Semanas antes do desfile, Jonathan Anderson convidou John Galliano para ver, em primeira mão, sua coleção de estreia na alta-costura. O estilista que comandou a Dior entre 1996 e 2011 foi uma avalanche criativa, daquelas que hoje arrancariam comentários caricatos do tipo “Dior deve estar se revirando no túmulo”. Era chocante, e absurdo.
Jonathan e John são dois rebeldes. Um extrovertido, o outro introvertido, mas conectados pelo mesmo combustível: a mudança. Todo criador sonha com a alta-costura, esse território quase sagrado onde sonhos ganham forma e os limites simplesmente não existem.
As flores, tão emblemáticas na história da Dior, reaparecem. Mas não são rosas românticas. São exóticas, pendem em tassels, viram orquídeas, flor-de-jade, flor-morcego… espécies quase alienígenas. Chegam ainda embebidas num perfume oriental, território que Galliano explorou tantas vezes ao longo de sua trajetória na Maison.
Os longos evocam silhuetas bem “John”, mas Jonathan depura, amplia e redesenha sob seus próprios códigos. Há um futurismo nostálgico no ar, como se uma coisa não precisasse morrer para que a outra existisse. Nesse estudo intergaláctico, diferentes formas de beleza se cruzam, se misturam, dando origem a novas espécies.
Como o próprio Jonathan disse em entrevista pré-desfile, Galliano foi o rockstar de uma geração, um ícone de verdade (ainda que o termo tenha se esvaziado pelo uso excessivo). Foi uma homenagem bonita, sim. Mas, antes de tudo, uma das coleções mais fortes da alta-costura em tempos recentes.
Que, mesmo em meio à mesmice, sempre tenha alguém que ouse olhar para o novo. O novo é o antídoto. John sabia. Jonathan sabe.