O homem e a máquina

27/04/2012

por | TECNOLOGIA

Em Milão

A entrada do evento ©Juliana Lopes

Aconteceu há alguns dias, na Semana de Design de Milão, no meio de umas 400 exposições de design em toda a cidade que hospeda, sempre em abril, o evento mais disputado da cidade em todo o ano. É quando, no mínimo, a Europa inteira quer estar lá. Vasculhamos o guia da revista italiana “Interni”, o mais completo e respeitado, pra achar as manifestações mais jovens e de ponta possível.

Vamos à mais curiosa: Hacked – 100 horas de Imaginação Rebelde. Uau, que título. Imaginava uns hackers se encontrando num porão com seus computadores clandestinos com IPs alterados e softwares paralelos ao resto do mundo, criados por eles próprios! E o endereço? Surpresa! A loja Rinascente, templo mainstream, com todas as labels de cosméticos e roupas que atrai madames e turistas. Bolsas Miu Miu, cup cakes de sushi, playboys milaneses tomando prosecco no fim de tarde. O cenário é esse, normalmente. Muito curioso a Rinascente querer hospedar exatamente esse evento.

Chovia do lado de fora. Dentro da megastore uma mesa foi montada, no meio de tudo. Arrastaram prateleiras e cabides pra criar a cena. A briga vai começar. O evento se chama: “3D PRINTER X WILCOX”. Homem (Dominic Wilcox) contra máquina (impressora 3D). Ganha quem fizer o protótipo mais bonito do Duomo, a igreja central de Milão, de arquitetura gótica, cheia de detalhes. Wilcox trabalhou com argila e a impressora com resina. Claro que a impressora não funciona sozinha, sempre tinha os assistentes mexendo pra coisa não dar pau. Então, de pronto, venceram os humanos, não? As máquinas não existem sem nós, certo?

 O homem e a máquina criada para disputar o prêmio ©Juliana Lopes

Quando pensamos nesse discurso é impossível não lembrar do disco “The Man-Machine” do Kraftwerk, lançado na década de 70. É uma questão bem vintage. Mas nesse evento, em plena Semana do Design, ver uma impressora 3D e um artista, trabalhando paralelamente, nos traz uma sensação boa de um estranho e novo sentimento. Parece que estamos falando de outra questão, não é nem o homem, nem a máquina. Vamos lá.

Ao fundo, o pequeno Duomo de resina feito pela máquina ©Juliana Lopes

A MÁQUINA: impressora 3D construída por estudantes italianos de engenharia.

A parafernália já traz o ar geek na hora: uma impressora construída dentro de uma caixa de madeira vazada, pra você ver todos aqueles cabos e o objeto se formando, magicamente, tendo apenas como input um arquivo 3D criado digitalmente. Essa pequena esculturinha do Duomo foi o que a impressora criou ao vivo, com resina, no meio da Rinascente.

Na plateia, meninos e meninas com looks meio anos 80, estilo “Revolta dos Nerds”, assistiam ao milagre da tecnologia, concentrados. E também um senhor, bem vovô, que fotografava tudo com uma avidez inacreditável. Como se ele estivesse esperando uns 50 anos por esse momento.

Dominic, o humano ©Juliana Lopes

O HOMEM: Dominic Wilcox, artista

Do outro lado da mesa, o “humano” Dominic Wilcox, que é um sensível artista. Nessa performance ele foi o modelador “analógico” de argila, para fazer seu Duomo. Na camiseta branca a escrita “I eat computer chips”. E na (tão amável) viseira a escrita “Human”, para que saibamos que ele é o humano. Aqui abaixo outros trabalhos de Wilcox, que transmitem sua sensibilidade humana.

Projeto “Watch Sculptures”, em que ele faz protestos e demonstra amor com cenas que aconteceram na vida real, usando suas mini esculturas.

Projeto “Waiting Room”, que Dominic criou em um escritório de um prédio histórico em Londres, antes que fosse demolido. A fofura é que ele “fantasiou” o quarto de branco, esperando para morrer.

A BRIGA: quem construísse o protótipo do Duomo mais bonito, ganhava a disputa.

Voltemos ao evento da Semana do Design. Os geeks começam a tuitar dando a largada para a disputa começar. Uma das meninas pega o microfone e começa a anunciar os adversários, como numa luta. Os italianos, que adoram um microfone, não param de falar.

No final das contas, quem ganhou o troféu foi Dominic. Ninguém entendeu as justificativas, mas talvez fosse mais simpático premiar uma pessoa. A máquina terminou o Duomo primeiro, uns 20 minutos antes, enquanto o humano ainda suava.

Algumas discussões surgiram entre plateia e organizadores. Considerações como: “Mas a máquina não trabalha sozinha, o rapaz está sempre mexendo nela, não vale”. Ou então: “É, mas o artista mal consegue respirar enquanto os donos da máquina tomam cerveja”. Também teve essa: “Essa máquina pode reproduzir vários idênticos”. Quem venceu então? Prefiro dizer que foi o tempo. Que podemos aproveitar de todas as maneiras: assistindo a uma máquina, sujando a mão na argila ou tomando uma cerveja. A escolha é nossa.

O vencedor do concurso e seu Duomo de argila ©Juliana Lopes