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Estilista Jonathan Saunders vence prêmio do British Fashion Council

Jonathan Saunders ©Reprodução

Há três anos, o British Fashion Council e a revista “Vogue” se uniram para criar o “Designer Fashion Fund”, premiação que visa ajudar jovens talentos residentes em Londres. O vencedor da edição deste ano, anunciado na última quarta-feira (01.02), foi o estilista escocês Jonathan Saunders, que foi laureado com a quantia de £ 200 mil (aproximadamente R$ 545 mil) e um plano de 12 meses de consultoria financeira desenvolvido especificamente para que sua marca converta-se em um negócio de moda global.

Jonathan Saunders, que concorria ao “Designer Fashion Fund” com nomes expoentes como Marios Schwab, Mary Katrantzou, Meadham Kirchhoff, Nicholas Kirkwood, Peter Pilotto, Richard Nicoll, Roksanda Ilincic e Zoe Jordan, nasceu em 1977 na Escócia em uma família extremamente religiosa. Contrariamente à vontade de seus pais, que planejam para o jovem Jonathan um futuro ligado à carpintaria e desaprovavam materialismos e frivolidades, ele optou por se graduar em Estamparia na Glasglow School of Art, em 1999. Logo depois, o estilista se mudou para Londres, onde concluiu em 2002 um mestrado (também em Estamparia) na famosa Central Saint Martins. Pouco mais de um ano e meio depois, no Outono/Inverno 2003/2004, Jonathan Saunders debutou nas passarelas da London Fashion Week com uma coleção que foi elogiada por veículos importantes como o Style.com e a “Vogue” britânica, que em janeiro de 2004 trouxe na capa Natalia Vodianova em um vestido bicolor do designer.

Capa da “Vogue” britânica de janeiro de 2004 ©Reprodução

O “Designer Fashion Fund”, no entanto, não foi o único prêmio na carreira já vitoriosa de Jonathan Saunders: em 2002, o escocês ganhou o “Lancôme Fashion Awards” por sua habilidade com as cores e, em 2006, ganhou o “Fashion Enterprise Awards” do British Fashion Council. Em 2009, foi eleito o “Designer do ano” pela Elle e, no ano seguinte, pelo “Scottish Fashion Awards”. Além dos títulos, Jonathan Saunders conquistou mulheres como Michelle Obama, Sienna Miller, Thandie Newton e a própria diretora da “Vogue” britânica, Alexandra Shulman, que se disse encantada com a vitória do escocês no “DFF”.

Jonathan Saunders Primavera/Verão 2012 ©Reprodução

Jonathan Saunders Outono/Inverno 2011 ©Reprodução

Após nove coleções apresentadas em Londres, Saunders desfilou por três temporadas na Semana de Moda de Nova York até retornar na Primavera/Verão de 2010 para a cidade que o acolheu desde o seu início como estudante. Além da direção criativa de sua marca homônima, o “colorista” escocês já prestou consultoria criativa para a Pucci, Chloé, Alexander McQueen e Pollini. Comentando o novo prêmio, Jonathan Saunders afirmou: “Estou muito feliz. Os últimos 12 meses foram muito emocionantes para mim e para a minha equipe e estou muito orgulhoso do trabalho duro que realizamos. Nós temos planos empolgantes para o futuro próximo e este apoio fornecido pelo BFC nos possibilitará alcançar nossas metas”.

Estilista Jonathan Saunders vence prêmio do British Fashion Council

Direto de Madri: FFW encontra Débora Müller nos bastidores da semana de moda

Débora Müller em Madri, no backstage da Duyos ©FFW

E não é que no meio da correria aqui em Madri, encontramos com Débora Müller? Essa modelo brasileira de Pato Branco, no Paraná, está aqui pela primeira vez participando da semana de moda. Depois do desfile da marca Duyos, fui procura-la no backstage. Aos 20 anos (três como modelo), ela estava surpresa (e feliz) pelo fato de os desfiles não atrasarem. “As provas de roupa são aqui mesmo, um pouco antes dos shows. Diferentemente de Nova York e das outras capitais, a gente não precisa dormir nem acordar de madrugada, é tudo super rápido!”, comemora.

Débora Müller desfila para Elisa Palomino, Duyos e Roberto Torretta ©Reprodução

Ela fica por aqui até o final da semana e torce para ter um tempinho livre para conhecer a cidade. Em seguida vai para Nova York, onde mora, e faz a temporada completa: Londres, Milão e Paris. Em apenas dois anos morando fora do Brasil, ela já conquistou nomes grandes da moda internacional. 1) Marco Zanini, da Rochas: “Adorei conhece-lo, ele é um doce e sempre me chama para desfilar 2) Russell Marsh, diretor de casting: “É o meu paizão na moda. Ele cuidava do casting da Prada e sempre me colocava na Miu Miu. Foi ele quem deu o impulso para minha carreira 3) Christopher Bailey, diretor criativo da Burberry: “Conheci Chris no meu primeiro casting para a Burberry e em seguida fiquei sabendo que ele tinha me dado três looks no desfile. Fiquei muito feliz. A equipe inteira da marca é muito atenciosa, mas ele é o mais de todos. Em um desfile, o sapato era horrível para andar, super super alto. E ele vinha toda hora perguntar se eu estava bem, se eu achava que conseguiria andar direito, etc”.

Aqui em Madri, em Nova York, São Paulo ou Paris, é nas passarelas onde Débora se sente feliz. “Adoro desfilar, muito mais do que fotografar. É um momento todo seu, mas ao mesmo tempo você está fazendo isso para outra pessoa, o estilista, e você tem que dar o seu melhor para ele. São seis meses de trabalho duro e nada pode dar errado”, diz. Além de iluminar os eventos com um dos rostos mais doces do momento, ela mostra que sabe das coisas.

Direto de Madri: FFW encontra Débora Müller nos bastidores da semana de moda

Rick Owens, sua esposa Michele Lamy, e a arte de ver beleza nas imperfeições

Rick Owens ©Danielle Levitt/Reprodução

O site da “AnOther Magazine” lançou recentemente o vídeo abaixo, filmado pela fotógrafa californiana Danielle Levitt, que mostra como “funciona” a vida de Rick Owens e sua esposa Michele Lamy, “os monstros elegantes” (carinhosamente chamados assim pelo “The New Yorker”), onde se pode ver o cuidado e a parceria na construção do que é hoje um império milionário.


