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    FFW entrevista Raul Lopez, da Luar

    Com fãs como Beyoncé, Madonna e Solange, o estilista é um dos nomes mais promissores da moda atual.

    FFW entrevista Raul Lopez, da Luar

    Com fãs como Beyoncé, Madonna e Solange, o estilista é um dos nomes mais promissores da moda atual.

    POR Laura Budin

    “Construa o universo da sua marca, as pessoas virão.” Foi com essa frase repetida mais de uma vez ao longo da nossa conversa que Raul Lopez resumiu sua trajetória com a Luar e sua visão afiada sobre moda, comunidade e construção de marca. O designer dominicano esteve pela primeira vez no Brasil para participar do Summit Fashion System, evento que integrou a programação da Rio2C.

    Pelo Zoom, do quarto do hotel, entre compromissos do Summit, praias cariocas e encontros pela cidade, ele pareceu surpreendentemente energético, falante e disposto a responder tudo. Norte-americano de pais dominicanos, vindo de uma família de trabalhadores de confecção, Lopez cresceu cercado por máquinas de costura, observando a mãe, a avó e as tias transformarem tecidos em roupas e objetos do cotidiano. Autodidata, chegou a entrar escondido em aulas de moda antes de construir uma das marcas mais influentes da nova geração americana há mais de 10 anos com celebridades como Madonna, Solange Knowles, Ayo Edebiri e Lady Gaga abertamente fãs da marca e sua it bag Ana.

    Ao longo da entrevista, o premiado designer fala sobre identidade latina, apropriação cultural, negócios, criatividade e repete a ideia de que a moda não sobrevive apenas de talento durante toda a conversa. 

    Eu até tentei convencê-lo a incluir São Paulo na próxima visita ao Brasil, mas entre o frio da capital paulista e os dias ensolarados que encontrou no Rio, acho que já sabemos qual cidade ganhou essa disputa.  A seguir, confira a entrevista com Raul Lopez da Luar e leia no carrossel alguns dos principais destaques da conversa.

    FFW: Como sua trajetória na moda começou? Não necessariamente quando você decidiu estudar moda, mas sua primeira experiência com ela, seu primeiro trabalho, seu primeiro contato com roupas.

    Raul Lopez: Tenho certeza de que existem outros designers que tiveram uma experiência parecida com a minha. Quando eu era criança, minha mãe trabalhava em fábricas, minha avó trabalhava em fábricas — todo mundo trabalhava em fábricas. Sempre havia uma máquina de costura dentro de casa. Eu observava minha mãe fazendo roupas, fronhas, cortinas, todo tipo de coisa.

    Aquilo me atraía naturalmente. Meu pai trabalhava na construção civil, e eu me lembro de pensar: “Não, eu não quero fazer isso”. Estava sempre com a minha mãe. Ela costumava brincar que já sabia que eu era gay desde criança porque eu sempre queria estar perto dela.

    Isso teve um papel muito importante no meu amor pela moda. A parte da desconstrução e da construção vem do meu pai, enquanto o amor pela moda vem da minha mãe. Minhas tias, minha avó — muitas mulheres da minha família trabalharam em fábricas de confecção durante as décadas de 1960, 1970, 1980 e 1990.

    Fiquei obcecado pela ideia de que você podia pegar um pedaço de tecido plano e transformá-lo em alguma coisa. Isso me fascinava. O tecido está presente em todos os aspectos da vida cotidiana, e passei a me interessar não apenas pelas roupas em si, mas pelas pessoas: por que elas usam determinadas peças, porque escolhem um tecido específico, por que se apresentam de determinada maneira.

    Cresci cercado por mulheres latinas. Sempre havia cabelo arrumado, maquiagem, looks elaborados, glamour. Minha mãe era assim, minhas tias eram assim, as mulheres da minha vizinhança eram assim. Eu amava aquilo.

    Eu não tive uma formação tradicional. Não frequentei uma escola de moda, então minha educação veio da observação das pessoas nas ruas e das mulheres da minha família costurando. Comecei a unir esses dois universos. Eu adorava ver pessoas que viviam em bairros periféricos se produzirem com tanto cuidado e elegância. Elas queriam parecer sofisticadas e impecáveis apesar de terem muito pouco. Eu achava isso lindo: criar luxo a partir do nada, no meio de uma distopia urbana. Foi aí que nasceu meu amor pela moda.

