A Osklen, uma das marcas cariocas mais emblemáticas, abrirá a primeira edição da Rio Fashion Week com um aguardado desfile no Palácio da Cidade, e isso é muito simbólico para a moda brasileira. A marca fundada por Oskar Metsavaht em 1989 fez seu último desfile na São Paulo Fashion Week em 2018, cerca de sete anos atrás, num gesto que parecia consolidar o enfraquecimento de uma das principais protagonistas do design criativo e da inovação do setor.
Desde 2012, quando a Alpargatas assumiu a marca como sócia majoritária, a Osklen, pioneira no que seu criador define como luxo sustentável, aclamada nos desfiles mais disputados, premiada por inovação no uso e criação de novos materiais (o couro de Pirarucu, exposto no museu Victoria and Albert, em Londres, é o mais emblemático), começou a ver seu brilho pouco a pouco se apagando.
As 60 lojas pelo país permaneceram, mas se encontrava nelas pouco do que a transformara numa grande referência nacional e internacional de como traduzir o lifestyle brasileiro – especificamente, carioca – com uma estética sofisticada, sem estereótipos e de alcance mundial. “A Osklen estava perdendo seu espírito, seu estilo. Nem o resultado (comercial) era bom”, resume Oskar Metsavaht, que viu as 14 lojas abertas fora do país em endereços nobres de cidades como Paris, Tóquio, Nova York e Milão, fecharem uma a uma.
Dentro de um cenário de previsões pessimistas, Oskar decidiu virar o jogo e recomprar, em 2022, a parte que havia vendido, para reassumir o controle da própria marca, dessa vez ao lado do filho Felipe Metsavaht, que assina seu primeiro desfile ao lado do pai, como diretor artístico, e é apontado por Oskar como seu provável sucessor.
Na capa do post, revelamos, em primeira mão, um dos looks da nova coleção desfilada no fim desta tarde, em Carol Trentini, imagens da prova de roupas para o desfile e trechos da conversa de uma hora e meia de Oskar com a editora-executiva Carolina Vasone sobre o novo momento da Osklen, a moda carioca e muito mais. “A gente está criando uma marca para durar 100 anos”, diz, sobre a retomada.
A venda para a Alpargatas
“A gente passou por um período com sócios, a Alpargatas, que não foi bom para a marca, não foi bom para o exercício de moda. A Osklen estava perdendo seu espírito, seu estilo. Nem o resultado (comercial) era bom.”
“Eu era o diretor criativo, tinha liberdade de criação, mas quando chegava na parte estratégica e comercial era outra coisa, era governança, escala. Eles não entendiam o que é criar uma marca de luxo.”
“A gente chegou a ter 13 ou 14 lojas internacionais — Japão, Itália, Paris, Milão, Nova York — e tudo foi fechado.”

O momento da Osklen agora
“Quero resgatar o que sempre foi a Osklen. Essa coisa que eu digo: uma marca de luxo original do Brasil.”
“Estamos voltando, e acredito que tem um espaço para uma marca assim hoje em dia, de luxo, que represente o que nós somos aqui no Brasil. E que escreva o Brasil através da linguagem de moda com uma caneta boa, de tinta boa, com o melhor papel possível, sabe?”
“A gente vai ser menor em distribuição, mas com mais qualificação. Hoje temos cerca de 60 lojas – é muito. Meu desejo seria ter de 5 a 10 lojas, mas na prática devemos ficar entre 20 e 30, fechando umas 3 a 4 por ano.”
Moda carioca
“Acho que é um exagero dizer que existe uma moda carioca. O que existe é o olhar de cada criador sobre a sua cidade.”
“Sempre fiz uma moda cosmopolita. Só que ela acontece no Rio de Janeiro.”
O luxo da Osklen
“Fiz essa virada para resgatar o que a marca sempre foi: mais do que pretensão, um desejo, uma visão de que o Brasil pode sim ter marcas de luxo, esse luxo contemporâneo do século 21, esse luxo nosso, que a gente interpreta, que é sustentabilidade, que é ligado à natureza, é despojado, onde a sofisticação vem do simples. Ou seja, esse estilo de vida que todo mundo imagina de Brasil, verdadeiro, expresso através do meu olhar, com a melhor qualidade possível de materiais, desde materiais rústicos e sustentáveis aos tecnológicos. Eu gosto dessa mistura.”