O designer californiano Rick Owens nasceu e cresceu em um ambiente rural e católico, mas a única coisa que ele se lembra dessa época é “de ser envolvido em histórias da Bíblia sobre pessoas arrastando seus longos robes em templos empoeirados”. Hoje, Rick vive e trabalha no centro de Paris, em uma mansão na Place du Palais-Bourbon, com a sua mulher, musa inspiradora e sócia, Michele Lamy.

A sua relação com Lamy começou há mais de 20 anos, desde a época em que ele trabalhava desenhando estampas na fábrica que ela tinha em Los Angeles. No final dos anos 90, depois que Rick largou as drogas e o álcool, foi Michele quem o salvou, relembra o próprio.

Michele, francesa e quase com o dobro da idade de Rick, é ex-frequentadora da noite underground de Los Angeles e antiga proprietária do Les Deux Café, um restaurante com inspiração nos antigos cabarets. Lamy é caracterizada pelos seus dedos tatuados e pintados de preto e pelo seu estilo glunge (como o define Rick) de glamour misturado com grunge. Em 2008, Owens descreveu para o “The New Yorker” a sua musa como uma “esfinge inspiradora que age de acordo com os seus instintos”. Até hoje, Michele e Rick têm uma vida em comum estável e unida e têm traçado juntos o seu caminho na moda . O seu e o de talentos como Gareth Pugh, que, no início da sua carreira, teve o casal como mecenas tendo inclusive produzido algumas de suas peças na fábrica que Owens e Lamy tinham em Milão.

Bancos de madeira de demolição da coleção de mobiliário de Rick Owens ©Reprodução

O casal Rick Owens e Michele Lamy construiu o seu império vendo beleza na imperfeição das coisas, aspecto que se percebe nas suas coleções desconstruídas e assimétricas e até na sua forma de ver a vida.

Rick desenha sob o seu nome desde 1994, vendendo diretamente em algumas lojas as suas elegantes peças assimétricas, mas foi só em 2002, quando foi premiado com o prémio “Novo Talento da CFDA” (Council of Fashion Designers of America – conselho dos designers americanos) que o nome Rick Owens passou de grife cultuada do cenário underground anti-fashion, como Rick a descrevia, usada por Madonna e Courtney Love, para marca de passarelas internacionais.

Michele Lamy fotografada por Steven Meisel para a “Vogue” francesa ©Steven Meisel/Reprodução

Hoje, com lojas espalhadas pelo mundo e uma linha de mobiliário que recheia a sua casa e que estará no museu Chesa Planta, na Suíça, em uma exposição intitulada “Magic Mountain” (“Montanha Mágica”), Rick Owens continua a desenvolver as suas peças inspirado em Michele Lamy e com a ajuda da mesma. Segundo o designer, é ela quem se responsabiliza por toda a produção, interagindo com os artesãos na procura de matérias primas originais e diferenciadas.

Michel Lamy e Rick Owens são hoje referências em estilo, moda e vida. A sua visível paixão um pelo outro e o seu estilo de vida parisiense underground levam-nos a crer que ainda podemos esperar muito do casal.

Rick Owens, sua esposa Michele Lamy, e a arte de ver beleza nas imperfeições

Yoani Sánchez, a blogueira cubana que virou símbolo da liberdade de expressão

Yoani Sánchez ©Reprodução

O surgimento e, sobretudo, a democratização da internet transformaram o modo como as pessoas enxergam a vida e lidam com as diferentes realidades socioculturais. Em meio a uma avalanche de inutilidades que pipocam diariamente no mundo virtual, aqueles que têm algo relevante a dizer sobressaem – afinal, como já instituído pelo velho ditado popular: “Em terra de cego, quem tem um olho é rei”. A filóloga cubana Yoani Sánchez se enquadra na categoria de personalidades que alcançaram fama internacional em consequência de suas ideias, postadas no blog “Generación Y” e em seu Twitter.

Considerada símbolo da luta pela liberdade de expressão, Yoani nasceu em quatro de setembro de 1975 em uma família de militantes socialistas de Havana. Seu pai, William Sánchez, trabalhava nas vias-férreas estatais, primeiro como operário, depois como maquinista. Com o fim da União Soviética e posterior colapso de todos os regimes comunistas na Europa, no entanto, Cuba passou a não mais receber recursos externos e a economia local entrou em crise, o patriarca dos Sánchez então se viu desempregado, como boa parte da população, e passou a consertar bicicletas.

Já crescida, Yoani Sánchez seguiu seu interesse por literatura latino-americana contemporânea e formou-se em Filologia Hispânica na Faculdade de Artes e Letras da Universidade de Havana. Seu trabalho final, apresentado em 2000, causou polêmica: a dissertação, chamada “Palavras sob pressão. Um Estudo da Literatura da Ditadura na América Latina” foi tido como uma provocação ao comparar as autoridades cubanas aos autoritários caudilhos que ascenderam ao poder na América do Sul e Espanha do século XX. Paralelamente aos estudos, Yoani casou-se com o jornalista e dissidente político 28 anos mais velho, Reinaldo Escobar. Após ter se graduado e se tornado mãe, a cubana trabalhou em uma editora de livros infantis e como professora de espanhol para turistas alemães, até emigrar para a Suíça, em 2002, onde permaneceu por dois anos.

De volta a Havana em 2004 para visitar a família, Yoani só poderia passar duas semanas no país – segundo a legislação local, os cidadãos que permanecerem por mais de 11 meses vivendo no exterior sem uma permissão especial não podem voltar a residir em Cuba. Para evitar ser obrigada a retornar à Suíça, Yoani destruiu seu passaporte e pôde novamente residir em sua terra natal, onde pouco tempo depois ajudou a fundar a revista “Consenso”. Em 2007, passou a trabalhar como jornalista para o portal “Desde Cuba” e em abril do mesmo ano criou seu blog, o já mencionado “Generatión Y”.

Em seu primeiro post no blog, feito em nove de abril de 2007, Yoani descreve a empolgação dos cubanos com as últimas partidas do campeonato nacional de beisebol e ironiza como a população se envolve no assunto, em contrapartida à falta de atitude em relação a outros tópicos: “Os industrialistas se vestem de azul, enquanto o vermelho é a cor de quem torce pelo Santiago de Cuba. Em numerosas varandas, portas e muros se lêem cartazes como “Industriais Campeões” ou “Santiago é muito Santiago”. (…) Sem embargo, não deixo de notar que durante esses dias a bola nos mergulha em um torpor irreal. (…) Posso imaginar o que acontecerá se uma vez concluída a final colocasse em minha varanda um papel mínimo dizendo: “Sim ao etanol” ou “Internet para todos”. Muito sagaz até nos menores apontamentos, é fácil entender por que Yoani incomodou o governo de Cuba – e incomodaria, aliás, a qualquer governo.