    Mais tarde, comecei a entrar escondido na Parsons e na FIT porque não podia estudar moda formalmente. Era outra época. Aprendi sozinho, observando. Eu era apenas um adolescente fingindo que pertencia àquele ambiente.

    Lembro da primeira peça de roupa que fiz, ainda no ensino fundamental. Peguei uma calça jeans e uma camiseta branca. Cortei as pernas da calça e costurei nas mangas da camiseta. De repente, ela se transformou em uma camiseta branca com mangas de jeans preto estonado. Usei a peça na escola e todo mundo reagiu: “Uau, o que é isso?”.

    Depois disso, comecei a fazer minhas próprias roupas todos os dias. As pessoas diziam: “Ah, o Raul faz as próprias roupas”. E isso foi antes mesmo do ensino médio. Comecei a criar coisas quando tinha cerca de 11 ou 12 anos.

    FFW: Qual você considera ter sido o primeiro grande momento de virada da sua carreira? A primeira vez em que pensou: “Ok, eu consegui”.

    Raul Lopez: Houve muitos momentos. Uma coisa que as pessoas precisam entender é que se tornar designer e chegar onde estou hoje é uma jornada. Nada acontece da noite para o dia. Houve períodos, anos atrás, em que eu sentia que estava quase lá. Eu chegava perto do sucesso e então percebia que não tinha dinheiro. Isso aconteceu repetidamente. Eu estava focado em ser artista, fazer roupas e apresentar desfiles, mas não pensava no lado empresarial da moda.

    Como designers e artistas, muitas vezes somos ensinados a acreditar que dinheiro é o inimigo, que focar em negócios compromete a criatividade. Em algum momento, percebi que estava fazendo algo errado. Eu sabia que o trabalho era bom, mas faltava alguma coisa.

    Por volta de 2018 e 2019, passei por um verdadeiro esgotamento. Eu estava deprimido. Nem percebi isso de imediato porque sempre fui o tipo de pessoa que simplesmente segue em frente. Como latino, você aprende a continuar, a continuar trabalhando, sem dedicar muito tempo a pensar em terapia ou saúde mental.

    Decidi me afastar. Eu estava escondido nas Ilhas Cayman, tentando me reorganizar, e então a Covid aconteceu. Durante aquele período, voltei a desenhar. Eu me sentia bem. Voltei a me sentir inspirado. Em 2021, eu sabia que queria retornar. Dessa vez, eu entendi o que estava faltando. Eu precisava do lado empresarial. Comecei a estudar as maiores marcas do mundo. Perguntei a mim mesmo o que todas elas tinham em comum além das roupas. A resposta eram os acessórios.

    Os acessórios movem o negócio. As pessoas vão à Louis Vuitton, Prada, Fendi e outras maisons de luxo pelas bolsas. Um grupo menor compra as peças de passarela, mas são os acessórios que sustentam a empresa e permitem que ela continue contando sua história.

    Então eu criei a bolsa Ana. Em 2021, lancei a bolsa junto com o desfile, e tudo mudou. Eu estava em Paris fazendo vendas quando lançamos o produto. Esgotamos tudo em quinze minutos. Quinze minutos. Todas as bolsas desapareceram.

    Produzimos um volume considerável porque pessoas como Dua Lipa e Troye Sivan já estavam usando a peça. No dia seguinte ao desfile, stylists do mundo inteiro queriam a bolsa. Ela começou a se espalhar rapidamente. As celebridades queriam a bolsa. Todo mundo queria a bolsa. Então ela se tornou uma it bag. Foi nesse momento que tudo realmente explodiu para mim.

    FFW: Você acha que ter um produto-desejo — ou um acessório-desejo — é essencial para uma marca de moda sobreviver hoje?

