Regina Guerreiro: “Há muita memória e pouca imaginação”

31/01/2012

por | Gente, Moda

Regina Guerreiro autografando uma cópia do livro “Ui!” ©Juliana Knobel

Regina Guerreiro esteve na terça-feira (31.01) no MuBE, em São Paulo, durante o preview para imprensa da coleção de Inverno 2012 da Renner, para o pré-lançamento de seu livro autobiográfico “Ui!”. O FFW teve acesso à publicação em primeira mão: desordenado cronologicamente, livre de censuras e preconceitos e com frases soltas, escritas por Regina sobre a sua carreira e os seus mais profundos pensamentos, cada página conta uma história ilustrada por uma imagem de moda.

Em todos os seus aspectos, podemos afirmar seguramente que “Ui!” resume bem o percurso de vida de uma das mais influentes personagens do cenário da moda brasileira. Ficamos agora ansiosamente esperando a exposição, que terá início no dia 13 de fevereiro no MuBE.

Em conversa com o FFW, Regina Guerreiro contou um pouco mais sobre as suas inspirações e sobre a sua visão do mundo da moda.

A Regina é um ícone para muitas pessoas. Quem é o seu ícone?

No Brasil respeito muito a imagem da Costanza [Pascolato], acho que ela percorreu um percurso muito bom, ela tem um estilo pessoal muito forte, talvez seja das mulheres mais elegantes do Brasil, mas ícones eu não tenho nenhum.

Estou apostando muito no Pedro Lourenço como estilista. Eu falei isso há dois anos, nas edições que eu fazia para a “Caras”, e este ano ele saiu na “Elle” francesa, então eu fico feliz de acertar as minhas previsões.

Quem inspirou a sua carreira?

Deixa eu pensar… Diana Vreeland, sem dúvida. Eu aprendi com ela que para vender uma coisa, você primeiro tem que vender emoção, daí a pessoa compra o vestido. Então é muito importante fazer esse casamento: emoção que provoca desejo que provoca “Ui! Esse eu quero!”.

O que mudou no mundo da moda?

Eu acho que estamos em um péssimo momento. Estamos num momento em que os consumos engoliram os sonhos. Então são produções tão grandes que a gente até se espanta com o nível de dificuldade que eu vejo. Sou muito a favor de dar dignidade e possibilidade para todo mundo mas eu não sou a favor da não-criação. E isso é muito difícil. A gente precisa primeiro ver o custo e depois criar. Então eu acho que isso esmaga, encolhe a moda, entende?

A nova geração de moda é muito pouco informada. É impressionante como eles se deslumbram com coisas que já aconteceram. Não é legal. O que é a mulher de hoje não é a mulher de ontem, então tem muita memória e pouca imaginação.

E o seu blog? É um veículo para essas observações?

Sem dúvida. O meu blog tá parado… Esse ano passei o ano inteiro meio doente e parei de escrever no blog, mas vou voltar. Vou só descansar um pouquinho mais! (risos)

O livro de Regina de formato especial ©Juliana Knobel

“Perdi noites de sono e chorei o suficiente”, diz Regina Guerreiro

26/01/2010

por | Gente

Na sua definição etimológica “entrevista” é uma palavra composta derivada do francês “entrevoir”, que foi transformada em verbo no século 16. Significa ”encontro face a face”.

Depois de muitas conversas sobre o tema, a equipe FFW decidiu que todo mês vai publicar uma entrevista relatando nosso encontro pessoal com figuras importantes para a moda e assuntos relacionados.

Para um jornalista, a entrevista feita tête-à-tête ganha toda uma outra dimensão: são acionados o contato visual, o olfato, o tato, o paladar e a audição. Estar de corpo presente significa mergulhar, mesmo que seja por alguns minutos, no universo particular do interlocutor, aumentando em muitas vezes a intensidade da experiência. Na Era digital, queremos proporcionar aos internautas de todo o Brasil (e do mundo) um contato mais humanizado, mais intenso, com nossas fontes e personagens.

Para dar início aos trabalhos, enviamos nossa colaboradora assídua Patrícia Favalle ao apartamento da papisa da moda. Entre escárnios e reflexões, a editora mais temida do Brasil confessa que já chorou o suficiente, revela que gostaria de “sair de cena” em grande estilo e, de quebra, libera seu e-mail pessoal para receber trabalhos de novos talentos. Com vocês, Regina Guerreiro.