O “diário” online de Yoani começou a ganhar repercussão após a publicação de um artigo da “Reuters” sobre blogueiros cubanos em outubro de 2007. Logo se seguiram outras matérias, como a do “Wall Street Journal”, que praticamente elevou a escritora ao patamar de heroína: “Revolução Cubana: Yoani Sánchez luta contra o totalitarismo tropical, uma postagem de cada vez”, além de entrevistas ao “El País”, “Die Zeit” e “The New York Times”.

O blog converteu-se um sucesso internacional, mas apesar do êxito externo, em Cuba a blogueira parece só chamar a atenção das autoridades políticas: o site foi tirado do ar em diversas ocasiões e posteriormente bloqueado em definitivo. Yoani, que só conseguia atualizá-lo a partir de cafés ou hotéis de luxo (ela não possui internet em casa), foi obrigada a adotar um novo sistema, chamado por ela de “rede cidadã”: enviar por e-mail seus textos para que pessoas fora de Cuba os publiquem.

Em meio a muitas controvérsias, que incluem até o envio de perguntas ao Presidente americano, Barack Obama, Yoani Sánchez foi eleita uma das 100 pessoas mais importantes do mundo pela revista “Time” e ganhou o prêmio “Ortega y Gasset”, do jornal “El País”, na categoria de Jornalismo Digital. No final de 2011, o cineasta brasileiro Dado Galvão passou três semanas gravando o documentário “Conexão Cuba-Honduras” nos países homônimos para retratar as restrições políticas impostas às populações locais. Yoani Sánchez foi uma das escolhidas para “protagonizar” o projeto, que será lançado no dia 10 de fevereiro deste ano, e tenta vir ao Brasil para comparecer ao evento. O Ministério das Relações Exteriores já concedeu o visto à blogueira, resta agora a autorização do governo cubano. Nesta terça-feira (31.01), a presidente Dilma Rousseff esteve na ilha, onde se encontrou com o Fidel e Raúl Castro, mas evitou comentar os pedidos da ativista ou tampouco discutir questões relacionadas aos direitos humanos. Em entrevista à rádio “Estadão ESPN”, Yoani Sánchez, que se autodeclara “jornalista independente”, afirmou estar decepcionada com a líder brasileira.

Yoani Sánchez, a blogueira cubana que virou símbolo da liberdade de expressão

Regina Guerreiro: “Há muita memória e pouca imaginação”

Regina Guerreiro autografando uma cópia do livro “Ui!” ©Juliana Knobel

Regina Guerreiro esteve na terça-feira (31.01) no MuBE, em São Paulo, durante o preview para imprensa da coleção de Inverno 2012 da Renner, para o pré-lançamento de seu livro autobiográfico “Ui!”. O FFW teve acesso à publicação em primeira mão: desordenado cronologicamente, livre de censuras e preconceitos e com frases soltas, escritas por Regina sobre a sua carreira e os seus mais profundos pensamentos, cada página conta uma história ilustrada por uma imagem de moda.

Em todos os seus aspectos, podemos afirmar seguramente que “Ui!” resume bem o percurso de vida de uma das mais influentes personagens do cenário da moda brasileira. Ficamos agora ansiosamente esperando a exposição, que terá início no dia 13 de fevereiro no MuBE.

Em conversa com o FFW, Regina Guerreiro contou um pouco mais sobre as suas inspirações e sobre a sua visão do mundo da moda.

A Regina é um ícone para muitas pessoas. Quem é o seu ícone?

No Brasil respeito muito a imagem da Costanza [Pascolato], acho que ela percorreu um percurso muito bom, ela tem um estilo pessoal muito forte, talvez seja das mulheres mais elegantes do Brasil, mas ícones eu não tenho nenhum.

Estou apostando muito no Pedro Lourenço como estilista. Eu falei isso há dois anos, nas edições que eu fazia para a “Caras”, e este ano ele saiu na “Elle” francesa, então eu fico feliz de acertar as minhas previsões.

Quem inspirou a sua carreira?

Deixa eu pensar… Diana Vreeland, sem dúvida. Eu aprendi com ela que para vender uma coisa, você primeiro tem que vender emoção, daí a pessoa compra o vestido. Então é muito importante fazer esse casamento: emoção que provoca desejo que provoca “Ui! Esse eu quero!”.

O que mudou no mundo da moda?

Eu acho que estamos em um péssimo momento. Estamos num momento em que os consumos engoliram os sonhos. Então são produções tão grandes que a gente até se espanta com o nível de dificuldade que eu vejo. Sou muito a favor de dar dignidade e possibilidade para todo mundo mas eu não sou a favor da não-criação. E isso é muito difícil. A gente precisa primeiro ver o custo e depois criar. Então eu acho que isso esmaga, encolhe a moda, entende?

A nova geração de moda é muito pouco informada. É impressionante como eles se deslumbram com coisas que já aconteceram. Não é legal. O que é a mulher de hoje não é a mulher de ontem, então tem muita memória e pouca imaginação.

E o seu blog? É um veículo para essas observações?

Sem dúvida. O meu blog tá parado… Esse ano passei o ano inteiro meio doente e parei de escrever no blog, mas vou voltar. Vou só descansar um pouquinho mais! (risos)

O livro de Regina de formato especial ©Juliana Knobel

Regina Guerreiro: “Há muita memória e pouca imaginação”

A vida, o trabalho, as memórias e o futuro de Mari Weickert

Mari Weickert, em seu apartamento, em São Paulo ©Juliana Knobel/FFW

Aos 29 anos, Mariana Weickert observou, da primeira fila, muitas mudanças e acontecimentos da moda brasileira e internacional.  Junto com Ana Claudia Michels, Luciana Curtis, Daniela Raizel, ela estava “lá” quando tudo começou a acontecer com força, no Morumbi Fashion, que começava a bombar os estilistas brasileiros e fortalecer a indústria. Mari era reconhecida como a menina que era a cara da Barbra Streisand ou a que tinha a tatuagem “made in Brazil” na lombar.

Hoje ela é uma das apresentadoras mais carismáticas da televisão e continua com o mesmo jeito intrépido que conquistou tantos editores, stylists e fotógrafos. Tranquila, Mari namora há dois anos e meio e tem como melhores amigos sua turma de Blumenau, cidade onde nasceu.