    Raul Lopez: Sim e não. É uma bênção e uma maldição. Ter produtos-hero é importante porque eles ajudam a sustentar a marca. Mas, no momento em que você entra nessa categoria, precisa inovar e criar constantemente. Ganhei duas vezes o prêmio de Designer de Acessórios do Ano [do CFDA]. Estava competindo com marcas como Coach, Tory Burch, Kate Spade e outras. Ganhar uma vez foi incrível. Ganhar duas foi surreal. Já faz cerca de cinco anos desde que voltei, e as coisas continuam indo muito bem — não apenas com bolsas, mas também com acessórios, sapatos, cintos, óculos, roupas e trabalhos sob medida. Mas, no fim das contas, acho que tudo gira em torno da comunidade que você constrói. As pessoas nem sempre entendem o quanto isso é fundamental. Você precisa de pessoas que apoiem seu trabalho, que acompanhem sua trajetória e que consigam se identificar com o que você faz. Vivemos em uma época diferente. As pessoas querem se relacionar com as marcas. Muitos jovens designers se concentram apenas em criar produtos. Isso é ótimo, mas você também precisa construir um universo e uma estética dos quais as pessoas queiram fazer parte. Quando alguém compra uma bolsa de designer, está comprando acesso a um universo. É nisso que está investindo. O mesmo acontece com uma bolsa da Luar. As pessoas se reconhecem. Existe um senso de pertencimento.

    Por isso, sim, acredito que criar produtos-hero é importante. Nem precisa ser uma bolsa. Pode ser qualquer peça capaz de sustentar o seu negócio. Porque, sem sustentabilidade financeira, você não consegue continuar contando sua história. Como artista, você precisa aprender a capitalizar sobre si mesmo, em vez de permitir que os outros capitalizem sobre você.

    FFW: Você acredita que a comunidade é o que diferencia a Luar?

    Raul Lopez: Com certeza. Minha comunidade é extremamente forte. Estou aqui no Rio e meu telefone não para de tocar. As pessoas me param na rua e dizem: “Luar, eu amo o que você faz”. E, para mim, nem se trata apenas da marca em si, mas da identidade por trás dela. As pessoas se identificam com isso. Elas sentem uma conexão. E eu também sinto uma conexão com elas.

    Eu faço parte dessa comunidade. Sem ela, eu não estaria aqui. Isso é algo que muitas grandes marcas não entendem. Elas querem vender produtos para as pessoas, mas não querem que essas mesmas pessoas se sintam incluídas.

    É por isso que tantas delas estão sofrendo. É por isso que continuam trocando de designers e tentando se reinventar o tempo todo. Elas não entendem que precisam das pessoas. Você precisa fazer parte da cultura.

    Eu estou nas festas. Estou em todos os lugares. Não porque estou tentando cumprir alguma obrigação ou marcar presença, mas porque isso realmente faz parte de quem eu sou. Eu nasci dentro da comunidade e da cultura. É assim que eu vivo.

    FFW: Você acha que marcas independentes enfrentam desafios diferentes? As grandes marcas de luxo podem estar sofrendo com relevância e conexão com o público, mas ainda possuem o poder financeiro para se sustentar.

    Raul Lopez: Também precisamos levar em consideração que a maioria dos designers independentes ainda são marcas emergentes — ou, pelo menos, marcas que continuam crescendo. Eu já passei um pouco dessa fase, mas a realidade continua a mesma.

    As grandes maisons de luxo existem há mais de cem anos. É claro que elas têm mais dinheiro, estruturas maiores e uma presença global muito mais forte. Elas fazem parte da história da moda. Não dá para nos comparar diretamente.

    Pegue a Chanel como exemplo. Hoje ela é considerada o auge do luxo, mas a Chanel não nasceu como uma marca de luxo. Coco Chanel construiu esse universo. Ela era órfã. Não vinha de uma família rica. Ela entendeu como usar os recursos que tinha à disposição para construir a vida e a imagem que queria criar. O mesmo vale para tantas outras marcas. Ralph Lauren veio do Bronx e construiu uma visão inteira do luxo americano.

    É por isso que eu sempre falo sobre construção de universo. Você cria um mundo e então as pessoas querem fazer parte dele. O problema é que muitas marcas de luxo ficaram presas ao próprio legado. Elas passaram um século cercadas por riqueza e já não entendem mais o que as pessoas querem.

    Elas sobrevivem porque existe dinheiro por trás delas. Quando entram em dificuldade, alguém as compra porque o nome ainda tem valor. Mas elas perderam o ponto principal. A geração mais jovem está comprando vintage. Não necessariamente está comprando produtos novos de luxo. As marcas precisam desses consumidores mais jovens e, sem eles, eventualmente vão desaparecer. É por isso que tantas casas estão enfrentando dificuldades, trocando diretores criativos e tentando descobrir como permanecer relevantes.

