Doji: app inofensivo causa sentimentos mistos
Entenda o burburinho em torno do app.
Doji: app inofensivo causa sentimentos mistos
Entenda o burburinho em torno do app.
“Compras de moda personalizadas: crie uma versão sua em IA, experimente produtos reais de luxo, explore novos looks e compre os seus favoritos”, é assim que o Doji se apresenta. E talvez nenhuma descrição traduzisse tão bem o momento atual da moda: consumo, avatar e desejo operando quase como a mesma coisa. O aplicativo tem inundado meus stories, feed e até o explorar. A premissa é simples: você envia seis fotos em diferentes ângulos do rosto e duas de corpo. Em poucos minutos, nasce uma versão sua pronta para viver um closet infinito de luxo algorítmico.
Instalei há pouco mais de uma semana para entender os mecanismos desse aplicativo que materializa tanto o imaginário de patricinha de Beverly Hills quanto o desejo quase universal de quem ama moda: experimentar um acervo sem fim das mais desejadas marcas e designers do mundo, sem limite financeiro e com infinitas possibilidades de styling. Confesso que, depois de pedir para criarem alguns looks, fiquei um tanto inseguro – e me lembrei do quanto sou básico.
O app
No Doji, a imagem é muito 2026: sobreposições, modelagens amplas, truques de styling que supostamente criam personalidade, mas que, aos poucos, você percebe que uniformizam. Se durante anos nos venderam a ideia de que estilo pessoal era assinatura, identidade, quase uma construção filosófica de si… talvez isso fosse um pouco convencido mesmo. Agora, essa ideia começa a ruir diante de um feed em que todo mundo parece estilizado pela mesma mente.

Claro, existe a opção de escolher as peças manualmente e montar seus próprios looks. Mas foi aí que percebi que meu incômodo talvez não viesse dos looks criados em segundos, e sim da aparência. Baixei o aplicativo esperando pensar sobre estilo, e acabei chegando em outro lugar: disforia. Risos. Parece exagero, mas conversei com alguns amigos e a sensação era parecida.
Distorção de imagem
“Sim, distorceram minha imagem e eu achei uma bad vibe. Eu nunca tinha me visto tão magra, é meio irreconhecível. O que mais me impressionou foi o povo comentando que eu estava linda, aceitando aquilo como verdade. Eu até pensei em deletar o post, mas fiquei até 4 da manhã montando aqueles looks e resolvi deixar [risos]. Mas, falando sério, é uma grande afronta mudar o corpo da pessoa e tornar ela esquelética. Achei uma parte problemática do software”, me disse a artista visual Gabriella Garcia.
O designer Zineu Simionato apontou algo que também percebi: “Afina o rosto, deixa mais quadrado, deixa até meio simétrico, parece que espelha um lado. Confesso que, na época que eu fiz, até fiquei: ‘nossa, podia ser assim, né? Hahahahaha’.” Já Daniel Kalleb respondeu “adorei o seu novo rosto” quando compartilhei um avatar perguntando quem estava usando. O comentário confirma exatamente essa sensação de distorção exagerada, como se, para a moda, ainda existisse apenas uma única silhueta aceitável. Algo que, ironicamente, voltou a ser discutido justamente agora.
Provador virtual

“Eu tô amando o fato de poder ‘provar’, mesmo que online, peças que são de difícil acesso e ver como ficariam em mim. Também experimentei looks que acho que nunca teria pensado em usar aqui fora. Não amo muito quando a IA dá uma bugada no caimento da roupa e parece que eu tomei muito Mounjaro, porque a cabeça fica grande e o corpo mini”, acrescentou a criadora de conteúdo Sophia Fuke.
No final, os sentimentos são mistos. E talvez seja justamente aí que mora a questão mais interessante: a IA provoca desconforto não apenas pela sua essência artificial, mas por perpetuar silenciosamente prompts que já operam como regra estética. Mesmo enviando fotos reais do seu corpo, no Doji você invariavelmente aparece mais magro, mais simétrico e, de alguma forma, mais “padronizado”. Como se o algoritmo ainda acreditasse que existe um único ideal possível de imagem.
Em tempo, o aplicativo teve um investimento de 14 milhões de dólares e as peças ali disponíveis podem ser adquiridas no mundo real, ou seja, um intermédio entre marcas e o consumidor. O bom e velho provador.

E outro bom ponto, algumas marcas brasileiras já estão disponíveis por ali: Marina Bitu, Misci, Piet, Dendezeiro e Ventana. Mercadologicamente Doji é bem interessante justamente por nos dar a oportunidade de também conhecer novos criadores, uma vitrine que espero amplificar nomes recém chegados. Vamos acompanhar.
