Os desfiles das coleções de resort deixaram há muito tempo de ocupar um lugar “intermediário” dentro do calendário da moda. Hoje, qualquer lançamento de uma grande maison parece precisar carregar um peso conceitual quase definitivo, especialmente num momento em que cada movimento das marcas se transforma imediatamente em objeto de análise, discussão e expectativa. E a Louis Vuitton ocupa um lugar muito específico nesse olimpo contemporâneo do luxo.
A coleção foi apresentada na The Frick Collection, tradicional instituição dedicada à arte do Renascimento ao século XIX, mas é a arte de Keith Haring, artista crucial da cena urbana de arte nova-iorquina, e o desejo de capturar um espírito noturno da cidade nos anos 80 que a Nicolas Ghesquière foca. Para embalar tudo isso, a trilha com Peaches, ícone da cena electroclash que marcou profundamente as pistas nos anos 2000. Essa obsessão pela vida noturna, frequentemente apontada como enfraquecida ou em crise, continua surgindo como objeto constante de desejo, pesquisa e comportamento dentro da moda.
Para além do foco atual do luxo no cliente norte-americano, existe um contexto pessoal que amarra bem essa apresentação. Ghesquière tinha apenas 18 anos quando visitou Nova York pela primeira vez, em 1989, enquanto trabalhava como assistente de Jean Paul Gaultier. Em entrevistas antes do desfile, relembrou o loft na Lafayette Street onde ficou hospedado, jantares no lendário Florent e até uma festa na casa do artista Francesco Clemente, onde nomes como Helmut Newton e Iman circulavam livremente. Quase como se essa coleção tentasse revisitar não apenas uma cidade, mas também a memória de um momento específico de descoberta, excesso e fascínio.
Mas diferente de outros criadores que tentam transformar nostalgia em melancolia, Ghesquière parece genuinamente interessado em diversão. E talvez isso fique mais evidente justamente não nas roupas, mas nos acessórios. É ali que mora grande parte da graça do desfile – e o que sustenta a Louis Vuitton. As versões estruturadas brincando com efeito pop art, meio 2D, por exemplo, ou as já desejadas bolsas em formato de luvas de boxe – nessa ele realmente nocauteou, desculpem o trocadilho inevitável.
Mas o raciocínio parece até bastante simples: dentro de uma casa centenária reconhecida justamente pelos acessórios, talvez faça mais sentido apostar em peças altamente reconhecíveis, quase absurdas, one of a kind, tratadas como objetos de coleção.
As microssaias, as modelagens boxy, o patchwork e certas proporções deslocadas continuam sendo elementos profundamente ligados ao vocabulário de Ghesquière. Os elementos gráficos da obra de Haring também ajudam a deixar tudo mais pop. Se em temporadas recentes ele parecia excessivamente conceitual, aqui as roupas surgem mais compreensíveis, mais diretas e até usáveis. Talvez porque, no meio de tantas coleções tentando parecer intelectualmente importantes, exista algo refrescante em simplesmente querer provocar encantamento.