    Em alguns momentos, tudo isso começa a parecer desesperado. Eu nunca paguei uma celebridade para comparecer a um dos meus desfiles. As pessoas que vão, apoiam o trabalho porque respeitam o que estamos construindo e porque se sentem conectadas a isso. É exatamente isso que muitas dessas marcas estão perdendo.

    FFW: Já que estamos falando sobre celebridades, eu queria perguntar sobre o papel delas na moda. Às vezes, uma celebridade usando uma peça sua pode ter mais impacto do que uma campanha inteira ou uma estratégia de relações públicas. Você acha que isso é positivo para uma marca?

    Raul Lopez: Sem dúvida ajuda. Quando você é um designer emergente, todo stylist quer descobrir alguém novo. Essa visibilidade pode ser incrível porque ajuda a colocar seu nome no mapa. Mas acho que muitos designers acabam ficando excessivamente focados em imprensa e em vestir celebridades. Moda é um negócio. Eu aprendi isso da maneira mais difícil.

    É por isso que sempre digo aos designers mais jovens: parem de pensar apenas em conseguir que stylists peguem suas roupas. Pensem no negócio. Pensem na estratégia. Pensem em como construir algo que realmente consiga sustentar vocês.

    FFW: Deixe-me reformular a pergunta. Eu sinto que muitas marcas independentes dependem do apoio de celebridades para crescer e fortalecer suas comunidades. E, da minha perspectiva, isso pode ser positivo porque cria uma conexão entre a audiência da marca e a audiência da celebridade. Você acha que marcas emergentes conseguem crescer sem esse apoio?

    Raul Lopez: Com certeza. Eu não precisei de celebridades. Faço isso há vinte anos. Comecei na Hood By Air e depois construí meu próprio caminho. Durante todos esses anos, meu foco sempre foi o mesmo: construir um universo. Construa o universo. Construa o universo. Construa o universo. As pessoas virão.

    E, quando as pessoas vierem, as celebridades também virão, porque vão querer fazer parte do que está acontecendo. Acho que as pessoas estão obcecadas demais por mega influenciadores e números gigantes. Honestamente, eu adoro micro influenciadores.

    Alguém com seiscentos seguidores e um estilo pessoal incrível pode ser muito mais influente do que alguém com milhões. Essa pessoa está caminhando pela cidade e criando uma linguagem visual própria. Os stylists percebem isso. As pessoas criativas percebem isso. Eventualmente, essas referências chegam à cultura das celebridades. Essas pessoas recebem crédito por isso? Nem sempre. Mas elas estão moldando a cultura.

    As celebridades são valiosas porque apresentam seu trabalho a pessoas que talvez não conheçam você. Elas possuem plataformas maiores e audiências maiores. Ao mesmo tempo, acredito que as marcas deveriam focar mais em criatividade e autenticidade. Não desenhe para o Instagram. Desenhe para construir um universo. Desenhe para criar uma estética verdadeira. Crie a partir de algo que seja genuinamente seu. Foi isso que me trouxe até aqui. Se você cria apenas para alimentar o algoritmo, talvez tenha um momento de sucesso por dois ou três meses. E depois? Isso não basta. 

    Eu faço isso há mais de uma década. Sempre digo às pessoas que são necessários pelo menos dez anos para começar a ver seu trabalho amadurecer, crescer e se tornar sustentável.

    FFW: Recentemente vimos uma ascensão muito forte da cultura latina na cultura pop. Parece que agora todo mundo quer ser latino.

    Raul Lopez: Todo mundo quer ser latino. Sinceramente, todo mundo sempre quis ser latino. A diferença é que agora rompemos essa barreira de uma forma tão significativa que as pessoas já não conseguem nos ignorar. Eu falo sobre isso há anos.

    FFW: Você acha que ser latino na moda e nas indústrias criativas se tornou uma vantagem por causa desse momento? Ou ainda existe preconceito dentro da indústria?

    Raul Lopez: Para mim, essa é uma resposta complicada. Só de olhar para mim, eu não me encaixo na imagem tradicional do que as pessoas costumavam esperar de um designer de moda. Eu não sou aquele designer loiro, de olhos azuis, que o antigo sistema da moda costumava celebrar.

    Mas eu sempre fui muito vocal e muito orgulhoso de ser latino. Há mais de vinte anos eu falo sobre isso constantemente. Sempre fez parte da minha identidade. É claro que existe preconceito. Minha marca está profundamente enraizada em comunidades racializadas e na própria ideia de comunidade, e às vezes as pessoas olham para isso e reagem de forma diferente.

