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    Entrevista Amapô: “Ou você tem sensibilidade ou vai fazer outra coisa da vida”
    Entrevista Amapô: “Ou você tem sensibilidade ou vai fazer outra coisa da vida”
    POR Redação

    Carô Gold e Pitty Taliani, da Amapô ©Sarah Lee

    Continuando nossa série de entrevistões com personagens da moda brasileira (relembre as matérias com Jack Vartanian, Neon, Juliana Jabour e Têca), Carô Gold e Pitty Taliani, estilistas da Amapô, gentilmente receberam o FFW em seu atelier no Bom Retiro, em São Paulo, para uma conversa franca sobre moda, negócios e vocação. Leia abaixo:

    Como vocês se conheceram e como começou a marca?

    Carô: Eu nem sei muito bem; eu fazia produção de figurino, e a Pitty fazia camisetas. Mas a gente se identificou com o jeito de se vestir, mais ou menos assim.

    Pitty: A gente se conheceu na casa do Dudu [Bertholini].

    Carô: E eu estava nessas andanças de figurinista na rua 25 [de março] e achei uma loja de tecidos mega antigos, super 80, umas estampas absurdas, e falei: ‘Nossa, Pitty, achei uns tecidos incríveis, vamos fazer roupa!’. E ela: ‘Ah, vamos!’. Daí a gente começou. Não tem uma grande história.

    Pitty: Não foi nada sonhado, nada pensado. Em nenhum momento foi assim: ‘Vamos fazer uma marca de roupa?’. A gente não teve essa conversa, o negócio foi acontecendo naturalmente sem querer. Como é o que acontece com tudo na nossa vida mesmo; a gente nunca senta e para e traça objetivos, é tudo natural.

    Carô: A primeira coleção assinando Amapô que a gente fez foi pra loja Fuxique, da Aninha Strumpf, com uns tecidos antigos da Formatex. Na época existia o HotSpot, que era uma plataforma super legal [este ano o HotSpot foi reformulado e relançado; saiba tudo aqui], e a gente já quis fazer desfile, fomos lá e apresentamos o projeto. A Amapô começou com desfile; foi a primeira coisa que fizemos. Depois é que fomos ver se a gente queria fazer roupinha pra vender ou não. Então a gente tinha a Amapô, fazia desfile, mas eu continuava trabalhando como figurinista e a Pitty continuou fazendo as coisas dela. Demorou uns três anos até a gente decidir ‘vamos fazer mesmo’.

    Como uma das poucas marcas sobreviventes da sua geração: por que é tão difícil se manter no mercado de moda?

    Pitty: São vários fatores.

    Carô: Olha, eu não sei te dizer o que é complicado; eu sei te dizer por que a gente conseguiu sobreviver. Talvez a Pitty não fique feliz com o que eu vou falar agora, mas ela tem uma família que trabalha no ramo da confecção há muitos anos (são donos da marca Vício). Sempre recebemos muito respaldo da família dela, muita ajuda, estrutural e de ensinamento. Muito do que a gente segurou a onda foi por causa da família dela, porque tivemos ajuda do pai, da mãe, da família inteira que para uma semana antes do desfile e a empresa inteira vira Amapô… E também tem a minha família, que não tem nada a ver com moda, mas sempre nos apoiaram muito.

    Pitty: Tinha isso, mas mais do que tudo, eram pessoas que estavam ao nosso lado o tempo inteiro, acreditando na gente.

    Carô: A gente teve facilidades muito práticas, do tipo: ‘Ah, a nossa produção é pequena, mas estão fazendo a produção da Vício, então encaixa a da Amapô aí no meio’. Isso é uma coisa que é muito difícil pra quem não tem essa facilidade, porque você não consegue mão de obra pra fazer a sua roupa. Hoje em dia a gente já está mais independente, mas no começo, se não tivesse isso, eu não sei como seria, porque é… é uma bosta. Você não consegue fazer produção pequena, não consegue comprar tecido, não consegue nada. E a gente foi indo nos braços da Vício. Então esse é um dos motivos pelos quais a gente conseguiu sobreviver.

