Entrevista

11/09/2012

por | Gente

Por Juliana Lopes, de Milão

Naomi Campbell, Linda Evangelista, Tatjana Patitz, Christy Turlington e Cindy Crawford ©Peter Lindbergh/Reprodução

Conversar com Peter Lindbergh não é apenas conversar com Peter Lindbergh. Chegar perto dele é chegar perto da história da moda. Porque a moda precisa da fotografia para existir.

Parece uma frase complicada, mas não é. A moda NÃO EXISTE sem imagem. Vivemos, estudamos e trabalhamos a moda através de imagens. Podemos nunca chegar perto de uma passarela, de uma modelo, de um determinado vestido, mas sabemos o que são todas as coisas, porque são representadas através de imagens. Digitais ou impressas, não importa. A Kate Moss que conhecemos, por exemplo, é através de imagens. O último desfile de John Galliano — podemos conhecê-lo através de imagens. As imagens acabam virando a nossa realidade e Peter Lindbergh criou grande parte da história atual da moda através de seu olhar.

Quem conhece um pouquinho de moda lembra facilmente de uma foto de Peter que é um verdadeiro ícone da história dos anos 90. Aquela em branco e preto, com as inesquecíveis top models da época que ultrapassaram a esfera do mundo das modelos e viraram personagens célebres: Naomi Campbell, Christy Turlington, Cindy Crawford, Tatjana Patitz, Linda Evangelista. Do outro lado daquelas divas, segurando uma câmera e olhando para todas elas, estava Peter.

Peter Lindbergh em entrevista ao FFW ©Juliana Lopes

O mais interessante – e que nos faz entender o verdadeiro e profundo valor do olhar de cada um – é constatar que no final a relação entre nós e um artista deste porte é muito íntima. O que saiu das profundezas da vontade e do olhar dele mora nas profundezas da nossa memória.

O FFW conseguiu falar com exclusividade com Peter na festa da loja Corso Como, na noite do Vogue Fashion’s Night Out, em Milão, dia 6 de setembro. Foi a abertura da exposição do fotógrafo, que é dividida em duas partes: Known e The Unknown. Em Known, foram selecionadas 40 imagens famosas de inúmeros editoriais que ele realizou para “Vogue”, “Harper’s Bazaar”, “Marie Claire”, “Interview” e “Allure”. A segunda parte da mostra, The Unknown, é um projeto pessoal do artista, que tem grande força cinematográfica, especialmente em ultra-realismos que encontramos em filmes de sci-fi. Muita referência, assumida inclusive, do cineasta Fritz Lang. Nesta mostra vemos muitas fotos da modelo e atriz Milla Jovovich, que Peter Lindbergh começou a fotografar desde que ela tinha 13 anos.

Fãs se acotovelavam levando livros ou mesmo revistas de moda para que ele autografasse. O papo foi disputado: foi preciso cercar o artista num cantinho do café da loja. Mas na conversa rápida que tivemos já deu pra sentir o gostinho de sua índole criativa.

Kate Moss em 1994 ©Peter Lindbergh/Reprodução

Como é que você sabe que é o momento exato para clicar?

Isso acontece muito claramente quando você sabe o objetivo que quer atingir.

E geralmente o que você quer?

Quero representar a pessoa, a mulher, de um determinado modo meu. Não estou fotografando uma mulher, estou fotografando a impressão que tenho dela.

Consegue captar essa impressão fazendo um primeiro contato com seu olhar?

Consigo fazer isso conversando, antes do shooting. Se eu te fotografasse agora, por exemplo, seria baseado nessa conversa, nessa primeira impressão que tive de você, o que não significa totalmente você. Quando alguém vem me dizer que fotografei essa ou aquela mulher, eu digo: “Não, eu fotografei o momento que vivemos, a relação que tivemos naquela hora do clique”.

Você então se apropria, de algum modo, de uma parte da essência da mulher que fotografa. Você rouba a alma dela! (em tom de brincadeira, e Peter ri)

Roubo!

Na realidade você mistura a sua alma com a dela porque naquela imagem que resulta, há o seu olhar!

Exato. Eu coloco minha alma na imagem que estou fazendo. A imagem vem de um encontro de duas almas. O que eu fotografo é isso. É uma coisa invisível que se torna visível.

+ Veja mais sobre a história de Peter Lindbergh aqui

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©Juliana Lopes/FFW
A entrada da Corso Como