Essa narrativa se materializa na passarela. A vegetação invade o espaço cenográfico e cria um contraste interessante com a sofisticação da Chanel. O imaginário fantástico não fica restrito ao cenário: ele cruza a coleção de forma muito mais sutil, surgindo em volumes, texturas e bordados que evocam uma natureza em constante transformação.
Blazy segue desenvolvendo um estudo muito particular sobre a alta-costura: como torná-la leve. Em vez de recorrer ao excesso ou ao espetáculo, ele aposta em construções que parecem flutuar, silhuetas descomplicadas e uma sofisticação por vezes senhoril, mas que dialoga com a cliente da casa (e com sua fundadora), fazendo com que a fantasia surja menos como um artifício e mais como uma extensão natural do vestir.
Os bordados, desenvolvidos pelos ateliês da Lesage, acompanham essa narrativa. Flores, folhas e formas orgânicas parecem brotar sobre os tecidos, como se as próprias peças estivessem florescendo diante dos olhos.
Há também um gesto simbólico no encerramento. Em vez da tradicional noiva, presença quase obrigatória nos desfiles de alta-costura, Blazy escolhe finalizar a apresentação com um little black dress. É uma homenagem discreta, mas precisa, ao vestido preto eternizado por Gabrielle Chanel como um dos maiores símbolos do guarda-roupa moderno.
Nem tudo, porém, busca consenso. Alguns looks mais lúdicos, como o que remete a um espantalho, certamente dividirão opiniões. Ainda assim, revelam um criador cada vez mais confortável em introduzir humor e uma certa liberdade ao universo da maison. O anterior soou mais bem resolvido, mas as vezes o melhor seja, realmente, dar tempo ao tempo.