    Pitty: Já pensamos várias vezes em desistir. Do mesmo jeito que a gente fica sonhando várias vezes, acho que é natural. Porque na boa, a gente não ganha dinheiro, a gente consegue sobreviver, mas as coisas não sobram, sabe?

    Carô: A impressão que eu tenho é que o negócio de moda, pra ele começar e dar certo, tem que ter um investimento inicial muito grande. Não dá pra ser que nem a gente que fica achando: ‘Vamos começar, vamos fazer desfile, que legal, vamos fazer mais um; aí vendeu um pouquinho, ah que legal; aí não vendeu nada, ai que merda. Aí vendeu mais um pouco, legal, aí vendeu mais um pouco… aí não vendeu nada’. Você tem que ter o capital de giro, o investimento — é o que eu sinto que, comercialmente, falta pra gente. Precisava ter uma granona pra falar ‘vamos abrir uma loja com investimento de marketing, um baita estoque, uma coleção incrível, um preço bacana. Estamos vivendo isso muito forte agora, essa busca do que seria melhor fazer pra tentar continuar o negócio.

    Assista ao primeiro desfile da Amapô, no Amni Hot Spot:

    Vocês já pensaram em se associar a um grande grupo?

    Carô: Não pensamos muito nisso não.

    Pitty: Quer dizer, a gente não sabe, na verdade… Isso é meio relativo. É claro que se alguém bater na minha porta e falar ‘eu quero investir no seu negócio’, é maravilhoso, quem não quer isso? É exatamente o que falta pra gente.

    Carô: Eu tenho um pouco de medo dessa coisa de vender a marca.

    Pitty: Talvez esse tipo de coisa não caiba muito na Amapô, a gente não sabe, nunca tivemos uma proposta.

    Carô: O meu ideal de vida seria assim: tenho uma amiga bem rica que fala ‘vou fazer um investimento’. Eu quero uma sócia, que seja que nem eu, mas que tenha o dinheiro.

    Pitty: A verdade é que como nunca aconteceu, a gente não sabe. Ficamos presas, não sabemos fazer outra coisa além do que a gente faz. Vamos fazendo do jeitinho que sabemos fazer, devagarzinho, uma coisinha aqui, outra ali, mas nada muito concreto, que tenha um resultado, que venda mesmo.

    Como funciona a estruturação da marca? Quem faz o quê?

    Carô: Eu sou mais responsável pela parte administrativa e contabilidade, e a Pitty é mais responsável pela parte de produção da roupa.

    Pitty: A gente é 100% envolvida, mesmo porque a empresa é bem pequena. Precisamos saber o que está acontecendo em todos os lugares.

    Vocês sentem que estão melhorando comercialmente?

    Carô e Pitty: Não.

    Carô: A gente está estacionado há muito tempo. Essa ilusão da grande venda de atacado não acontece. Já tive muita esperança, já investimos muito: showroom pequeno, showroom grande, showroom de graça, showroom pagando, showroom pagando muito — já fizemos de tudo e eu percebi que não é assim. Hoje em dia tenho o meu ponto de venda em São Paulo que é a Surface to Air, que é uma loja que tem mais conceito, que tem a preocupação de apresentar o produto ao cliente, e temos, vamos dizer assim, mais cinco ‘Surfaces’ pelo Brasil. Porque são clientes que compram bonitinho, mas compram sempre a mesma coisa, mas… não cresce. Não consigo ter mais clientes.

    E quanto ao mercado internacional? Vocês exportavam, por que não deu certo?

    Carô: A nossa experiência com exportação foi o seguinte: claro que era num momento em que o dólar estava mais favorável, mas mesmo assim a nossa roupa fica cara e, principalmente, a gente não tem controle de qualidade pra exportar. Tivemos muito problema com defeitos, coisa que aqui passa batido, e pra exportar não dá, porque eles verificam tudo, principalmente no jeans. Agora está completamente impraticável por conta do dólar, é muito caro. Não vale a pena, é muito trabalho pra nada. Já fiz um mostruário inteiro pro Japão, porque ela falava ‘eu adoro a sua coleção comercial daqui, mas eu queria um pouco mais de loucura’. Aí falei ‘puta, agora vai ser DEMAIS!’. Aí fiz os desenhos, mandei pra ela, ela aprovava tudo, fiz o mostruário inteiro, e não deu certo. O custo é muito alto.

