o trabalho é minucioso. Profissionais como Pamela atuam conectando personalidades às maisons de forma estratégica. “Não se trata apenas de estar presente, mas de entender qual marca conversa com aquela pessoa, qual história está sendo contada ali”. Cada aparição carrega mensagem, posicionamento e relação de longo prazo.
Seleção da primeira fileira
Outro aspecto central é o conhecimento. Antes de ocupar uma primeira fila, muitos convidados passam por uma verdadeira imersão na história e nos códigos das casas. “Sem compreender o savoir-faire, não existe pertencimento real”, afirma Pamela. Na alta costura, saber é tão importante quanto vestir.
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Mesmo sendo um território tradicional, a semana também revela mudanças sutis: mais foco na emoção do que no espetáculo. Mais atenção ao corpo real e uma abertura gradual para novas narrativas. Ainda é um universo fechado, mas já começa a ouvir outras vozes.