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    Como o funk tornou-se a mistura que traduz o Brasil hoje
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    Como o funk tornou-se a mistura que traduz o Brasil hoje
    POR Augusto Mariotti

    Por Apolinário*, especial para o FFW

    Do Oiapoque ao Chuí, somos miscigenados. Das pardas peles indígenas, passando pela cadência africana até chegar à onipresença asiática – tudo claro, diluído, historicamente, pela prepotência europeia. Terra fértil e cheia de “oportunidades”, na crença de que “Deus é brasileiro” um profuso contingente de refugiados e imigrantes contribuiu para a nossa estrutura de cultura.

    Somos uma miscelânia cultural que hoje abriga cerca de 1.847.274 imigrantes regulares, segundo estatísticas da polícia federal atualizadas em março de 2015. Conforme a classificação adotada pela instituição, esse total engloba imigrantes “permanentes”, “temporários”, “provisórios”, “fronteiriços”, “refugiados” e “asilados”. É um grande número, mas que constitui apenas uma pequena parcela do conjunto global de imigrantes. Este alcançou o patamar dos 250 milhões em 2013.

    No Brasil, está aumentando de forma consistente o número de imigrantes, e que, em sua maioria, têm tomado as zonas periféricas. Dessa integração cultural nascem, de forma pulverizada, novas maneiras de leitura do espaço, novas nuances culinárias e rítmicas.

    Autêntico, o brasileiro é um grito de guerra em coro. Sejam as rendas aportugesadas das mineiras ou até as apimentadas e suculentas comidas baianas com o toque da história das senzalas africanas. Somos seres mutantes e mutáveis, como diria Ben Jor, “e bonitos por natureza”.

    A moda brasileira aos poucos tem fugido dos estrangeirismos e se voltado às nossas raízes. Olhando para dentro e traduzindo da forma mais cosmopolita e contemporânea nossas bases estéticas. Algo que podemos ver da moda à música: basta olhar a coleção de Inverno 2016 de Fernanda Yamamoto, desfilada no último SPFW, por exemplo. A designer traduziu a paleta de cores áridas do sertão paraibano em matéria-prima confeccionada por 77 rendeiras do coletivo Cunhã, responsável pelas rendas renascença, técnica aplicada em peças mais amplas, o que deu ao desfile um tom abrasileirado oriental.

    https://www.youtube.com/watch?v=CQqo0PoUTTU

    Na coluna desta semana, vamos invadir as periferias, assumir que somos cruzamento de tudo e desta combinação dada pelo jeitinho brasileiro, dialeticamente, criamos novas formas de ler o coloquial. Encabeçado pelo batuque afro do samba até chegar aos suntuosos carros de som do tecnobrega direcionados pelo acaloradíssimo funk. Uma homenagem à cultura nacional, visando entender melhor como adequação e apropriação são palavras distantes.

    Com raízes fincadas em solo brasileiro, o samba, na época do Brasil Colonial, teve seu início com a chegada da mão de obra escrava em nosso País. O primeiro samba gravado no Brasil foi “Pelo Telefone“, no ano de 1917, cantado por Bahiano – a letra deste samba foi escrita por Mauro de Almeida e Donga. Influenciado pelo maxixe e pelo lundu na Bahia, cantando a realidade periférica, de forma amena e bem humorada, no Rio de Janeiro e entre os paulistas, o samba ganha uma conotação de mistura de raças. Com influência italiana, as letras são mais elaboradas e o sotaque dos bairros de trabalhadores ganha espaço no estilo.

    Nascido da mistura do balanço do “Miami Bass” americano e da efervescência dos bailes no Rio de Janeiro no início dos anos 70, o funk – que deixou de ser carioca – tornou-se a representação mais fiel da adequação cultural no Brasil. Misturado ao samba, ao reggae, ao pop, eletro, dancehall e tecnobrega, a quente base 4×4 ganhou novas modulações. De forma acelerada, o funk saiu da zona litôranea carioca, desceu o morro, subiu a serra e chegou ao litoral paulista “ostentando”.

    Com milhões de vizualizações no Youtube, o funk paulista – diferenciando-se do funk carioca pela lírica – viralizou no início de 2010. Mc Guimé, Mc Daleste, Nego do Borel e uma vasta lista de MCs, cantavam uma “realidade” inspirada nos rappers americanos. Vestido da cabeca aos pés com cordoões de ouro dentro de carrões caríssimos, assim o funk ostentação era lido pelas lentes de Kondzilla. Veja abaixo:

    https://www.youtube.com/watch?v=IoK1K75fj2E

    Após a “supervalorização” do funk ostentação, o ritmo tornou-se mais acessível, chegando às massa, na voz de Anitta. “Prepara, agora é a hora”, coreografado e chiclete, o tamborzão-step da carioca, abriu portas para o funk em mídias pouco desbravadas, como a televisão.

    Rapidamente o funk bling-bling ficou pop e logo deixou de inspirar-se na música anglo saxônica. Saiu da costa leste americana, e desembarcou nas belas areias da América Central com o funketon (fato que é dado – em parte – pela imigração da colônia de haitianos, nos últimos anos).

    Misturando reggaeton – mescla de ritmos como dancehall jamaicano e as sonoridades de Porto Rico, como salsa – ao funk, o novo gênero não é de todo uma novidade, pois o precursor do movimento, MC Papo, lançou Piriguete em 2006. Mas o ritmo só ganhou visibilidade com a música “Água na Boca”, da MC Tati Zaki, produzida por DJ Perera que, hoje, tem mais de 26 milhões de visualizações no Youtube.

    Inspirado pela guitarrada nordestina, no Pará despontavam os primeiros tamborzões misturados à tecnomelody nas produções de DJ Lorran. Transpondo as barreiras demográficas, Lorran produziu para inúmeros MCs em todo o Brasil.

    Misturando o pagodão baiano, samba-rock, ragga e kuduro, a rasteirinha entra no status quo de “menos é mais”. Desacelerando o famoso tamborzão, a estrutura minimalista e cheia de cadência, fez do ritmo uma nova opção para a produção do funk, maestrada por produtores como DJ Sidney Souza e o gênio DJ Rd da NH, que popularizou o ritmo com “Quero Bunda”, interpretado pelo MC Tipocki.

    https://soundcloud.com/apjmusic-1/50-cent-tropical

    Nós, Nação Brasileira, somos uma mistura sem começo, meio ou fim – e o funk, ultimamente, é a tradução desse cromossomo cultural tupiniquim. Avançando as barreiras e os limitadores – salvo diversos adendos líricos e contextuais – o funk transpõe toda a genialidade de simbiose e adaptação do brasileiro: temos o poder de autenticidade, apenas por ter nascido nessa grande efusão geográfica humana. Somos de tudo um pouco e do pouco fazemos muito.

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    * Apolinário, artista plástico e pesquisador, aprendeu a maior parte de seus “skills” na Box1824, onde trabalhou. Ele existe em todos os espaços do mundo online e offline – mais do que humano, ele é um vírus.

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