Quando pensamos em Gucci, é inevitável reconhecer: a casa sempre a casa sempre flertou com os excessos. Na era de Tom Ford, era sexy demais, chic demais, sofisticada demais. Sob Alessandro Michele, tornou-se cerebral demais, ornamentada demais, excessiva demais. A Gucci é, em essência, sempre demais. Com Demna, o novo diretor criativo, não seria diferente: ele invariavelmente empurra tudo um passo além.
O desfile que marca oficialmente sua estreia pode ser definido pelo excesso. Demna continua a investigar aquele ideal de ser e parecer, tentar e pertencer, fingir até que se torne realidade. Está nas esculturas romanas do cenário, na passarela que simula mármore, e sobretudo na Gucci não como marca, mas como arquétipo.
Em vez de olhar para os nomes cinematográficos que a casa italiana historicamente celebra e se orgulha de ter vestido, ele volta o olhar para os clientes que a moda costuma tentar ocultar: aspirantes a influenciadores, joagdores de futebol, modelos que flertam com a estética do OnlyFans, peruas, indivíduos que talvez desconheçam o legado da Gucci, mas reconhecem perfeitamente seu valor como símbolo de status. É desconfortável para alguns – e justamente por isso eficaz.
A moda que por décadas virou as costas para seus aspirantes agora é confrontada por Demna. Num momento em que o luxo é posto em xeque, em que o tão celebrado artesanal é questionado, ele parece insinuar: tudo isso é, em alguma medida, uma encenação. Mas não há ingenuidade nesse gesto.
O desfile começa com os pés na porta e, pouco a pouco, torna-se mais contido. Se no início vemos vestidos colados, leggings de lycra, saltos peep toe de verniz e modelos ultramusculosos com o abdômen marcado como superfície de exibição, no bloco final emergem ironias mais sutis, mais polidas. É como se ele contemplasse a imagem construída por Carine Roitfeld, Mario Testino e Tom Ford nos anos 1990… e esboçasse um sorriso enviesado.
Entre o vulgar e o aspiracional, surgem imagens de forte impacto: o vestido dourado desfilado por Alex Consani é tipo uau. No encerramento, Kate Moss, a mesma que foi rosto, corpo e espírito da Gucci na era Ford, com a tanga fio dental verdadeiramente icônica com o logo da casa escapando por um decote revelador nas costas.
Os paralelos históricos são evidentes. Nos anos 1990, a Gucci também enfrentava um momento financeiro crítico, à beira da falência. Mas Tom Ford não operava sob o signo da ironia. Quase quatro décadas depois, Demna se encontra em posição semelhante; e faz sentido que queira emular aquele capítulo. Resta saber se o humor peculiar com que cria e expõe sua visão para a maior marca italiana do luxo vai ser tão sedutor quando seus antecessores.
E você, o que achou da coleção e da proposta da Gucci?