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    Quem é Cece Hamali, a designer por trás das camisas de látex virais da Copa

    Antes de virar febre entre celebridades durante a Copa, Cece Hamali já desenvolvia um universo próprio em látex. A designer conversa com a FFW sobre sua história, suas referências e o momento que colocou seu trabalho sob os holofotes.

    Quem é Cece Hamali, a designer por trás das camisas de látex virais da Copa

    Antes de virar febre entre celebridades durante a Copa, Cece Hamali já desenvolvia um universo próprio em látex. A designer conversa com a FFW sobre sua história, suas referências e o momento que colocou seu trabalho sob os holofotes.

    POR Laura Budin

    Se você acompanhou os últimos jogos do Brasil, talvez tenha reparado que algumas das torcedoras mais comentadas nas redes sociais tinham algo em comum: camisas da seleção transformadas em peças de látex. Os looks apareceram em nomes como Malu Borges, Deborah Secco, Franciny Ehlke, Flávia Pavanelli e Bruna Biancardi que viralizaram e despertaram uma pergunta inevitável: quem está por trás dessas criações?

    A resposta é Cece Hamali. Natural de Congonhas, em Minas Gerais, a designer de 28 anos cresceu cercada pela arte sacra e encontrou na moda sua forma de expressão ainda na infância, quando improvisava desfiles com lençóis e toalhas, customizava as próprias roupas e construía um estilo inspirado tanto por divas do pop quanto por filmes de terror. Aos 14 anos, assinou seu primeiro projeto criativo ao desenvolver os uniformes das Olimpíadas Nacionais do colégio onde estudava; no ano seguinte, começou a desenhar vestidos de debutante para amigas. Hoje, seu trabalho une látex, escultura e uma estética inspirada pelo barroco, horror, espiritualidade e nomes como Alexander McQueen, Thierry Mugler e Lady Gaga.

    A designer, que hoje trabalha majoritariamente sob encomenda em um processo intimista, também adianta que prepara o lançamento de uma nova coleção e de seu primeiro site, ampliando o acesso ao seu trabalho sem abrir mão das criações exclusivas.

    Laura Budin, repórter de moda e cultura da FFW, conversou com a criadora sobre sua história, o fascínio pelo látex, o processo criativo por trás das peças que viralizaram e como um projeto pensado para poucos acabou conquistando o Brasil. Agora que a seleção segue viva no torneio, fica a expectativa: será que ainda veremos novos looks de Cece nas arquibancadas?

    Para quem ainda não conhece seu trabalho, conta um pouco da sua história. De onde você é, quantos anos tem e como começou sua trajetória na moda?
    Me chamo Cecile Hamali, conhecida como Cece Hamali. Tenho 28 anos e nasci em Congonhas, no interior de Minas Gerais, a cidade dos profetas de Aleijadinho. Cresci com uma referência rica em história e arte vista pela janela da minha casa, e a ideia da arte sagrada sempre me deslumbrou. Desde criança, sentia minhas inclinações artísticas por levar o que via na minha cidade tão a sério e com muito respeito.

    Ainda pequena, minhas brincadeiras favoritas com primas e amigas eram simular desfiles e performances. Nesses desfiles, eu customizava roupas com lençóis, toalhas, etc., para simular o drama. Fui crescendo e modificando meu próprio estilo com customizações; lembro que aprendia muitos truques técnicos no YouTube. Em uma pequena cidade do interior, meu passatempo favorito era esse: construir meu estilo inspirado em divas do pop e em filmes de terror. E foi assim que acabei chamando a atenção na minha escola, que era católica e extremamente conservadora. Todos souberam que eu faria moda devido ao meu estilo e aos meus trabalhos criativos.

    E aconteceu que, aos 14 anos, assinei o set de uniformes das Olimpíadas Nacionais do meu colégio para uma viagem ao Distrito Federal. Foi meu primeiro projeto criativo grande e, logo depois, aos 15 anos, comecei a desenhar os vestidos de debutante das minhas amigas de classe para os bailes. E por aí fui seguindo, experimentando a moda, sentindo a certeza de que era o meu caminho. Não tinha como não ser.

    Em que momento o látex entrou na sua vida? O que fez você escolher esse material como principal linguagem do seu trabalho?
    O látex entrou na minha vida através dos desfiles de moda do Thierry Mugler, Mcqueen, Lady Gaga, na era Born This Way. Quando a vi usando o material pela primeira vez, fiquei mais deslumbrada com o tecido das roupas do que com todo o resto. Lembro de sentir uma curiosidade muito forte por aquele material que parecia uma segunda pele, incorporava muito bem os movimentos do corpo e trazia um visual futurista e enigmático. Era tudo o que eu precisava ver e sentir. Então, decidi ali, ainda adolescente, que descobriria tudo sobre o látex e que, no futuro, trabalharia com ele.