Andre Rodrigues
Editor-geral

regina-guerreiro-entrevista-patricia-favalle-FFWRegina Guerreiro na fila A da Osklen inverno 2010: sempre na fila A © Agência Fotosite

O DIABO DE PÉS DESCALÇOS
Engana-se quem pinta o diabo caricato. Para se vestir deste predicado, a papisa da moda Regina Guerreiro não abre mão da sofisticação e, claro, do exclusivismo de figurar entre as lendas vivas do cenário fashion

Por Patrícia Favalle
twitter.com/patriciafavalle

Na dialética do pensador Nicolau Maquiavel, o respeito só pode ser conquistado pelo medo, pelo talento ou pela soma destes dois predicados. Num enredo passado no Brasil de décadas atrás, onde a mulher estava confinada ao segundo plano, trocar o conforto do home sweet home para se atrever no mercado de trabalho só poderia ser coisa de feminista apimentada: Regina Guerreiro veio mesmo pra ficar.

À primeira vista, a elegância, a fala articulada e objetiva, e a altivez de seus passos a tornam mais inatingível do que realmente é. Por dentro de sua natureza intempestiva, inquieta e ousada – com touro em gêmeos –, ainda que ela confirme a vocação para debochar do óbvio, o mito é consumido por alguns sentimentos bem comuns aos simples mortais. “Perdi muitas noites de sono e chorei o suficiente para me fortalecer”, avisa.

Dona de seus atos e também de suas escolhas, é o tempo que lhe parece artigo de luxo, e talvez por não domar [ainda] os ponteiros do relógio, ela seja tão intensa. No apartamento localizado no tradicional bairro de Higienópolis, em São Paulo, a anfitriã se sente à vontade num confortável caftan marroquino e de pés descalços, abandonando qualquer alusão aos sapatinhos Prada. Sem meias-palavras e outros pudores, ela abriu as portas ao FFW para contar como é ser Regina Guerreiro.

Como você estreou na moda?
Eu sou jornalista e na época trabalhava como assistente do Mario Donato fazendo pesquisas para a televisão. Depois fui para a revista “Manequim”, da Editora Abril. Embora toda a mulher goste de roupa e acredite que entenda de moda, eu achava uma coisa menor. Foi só quando vi o que acontecia num estúdio e o que podia ser feito com cada peça que me apaixonei. Era um momento muito saboroso. Ainda havia curiosidade e o desafio de fazer as coisas não serem tão evidentes.

Evidentes?
Sim, faziam-se coisas duvidosas. Depois que sai da Abril, criei a agência de moda batizada de Choc (o contrário de chic). Ali fui precursora; a primeira a falar da Lycra, a fazer um audiovisual [para a Rhodia], e tudo sem nenhuma experiência. Passado um período, estagiei na “Harper’s Bazaar”, circulei no mercado e só então assumi a “Vogue Brasil”, onde permaneci por 14 anos. Existia um campo enorme de realização e eu soube explorar esta ótica, mas precisei fugir do trenchcoat da Barbie e do Rolex poderoso, mostrando que a moda podia ser uma consequência do comportamento, de um desejo e até do poder econômico.

O que você fez então?
Apostei no “Barbante em vez do brilhante”. [Risos]. É claro que isso foi muito polêmico, pois a “Vogue Brasil” se dirigia a uma mulher que não concordava com isso. Foi difícil, as roupas eram horrendas e malfeitas, mas tenho certeza que fiz um trabalho de vanguarda e consegui mostrar a moda de um jeito novo.

Não se fazia moda no Brasil…
Acho que ainda não se faz! Mas naquele tempo não se fazia roupa, o que é ainda mais grave.

E como resolveu isso?
Sempre acreditei no close, e como a roupa era péssima, o negócio era focar a estampa, o detalhe. O primeiro editorial que fiz pra “Vogue Brasil”, com fotos do Miro, causou mal-estar na direção da revista. O Luís Carta me disse que estava desapontado – e eu entendi que estava no caminho certo.

O que ainda há para ser feito?
Tudo. Ninguém aposta na mulher atual. Parece que existe um medo coletivo de errar. A mulher do século 21 tem uma estética própria, mas os estilistas insistem em colocá-la como ícone de décadas anteriores, onde os contextos históricos já perderam o sentido.

Como é esta mulher contemporânea?
Ao contrário da liberação sexual, da revolução feminista e de tantos casamentos desfeitos por causa desta emancipação, estamos num período que, lamentavelmente, o corpo venceu a cabeça. O homem prefere a mulher bonita à inteligente. É preciso rever os conceitos. Esta nova mulher está no comando de grandes empresas, da família. Ela é independente, sensual, profissional e poderosa.

A que você atribui esse culto ao corpo?
Esta supervalorização é uma consequência da moda.

