Muitos podem apontar Demna como o grande irônico da moda, mas, para mim, esse lugar pertence a Miuccia Prada. No masculino, ela já vinha tratando a roupa como memória: embolorada, amassada, descosturada, imperfeita. No feminino, ela insiste e aprofunda. Isso já seria instigante o suficiente se não fosse por uma presença na fila A: Mark Zuckerberg.
Num momento em que a moda está mais do que nunca na moda e os gigantes da tecnologia querem uma casquinha dela, a cena é mais que simbólica. Beira o chocante.
Em uma entrevista memorável à lendária jornalista Robin Givhan, Miuccia e Raf Simons discordam, não discutem, mas discordam. “Este não é o melhor momento para criar, para ser criativo”, diz ela. Na passarela, apenas 15 modelos, que desfilam: parkas, meias desgrenhadas, camisas amassadas, superfícies puídas. Miuccia toca numa ferida aberta: se o imperativo é parecer ter sempre mais, ser sempre mais, então farei o contrário.
“Se você não cresce, se você não vende, você é excluído.” Enquanto Raf divaga sobre criatividade, frases assim surgem, secas, analíticas, quase clínicas. Nas palavras e no desfile. Em outro trecho, Robin, que descreve minuciosamente a linguagem corporal dos dois, observa Miuccia franzir a testa quando Raf comenta: “Não é fácil trabalhar em uma grande marca”.
A tensão é sentida na passarela. A casa que cunhou o ugly chic, que provoca e instiga, parece querer nos mostrar algo essencial. “Antes eu só admirava médicos e professores; hoje sinto que a moda é importante para as pessoas”, reflete a signora Prada. O que vimos foi um marco, um gesto que nos coloca oficialmente em outro momento da moda.
Pode soar exagero, mas a inteligência desta coleção se dá para além das roupas: está na representação da ironia que atravessa a indústria: entre a fidelidade à criação e ao ideal de luxo e a pressão por ubiquidade, por estar em todos os lugares o tempo todo, mesmo sabendo o quanto isso desgasta e, no limite, ameaça.
Bella Hadid fez três entradas, algo que não acontecia há anos na Prada. Volta, repete, solta. Quase industrial.
No fim, fica a pergunta: quem vai rir por último?