    O que é interessante é que muitas dessas mesmas pessoas acabam voltando depois para copiar aquilo que antes ignoravam. Elas viajam para países da América Latina, se inspiram nas cores, na estética, na cultura, e depois levam essas referências de volta para a Europa como se tivessem descoberto tudo sozinhas. Mas aquela não é a cultura delas. Se você quer usar essas referências, precisa reconhecer de onde elas vêm. Precisa ir até a fonte.

    Durante muito tempo, ser latino e criar um trabalho tão conectado à identidade latina tornou as coisas mais difíceis para mim. Hoje o cenário mudou. Olhe para alguém como Bad Bunny. Ele é um dos maiores artistas do mundo. Eu estou em Paris e escuto Bad Bunny em todos os lugares. Viajo para países que não têm nenhuma ligação direta com a América Latina e encontro pessoas ouvindo música latina, funk brasileiro, reggaeton — está em toda parte. E acho que outra coisa também está acontecendo.

    Por muito tempo, nem mesmo os latinos estavam necessariamente unidos em torno da ideia de serem latinos. Agora que nossa cultura está sendo abraçada globalmente, existe também um senso maior de identidade coletiva entre nós. As pessoas têm orgulho de dizer: “Eu sou latino”. E, quando nos tornamos mais unidos, nos tornamos mais fortes. Estamos falando de dezenas de países e milhões de pessoas espalhadas pelo mundo. Quanto mais nos reconectamos com nossa própria cultura, em vez de passarmos o tempo todo nos medindo a partir de padrões eurocêntricos, mais fortes nos tornamos. Estamos nos transformando em algo que já não pode mais ser ignorado. 

    Eu sou dominicano. Estou aqui no Brasil. Vou para a Colômbia, para o México e para tantos outros lugares, e existe uma troca cultural incrível acontecendo. As pessoas estão genuinamente animadas para celebrar o fato de serem latinas. Eu adoro ver isso. Estou dizendo isso há vinte anos e agora finalmente parece que o resto do mundo está alcançando essa conversa.

    FFW: Já que estamos falando sobre influência cultural, queria perguntar sobre cópias e referências na moda. No Brasil, recentemente houve um debate sobre plágio depois que um grande jornal lançou uma matéria sobre cópias na indústria. Você acha que as discussões sobre cópia e referência ainda são importantes hoje?

    Raul Lopez: Com certeza. Especialmente quando estamos falando de designers emergentes. Já fui copiado muitas vezes e isso é frustrante porque, na maioria das vezes, existe muito pouco que você possa fazer a respeito. Você pode se manifestar, mas isso não necessariamente impede que aconteça novamente.

    Hoje eu tenho uma perspectiva diferente porque estou em uma posição diferente, mas quando eu era um designer emergente isso era devastador. Eu assistia a grandes desfiles e tinha amigos trabalhando dentro desses ateliês me dizendo: “Suas fotos estão nas paredes deles”. É difícil ouvir algo assim. Ao mesmo tempo, plataformas como Diet Prada ajudaram a trazer atenção para essas conversas e deram voz a designers mais jovens.

    Mas a questão vai além do design de moda em si. Existe também a questão da cultura. Designers viajam para determinados países, buscam inspiração em artesãos, em estéticas locais e em técnicas tradicionais de produção, depois levam essas ideias de volta para a Europa e as apresentam sem o devido contexto ou reconhecimento. Isso não está certo.

    Ao mesmo tempo, é uma conversa complexa porque todo mundo referencia todo mundo. Um verdadeiro designer entende que nada existe no vazio. Tudo já foi feito antes de alguma forma. O verdadeiro desafio está em pegar uma ideia que já existe, respeitar suas origens e transformá-la em algo genuinamente seu. É isso que é originalidade. Se você consegue pegar algo familiar e reinterpretá-lo completamente a partir da sua própria perspectiva, então criou algo original. O que me incomoda é a cópia direta. Especialmente quando grandes marcas fazem isso com designers emergentes. É aí que eu tenho um problema.

    FFW: Acho que, em algum momento, todos acabamos nos referenciando mutuamente.