E quando começou esse movimento?
Nos anos 80… Só alguns estilistas japoneses, caso do Yohji Yamamoto e do Issey Miyake, tentavam mostrar o lado B do corpo: o impalpável, o indecifrável. Mas era “papo-cabeça” demais e, naturalmente, venceu a perua do Versace!

Qual foi o impacto dessa vitória?
O exagero.

Como você descreveria a moda nos últimos trinta anos?
Resumiria aos anos 80, quando aconteceram as últimas mudanças dignas de serem lembradas. A cada desfile saíamos impressionados, era um show. Dava pra dizer, “agora mudou isso ou aquilo”. Havia grandes experimentações, a exemplo do trabalho assinado pelo [Jean Paul] Gaultier. Depois veio o minimalismo, que se tornou uma porta sem saída desde a década de 90.

E hoje, nada muda?
O problema é justamente o oposto. Muda demais, muda tudo ao mesmo tempo. Virou um caos internacionalizado. Perdeu-se o gosto pelo indivíduo. O mundo se agrupou em fatias comportamentais, intituladas de tribos. E os sonhos se transformaram em números.

Como explica isso?
O comércio do mundo te empurra para esta dinâmica. Passei por uma experiência recente, onde eu tinha 8 mil reais para fazer uma camiseta que custaria 25 ou 30 reais no mercado. Com este saldo, o que sobra para investir numa área de criação ou em qualidade? Zero! A ideia é zerar o custo pra vender. Então funciona mais ou menos assim: os abastados compram na Daslu, a classe média fica infeliz pela falta de opção e os ascendentes das camadas mais populares ficam satisfeitos por comprarem na TNG!

Quais as qualidades de um bom editor de moda?
A paixão, a coragem e a teima de tornar cada momento o mais bonito possível. Não há lugar para os bonzinhos.

Você era considerada uma pessoa muito exigente…
E eu realmente era – e ainda sou. [Risos]. Demorei a aceitar certas diferenças, achava que as pessoas não acompanhavam o que eu queria e isso criava lacunas enormes. Claro que todo mundo quer ser amado, aceito e admirado. Foi muito complicado lidar com os julgamentos. Mas eu sobrevivi.

Você ainda acredita no jornalismo e na crítica de moda?
Acho que nem tudo está perdido. A geração que veio depois da minha tentou de todas as formas apagar o inapagável. Era uma época em que o jornalismo corria atrás da informação – nós íamos visitar as fábricas, os ateliês… Hoje, a notícia já vem pronta, embalada e entregue nas redações pelas assessorias de imprensa. Os críticos confundem o lado humano com o lado profissional e isso prejudica a análise daquilo que é apresentado na passarela. É necessário ter sabedoria para criticar. Desse segmento, o Alcino Leite [da Folha de S. Paulo] se diferencia pela bagagem cultural e refinamento textual.

Quais os nomes que ainda vão dar o que falar?
Entre os stylists, aposto no Maurício Ianês e na Paula Lang, que foi minha assistente na “Elle”. Nas passarelas, Calvin Klein ainda ditará muita tendência. Francisco Costa é outro que tem talento.

Um pecado da moda?
Transmitir sedução quando o momento exige credibilidade. Não dá pra colocar uma executiva com os seios pulando pra fora!

Como é a mulher chic?
É aquela que não tem medo de ser ela mesma. A roupa parte dela, não da tribo. Antigamente o chic era ser. Há cinco minutos o chic era ter. E agora o chic é aparecer. A mulher chic é a que consegue usar o barbante no lugar do brilhante, sem perder o estilo.

Sustentabilidade combina com moda?
Não. A moda requer adequação, mas não pode ser limitada.

O Brasil virou hit?
A grande invenção da moda brasileira foi a tanga indígena. Desde então o Brasil é venerado no exterior como a indústria do corpo perfeito. Mas como acontece em toda narrativa que contrapõe a inteligência a favor da beleza, o vazio imperou. Então acabamos rotulados e inferiorizados.

Quem é Regina Guerreiro?
Eu fui alguém muito solitária, que estudou num colégio de freiras e aprendeu a brincar com o imaginário. Fui preparada para ser dondoca, dona-de-casa exemplar. [Depois de uma breve pausa, ela prossegue em tom visceral]. Sou alguém de palavra, que acredita na fragilidade da magia e persegue a perfeição.

Quais os seus projetos?
Domar o tempo e escrever a minha biografia. Depois acho que sair de cena em grande estilo seria uma boa ideia. [Risos]. Hum, seria algo como me atirar no rio Sena com um vestido de altacostura!

