Quando você vê um look de Paula Raia, é difícil não reconhecer. Existe ali uma assinatura muito clara, algo que permanece, independente dos códigos da vez. Antes mesmo do desfile começar, observando as clientes na fila A, naquela sala encortinada da Galeria Pivô, esse pensamento voltava: estilo. Paula tem. E é inconfundível.
Começo pelo que mais saltou aos olhos: o longo inteiramente bordado em prata, usado com um suéter displicente sobre os ombros, seguido por um mini igualmente bordado com casaco longo. Sem dúvida, um ponto alto, daqueles que ficam com a gente. Quando Horses, de Patti Smith, e Amelia, de Joni Mitchell, entram na trilha, fica claro que essa mulher tem muitas camadas.
Nada é literal para a estilista e é justamente daí que vem a graça. As referências passam por Lygia Clark (escultora) e Joni Mitchell (pintora), mas sempre filtradas por uma leitura muito pessoal. Não costumo descrever looks, mas um merece menção especial: o todo negro com corset e efeito envernizado, uma verdadeira aparição. Bem gótica.
Rendas e malhas se encontram, o jeans surge de forma pontual, padronagens inesperadas aparecem, e as silhuetas redesenham o corpo. Há uma sensação de deslocamento, como se fôssemos transportados para outro espaço-tempo. Paula gosta de contar histórias e materializa isso não só nas roupas, mas também em objetos. As cerâmicas, com formatos de castiçais e ânforas, confirmam esse gesto e ampliam o universo da marca (inclusive, serão vendidas em loja).
No final, o vinho bordô tinge tudo, a taça cheia, quase como um brinde: uma coleção em que vemos diferentes mulheres representadas, com desejos próprios, mas unidas por uma mesma força. Mesmo em uma tarde abafada, os tricôs despertavam vontade de toque. Contrastes que poucas conseguem sustentar e que Paula domina como linguagem.