Luxo internacional versus luxo brasileiro
“As marcas europeias, para demonstrar luxo, ficam esnobes. Já o nosso luxo é nobre. Eu tenho um conceito sobre luxo, né? Luxo vem de nobreza. Não nobreza que tem os brilhos, os nomes e as coroas. Nobreza de espírito. Acho que o espírito humano mais nobre que existe, acho que você vai concordar comigo, é você se dedicar ao outro. Então, quando você se dedica a fazer alguma coisa, dedica seu tempo, seu talento, pesquisa, investimentos, e você faz com amor, você faz aquilo como se fizesse para você mesmo. Respeitando o outro. Esse produto, o que ele fica? Ele fica sofisticado, pela dedicação. Olha que bonito.”
“O novo luxo do século 21 é ter tempo, é estar relax, é estar saudável, é estar sexy, é estar alegre, é estar saudável. E isso, eu sempre acreditei, isso é o luxo desejado, não é o luxo simbolizado.”
“Na nossa moda, a mistura tem que ser tanto nos materiais quanto nos conceitos e formas de design. Tem coisa que fica mais sexy, tem coisa que fica mais elegante. Essa mistura. Esse observar o comportamento e observar nossa biodiversidade que traz esses novos materiais, nossas riquezas artesanais, conhecimentos ancestrais misturados com a alta tecnologia hoje da indústria de São Paulo e de Santa Catarina, de calçado do Sul. A moda é feita não só do conceito, mas de novos materiais. Uma mistura de materiais. Em 2004, fui convidado pelo Milano Fashion Summit para falar sobre o conceito de novo luxo. Eu falava no final que o ideal do meu novo luxo é o savoir-faire da Europa com a nossa cultura de vida e os materiais da nossa biodiversidade, da nossa bioeconomia. Isso junto traz a sofisticação de como fazer uma coisa sofisticada, bem feita. E a gente traz esses novos materiais desde o momento que você usa o couro de Pirarucu (material sustentável desenvolvido pela Osklen há mais de 15 anos). Temos que nos igualar a eles. Isso é luxo. Porque nós, criadores de moda, profissionais de moda, temos que ser protagonistas da cultura. A gente tem que transformar, tem que inovar, tem que propor.”
Brasil na moda e a moda brasileira
“As pessoas estão vindo para o Brasil para experimentar o nosso estilo de vida. Não estão vindo para conhecer a nossa moda. Então, você como marca, como designer, como criador, diretor de criação, tem que pegar esses elementos que são hoje admirados no nosso estilo de vida – esse é o exercício de um designer – e transformar isso em formas, cores, texturas, looks, campanhas, sabe? Ou seja: mostrar que o espírito que cria a marca é um espírito desse admirado estilo de vida.”
“Essa cultura comercial, óbvio que tem que ser comercial. Mas ser comercial por ser comercial… Uma coisa é uma grande marca que faz roupa para vender. Outra coisa, uma marca de moda. Nós somos uma marca de moda. O Brasil tem marcas de moda, que criam moda. O Brasil tem marcas que sabem fazer coisas sofisticadas. O Brasil tem marcas que sabem valorizar esses novos materiais que são contemporâneos da sustentabilidade.”
Sucessão
“Eu tenho um conselho de estilo. Que sou eu, Nazaré, minha mulher, (os filhos) Maria Caetana, Tomás, Felipe e a Juliana (Suassuna, head de design). Juliana que é a nossa representante. Somos nós que decidimos… Pensamos o estilo da marca, o estilo das peças.”
“Para criar o estilo da marca, o conceito da Osklen, acho que o Felipe (o filho, que assina seu primeiro desfile da Osklen) é a pessoa mais apropriada para continuar, desde que seja disciplinado, dedicado, tenha bom gosto. Acho que fortalece, é interessante, uma marca que mantém a família.”
“Meus filhos, principalmente o Felipe, que trabalha comigo em tudo, ele gosta do projeto, você já vê o estilo dele incorporado na linha feminina e na masculina. Você vê uma linguagem, não vou dizer mais contemporânea, porque eu sou contemporâneo ainda, mas mais geracional.”
“A gente está criando uma marca para durar 100 anos. Não por pretensão, mas porque luxo, sustentabilidade, são pontos de visão para todo mundo da minha equipe. Quem trabalha comigo, inclusive na administração, sente que tem uma coisa consistente, sólida.”