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    Entre a lei e o feed: por trás da estética da inocência em tempos digitais

    De Kim Kardashian a Virginia Fonseca, o que as influenciadoras vestem mira não apenas o tribunal, mas as audiências das redes.

    Entre a lei e o feed: por trás da estética da inocência em tempos digitais

    De Kim Kardashian a Virginia Fonseca, o que as influenciadoras vestem mira não apenas o tribunal, mas as audiências das redes.

    POR Carolina Vasone

    “Roupa é só algo que você veste para cobrir o corpo. Moda é o que você usa para se comunicar.” A frase do estilista Dries Van Noten é certeira quando pensamos na repercussão do que Virginia Fonseca vestiu na última terça (13.05) ao depor na CPI das Bets no Senado, em Brasília. O look da influenciadora mostra que moda que comunica não é apenas a das passarelas. Uma roupa que poderia servir para ir à padaria pode, conforme o contexto, não só comunicar, mas também direcionar o olhar da opinião pública. E servir de estratégia de marketing digital. 

    Usar a roupa para moldar a percepção dos outros é um recurso antigo, inclusive nos tribunais (ainda que a CPI não seja um deles). Filmes e documentários mostram advogados orientando suas clientes a vestirem-se para rebater visualmente acusações. No mesmo dia de Virginia, em Paris, Kim Kardashian comunicou reputação e poder ao usar um look preto Dior, óculos escuros e joias caras, ao depor sobre o assalto milionário que sofreu.

    Não por acaso, usar a roupa como ferramenta para afirmar inocência – moral e legal – recai mais frequentemente sobre mulheres, mas também é utilizada por homens, como mostrou A$AP Rocky nos tribunais em fevereiro. No caso da brasileira, o visual com moletom estampado com o rosto da filha celebridade, óculos simples, cabelo solto e garrafa rosa transmite a mesma imagem cotidiana de “gente como a gente” que ela compartilha nos seus stories. A mensagem parece clara: quem mantém o visual “real” diante dos poderosos não pode ser culpada de algo grave. O alvo são os senadores, mas não apenas eles. Para quem fala para uma população de 53 milhões de pessoas no ecossistema de influência que se tornou o Instagram, há interesses maiores em jogo. Tudo o que ela faz fora das fronteiras de seu território digital é calculado para engajar e alimentar a audiência das redes – afinal, é esse jogo que traz o retorno financeiro, mesmo que seja vendendo sonhos e promessas suspeitas. Nesse cenário, até uma CPI pode ser convertida em conteúdo. E o depoimento, transformado num grande reality show. Ou numa grande publi.

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