O desfile d’O Estilista para o inverno 2010 não é desses que se deglute em 15 minutos, apesar do teor comercial de muitas de suas peças _principalmente a alfaiataria masculina cheia de bossa, desconstruída, em que se vê a ação do tempo, um dos elementos fundamentais desta coleção.
Como inspiração, Marcelo Sommer olha para o movimento neoprimitivista, que propõe uma volta ao natural, ao estado selvagem (rewilding), à essência do homem, distanciado das estruturas sociais, das tecnologias e quiçá das entediantes picuinhas da vida moderna. Pesquise na Internet o evento Firefly Gathering (que rolou nos EUA no ano passado) e o trabalho do jovem fotógrafo Lucas Floglia para entender melhor a referencia (vale a pena).
Esteticamente, os neoprimitivistas têm como cores de escolha o preto e o verde, daí que o estilista decidiu retinturar com elas e com muitos cinzas diversas peças-ícones de sua trajetória (não é viagem sua o déjà-vu que rolou para muita gente durante o melancólico desfile).
Ao colocar seus amigos para sinceramente desequilibrar-se ao caminhar sobre um chão de pedras de carvão, Marcelo Sommer aciona tanto o revivalismo anos 90 que toma conta da moda quanto propõe um olhar sobre seus clássicos, tendo o clássico como “uma obra de gerações”, que resiste à ação do tempo (olha ele aí).
Quer o novo? Ele também aparece no melhor Marcelo Sommer pop das deliciosas estampas digitais de animais selvagens que certamente vão provocar correria à pequena mas necessária loja do Alto Jardins onde O Estilista exercita sua resiliência.
Mais uma vez Marcelo Sommer faz um desfile alegórico, sob a sensível direção de Alberto Renault _maestro de outros históricos momentos desta trajetória_, com curiosas gravatas / acessórios de cordas no pescoço. A vida não é mesmo fácil pra ninguém; 2009 não deixa o mundo mentir.
A pegada da coleção é meio grunge, com muita sobreposição, xadrezes e coturnos, em que o masculino outra vez se sobressai nesta alfaitaria de fato com proporções acertadas que no corpo dos Amigos ganha verdade, depois de passar por processos de beneficiamento que a eles dão cara de usados.
Entre os materiais, destacam-se além de lãs e flanelas, os couros de jacaré e de cobra, nos ultradesejáveis looks de Ana Claudia Michels (foto 14), Fabia Bercsek (outra teimosa do line-up; foto 28) e Dudu Bertholini (foto 29). E os trabalhos artesanais dos tricozões em calças, capas, casacos e vestidos.
Como os companheiros D’O Estilista, os anarcoprimitivistas andam em bando, valorizando a vida em comunidade, desde sempre um dos segredos para lutar no mundo animal.
Neste SPFW que trata de Internet, comunicação, conectividade, Marcelo Sommer mostra outros tipos de interrelação, mas para muitos críticos se mostra por demais auto-referente, cifrado. Para seus fãs, entretanto, está tudo aqui.
Cenografia: Pier Balestrieri
Direção de casting: Marcelo Maia
Direção de desfile: Alberto Renault
Produção exectuiva: Claudio Santana
Stylist: David Pollak
Make up & hair: Robert Estevão
Trilha sonora: Paulo Bega