    Pitty: Se você não tem uma estrutura pra segurar a onda… não dá. A gente chegava a fazer várias coleções só por conta da exportação, nunca parava de produzir, o tempo inteiro, não tem jeito. Ficamos meio com preguiça também. A gente acabava trabalhando muito com um retorno que não justificava, aí você desencana mesmo.

    Há uma diferença muito grande entre o que é desfilado e o que chega à lojas?

    Carô: Na nossa marca tem. Há um bom tempo a gente já resolveu isso bem resolvidinho na nossa cabeça que o desfile é o momento em que vamos nos divertir e fazer o que queremos sem nos preocupar com vendas. Aqui no Brasil o desfile é uma coisa e a venda é completamente outra. Não adianta você fazer um desfile de um milhão de reais, que você não vai vender um milhão de reais. Você tem que fazer um desfile de um milhão de reais e ter mais um milhão pra investir na ação de venda do seu produto. Estamos entre os 10 desfiles mais elogiados das temporadas, mas não adianta.

    Desfile Amapô no SPFW Inverno 2012 ©Zé Takahashi / Agência Fotosite

    Vocês sempre acompanham as críticas dos seus desfiles?

    Carô: Claro!

    Pitty: A gente lê. Os críticos de moda também precisam de espaços novos, é como a gente. As coisas têm que evoluir. Mas a gente lê, aprendemos muito, rimos muito. Achamos piada na maioria das vezes. Porque uma coisa é fato: se você não está dentro da minha cabeça, ou se não está fazendo parte de alguma maneira disso, você nunca vai saber o que eu realmente quero dizer com aquilo. E fazer uma crítica de moda depois de sair de um desfile, pra escrever sobre uma coisa que você acabou de ver, depois de já ter visto 10 outros desfiles… sei lá, eu acho fora do normal. Porque o que a gente faz é produto? É produto, mas é arte. Não tem como você falar disso sem ter uma absorção.

    Carô: Cada vez estamos menos preocupadas em explicar o que fazemos. Tem gente que olha e fala ‘ai, desfile de moda, não tem nada a ver com arte’, mas foda-se, mas pra mim é. É o momento em que eu faço qualquer coisa que eu quero, que nem acredito que aquilo vai dar certo, e dá; me divirto, me relaciono com os meus modelistas, fico aqui enfurnada, é maravilhoso pra gente, é o momento da vida em que a gente se diverte. É muito difícil explicar por que fizemos um vestido daquele jeito. Eu vi outro dia um documentário do [Oscar] Niemeyer, e ele falou uma coisa sensacional: ‘Explicar o que você está fazendo é a coisa mais medíocre que existe. Por que eu fiz a coluna assim? Não tem explicação. E eu tive que explicar pra jornalista e me senti um medíocre, porque não tem mesmo’. E é essa a sensação, quando vem alguém me entrevistar e pergunta: ‘Qual é o tema, por que você fez assim?’. Por quê? Não tem explicação.

    Pitty: Ou você tem sensibilidade nessa vida ou você não tem, e vai fazer outra coisa. O sentimento é inexplicável, e o que estamos fazendo tem muito sentimento, muita vontade. Nosso processo criativo é um pouco diferente. Algumas vezes a gente até já se surpreendeu com pessoas, e quando acontece isso é muito legal, tipo ‘nossa, consegui tocar alguém, ela realmente entendeu’. Mas mesmo quem entendeu dessa vez pode não entender da próxima. E os críticos no Brasil, eu tenho a impressão de que vai muito do gosto pessoal. E aí fica difícil. Você, que está criticando o meu desfile, tem 50 anos de idade. Eu não faço roupa pra você, e nem tenho a pretensão de fazer. Eu gostaria que você respeitasse o meu trabalho, porque estou trabalhando do mesmo jeito que você e que todo mundo. Batalhando, às vezes até muito mais, porque dentro do SPFW a gente é a marca que tem menos estrutura, menos grana mesmo, e conseguimos ter um desfile à altura de muitos outros. E tem crítico de moda que vê coisas… até a trilha sonora ele põe outra! Cara, você não estava no meu desfile! A trilha não era essa. Como é que você está falando de uma coisa que não era? Isso é preguiça total.

