31.10.2011 / Moda / por

Será o "ready-to-wear" a alta-costura do século XXI?

Parece mais não é: vestidos do ready to wear com cara de alta costura ©Reprodução

Parece estar surgindo na moda uma nova tendência, mas não se anime tanto. As chances de você poder aderir não são lá muito grandes. É que as marcas de ready-to-wear estão criando peças que se assemelham cada vez mais às criações da alta-costura, e com preço à altura.

Exemplos não faltam. A estilista londrina Mary Katrantzou, por exemplo, fez um vestido chamado “Jewel Tree”, no valor de US$ 14.200, com a justificativa de que “são peças muito difíceis de fazer”. Há também o modelo de Jason Wu de US$ 15 mil, um vestido de organza e renda Stella McCartney de US$ 13.395, um vestido pintado a mão Valentino de US$ 18 mil e uma jaqueta da Chanel de US$ 23 mil.

Vestido Alexander McQueen, à venda no Net-a-porter por £16,450 ©Reprodução

Mas há uma razão para esse “boom” de peças com preços estratosféricos em coleções fora da alta-costura. Com a recorrente questão da relevância das coleções de haute couture e um mundo – especialmente o da moda – cada vez mais rápido, os estilistas estão descobrindo que há uma demanda por peças mais requintadas e caras, e que talvez essa moda, comumente chamada de “demi-couture”, seja a versão século 21 da alta-costura.

Embora a questão preço, tempo de fabricação e sofisticação se equiparem a couture tradicional, há boas diferenças que tornam essa versão mais rentável para as marcas. As peças são vendidas nos canais de varejo normais da marca, inclusive pela internet, em sites como Net-a-Porter e Moda Operandi, e não precisam – nem as roupas nem as marcas – seguir as regras da Chambre Syndicale de la Haute Couture (órgão que regulamenta a existência da alta-costura), como número mínimo de empregados no ateliê, 20, mínimo de peças desfiladas em cada temporada, 25, e requer que o vestuário seja costurado à mão e exclusivo para as medidas das clientes.

Jaqueta Chanel, pela bagatela de US$ 23 mil ©Reprodução

Obviamente, o número de mulheres com dinheiro para pagar essas regalias e tempo suficiente para voar para Paris apenas para fazer provas de roupa não está entre os maiores, o que torna a opção da demi-couture, dentro da própria linha de ready-to-wear, muito mais prática, tanto para quem faz, como para quem pode comprar.

Outra forte razão para esse movimento é dar uma razão para que as pessoas comprem. “Desde ‘la crise’, estilistas estão se certificando de que suas peças são especiais. O cliente quer valor ao seu produto”, disse Nicholas Mellamphy, diretor de compras de luxo da The Room, em Toronto. Além disso, esse tipo de criação quer desenhar uma linha divisória entre “alta-moda” e “moda”, uma coisa meio de impor respeito ao seus trabalhos. “Há algumas coisas que simplesmente não podem ser feitas de modo barato”, falou o estilista Jason Wu. Em outras palavras, não vai dar para encontrar reproduções dessas criações nas araras da Zara ou da Topshop.

Já foram vendidas 18 unidades desse vestido Mary Katrantzou de US$ 14.200 mil ©Reprodução

Apesar de ser uma “tendência” de cunho tradicionalista, a tecnologia tem forte participação nessa história toda, já que hoje os clientes podem escolher as peças com apenas um clique, ver os detalhes bem de perto – muitas vezes logo depois do desfile —, ter a peça entregue em apenas um dia, entre outras coisas, o que não é possível com uma peça de alta-costura. “Nosso cliente que algo realmente especial, que não é um monte de gente que vai ter. Isso é muito o ‘tema’ de agora”, disse Áslaug Magnúsdóttir, CEO do Moda Operandi. Com um vestido custando mais de dez mil dólares, a chance de esbarrar com alguém usando a mesma coisa é deveras diminuta.

Mas é lucrativo? “Peças de mais de US$ 5 mil respondem a 6% do nosso negócio”, disse Joseph Velosa, presidente da marca Matthew Williamson. Prabal Gurung, que fez um vestido de US$ 15 mil, exemplificou: “Há um cliente que quer esse produto, mas é tipo um em cada cidade. Nós esperamos vender muito, mas cinco no total é ótimo!”.

Longo Jason Wu à venda por US$ 15 mil ©Reprodução


Relacionadas