Nós estivemos na casa dela, um apartamento em um prédio projetado por Arthur Casas, todo ajeitadinho, muito acolhedor, daqueles que têm hortinha na varanda. Mari recebeu a equipe à vontade e de maneira aberta, respondendo a todas as perguntas com naturalidade e sua habitual simpatia. Durante a conversa, ela relembra seus principais trabalhos, a vida dura em Nova York, mostra seu interesse por política e diz o que pensa sobre as editoras de moda.

Como você está hoje?

Estou feliz, só que quero mais. Vivemos um processo evolutivo e nem com 80 estarei totalmente satisfeita. Mas vivo em paz com essa busca, nunca estive tão bem. Não sei se é uma questão de amadurecimento, mas você perde um pouco suas ideologias e acaba aceitando melhor as coisas.

Por exemplo…

Aprendi que não existe príncipe encantado, que as pessoas ao nosso redor têm defeitos sim. Hoje sou mais paciente, mais tolerante e perdi o tesão em algumas coisas. Antes eu buscava mais espiritualidade, uma coisa que deixei um pouco de lado.

Como está sua fé hoje?

Eu já fui a centro de umbanda, candomblé, igreja evangélica, gospel e templo budista. Eu gosto disso, tenho curiosidade. Estudei Física Quântica, li a “Operação do Cavalo de Troia” com 17 anos, eu pirava. Eu invejo quem tem fé, esse amor incondicional por uma coisa maior. Fico um pouco triste por ter deixado isso de lado, mas acredito que é uma fase.

Você também se interessa muito por política, não?

Já fui muito mais,  especialmente na época que fazia o programa “Saca-Rolha”, com o Marcelo Tas e o Lobão. A gente ia para Brasília cobrir CPI.

E como era a reação das pessoas em relação a você ser uma ex-modelo?

A proposta nunca foi a de eu ser a bonitinha do programa… Eu quebrei o pau com o (Aloísio) Mercadante. Fui até chamada pela Band… Rolava uma inconsequência inocente naquela época.

Como foi essa história com o Mercadante?

O Palocci ainda era ministro, foi antes da história do caseiro Francenildo. E todo mundo sabia que o sonho do Mercadante era assumir o Ministério. Numa entrevista com ele, perguntei: você colocaria seu bigode no fogo pelo Palocci? “Onde você quer chegar?”, ele respondeu. E houve uma pequena confusão.

No início da carreira ©Reprodução

Voltando um pouco no tempo, no início da sua carreira, como era a vida de uma modelo em Nova York naquela época?

Morava em Tribecca e me proporcionava uma vida bacana. Mas quando cheguei, com 16 anos, fui morar com 12 meninas num apartamento paulada (risos). Fiquei lá por oito meses e depois fui morar com a Lu Curtis e a Dani Crispim. Também troquei de agência, fui para a Women, que era uma espécie de agência boutique. Eles tratavam a gente como rainha. Ganhei um bracelete da Hermès do dono, eles deixavam mimos nos hotéis, mandavam presentes.

E você entendia o valor disso tudo?

Nem sabia o que era um bracelete da Hermès! Tanto que só fui usar há pouco tempo. Não tinha noção da importância da Chanel… Minha referência era o editorial de moda da “Capricho”. E esse glamour todo era muito normal na época. Só hoje tenho noção de como era especial.

Você chegou a trabalhar com alguém muito importante, mas que não sabia quem era?

Desfilei para o Alexander McQueen sem nunca ter ouvido falar dele! A (stylist) Katy England também pediu para me conhecer pessoalmente e me bookou com exclusividade para o desfile dele. Foi Inverno 2000, quando ele montou uma pista de patinação inspirado no filme “O Iluminado”. A gente desfilava no gelo e eu apavorada, com aquele nome McQueen vibrando na minha cabeça. Depois disso fiz um monte de desfiles para ele.

Desfile do estilista Alexander McQueen de Inverno 1999/2000, em que as modelos desfilavam no gelo ©Reprodução

Hoje parece que as meninas já entram na profissão sabendo sobre todo mundo.

Hoje elas fazem um desfile do Valentino e já ficam íntimas dele, vão à casa dele, nas festas. Eu nunca fui a uma festa do McQueen ou na casa da Donatella Versace. Burra, né?

Você não tinha vontade?

Durante uma temporada, você dorme duas horas por noite, passa o dia em prova de roupa e fica esgotada. Queria distância de festa! E a gente era menina, todas muito novas. A única coisa que queria fazer depois do desfile era dormir. Eu, a Raquel Zimmermann, a Carol Bittencourt e a Omahyra ficávamos no hotel comendo biscoitos e vendo filme no laptop. E tudo aquilo rolando lá fora. Mas eu não achava graça nas piadas do povo da moda.

Que outros trabalhos importantes você fez naquela época?

Fiz uma campanha da Gucci com o Mario Testino e a Carine Roitfeld. Lembro que estava com uma saia de couro naquele dia e o Mario me falou: “Quando você estiver com a Carine, não precisa se vestir tanto assim”, algo como: “deixa ela brilhar”.

Rsrsrsrs. O que você acha das editoras de moda?

Algumas são tão perdidas e as pessoas ao redor fazem elas acreditarem que elas podem mudar o mundo a cada estação. Elas andam com entourage, entram no desfile a qualquer momento…

Mari novinha, em três momentos, entre eles, a capa da “V Magazine” ©Reprodução

Bom, e a tal campanha da Gucci?

Não saiu! Uma pessoa da agência me ligou e disse que não ia rolar. Depois eu viajei com o Testino para Napoles fazer o calendário Pirelli e fiquei sabendo que ele teve uma discussão com o Tom Ford. Foi uma grande briga de egos. Depois de dois anos eles voltaram a trabalhar juntos. Hoje eu saí do circuito, mas ainda tenho muito carinho pelo Mario. Ele me deu minha primeira capa da vida, para a “V Magazine”.

Que outra campanha te marcou?

Uma para o Marc Jacobs. Fiz muitos desfiles dele. Um dia, cheguei na prova de roupa e lá estava o Jurgen Teller (fotógrafo que assina os anúncios da marca). Eu usava aparelho na época e o Jurgen falou: “Mari, smile!” e quando eu virei, ele me fotografou. E essa imagem virou a campanha, num outdoor enorme em Nova York. Também fiz um editorial com o Stephen Sprouse para a “Vogue” espanhola (Mari tem uma camiseta que ganhou de presente do próprio, emoldurada e pendurada na parede da sala).

