Num momento que é mais importante ter do que ser, o looksmaxing faz a gente repensar sobre esses limites. Em Simulacros e Simulação, obra de 1981 de Jean Baudrillard, o autor e filósofo francês ressalta que o corpo é esse último estágio de interferência do consumismo, isso lá nos anos 1980. Mal sabíamos o que nos aguardava nos anos 2020.
Maxilar marcado, bochechas fincadas, olhar cerrado. Lembra um mix de super-herói com mangá, de lutador de videogame com imagens criadas por inteligência artificial. Esse novo ideal de beleza é obsessão entre garotos e também homens, e foi parar nas passarelas de Nova York e Milão, inclusive na estreia de Demna na Gucci.
A moda vê como estética
Clavicular, criador de conteúdo que fez fama na rede ao lado, desfilou na NYFW, e vale mencionar que ele foi, inclusive, preso recentemente na Flórida em março, acusado de agressão. Bryan Johnson, o bilionário que tenta manter a juventude eterna, na passarela da Matières Fécales, é outro exemplo que deu as caras na última temporada de desfiles. Em comum entre eles, essa valorização do hiper-masculinizado.
Farmar a aura?
Para conquistar a auramaxxing, há até gadgets: silicones para fazer exercícios diários que tratam o rosto como músculo. Se a dismorfia feminina se dá em uma silhueta ultra frágil e magérrima, logo se vê nos homens o outro extremo como equivalente: rostos harmonizados, músculos, virilidade, costas largas… tudo milimetricamente torneado. Em poucos momentos, esbarramos com uma hegemonia que flerta até com alguns ideais supremacistas, o que deixa tudo ainda mais perigoso e controverso.
Mas e no mundo real?
Se, em pesquisas anônimas que saem aos montes, o homem contemporâneo se sente mais fragilizado, deslocado e incomodado, isso é escondido por trás de uma imagem em constante construção e intimidadora. O que antes era limitado aos personagens de videogame passou a ser um perfil a ser conquistado através de trocas em fóruns incel e, agora, se tornou estética que a moda flerta em acolher. Afinal, a Gen Z está aí, nos seus 30 anos — e é nesse bolso que a moda quer pôr a mão.