Quem foi Valentino Garavani? A trajetória do fundador da Maison Valentino
O estilista italiano conhecido como o Último Imperador da moda construiu uma das trajetórias mais sólidas e reconhecíveis da história da moda, marcada por alta-costura, glamour e uma estética que atravessou décadas sem perder relevância.
Quem foi Valentino Garavani? A trajetória do fundador da Maison Valentino
O estilista italiano conhecido como o Último Imperador da moda construiu uma das trajetórias mais sólidas e reconhecíveis da história da moda, marcada por alta-costura, glamour e uma estética que atravessou décadas sem perder relevância.
Quando se fala em elegância no século 20, o nome de Valentino Garavani já aparece entre os primeiros. Dono de uma assinatura inconfundível, marcada por linhas precisas, volumes controlados e, sobretudo, pelo vermelho que leva seu nome, o último imperador italiano (como era chamado) construiu uma carreira que atravessou mais de cinco décadas e ajudou a definir o imaginário do luxo contemporâneo.
Fundada em Roma, em 1959, a maison Valentino nasceu com vocação global e rapidamente se tornou referência entre a elite europeia, celebridades e musas de Hollywood que viam na alta-costura de Garavani uma forma de expressão refinada e atemporal.
Como tudo começou
Nascido em 1932, na cidade de Voghera, na Itália, Valentino demonstrou interesse pela moda ainda na infância, quando começou a aprender o ofício com um alfaiate local. Sua base técnica, no entanto, foi construída na França. Aos 17 anos, mudou-se para Paris para estudar na renomada Chambre Syndicale de la Couture Parisienne, onde teve contato direto com a alta-costura francesa e trabalhou com nomes fundamentais da história da moda, como Jacques Fath, Balenciaga, Jean Dessès e Guy Laroche.
A passagem por Paris foi decisiva para a construção do seu repertório estético, que combinava primor técnico, sofisticação e um senso de glamour muito próprio. Em 1959, Valentino retorna à Itália decidido a fundar sua própria marca em Roma, cidade que se tornaria parte inseparável da identidade da marca.
A Maison Valentino

O início da Valentino como marca só foi possível após o encontro com Giancarlo Giammetti, arquiteto por formação, que assumiria o lado administrativo e estratégico do negócio. Parceiros profissionais e de vida, juntos, estruturaram a maison cuja estreia oficial, ocorrida em 1962 no Palazzo Pitti, em Florença, fez a marca ser reconhecida imediatamente como sinônimo de luxo italiano, atraindo encomendas internacionais.
Desde as primeiras coleções, a Valentino se destacou pelo acabamento impecável, pelo uso de tecidos nobres e por uma elegância que dialogava com a tradição da alta-costura, mas sem perder apelo contemporâneo. A consagração internacional veio rapidamente, impulsionada por clientes de alto perfil e pela presença constante da marca em eventos sociais e tapetes vermelhos.
O nascimento do vermelho Valentino

Poucos elementos na moda são tão imediatamente reconhecíveis quanto o vermelho Valentino. O tom surgiu já na primeira coleção da grife, em 1959, com o vestido Fiesta, inspirado em uma lembrança do estilista ainda jovem, ao assistir a uma ópera e se encantar com figurinos vermelhos no palco.
Por causa do impacto do vestido, todas as coleções de Valentino passaram a incluir ao menos um look vermelho. A cor, conhecida como vermelho papoula, tornou-se tão simbólica que ganhou uma tonalidade própria registrada na Pantone. Em seu desfile de despedida, em 2007, Valentino encerrou a apresentação com todas as modelos vestidas de vermelho, selando de vez o legado cromático da grife.
Valentino e suas musas
“Eu sei o que as mulheres querem: elas querem ser bonitas”, disse o estilista no documentário ‘Valentino: The Last Emperor’ (2008). E sabia mesmo. Como todo grande costureiro, Valentino construiu relações duradouras com mulheres que ajudaram a projetar sua imagem no imaginário coletivo. A mais emblemática delas foi Jacqueline Onassis. Após se mudar para Nova York em 1964, Jackie se encantou pelas criações do estilista e passou a vestir Valentino com frequência, encomendando peças de alta-costura e usando a marca em momentos decisivos de sua vida, incluindo seu casamento com Aristóteles Onassis, em 1968.
A relação com o cinema e com Hollywood também foi central para a expansão do prestígio da maison. Elizabeth Taylor, Sophia Loren, Julia Roberts, Gwyneth Paltrow, Jennifer Lopez, Anne Hathaway, nossa supermodel brasileira Gisele Bundchen (que chegou a fazer quatro aparições em um único desfile) e inúmeras outras estrelas eram musas do estilista e vestiram Valentino em premiações e eventos prestigiados, ajudando a consolidar sua imagem como um dos estilistas mais associados ao glamour do tapete vermelho – também fora dele.