Camiseta de Stephen Sprouse, devidamente emoldurada ©Juliana Knobel/FFW

Até quando durou sua fase nos EUA?

Até 2004. Vim para São Paulo e nunca mais voltei. Percebi que não gostava daquela vida, aquele mundo não me alimentava mais. Fui adiando meu retorno e arrumando desculpas para não ir para o prêt-à-porter.  Até que um dia minha mãe disse: “Você não vai mais voltar”.

Você conseguiu guardar algum dinheiro?

Quando voltei, vi que não tinha guardado nada. Eu fazia as grandes revistas, que não pagam…  Foi bem quando resolvi vir para o Brasil que eu ia começar a pegar os trabalhos de grana. Nunca prestei atenção nos meus contratos. Quando comecei a trabalhar, buscava experiências na vida, era mais pela realização profissional e pessoal.  Acho que muitos valores naquela época poderiam ser diferentes. Quando fiz Pirelli, por exemplo, ganhei R$ 10, R$ 15 mil, só que é um trabalho que paga muito mais do que isso. Eu nunca perguntei quanto ia ganhar e no final, tava sempre devendo para a agência. Fui muito desatenta.

E o que você foi fazer quando voltou ao Brasil?

Chegando aqui, tive milhões de dúvidas. Queria fazer Gastronomia, Direito, Ciências Políticas, só que aí começaram a surgir convites para a MTV. Em seguida fechei o Saca-Rolha, veio o GNT Fashion e agora o Vamos Combinar (no canal pago GNT). Aprendi muito na MTV, pois entrava ao vivo em horário nobre, por uma hora e meia.

Depois que você começou a fazer programas na TV, as pessoas começaram a falar com você na rua?

Sim. E às vezes é bom e outras não. Algumas pessoas já chegam fazendo a íntima. Mas é um processo bem natural, pois eu falo com um público muito específico, então não é que eu não tenho paz na rua ou algo desse tipo… Na TV fechada dá para manter tudo sob controle. E eu também nunca dei motivo para ninguém falar de mim e não instigo a curiosidade das pessoas em relação a minha vida pessoal.

Como é a sua relação com o seu corpo?

Hoje sou muito mais feliz do quando era modelo e tinha cinco quilos a menos. Olho e pergunto: como as pessoas deixaram? Eu me sentia linda, mas eram outros parâmetros. Eu lido bem com as transformações e não tenho medo de envelhecer. E vou usar a tecnologia a meu favor, uma coisa que a mulher ainda não entendeu.

Você se cuida, vai ao dermatologista, à academia?

Tenho um dermatologista que eu gosto muito, mas sou um pouco indisciplinada. Essa maquiagem que estou é de ontem…

Onde você foi?

Fui Mestre de Cerimônias em um evento. Essas coisas rolam muito. Na maioria das vezes não é divulgado, pois é para um público bem específico. Acho bem divertido fazer e interagir com as pessoas. Também tem que ter um bom jogo de cintura para conduzir o evento.

E além de dormir maquiada, que outros pecados você comete?

Não uso produtos todos os dias… Às vezes não passo nada. Imagino que não funciona assim, mas é melhor que não usar nunca! Uma coisa que me ajudou foi ter ido ao Dr. Hamilton, médico ortomolecular que foi indicado pela Sabrina Sato.

Quem são seus amigos hoje?

Todas de Blumenau! Tenho uma melhor amiga, a Lolô. De tão amiga, nós até usamos uma aliança no dedão da mão. No meio da moda também tenho ótimos amigos, o Paulo Martinez, o Rui Furtado. Marcos Campos e Alex Lerner também são amigões.

O que a Mari deseja para o futuro?

Estou numa fase de questionamentos. Não tenho certeza de nada. Casar, ter filhos, construir família… Não sei de nada. E eu estou em paz por não saber.  Faço terapia e estou tranquila. Essas dúvidas são saudáveis e pertinentes e estarão comigo para a vida inteira.

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Na sala, há móveis de madeira e sofás confortáveis, com vista para a cidade ©Juliana Knobel/FFW

Foto de Mari, sua mãe e irmão, tirada por Gui Paganini, antes dela imaginar que o reencontraria profissionalmente ©Juliana Knobel

Madeira, plantas e detalhes, como a mulher de barro decoram a casa ©Juliana Knobel

 Saindo do elevador, damos de cara com esse quadro ©Juliana Knobel

Foto antiga, ampliada e enquadrada, na sala ©Juliana Knobel

A vida, o trabalho, as memórias e o futuro de Mari Weickert

Editora da “Vogue” da Turquia fala sobre moda, Brasil e fotos no Guarujá

Por Flavia Brunetti em colaboração para o FFW

O estilo de Konca Aykan, editora de moda da “Vogue Turquia” ©Juliana Knobel

Konca Aykan, editora de moda da “Vogue” Turquia, é a tradução literal do que é ser realmente cool e antenada. Ela veio ao Brasil especialmente para o SPFW e foi lá pelos corredores da Bienal que a encontramos para pegar suas impressões sobre o evento e o país.

Aproveitando sua passagem por aqui, ela está fotografando dois ensaios, no Guarujá e em São Paulo. De gestos rápidos, sempre grudada ao Blackberry e sorrindo, ela se mostrou entusiasmada em estar entre nós.

É a sua primeira vez aqui?

Sim, acredita?

Não! Nem como turista?

Não. São Paulo é tudo o que eu conheço do Brasil. Ah! E fui pro Guarujá também.

Pro Guarujá?

Sim! Fiz um shooting para a “Vogue” Turquia lá, para a edição de junho da revista.

Você pode nos contar desse shooting? Quais foram as suas inspirações?

Minhas inspirações foram a arquitetura à beira mar, carros antigos e o mar. Gostei do clima de ser uma cidade que poderia ter um mood bem rápido, de movimento, carros, barulho. Mas não, é super calmo e com uma atmosfera positiva que não tem como não trazer coisas boas e não inspirar em fazer algo bonito.

Algum outro trabalho por aqui?

Sim. Vou fotografar em São Paulo para fazer contra-ponto ao shooting do Guarujá. Na praia fizemos em ambientes abertos, produção com mais movimento e roupas esvoaçantes. Aqui quero fazer no Parque do Ibirapuera com as obras de Niemeyer atrás, em ângulos fechados. Pois é assim que vejo essa cidade. É tudo muito alto, grande, você não vê o horizonte, não termina.

E os looks? Algum brasileiro?

