
ROSENBAUM E O REDESENHO DO BRASIL
Nós da ffwMag! adoramos design. Em números anteriores, publicamos reportagens e ensaios visuais de grandes nomes como Jeroen Verhoeven; uma seleção de talentosos designers na edição Holanda; uma revista inteira dedicada à questão artesanal x tecnológico; e um material sobre Design for the other 90%, o impressionante projeto que viabiliza soluções para aqueles que mais precisam de ajuda no mundo. Mas tudo isso era somente um aquecimento para essa ffwMag! que você lê agora. Finalmente, temos a oportunidade e o espaço necessários para defendermos aquilo que sempre repetimos quando esse é o assunto. Para nós, o design não é apenas a cadeira, o abajur, o objeto em si. Design é, acima de tudo, um “redesenho”, uma nova maneira de reconstruir o mundo – e, assim, claro, torná-lo mais bonito, acessível e, especialmente, mais justo.
Ninguém no Brasil seria melhor para transformar essa nossa defesa em uma revista inteira do que Marcelo Rosenbaum. Talentoso como poucos, o designer, que começou no mundo da moda, é hoje um grande agregador. Usando sua fama vinda da televisão a favor de seus projetos sociais, Rosenbaum vem fazendo história com iniciativas como o A Gente Transforma, um projeto que conecta o Brasil às suas técnicas mais antigas e, assim, cria um novo caminho para nosso design. Esse homem polivalente não hesitou em aceitar nossa proposta em ser uma espécie de editor convidado dessa edição. Rosenbaum não só sugeriu grande parte dos temas, ele também nos inspirou muito com sua energia contagiante. Quando a equipe da revista o encontrou pela primeira vez, ele de cara lançou o norte da revista:
“No Brasil, somos privilegiados. A solução de nossos problemas está aqui mesmo. Já temos uma cultura incrível, multifacetada, repleta de técnicas únicas. Só precisamos catalisar esse potencial.”
Olhar para nós mesmos. Assim como fizeram os modernistas na Semana de 1922; como fazem os africanos de Moçambique em uma de nossas matérias; como pregou com tamanha persistência uma de nossas homenageadas, a designer Janete Costa, defensora do artesanato brasileiro como elemento principal de nossa decoração; e como fez Geovani Melo, o ex-traficante Cabelo, ao olhar com novos olhos para sua própria vida.
Entretanto, para nós, olhar para dentro não necessariamente é nos ater ao próprio umbigo. É tratar o Brasil muito além do que apenas um país. Podemos ser (e caminhamos para isso) um novo modelo para o mundo. E foi pensando para além de nossas proporções continentais que refletimos sobre nós mesmo olhando também para fora. Alguns exemplos disso: o pesquisador português Frederico Duarte nos responde com propriedade questões fundamentais sobre nosso design; os ingleses Azusa Murakami e Alexander Groves analisam a cidade de São Paulo de uma maneira que nativo nenhum seria capaz; o colorido tropical do pessoal do Populardelujo nos lembra como é divertido ser latino-americano; e o pensamento pioneiro do Food Design transforma nossa relação com a comida (temos certeza que, após conhecer esse projeto, você nunca mais vai ver um pãozinho da mesma maneira).
Mas, antes de você começar a desfrutar esta edição, queremos retomar a ideia de Rosenbaum que também é a nossa: a de que design é mudança de vida. Pense com carinho nos dados da Associação Brasileira de Designers de Interiores. O mercado brasileiro de decoração movimenta 60 bilhões de reais por ano. Já o de artesanato, 57. Estamos falando de mais de 100 bilhões de reais anuais (sim, você leu certo!). Esse número fica ainda mais grandioso se pensarmos que, por trás de tantos zeros, há milhares de brasileiros.
Paulo Borges
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