RAPIDINHAS:

Paulo Borges. “Foi meu assistente. É alguém de uma visão incrível de mercado. O considero um businessman”.

Paulo Martinez. “Ele usa até hoje as minhas técnicas, dobra a manga da camisa como eu ensinei, estufa a gravata. Dei a ele o meu olhar”.

Alexandre Herchcovitch. “Sacudiu o mercado e já mostrou coisas incríveis. Tem talentos especiais, mas preferia quando ele vestia travestis”.

Fause Haten. “É um amor de pessoa, mas considero a proposta dele confusa e duvidosa”.

Ronaldo Fraga. “Adoro. É criativo, conceitual, visionário. Ele entende como o trabalho de moda deve ser feito, só falta uma pitada de ousadia, de corpo. A mulher do Ronaldo é pudica. Ninguém quer transar com esta mulher intelectual e sem graça”.

Lino Villaventura. “Talentoso em termos de trabalhos artesanais e estudo de tramas. Mas ele não é estilista, é figurinista. A mulher que o Lino veste é impactante, teatral”.

Gloria Coelho. “É uma batalhadora. A roupa dela é extremamente bem feita e atemporal. Ela tem estilo e bom-gosto”.

Reinaldo Lourenço. “As pessoas mostram na roupa o que elas realmente são”.

André Lima. “Quando ele fazia aquela mulher cheia de estampa e explosiva, havia certo charme. Agora, ele faz volumes estrambóticos e mal resolvidos. Gosto cada vez menos”.

Dudu Bertholini. “Respeito muito do trabalho de pesquisa e as formas limpas que ele cria. Veste a melhor mulher-balneário do país”.

Oskar Metsavaht. “É um homem curioso, que tem tiradas de simplicidade memoráveis. O moleton estruturado, por exemplo, foi a sensação da última temporada”.

Isabela Capeto. “O começo foi um desbunde, agora não dá mais. O forte dela é a decoração, mas ela vende bem no exterior”.

Novos talentos. “Os novos nem chegam a desfilar suas coleções. É um mercado restrito. Gostaria muito de ter acesso a essa gente (pode colocar o meu e-mail: rgmguerreiro@gmail.com). Já entre os mais jovens, o Jefferson Kulig me parece interessante. Preciso conhecer mais de perto o que ele leva pra loja, por que geralmente não gosto daquilo que ele apresenta na passarela”.

Gisele Bündchen. “Versátil, mas não consigo entender essa ligação dela com determinadas marcas”.

Modelo-revelação. “Parei na época das grandes divas, como a Linda Evangelista. Hoje as meninas são todas loiras, de olhos azuis, muito magras e sem graça”.

Chic era ser… “Como a ex-primeira-dama Maria Teresa Fontela Goulart”.

Ser Regina Guerreiro é… “Poder tudo”, responde seu assistente, Ray Mendel, acenando para o fim da entrevista.

Pop 5 por… Regina Guerreiro!

21/01/2010

por | Gente

A personagem desta quinta-feira (21/01) que levamos à Oi Pop Up tem estilo inconfundível e visão apurada para a moda. Regina Guerreiro não deixa dúvidas sobre o título de “Papisa da Moda” que ostenta: a mulher tem a majestade no sangue. Num breve intervalo de sua concorrida agenda, a lendária editora nos cedeu minutos preciosos para eleger seus hits favoritos.

Miscelânea… “Este balde de tinta com headphone é divertido. Eu teria”. Só o fone está à venda, na Nixon, a partir de R$528.

DSC_6788Melhor impossível ©Priscilla Vilariño/FFW

Animal de estimação perfeito?
“Este cachorro de mentira, porque faz pipi!”. Escultura Pit Bull cromado, R$2.600, na Loja do Bispo.

DSC_6801Melhor amigo da mulher ©Priscilla Vilariño/FFW

Uma boa lembrança?
“O espelho em forma de gilete me lembra os anos 80, era um objeto de primeira necessidade…”. Espelho Gilete, por R$132, no Studio Dupla.

DSC_6811Melhor lembrança ©Priscilla Vilariño/FFW

O que você esconde?
“Pensamentos. Por isso os óculos são fundamentais: ninguém vê o que estou pensando”. Óculos Power Flowers, Evoke, por R$798.

DSC_6831Melhor esconderijo ©Priscilla Vilariño/FFW

Regina por Regina?
“Sou uma rainha, ainda que seja a Queen Bee – e esta coroa representa bem o meu reinado”. Loja do Bispo por R$6.000.

DSC_6773Melhor definição ©Priscilla Vilariño/FFW

Colaboraram Bianca Pelliciari e Lica Altafim