Não, infelizmente não. Porque se a leitora de lá se interessar pela roupa e quiser comprar, não está à venda em nenhuma loja local. É difícil, porque vi coisas que me interessariam aqui. Mas, 905 dos looks eu trouxe de Paris, Milão e Londres. E complementei com acessórios brasileiros.

De quais marcas?

Não lembro… (risos)

Ouvi dizer que o seu fotógrafo é muito bacana. Foi ele quem fez a capa do último álbum do LCD Soundsystem, não é?

(Risos) Sim, o Ruvan Wijesooriya faz muitas fotos de banda, muitos retratos de rock stars e de pessoas comuns na rua, mas fotografa bastante para várias publicações também.

E lá na Turquia? Vocês têm acesso às informações sobre nossa semana de moda?

É tão complicado quanto vocês saberem da semana de moda turca aqui. A não ser que se acesse diariamente o site style. com. Mas, posso dizer é que a organização da semana de moda aqui é melhor que a nossa.

Konka em conversa com o FFW ©Juliana Knobel

O que chamou sua atenção por aqui?

Notei que o público que frequenta a Bienal é mais velho do que o da semana de moda da Turquia. Como o país de vocês é jovem, eu esperava ver também estilistas mais jovens. Acho importante ouvir o que as novas gerações têm pra falar que, geralmente, é bem interessante. Eles são rápidos, nos trazem informações de todos os lugares.

E qual o desfile que mais te marcou?

Osklen. É uma marca que você entende o que ela quer dizer, tem identidade, a proposta é boa, você consegue sentir o clima e imaginar onde usaria aquela roupa. É muito atual.

Editora da “Vogue” da Turquia fala sobre moda, Brasil e fotos no Guarujá

Filme estrelado por Rooney Mara estreia no Brasil; saiba tudo sobre a atriz

Rooney Mara em editorial da Vogue americana ©Reprodução

Indicada ao Globo de Ouro (que ficou com Meryl Streep) e ao Oscar na categoria de Melhor Atriz, Rooney Mara é a nova queridinha dos críticos de cinema internacional. Com a conturbada personagem Lisbeth Salander, do filme “Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (“The Girl with the Dragon Tatttoo”, que estreia sexta-feira (27.01) no Brasil), baseado no romance do jornalista sueco Sieg Larsson, a americana de 26 anos teve sua grande oportunidade após quase seis anos de carreira.

Nascida em Bedford, cidade ao norte de Nova York, Rooney cresceu em meio a atletas e altos executivos do esporte: sua família paterna é fundadora do time de futebol americano New York Giants e até hoje vive em função da equipe. Sua mãe, Kathleen, é uma agente imobiliária e sua irmã mais velha, Kate, é atriz e já participou de filmes premiados como “Brokeback Mountain” e “127 Horas”.

Rooney Mara antes da transformação em Lisbeth Salander ©Reprodução

Apesar da influência fraterna, Rooney demorou a se interessar pelo mundo do cinema e esperou se graduar em Psicologia e Relações Internacionais na Universidade de Nova York para realmente investir na carreira artística. Durante esse período, a americana participou de algumas produções estudantis e até apareceu ao lado da irmã Kate no filme de terror “Lenda Urbana 3 – A Vingança de Mary”. Após a estreia no longa, Rooney atuou em alguns programas de TV, como o drama “Law & Order: Special Victims Unit” e “The Cleaner”.

Decidida a continuar a carreira como atriz, Rooney Mara conseguiu seus maiores papeis a partir de 2010 (nesse mesmo ano, ela atuou na refilmagem “A Hora do Pesadelo” e no vencedor de três Oscars, “A Rede Social”). A seleção de Rooney para viver a protagonista da trilogia Millennium veio como uma surpresa para quem aguardava a adaptação: Carey Mulligan, Ellen Page, Natalie Portman, Keira Knightley e Emma Watson, todas atrizes mais conhecidas, haviam sido cotadas para viver Lisbeth Salander.

Rooney Mara com o visual de Lisbeth Salander na revista “W” ©Reprodução

Para se preparar para o filme, Rooney Mara cortou seu cabelo bem curto e o pintou de preto, descoloriu as sobrancelhas e tatuou (temporariamente) um dragão nas costas, teve quatro lugares do corpo cobertos por piercings, fez aulas de kick boxing e aprendeu a andar de skate. O estilo de Lisbeth Salander inspirou profissionais de moda e das artes, como, por exemplo, a stylist Trish Summerville, responsável pelo figurino do filme, que criou para a gigante do fast fashion H&M uma linha baseada no guarda-roupa da personagem. A atuação – e beleza – de Mara também cativou editores como Anna Wintour, que a colocou na capa da “Vogue” americana de novembro. Mais ou menos na mesma época, ela também apareceu nas capas da “W”, “Allure” e “Dazed & Confused”. E isso é apenas o começo.

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©Reprodução

Rooney Mara na capa da ´´W´´

Filme estrelado por Rooney Mara estreia no Brasil; saiba tudo sobre a atriz

Ícone no Brasil, Costanza Pascolato fala de suas percepções da moda atual

Costanza Pascolato em conversa com o FFW ©Juliana Knobel

Costanza Pascolato, dona da tecelagem Santaconstancia e colunista da “Vogue” brasileira, é um dos maiores ícones da moda nacional, além de ser respeitada internacionalmente. Nascida na Itália, em 1939, bem no começo da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Costanza chegou ao Brasil com cinco anos ao lado dos pais, Michele e Gabriella Pascolato, e do irmão mais novo, Alessandro, e se estabeleceram em São Paulo, onde criaram um grande império têxtil. A história da empresária e consultora é fascinante, por isso mesmo o FFW a entrevistou com exclusividade na noite de sábado (21.01) no restaurante Manioca, durante o SPFW.

Sua mãe, Gabriela Pascolato, veio da Itália com você e seu irmão ainda muito novos, fugindo da guerra, e construiu um império têxtil praticamente sozinha. A senhora pode contar um pouco mais dessa história?