Sua relação com a cultura pop
A influência de Valentino atravessou o universo da moda e se consolidou também na cultura pop. O estilista fez uma participação especial interpretando a si mesmo em “O Diabo Veste Prada” (2006). Ele também apareceu em “Zoolander 2” (2016) e teve suas criações destacadas em séries como “Sex and the City” (1998), “And Just Like That (2021) e “Emily in Paris (2020)”, reforçando a presença e o poder da marca no imaginário contemporâneo.
Aposentadoria e transições criativas
Valentino Garavani se aposentou oficialmente em 2007, após um desfile de alta-costura apresentado no Museu Rodin, em Paris. A partir daí, a direção criativa da marca passou por diferentes fases. Alessandra Facchinetti assumiu inicialmente no mesmo ano, seguida pela dupla Maria Grazia Chiuri e Pierpaolo Piccioli a partir de 2008. Em 2016, Piccioli tornou-se o único diretor criativo da maison, cargo que ocupou até 2024, período marcado por uma releitura sensível e contemporânea do legado do fundador.
Um dos momentos mais simbólicos dessa fase foi o desfile de outono/inverno 2022, apresentado na Escadaria da Praça de Espanha, em Roma, em referência direta às origens da marca e à história pessoal de Valentino. Considerada por muitos a coleção mais emblemática de Pierpaolo Piccioli, a chamada coleção rosa transformou completamente as redes sociais na época: convidados foram recebidos por uma passarela rosa vibrante, que deu o tom de uma apresentação quase inteiramente monocromática.

A Valentino de Alessandro Michele
Em 2024, a maison anunciou Alessandro Michele, ex-Gucci, como novo diretor criativo, inaugurando um novo capítulo para a Valentino. A estreia de Michele não seguiu o roteiro esperado. Em vez da aguardada temporada de primavera/verão 2025, o estilista apresentou sua primeira coleção para a Valentino de online, no último dia da semana de moda masculina de Milão.
Intitulada “Avant les Débuts”, a pré-primavera 2025 trouxe uma coleção extensa, com cerca de 171 looks, entre roupas, acessórios e joias, revelando desde o primeiro momento sua assinatura estética: referências retrô, rococó e um guarda-roupa marcado por alfaiataria estampada, babados, tricôs, lenços de seda e uma forte presença de padrões. Desde então Michele segue como diretor criativo da grife italiana.

O legado
Em 2026, aos 93 anos, Valentino Garavani morreu em sua casa em Roma, deixando seu império construído a partir de uma ideia de elegância ultra-feminina na medida certa que atravessa gerações. Seu trabalho ajudou a posicionar a moda italiana no centro do luxo global e estabeleceu códigos estéticos que seguem sendo reinterpretados e respeitados até hoje. Celebrado em 2023 com um prêmio por sua trajetória no British Fashion Awards, o estilista permanece como uma das figuras mais influentes da história da moda, mesmo após sua saída dos ateliês e agora com a sua partida.