“Eu sempre vou me sentir como um turista em Paris”, disse Jonathan Anderson a Bella Freud, em uma entrevista que antecedeu a apresentação de inverno 2026/2027 na capital francesa. Tendo o Jardim de Tuileries como cenário, ele nos mostrou mais um capítulo da história que vem escrevendo, um em que todos os elementos franceses se encontram na Dior.
É um olhar um tanto romantizado, talvez até demais, mas há uma beleza que o acompanha. É como se ele observasse tudo de fora, ainda que esteja, de certa forma, completamente inserido. Em outro momento, solta: “Esse momento em que as pessoas se arrumavam para caminhar pelas ruas”. Pode soar óbvio, mas houve um tempo em que ir à cidade era um acontecimento que exigia a mesma pompa de uma festa.
O primeiro bloco traz uma série de volumes: como se ele pegasse vestidos de Maria Antonieta e os reduzisse, transformando-os em pequenas saias. Ele, que adora ampliar, agora vem pela subtração. As vitórias-régias posicionadas ao lado do cenário aparecem também nos sapatos; mimetizam o jardim, acessórios que são quase um souvenir.
A Dior, que compartilha esse imaginário quase turístico, tornou-se essa loja de lembranças da qual queremos levar algo para recordar Paris. Não à toa, Maria Grazia Chiuri lançou brincos em formato da Torre Eiffel e bolsas com o mapa da cidade. Jonathan, porém, opta por outros elementos, mais gráficos e divertidos, como as cadeiras em tom de verde característico espalhadas pelo Jardim de Tuileries.
Nos jeans, bordados que remetem a candelabros; nos robes, paisleys que falam desse lado decorativista e curioso que a França importou e incorporou à sua estética há séculos. Em um momento tão incerto, o trabalho de Anderson funciona como um lembrete desses anos de ouro, dessa exaltação que ainda recai sobre o ideal francês de beleza e elegância.
Ele também dá o seu jeito de desconstruir: algumas peças surgem desabadas, inacabadas, fragmentadas, criando um contraponto e nos lembrando de seus próprios códigos. Se na alta-costura ele referenciou John Galliano e Raf Simons, aqui começa a revelar com mais clareza o seu olhar… e a maneira como enxerga a maison.