Na verdade não foi sozinha, foi junto com meu pai. Em 1945, eu tinha de cinco para seis anos, meu irmão tinha dois, e meus pais vieram depois da guerra… e a guerra era uma coisa assim, que mudou a vida da gente, eles tiveram que recomeçar. Então, eles perceberam que no Brasil, na época, só se fabricava algodão e minha mãe teve a ideia, depois de um ou dois anos que estavam aqui, de começar algo e o cruzeiro era uma moeda muito forte, era uma época boa para começar um negócio. Minha mãe resolveu começar com 12 teares e compraram seda no interior de São Paulo, que já era fabricada pelos japoneses, mas que quase tudo era exportado. O início foi com uma tecelagem de seda e, nos anos 70, o meu irmão começou a pensar no que era tecnológico, no sentido da fibra com memória, com elastano, lycra, por exemplo. A nossa fábrica foi a primeira homologada para fazer o primeiro cotton lycra, o primeiro tecido de uso diário que tinha uma origem esportiva e que era estudada para a melhor performance possível do corpo. Foi uma ideia pioneira, que meu irmão, junto com a minha mãe, começaram a introduzir na vida do dia-a-dia, afinal aqui todo mundo se veste casual, não tem centro urbano muito grande para ter que se vestir como no hemisfério norte, lá fora e tudo o mais. No Brasil, tudo é malha e elástico, todo mundo quer uma moda próxima do corpo e confortável para o dia-a-dia.

À que a senhora atribui as figuras femininas tão fortes na sua família?

Acho que a figura feminina já vinha forte da minha avó materna, que trabalhou junto com o pai dela que era prefeito de uma cidade na Sicília e ela, já com 15 anos, no final do século 19, trabalhava em um escritório. Depois, ela foi super ativa e cuidou de casas gigantescas e fazendas que o meu avô teve, inclusive do pessoal. Chamavam ela de “Rainha Sol”, como Luís XIV, o “Rei Sol” na França, sabe? Aí minha mãe era do mesmo jeito, mas acho que ela era até mais forte que a gente. Enfim, eu acho que é uma família de matriarcas, mas sem desmerecer os homens porque, na verdade, o meu irmão é uma pessoa super interessante e capaz, ele está por trás de uma empresa que ainda funciona, depois de tantos anos.

Como foi crescer neste meio tão ligado à “moda”, mesmo que com um conceito de moda tão distinto do que temos hoje?

A mudança mais importante foi a questão de que quando minha mãe começou não existiam confecções, eram simplesmente costureiras e ateliês que atendiam. Então as pessoas costuravam em casa, a gente vendia à metro, quer dizer, vendia a lojas que vendiam à metro. A grande revolução foi no começo dos anos 1970, final dos 60. Quanto a mim… eu não sei, a moda foi um importante viés para entender o mundo. Eu vi a moda em mim quando tinha três, quatro anos, e comecei a reparar nas pessoas. Para mim é fácil enxergar a moda. E minha mãe sempre me falava sobre o que ela andava fazendo, sobre o que vinha acontecendo, já com 12 anos ela me levava para os escritórios todos para que eu visse as pessoas que atuavam na moda. Com 15 anos, em Paris – ela exportava seda para a França – eu vi de longe a [Coco] Chanel porque ela estava dentro do escritório de um fabricante francês, que importava coisas da gente… eu vi os primeiros desfiles de alta-costura nas maisons. Ela falava sobre roupas e se vestia lindamente, minha avó também… minha avó tinha roupa da Chanel de 1912, 1914… então é uma cultura familiar. Além de eu ter um olho, entende? Algumas pessoas da família não são assim, a Consuelo [Pascolato Blocker, filha de Costanza] é, por exemplo. Eu acho que a gente leva jeito e um olhar que a gente tem para isso e para mim a moda é uma das maneiras de enxergar o comportamento de uma época.

Costanza Pascolato em conversa com o FFW ©Juliana Knobel

Como é ter presenciado “o comportamento” daquela época, de grandes designers como Dior, Givenchy, além da própria Chanel? Como é lidar com a diferença desse tempo para os dias atuais?

Eu tinha a noção muito clara do que era a moda uma certa época antes do advento do prêt-à-porter na Europa, que foi um momento… é assim: a alta-costura representava uma elite, todo mundo copiava o modelinho da alta-costura que vinha nas revistas, levava na costureira e copiava. Quando o prêt-à-porter começou, nos anos 1970, lá na Europa, principalmente em Paris, depois na Itália, foi o movimento libertário e de pensamento, mas ao mesmo tempo outros consumidores entraram no mapa, ou seja, outros consumidores com a mentalidade mais jovem e mais democrática porque a partir dos anos 1968, 69, 70, as ideias dos jovens, que não eram respeitadas, começaram a valer e ao mesmo tempo houve a libertação sexual… Mas toda aquela novidade que foi revolucionária no mundo veio junto com o fato de que os consumidores viraram consumidores independentes dos adultos, principalmente dos pais, eles pensavam diferente e queriam ser vestir de uma maneira diferente, as ideias muito rígidas não funcionavam com eles e as roupas também não. Eu vivi na melhor parte do século 20. Quando eu cheguei ao Brasil tinha telefone “à manivela” e hoje eu tenho dois celulares e dois iPads, então viver esse período, até hoje, é uma experiência, estando ativa e tendo o olhar ainda “dissernidor”, acho que é uma das experiências mais fascinantes que alguém pode ter.

Como foi ter nascido em uma família tão abastada e depois ter sido deserdada?

O fato de ser deserdada foi um movimento meio radical do meu pai, que ele achava que eu não tinha juízo e precisava aprender a ser independente. Eu acho que para mim foi muito bom, no sentido de que eu tive que me virar e aprender a conviver com outras pessoas e outros grupos e trabalhar para os outros, que é bom, porque se só tivesse ficado dentro da minha empresa, primeiro que eu não tenho uma função administrativa, eu nunca soube fazer isso, só tenho o talento de contribuidora porque tenho uma visão, tanto que sou consultora de várias empresas. E é o que eu gosto de fazer. Eu trabalhei 20 anos na editora Abril, como editora, e tive que voltar para a minha empresa porque meu pai estava morrendo e minha mãe estava ocupada, meu irmão disse que seria bom que eu voltasse, o que aconteceu em 1987. Mas escrevendo, eu tinha uma coluna na “Folha de S.Paulo”, na Ilustrada, e me deram uma página inteira por semana, até 1991. Depois eu comecei na “Vogue”. O exercício disso tudo, que é bacana, é que eu tive que me adaptar a várias épocas. Eu tive que pensar em função da época que eu estava vivendo para escrever.

Quais foram – e continuam sendo – as referências da senhora?

