Da lingerie à casa: o universo romântico cinematográfico da Kardi
Criada por Anna Peron e sua mãe, Paula, a marca independente transforma referências vintage, cinema e memória em peças que vão da roupa íntima ao vestuário e, agora, à casa.
Da lingerie à casa: o universo romântico cinematográfico da Kardi
Criada por Anna Peron e sua mãe, Paula, a marca independente transforma referências vintage, cinema e memória em peças que vão da roupa íntima ao vestuário e, agora, à casa.
Criada em 2024 pela designer Anna Peron e pela mãe dela, Paula Peron, a Kardi nasceu criando roupas, mas foi a partir de sua segunda coleção, focada na lingerie, que a designer encontrou o DNA de sua marca. A partir de então, expandiu esse universo romântico de rendas e bordados, com referências ao cinema, à fotografia e à estética vintage para vestidos e outras peças de roupa. Recentemente, lançou também uma linha de casa.
Operando de forma independente com poucas peças prontas e outras sob encomenda, tudo vendido online, a Kardi desenvolve coleções em pequenas cápsulas, aposta em projetos sob medida e criou uma comunidade que acompanha a expansão desse universo para além da própria roupa.
Em conversa com a FFW, Anna fala sobre a construção da marca, a parceria com a mãe e o desafio de fazer moda independente no Brasil.
Confira a entrevista completa abaixo:
Em que ano a Kardi foi fundada e onde ela nasceu?
A Kardi foi fundada em 2024, nascida diretamente do meu coração. Quase no término da faculdade, decidi estudar e criar uma marca que conversasse com um universo de metalinguagem, onde ela beberia de fontes como o cinema, a fotografia e as artes no geral. De maneira séria agora, ela surgiu no meu quarto, no Paraná, quando eu tive a realização de que gostaria de transformar peças de roupa em algo que conversasse com a minha ideia de arte.
Em que momento vocês (Anna e mãe) perceberam que essa vontade de criar poderia se transformar em uma marca?
A partir do momento em que unimos nossos talentos. Eu cresci praticamente dentro de uma fábrica e sempre tive apreço pelo mundo da moda. Fiz faculdade de Design de Moda, mas costumo brincar que minha mãe foi minha faculdade.
Eu trouxe a ideia de algo atual e significativo no viés da marca, e minha mãe trouxe todo o know-how e desenvolvimento para isso ser possível. Ela é minha maior apoiadora e, juntas, desenvolvemos a maior parte das peças, de forma muito independente.
Qual foi a primeira peça da Kardi?
A primeira peça da Kardi já foi uma coleção inteira (risos) chamada Catharsis. Vou colocar uma peça significativa, que denomina toda a identidade da marca/coleção piloto, que foi um vestido preto longo com decote biquíni e costas abertas. Eu imaginei essa coleção como um grande figurino para um filme noir dos anos 1950/60.
Por que começar pela lingerie? O que a lingerie permitia expressar que outras roupas talvez não permitissem naquele momento?

A lingerie foi algo muito espontâneo. No meio de 2025, decidimos não fazer uma coleção de inverno, mas trazer algo íntimo para a mulher, levando a marca cada vez mais para o universo ultrafeminino que temos. Eu e minha mãe, conversando, tivemos a ideia de roupas íntimas. Eu, Anna, comecei a pesquisar dentro do universo vintage algo que seria um denominador muito único para a Kardi: a calcinha e o sutiã de elástico de cetim, que parecem ter saído do guarda-roupa dos anos 60.
Eu nunca encontrei algo tão nostálgico e confortável para o corpo feminino até desenvolver as peças Intimates. Acho que aí veio uma motivação, mas posso dizer que, junto com a ideia das peças, veio o desejo de comunicar momentos femininos dentro da intimidade, seja a conversa entre mulheres, estar no banheiro juntas, a intensidade dos sentimentos ou momentos na cama. Assim, pude criar um produto autoral e desenvolver ainda mais do que isso, criando uma comunidade de mulheres que veem para além dos produtos, mas também apreciam o significado por trás deles.
O nome Kardi faz referência às cartas. Como essa ideia surgiu e por que ela traduz a essência da marca?
Surgiu justamente pela ideia de ser um projeto artístico que comunica vários ideais, que valoriza revisitar os elementos do vintage, por isso a carta. É como se nossa marca fosse chegando às pessoas através de um envelope todo selado, e dentro dele houvesse um mundo inteiro para mergulhar.