    No meu segundo ano da faculdade de moda, fiz meu primeiro trabalho experimental com o material: desenvolvi um vestido longo para uma matéria de moda experimental, que culminou em um desfile. Ali, realizei muitos sonhos.

    Como funciona seu processo criativo? De onde vêm as suas referências?
    Minhas referências sempre foram inclinadas para algo mais dark, misterioso, dramático, barroco, performático e elegante. Alexander McQueen, Thierry Mugler, Rick Owens, Maison Margiela, Lady Gaga, o movimento punk, estetica pós humano, body horror sempre me mostraram um caminho que fazia muito sentido para mim. O que eles tinham em comum? Uma linguagem disruptiva. Mas o que mais me encanta e enriquece minhas criações é a nossa própria natureza, rica em detalhes, texturas, estampas, sons e matérias-primas, que sempre me deu toda a beleza necessária para nutrir o meu trabalho.

    Minha pesquisa geralmente faz muito sentido em relação ao que sou e sinto no momento; minha exploração pelas religiões, pela espiritualidade, por mundos e universos me traz inspiração para criar o meu próprio mundo.

    Seu trabalho tem uma identidade muito própria, experimental e até mais dark, diferente do imaginário tradicional das roupas de Copa. Como surgiu a ideia de levar essa linguagem para looks de torcida?
    Posso dizer que estou vivendo o momento mais fora da curva do meu trabalho com esses looks para a torcida do Brasil. E posso falar a verdade? Quem começou com a ideia dos looks foram as minhas próprias clientes. Recebi alguns pedidos antes mesmo de ter feito a primeira camisa. Fiz as primeiras sob encomenda, gostei muito e as usei para compartilhar o que tinha feito no dia, de uma forma bem casual. Porém, isso acabou tomando uma proporção gigantesca e zero premeditada. Senti o Brasil querendo me movimentar. Recebi dezenas de pedidos na mesma semana em que postei e, conforme o Brasil foi ganhando os jogos, fui recebendo mais e mais, até chegar ao ponto de precisar dobrar a minha equipe para atender à demanda.

    Ludmilla usando a camiseta de látex em seu show durante o jogo Brasil x Escócia.

    Quem foi a primeira pessoa a te procurar para criar um look de Copa? Como essa ideia começou e acabou atingindo grandes nomes?
    Débora Soares e Bruna Biancardi foram algumas das primeiras clientes que pediram para eu fazer as camisas. Depois do meu primeiro compartilhamento, vieram Franciny Ehlke, Deborah Secco e Flavia Pavanelli, entre outras, que acabaram usando as peças no primeiro jogo, no mesmo dia, o que acabou viralizando.

    Débora Soares

    Quais foram os trabalhos ou projetos mais marcantes da sua carreira até agora? Tem algum look ou colaboração que você considera um divisor de águas?
    Minha primeira coleção foi, com certeza, o projeto mais marcante até agora. Toda a coleção foi feita em escultura, látex e metal, com técnicas que eu mesma desenvolvi para conseguir chegar ao resultado que queria. O experimento durou mais de um ano e meio. Desenvolvi todas as peças à mão, em argila; depois, foram moldadas em gesso e silicone para, então, serem transformadas em látex. Também aprendi a usar vários softwares para conseguir integrar algumas esculturas de metal, cortadas a laser e polidas por mim mesma.

    A coleção fala dos encontros com as minhas fantasias mais sombrias, sobre como eu poderia traduzir o monstro que vivia na minha mente, pois foi a minha primeira e última coleção antes da transição de gênero. Então, imagina a explosão de incômodos e desejos que eu estava sentindo? Precisei colocar isso para fora.

    Hoje, como funciona o acesso às suas peças? Você trabalha sob encomenda, faz peças exclusivas ou existe alguma forma de comprar suas criações?
    A maioria das minhas peças é feita sob medida e, para ter acesso às encomendas, o contato geralmente acontece de uma forma mais intimista. O cliente que se interessa em comprar algo da minha coleção ou em encomendar alguma peça exclusiva entra em contato direto comigo por indicação, DM ou e-mail. A partir daí, conversamos sobre os interesses e sobre o projeto do qual as peças farão parte. Mas já posso adiantar que, em breve, irei lançar a minha próxima coleção junto com o meu novo site. Será uma grande novidade para mim e para todos. Quero facilitar o acesso e a divulgação das novas peças, mas a troca mais intimista continuará para os projetos mais exclusivos.

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