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    Estilista Vittor Sinistra trabalha a saúde mental LGBTQIA+ em suas peças

    Como forma de terapia, o servidor público do SUS faz da moda ato de representatividade e identificação lidando com os próprios estigmas

    Por Gabriel Fusari

    No último ano, diversos artistas surgiram com trabalhos que discutem sobre o lugar do indivíduo na sociedade. Um desses artistas é Vittor Sinistra, estilista de 31 anos, morador de Samambaia, periferia do Distrito Federal. Atualmente ele cria para a marca homônima, onde remete criativamente ao universo que surge a partir do contato com as emoções, traumas e lembranças de sua infância e o cotidiano de seu trabalho. Ele criou a marca no início da pandemia, como forma de se desoprimir do forte impacto que trás do seu trabalho no SUS (Sistema Único de Saúde). 

    Desde 2009, Vittor atua na Secretaria de Saúde no Distrito Federal, onde promove diversos trabalhos de inclusão sobre a psique humana.  “Durante a pandemia, eu tive depressão e síndrome do pânico. Para quem é da área da saúde, esse momento está sendo desesperador. Então minha melhor forma de respirar foi seguir o meu fluxo intuitivo, que é o fluxo da moda e da criação”, comenta.

    Quando criança, Vittor observava sua mãe produzir croquis que vendia para as costureiras do bairro. A influência materna na infância foi o primeiro passo para ele entrar no universo da moda. De 2017 até o ano passado, quando decidiu focar sua produção de sua marca, Vittor criava camisetas com ilustrações feitas à mão, com etiqueta Janela do Infinito. A ideia era referenciar a história cultural de Brasília com uma estética tropical. 

    Hoje, com a Vittor Sinistra, o foco são moletons, máscaras e luvas, em que ele explora formas, texturas e materiais no intuito de impactar visualmente os papéis sociais, apresentando monstros. Muitas dessas referências, como os espinhos recheados de pelúcia que estão presentes em quase todos seus moletons, são relacionadas ao seu passado quando lidava com a auto-aceitação.“Por enfrentar a homofobia dos lugares que eu frequentava, como trabalho, ambientes familiares, eu percebo que acabei me tornando alguém espinhento, sempre na defensiva. Esses espinhos nas roupas simbolizam a defesa contra os maus olhares da rua”, explica.   Por isso, ele atribui a “monstros” o nome de suas produções, em relação a uma ressignificação de como ele se sentia pelo tratamento que recebia por querer se vestir como se quer num ambiente conservador. 

    “Por enfrentar a homofobia dos lugares que eu frequentava, como trabalho, ambientes familiares, eu percebo que acabei me tornando alguém espinhento, sempre na defensiva. Esses espinhos nas roupas simbolizam a defesa contra os maus olhares da rua”

    Entretanto, não apenas as tristezas pessoais que movem sua criação. O estilista vê a moda como identidade e auto validação, como se a forma de usar uma peça fizesse do corpo uma arma política de posicionamento social depois de viver uma heteronormatividade até aos 21 anos, fingindo ser quem não era “fazer essas criações hoje é como fazer justiça a minha história, por tudo que perdi por não poder ser quem eu era”.

    Entre suas maiores referências da indústria pop, ele cita Lady Gaga, que descreve ter sido fundamental para seu autoconhecimento. Além dela, aponta estilistas brasileiros como Leandro Benites, Fernando Cozendey e Igor Dadona, pela dramaticidade, cor e liberdade dos corpos não padronizados. 

    Hoje a marca tem produção em pequena escala por ser o único que toma conta de todo o processo de produção da peça. Por ser independente, Vittor Sinistra não tem investidores e se dedica desde a criação até a venda final, incluindo publicações em redes sociais. O foco especial é no Instagram, onde são explicadas as referências criativas, o processo de criação e a conversa com sua comunidade. “Meu propósito com a marca e as redes sociais é o mesmo. Eu quero me comunicar com as pessoas que enfrentam desafios parecidos com o meu. Por terem seus corpos ridicularizados e serem reprimidas pelos padrões”, conclui. 

    A sua nova coleção chamada Round 1 é inspirada na cultura de Ballroom mesclado com o universo dos X-Men. São 16 peças feitas com moletom flanelado e restos de tecido coletados de outras produções. A escolha da referência é pela história dos super-heróis serem frequentemente associados à comunidade LGBT pelo desafio da aceitação social que passam por serem vistos como diferentes na sociedade.  “Pessoas LGBTQIA+ são verdadeiros heróis e heroínes, precisamos ter uma super força pra agüentar discriminação física e psicológica. Saber manusear instrumentos de luta é necessário para conseguir passar nossa mensagem na esperança de que o amor supere as diferenças”, justifica. 

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