Há 500 anos, quando os portugueses por aqui chegaram, os índios deram a primeira pista de que a nova terra era cheia de graça. Os coloridos tomavam os corpos, as paisagens e as mentes monocromáticas dos europeus –, com todo o brilho dourado e prateado a que se tinha direito.
O Brasil entrava na rota dos curiosos e, claro, dos exploradores. Daqui saíram toneladas de ouro, pedras preciosas, madeira nobre e tantas matérias-primas indispensáveis para corar dos rostos às roupas das damas da corte. Desde que a natureza, marotamente, desviou Cabral das Índias, o País de medidas continentais virou morada de gente criativa e inspirada. E a acolhida quente que deixou o lusitano desarmado, deu na inevitável miscigenação. O índio não se importou de perder riquezas nem terras; de dividir a comida ou a água; de ensinar o riso fácil e puro.

Gilberto Freyre, que fez da sociologia uma extensão antropológica do pensamento humano, atribuiu a animação do povo brasileiro ao rebolado coordenado do negro africano, raptado da sua pátria e obrigado a viver a um oceano de distância. “Foi ainda o negro quem animou a vida doméstica do brasileiro de sua maior alegria. (…) Ele que deu alegria aos são-joões de engenho; que animou os bumbas-meu-boi, os cavalos-marinhos, os carnavais, as festas de Reis.”

Talvez esta alegria genuinamente tupiniquim venha mesmo dessa mistura de costumes, da pimenta somada ao cravo, a banana e a canela, traduzida nos festejos populares, nas arquibancadas dos coliseus modernos e nas passarelas da moda recheadas destas histórias pescadas em meio à herança cultural e contextualizadas em enormes jardins de cataventos. Seria o País das Maravilhas, mas a pequena Alice nada tinha desta sapeques brasiliana, dedilhada por grafismos multicoloridos e sem tantos psicodelismos. Anima acabou alçado ao tema da 29ª edição do SPFW, cujos corredores foram tingidos de expressões arcaicas e paradoxalmente contemporâneas, assinados por artistas dos blocos soteropolitanos do Ilê-Aiyê, Cortejo Afro, Timbalada e Museu do Ritmo.
