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    Venda de íris: o que você precisa saber?

    No Tiktok cresceu o vídeo de pessoas que alegam ter vendido imagem da íris em troca de uma moeda virtual. Você sabe quais as problemáticas por trás disso? 

    Venda de íris: o que você precisa saber?

    No Tiktok cresceu o vídeo de pessoas que alegam ter vendido imagem da íris em troca de uma moeda virtual. Você sabe quais as problemáticas por trás disso? 

    POR Gabriel Fusari

    Quando o entregador de aplicativo Gregory Eugênio soube que poderia ganhar criptomoedas em troca de registrar a imagem de suas íris através de uma máquina futurista em um shopping, ele não pensou duas vezes. “Eu achei o projeto bom, e como estava no hype esse negócio de criptomoedas, vendi minhas íris para guardar essas moedas digitais e ver se valorizam daqui uns cinco ou dez anos. Se não valorizarem, não vou perder nada”, conta Gregory, que recebeu 50 Worldcoins (WRL), hoje avaliadas em R$ 662.

    Mas do que se trata?

    A venda de íris a que Gregory e outros milhares de brasileiros vem aderindo faz parte do Worldcoin, um projeto global lançado em 2023 pela Tools for Humanity, um braço da empresa OpenAI. A ideia por trás do projeto é ambiciosa: criar uma espécie de passaporte digital para comprovar que um indivíduo no espaço virtual é, de fato, humano. O ponto central da tecnologia é o escaneamento da íris, considerada única e imutável em cada ser humano. Esse dado é convertido em um código criptografado único, sem armazenar a imagem original, usando uma máquina chamada ORB. Alex Blania, CEO da Tools for Humanity, explicou em entrevista para a revista EXAME que o objetivo é resolver o problema crescente de bots na internet, que evoluem a ponto de se tornarem indistinguíveis de pessoas reais. Apesar de parecer revolucionário, o projeto não escapou de polêmicas.

    Interessante, porém preocupante

    Para a pesquisadora de moda e tecnologia Olivia Merquior, a proposta é interessante, mas preocupante. “Se o registro não fosse usado para gerar lucro, mas apenas para garantir a identidade das pessoas, isso seria vantajoso. Regimes autoritários e corruptos frequentemente detêm o poder sobre o registro de bens e até mesmo sobre a existência de indivíduos. Um registro universal poderia fortalecer a segurança das pessoas contra abusos de estados. No entanto, esse serviço jamais poderia estar vinculado a interesses de mercado”, analisa.

    O risco do aumento da vigilância

    A Worldcoin também gera lucros ao operar em um mercado de especulação com suas moedas digitais. “Caso eles consigam um banco de dados robusto, a moeda valoriza, o que ajuda a empresa a se capitalizar”, destaca Olívia, que também alerta para os riscos de criação de uma “teia de rastreamento” global. “A empresa que detém o registro da íris será a mesma que oferecerá os dispositivos de leitura com interpretação por inteligência artificial, criando um ambiente de vigilância completo”, complementa. 

    O risco de entregar esses dados a empresas privadas

    A adesão ao projeto é significativa: mais de 10 milhões de usuários já estão registrados, incluindo mais de 100 mil brasileiros. No entanto, críticas surgem de diversas partes do mundo. Em países como Argentina, Coreia do Sul, Espanha e Portugal, há preocupações com vazamento de dados sensíveis e o uso de informações de menores de idade. Além disso, o debate se estende para questões éticas e políticas: é seguro confiar dados biométricos tão íntimos a uma empresa privada?

    Nos Estados Unidos, o ex-presidente Joe Biden já havia se manifestado sobre os riscos de concentrar poder em empresas de tecnologia, especialmente quando se trata de dados sensíveis. Para Olivia, o modelo de governança que se desenha é o de uma tecnocracia, onde interesses financeiros e tecnológicos ditam as regras. Enquanto isso, pessoas como Gregory continuam a apostar no futuro das criptomoedas. Resta saber se essa compra de identidade óptica será lembrada como um passo à frente na proteção digital, ou como um experimento controverso na era de dados hiperconectados. 

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