A Kardi fala muito sobre memória, nostalgia e feminilidade. Como esses conceitos aparecem de forma prática no processo criativo?

O meu processo criativo vem realmente do consumo de mídias antigas, principalmente dos filmes. Eu vivo uma vida mais analógica e adoro me inspirar em vestimentas antigas, mas sempre com um olhar moderno. É como se eu quisesse criar algo atemporal, em que não se sabe de que ano vem, mas cuja qualidade, acabamento e design vêm do ideal contemporâneo da mulher consumidora.
A escolha dos tecidos é um exemplo prático: pensar na Kardi é pensar em rendas artesanais vintage, cetins com toque de seda e tricoline de algodão, que remetem a tecidos usados há muito tempo no guarda-roupa feminino. A nostalgia me persegue desde pequena, então decidi compartilhá-la com o mundo. Mesmo não tendo vivido nos tempos que me inspiram, observo uma geração carente de referenciais, então sou superadepta do estudo sociológico do passado como inspiração.
O que vocês gostariam que alguém sentisse ao vestir uma peça da marca?
Creio que um abraço! Eu adoro a criação de mulher para mulher e acredito encontrar pessoas que realmente sentem falta de um design feminino. Eu crio peças que são confortáveis e únicas dentro do guarda-roupa. Gostaria que as clientes sentissem também a versatilidade: um sutiã pode ser usado à noite para sair, uma blusa mais “pijama” se encaixa no dia a dia, e assim vai.
Como nasce uma coleção? Das modelagens à escolha de tecidos, rendas e materiais.

Uma coleção da Kardi normalmente complementa a outra, dentro da nossa identidade. Eu, possivelmente, lanço cápsulas a cada dois ou três meses, em que a coleção anterior pode ser usada com a nova. É um grande roteiro sem fim, em que vou adaptando e criando dentro de um único universo.
Eu desenho já pensando em qual tecido vou querer, busco ir às lojas para sentir o toque e escolher as cores. É um processo dinâmico e mutável. Nem sempre a ideia inicial é válida, mas vamos desenvolvendo a partir de peças-base e buscando peças que componham a coleção. A modelagem inicial é feita por mim e pela minha mãe, quando fazemos a peça-piloto e vemos o que mantemos e o que mudamos. É um processo minucioso e demanda estudos ergométricos. Eu sou responsável pela escolha de todos os materiais e normalmente já sei onde encontrar o que está na minha mente, hehehe.
Em que momento vocês entenderam que a marca poderia ir além do vestir, agora com a primeira peça de uma linha para a casa?
A partir do momento em que vimos que o universo íntimo da Kardi pode encontrar vários cômodos de uma casa. Eu valorizo muito o ambiente interno. A maioria das fotografias da Kardi é feita em casas legais, então pensei: é válido ampliar os cômodos das clientes e apresentar um produto personalizado que demarca a individualidade.
Eu pensei em hotéis que trazem o bordado em travesseiros durante a estadia das pessoas e tive a ideia de levar isso para o ambiente do lar, onde a pessoa pode se sentir abraçada por algo DELA, com o nome cravado para sempre em uma peça única. A Kardi conversa muito com o ritual do sono, tendo roupas que são desenvolvidas para isso. Por que não compor a cama inteira?
O lançamento das fronhas parece ampliar esse universo íntimo da marca. Qual foi a ideia por trás dessa coleção?
Eu pensei em hotéis que trazem o bordado em travesseiros durante a estadia das pessoas e tive a ideia de levar isso para o ambiente do lar, onde a pessoa pode se sentir abraçada por algo DELA, com o nome cravado para sempre em uma peça única. A Kardi conversa muito com o ritual do sono, tendo roupas que são desenvolvidas para isso. Por que não compor a cama inteira?
A nécessaire nasce como um complemento, sendo uma miniatura da fronha. E as peças em tricoline são pijamas versáteis!
Quem é o consumidor da Kardi? Existe um perfil específico de cliente ou vocês preferem não limitar quem veste a marca?
O consumidor da Kardi é majoritariamente feminino, sendo 99%. Os outros 1% são homens, seja alguém que compõe a vida de uma mulher ou alguém que admira o universo e se encontra nele.
Eu não limito a marca de maneira alguma. Abraçamos qualquer tipo de cliente. Um grande exemplo foram clientes em gestação, que se identificaram com a marca e adaptamos algumas peças para atender ao corpo feminino durante esse período. Somos um projeto artístico aberto a todo tipo de público!