    O primeiro desfile da Amapô no SPFW, na temporada Inverno 2008 ©Agência Fotosite

    Vocês duas são da opinião de que moda é arte?

    Carô: Sim!

    Pitty: É um tipo de arte, sim.

    Carô: A moda comercial é registro de comportamento, de momento econômico, cultural, a moda que surge da rua. Mas acho que as pessoas perderam um pouco a consciência da moda cultural. E a moda arte é quando ela é levada a um patamar de apreciação, de questionamento. Se você pegar uma roupa do Alexander McQueen de perto, você vai entender que é arte. E eu nem gosto muito do McQueen, mas outro dia vi o livro dele e chorei. É de matar. O desfile do Margiela. É arte! É uma expressão artística! Fui à exposição do Margiela, e eu chorava! Como você vai falar que aquilo não é arte? É arte sim. Tem tudo dentro da roupa: tem arquitetura, engenharia, harmonia, cor, é muito estudo pra fazer a roupa. A gente se relaciona com esse tipo de emoção. Não é a toa que não conseguimos nos desenvolver comercialmente (risos). Porque estamos muito mais ligadas nesse outro lado. É um equilíbrio complicado. Não cabe a mim, cabe a uma outra pessoa que ainda vai chegar e resolver isso pra mim. Enquanto isso a gente vai levando.

    Vocês disseram que já pensaram em desistir; se um dia vocês fossem mesmo parar, pra que áreas iriam?

    Pitty: A gente não para porque não sabemos fazer outra coisa. Eu não sei fazer outra coisa. Não consigo nem pensar no que fazer.

    Carô: O primeiro pensamento mais pessimista seria começar a procurar emprego em outra empresa de moda – o que eu tenho pavor, porque nunca fui funcionária em outra empresa. Em segundo lugar, acho que faria alguma coisa relacionada a comida.

    Pitty: Acho que a gente iria se juntar pra fazer um restaurante. Uma coisa é fato: chegamos num ponto, eu e Carô, que somos uma pessoa só. O mecanismo é o mesmo, estamos dentro de uma única máquina.

    Carô: E agora a gente virou família – a gente já era, mas agora aumentou [referindo-se à filha Safira].

    Pitty: E essa coisa de “a gente já pensou em parar”… já pensamos em parar porque é muito difícil. A gente fica lutando, lutando, lutando, e chega no final do mês, e não tem nada..

    Carô: Mas é bem assim, a gente reclama, reclama, reclama, daí fica em silêncio, e uma que tá no computador vira uma pra outra e fala: “Nossa, olha esse jeans!” (risos).

    Pitty: É mais uma piada. Assim como já tivemos brigas de falar “ferrou, não tem mais jeito”. Daí no dia seguinte ficam as duas vendo quem vai falar primeiro, dar um abraço, dizer que quer esquecer o que aconteceu. Apesar de tudo a gente se diverte todos os dias, e não tem outro lugar onde eu queria estar. O lugar que eu mais me sinto bem é aqui dentro com a Carô. É uma segurando a onda da outra, e fica tudo certo. E agora a gente tem a Safira.

    Carô: Que vem todo dia.

    Pitty: Encara nosso trabalho como extensão da nossa vida. Passo mais tempo com a Carô do que com meu pai, minha mãe, meu irmão. É o nosso mundo. Respeitamos muito o que conseguimos e temos muito orgulho de pensar que pouca gente conseguiu segurar a onda.

    Carô: Quando eu fazia figurino, ganhava muito dinheiro; eu era muito rica (risos). Fazia figurino para publicidade e ganhava uma puta grana. Só que não tinha nada de criativo. Hoje em dia tem até umas horas que está apertado e eu penso: “Que saco, por que eu não continuei sendo figurinista?”. Aí faço um esforço e lembro que eu odiava.

    Pitty: Não dá mesmo. Aqui, hoje em dia, as coisas estão calmas, mas tem horas que saímos daqui à meia-noite, não queremos deixar pra amanhã, porque gostamos, não conseguimos abrir mão disso. Não conseguimos ser essas pessoas que bate as 18h e vai embora.

    + amapo.com.br

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