Minha referência, na verdade hoje, é a internet, porque atualmente nós fazemos o nosso conteúdo. Eu gosto de livros, de fotografia e de arte contemporânea porque nesse período que eu te falei, a partir do século 20, já foi uma revolução, sobretudo em Paris, de movimentos artísticos que saiam do convencional e eu segui muito isso e continuo me informando sobre isso. Eu gosto de ir à Basil, Miami Basel, quando posso vou para Veneza, mas que é nesse período que a moda aqui está muito ativa e muitas vezes eu perco, mas o olhar do artista contemporâneo, não necessariamente de hoje, mas de ontem ou de anteontem, para mim ainda são aquelas “antenas” que você redescobre caminhos que eu não tinha entendido ainda. A cada dia e a cada mês e a cada ano da sua vida, você vive uma – se você não ficar parado, obviamente — mini evolução e você consegue ver as mesmas coisas de outro jeito.

O que a senhora acha de parte da cultura de moda atual e dessas referências, que por serem vinculadas à internet, algumas vezes são tão rasas?

Eu acho que é ruim, não para nós, que nos formamos de outra maneira. Eu fico preocupada é com a juventude que está muito mergulhada nisso, porque é ela que vai ser prejudicada e vai enxergar o mundo cada vez mais rasteiro, raso e superficial. O chato do novo, como diz o Gilles Lipovetsky, é que na hipermodernidade, você quer tudo já e de qualquer jeito. Isso tira a antecipação e a curtição da coisa. Eu vejo estas crianças fantasiadas de adultos, com 10, 12 anos, e fico pensando que elas vão perder uma parte da vivência delas e vai fazer falta no futuro. Não é que eu vá querer reformar o mundo, só acho uma pena, porque a vida é uma só, não é? Então, se você perde essas fases, momentos e oportunidades da vida e banaliza, você nunca vai sentir nada. Eu gosto de ver filme de época, acabei de ver um filme da Jane Campion.

E seus autores e diretores preferidos?

Eu não sou muito culta. Eu li muito enquanto era menina, muita coisa francesa porque foi a primeira língua que eu aprendi. Minha paixão é o cinema da “Nouvelle Vague” francesa, estou revendo tudo, porque estou entendendo um monte de coisa. Adoro Bernardo [Bertolucci] e [Luchino] Visconti, que eu conheci e tirou uma foto famosa minha de perfil.

Foto de Costanza Pascolato em 1965 ©Luchino Visconti/Reprodução

Dentre os designers brasileiros, o que a senhora mais gosta e utiliza?

Eu visto Glória [Coelho] e Reinaldo [Lourenço] há muito tempo e agora eu sou apaixonada pelo Pedro [Lourenço]. Tenho muita coisa especial do Alexandre [Herchcovitch]. Mas você entende que, talvez por eu ter uma relação especial com eles e porque eu preciso que as coisas sejam feitas hoje em dia quase no meu corpo, não é natural que eu vista qualquer coisa. Primeiro porque tem que ter manga, sem manga eu não uso mais, preciso manter uma certa imagem, então necessito de muita elaboração. Eu não compro qualquer coisa, não dá certo mais, entendeu?

Ícone no Brasil, Costanza Pascolato fala de suas percepções da moda atual

Em sua primeira visita ao país, jovem editora do “Fashionista” fala ao FFW

A editora do Fashionista, Hayley Phelan ©Carla Valois/FFW

Hayley Phelan, editora do site “Fashionista”, veio ao Brasil a convite da Associação Brasileira de Estilistas (ABEST) para conferir o SPFW Inverno 2012. Pela primeira vez no país, a americana de apenas 24 anos falou ao FFW sobre suas percepções da moda nacional, as semelhanças e diferenças com o mercado americano e como se tornou editora tão jovem.

O que você está achando do SPFW e dos designers brasileiros?

Estou adorando tudo. Estou muito impressionada com os designers brasileiros, todos têm coisas únicas para oferecer e todos os desfiles que assisti tem sido tão diferentes… Tem sido uma ótima experiência para mim. É interessante ver as diferenças e semelhanças.

Quais marcas/estilistas você acredita ter mais potencial?

Alexandre Herchcovitch, Osklen, Gloria Coelho, Maria Bonita e Reinaldo e Pedro Lourenço são muito bons. Gostei também da Huis Clos, Ellus, Juliana Jabour e Animale. Acho que esses designers que mencionei têm potencial para mostrar suas coleções em qualquer lugar, é um desafio para qualquer estilista dar o salto de desfilar em outros países, mas acho que esses definitivamente poderiam fazê-lo.

Existem similaridades entre a moda no Brasil e nos Estados Unidos?

Sim, existem muitas similaridades. Os desfiles são muito semelhantes, mas em Nova York há mais pessoas e o espaço físico é maior. Quanto às roupas, é difícil comparar… O negócio é que em Nova York as marcas que desfilam já estão mais estabelecidas no mercado e existem há mais tempo, enquanto aqui vejo muitas marcas mais novas. Vocês ainda estão na “infância” — não exatamente na “infância”, mas no começo. Sinto tudo muito fresco, as pessoas estão entusiasmadas, já em Nova York os desfiles são mais produzidos e as equipes são maiores. Não sei, é difícil comparar.

Dos estilistas que você conheceu e assistiu até agora, sente que existe algo particular do Brasil ou o design é mais internacional?

Acho que alguns designers têm uma “brasilidade”, enquanto outros poderiam vestir pessoas de qualquer parte. Quero dizer, a maioria dos designers qualquer um poderia usar, mas existem alguns com um toque mais brasileiro. É a mesma coisa com os estilistas americanos, alguns são “muito americanos”, outros têm uma pegada mais internacional.

Na edição passada do SPFW, o “Fashionista” fez um post chamado “Os 10 Looks mais ridículos do SPFW”. Logo depois, no entanto, vocês mudaram o nome para “Os 10 Looks mais extravagantes do SPFW”. Porque a modificação? [Veja a matéria aqui; o título original pode ser visto no endereço do link]

Acho que foi uma questão de tradução. Nós normalmente fazemos esses posts, mas a intenção é ser engraçado e não insultante. Fazemos o mesmo com várias semanas de moda, porque o Fashionista ama moda, mas também gosta de se divertir com ela. E acho que as pessoas aqui no Brasil se ofenderam com a palavra “ridiculous” e, como não queríamos ofender ninguém, preferimos mudar.

Você é muito nova. Como virou editora com anos 24 anos?

Eu fiz faculdade em Nova York e no meu segundo ano comecei a estagiar na revista “Nylon” e depois no “Fashionista”. Depois continuei me mantendo em contato com eles, que me ensinaram tanto, mas quando me formei eles não estavam contratando. Então fui trabalhar em outros lugares como editora-assistente, como na “Teen Vogue”, e depois voltei para o “Fashionista” como editora de moda.

Em sua primeira visita ao país, jovem editora do “Fashionista” fala ao FFW