Como surgiu o projeto Custom Made e a frente Bride? Explique mais sobre essas duas vertentes da marca.
O projeto Custom Made nasceu de demandas de stylists que admiram o universo da marca e querem trazer o potencial artístico e criativo para algo autoral e creditado a uma só pessoa. Eu, Anna, amo criar e adoro trabalhar em conjunto! A partir de algumas demandas de pessoas especiais do mundo da moda, decidi abrir para o público o projeto Custom, onde qualquer ideia pode ser executada.
A frente Bride nasce, mais uma vez, de demandas! O público tem grande voz na marca e adoramos ouvir as necessidades do público feminino. Creio que, pelos tons, identidade e materiais da marca, noivas se sentiram atraídas a criar conosco, o que foi muito especial para nós. É como se as mulheres sentissem confiança na marca para vários eventos da vida: seja um casamento com o Bride, uma festa com o Custom, as lingeries para a gravidez e assim vai.
Acho que ambos os projetos dentro da marca nasceram da nossa escuta do público, que procura cada vez mais autenticidade e uma peça “única”.
Quantas pessoas fazem parte da equipe atualmente?
Quando chamo o projeto de independente, ele realmente é. À frente da criação e dos primeiros processos estamos eu e minha mãe. Logo após vêm as costureiras, que trabalham de casa e em um ritmo saudável. Os bordados são feitos por um casal que tem uma máquina industrial.
Todo o processo da Kardi que não é feito pelas fundadoras é terceirizado, justamente porque minha mãe trabalha como chefe de produção de private label, onde encontrar fornecedores de confiança e qualidade faz parte do trabalho dela.
Quais são os maiores desafios de construir uma marca autoral no Brasil hoje? O que vocês acreditam que ainda falta para a moda brasileira valorizar mais marcas independentes?

Acho que o maior desafio é realmente o low budget, mas isso não é um problema se a marca tem o combustível de ideias e vontade de ser única. Pensando em como competimos com grandes marcas que conseguem baratear a produção, fazer campanhas imensas e ter um marketing direcionado para encontrar o público, ficamos do outro lado, onde o orgânico e a recompra são o nosso objetivo.
A Kardi cresceu após a linha Intimates e fico muito feliz por ser lembrada constantemente por pessoas que reconhecem os produtos. Acredito que a valorização nasce, primeiramente, da comunidade, dos famosos “eu estive aqui desde o começo”. Claro que ser descoberta e atingir o máximo de pessoas possível é o nosso objetivo, como o de todos que têm um negócio, mas acredito na fidelização de pessoas que valorizam o processo independente e autoral. Não criamos coisas saturadas no mercado; acredito que a assimilação dos produtos também seja um desafio.
Mais um desafio que eu, Anna, enxergo para os projetos independentes é não ter um ambiente físico. Eu valorizo muito a troca humana e o toque, por exemplo, dos tecidos. Acredito que as pessoas confiam mais em coisas visualmente disponíveis.
A moda brasileira carece de jovens talentos, que começam com um sonho e uns trocados de dinheiro. Seria legal haver esse acolhimento, como a FFW está fazendo comigo, para que a personalidade, o processo criativo e a troca humana que existem por trás do criador da marca sejam expostos. Nós consumimos produtos, mas amamos consumir histórias! Grandes marcas são grandes justamente por terem uma história. Nós estamos construindo a nossa e procuramos constantemente locais onde possamos mostrá-la.
Quais são os próximos passos da Kardi? Existem categorias ou projetos que vocês sonham desenvolver?
Os próximos passos da Kardi são sempre melhorar e criar coisas legais. Conforme vamos crescendo, conseguimos trazer uma diversidade maior de designs, tecidos mais diferenciados, peças mais conceituadas e uma variedade maior de produtos.
Creio que algo constante e em crescimento na marca sempre serão as lingeries. As minhas ideias para a marca são gigantes. Agora ampliamos para produtos de casa, então, sendo um projeto artístico, queremos caminhar para diversos tipos de design.
Um projeto com que sonho desde o começo é uma pop-up da Kardi em São Paulo, onde poderíamos ter um espaço vivo do que somos, estar frente a frente com o cliente e levar a identidade da marca para além do produto final, proporcionando uma entrada para o nosso universo, que está em constante ampliação.