    Raul Lopez: Claro. O mundo existe há milhares de anos. Inovação não significa inventar algo a partir do nada. Significa transformar aquilo que já existe. Pegue algo tão simples quanto uma cortina. Uma cortina é uma cortina. O que muda é a estampa, o caimento, a construção, a forma como ela é estilizada, a maneira como é apresentada. Tudo já existiu de alguma forma. O importante é tornar aquilo seu, em vez de simplesmente reproduzir exatamente o que já existe. É isso que cria algo especial.

    FFW: Você acha que ainda existe espaço para novas marcas e designers criarem trabalhos originais?

    Raul Lopez: Com certeza. Existem muitos designers talentosos trabalhando hoje. Conheci pessoas incríveis só aqui no Brasil. Em toda a América Latina existe uma quantidade enorme de talento, e fico feliz de ver muitos desses designers finalmente recebendo reconhecimento. Ainda existe muito espaço para inovação. Os jovens designers de hoje têm acesso à informação de uma forma que a minha geração nunca teve. Tudo está disponível instantaneamente.

    Quando estava aprendendo, precisava ir a bibliotecas e passar horas pesquisando em livros. Hoje as pessoas conseguem estudar referências do mundo inteiro com um telefone nas mãos. Além disso, existem novas técnicas, novas tecnologias, novos processos de fabricação, novos tratamentos têxteis. Há mais possibilidades do que nunca. Então, sim, existe absolutamente espaço para novas vozes e novas ideias.

    FFW: Você acha que os jovens designers ainda precisam seguir um caminho tradicional — faculdade de moda, estudar grandes marcas, aprender técnicas clássicas — ou existe outra forma de entrar na indústria?

    Raul Lopez: Acho que, se você tem a oportunidade de estudar moda, isso tem valor. Pelo menos aprenda os fundamentos. Aprenda modelagem. Aprenda costura. Aprenda a parte técnica. Essas habilidades são importantes. Depois, pegue essa base e construa o seu próprio universo. Pessoalmente, às vezes gostaria de ter frequentado uma faculdade. Não porque me sinta limitado criativamente, mas porque existem aspectos práticos que teria sido útil aprender.

    Mas, acima de tudo, eu gostaria que as escolas de moda focassem mais em negócios. Todo estudante de moda deveria fazer um curso de negócios. Sério. As escolas de moda passam anos ajudando os alunos a desenvolverem seu lado criativo e depois os colocam no mundo completamente despreparados para sustentar aquilo que criaram. Você pode ser extremamente talentoso, mas, se não entender de negócios, sobreviver se torna muito mais difícil. Esse conhecimento é essencial.

    FFW: Essa era, na verdade, minha última pergunta. Que conselho você daria aos jovens designers que gostaria de ter recebido quando estava começando?

    Raul Lopez: Faça um curso de negócios. Eu realmente não entendo por que as escolas de moda ensinam as pessoas a criar, mas não ensinam como sustentar aquilo que criam. Você passa anos desenvolvendo um corpo de trabalho, mas ninguém ensina estratégia, planejamento financeiro, operações ou como administrar uma empresa. Isso não faz sentido. Seu talento criativo não vai desaparecer. Essa parte já está dentro de você. O que você precisa aprender é o lado empresarial. Moda é um negócio. Às vezes as pessoas não gostam de ouvir isso, mas é verdade. Esta é uma das maiores indústrias do mundo. E, se você entende como navegar por ela, consegue se beneficiar do valor que cria. Sinceramente, gostaria de ter entendido isso dez anos antes. Provavelmente estaria em uma posição ainda mais forte hoje.

    FFW: Existe um jornalista que costuma dizer algo controverso: que moda não é arte — moda sempre foi um negócio. A maioria das pessoas simplesmente não percebe a quantidade de dinheiro que circula dentro da indústria.

    Raul Lopez: Exatamente. A moda é uma das maiores indústrias do mundo. Todo mundo usa roupa. Nesse sentido, ela não é diferente de móveis, roupas de cama ou comida. Faz parte da vida cotidiana. É um negócio. E você precisa tratá-la como tal. Uma marca é como um filho. Você precisa cuidar dela. Investir nela. Dedicar seu tempo, sua energia e sua atenção. Se você não alimentá-la, ela não vai sobreviver. Você não pode simplesmente criar algo e esperar que cresça sozinho. É preciso realmente querer aquilo e se comprometer com a construção desse projeto.

     

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