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Resumo Fashion Rio Dia #1

Via @luigi_torre

2011/10/5087_collage© Romeu Silveira

>> Começou assim, meio escuro, úmido e com uma chuva que não tem nada a cara do Rio. Mas começou. Lá pela hora do almoço o sol ameaçou sair, mas logo foi embora. E assim veio o 1º dia de Fashion Rio, meio volta às aulas, meio festa de réveillon atrasada _fashionistas reunidos aos abraços e beijinhos de feliz ano novo.

A moda? Só se falava em outra coisa. Pelo menos durante os primeiros desfiles. Afinal, Amy Winehouse se apresentou na noite anterior. Daí todo mundo queria ouvir a opinião da pessoa ao lado. Coçou o nariz? Bebeu? Soltou a voz? Esqueceu a letra? Foi bom?

2011/10/5086_alessa-inverno-2011Alessa inverno 2011 © Agência Fotosite

>> Bem, o show eu não sei, mas o desfile da Alessa que abriu oficialmente a semana da moda carioca foi uma ótima injeção de bom humor, tão essencial para um começo de temporada.

“Mais texturas e menos estampas”, foi assim que a estilista idealizou e sintetizou seu inverno 2011. A coleção falava de doces, e como estes remetem quase que diretamente à festas, foi ocasião perfeita para a estilista mostrar seus primeiros looks nesse segmento. Obviamente tudo a seu jeito. Daí as longas saias paetizadas, os macacões todos brilhantes e até alguns detalhes em pele, responsável por adicionar uma dose de glamour e sofisticação ao universo kitsch da estilista.

Suas famosas estampas continuam lá, agora como cupcackes, jujubas e outros doces. Tudo meio que imerso numa vontade 70’s que vem desde a temporada passada tomando força _ vide as saionas amplas, os vestidões estampados e as formas amplas de uma forma geral. Ah, e tudo sob olhar afiado do stylist Daniel Ueda, responsável por deixar esse banquete delicatessen ainda mais gostoso. O look de vestido com uma jaqueta de paetê amarrada na cintura já é um clássico de Ueda, que tem na moda urbana uma das raízes de seu trabalho. E na trilha, músicas que falam de… balas, claro. Como “I Want Candy”, do Bow Wow Wow, e a sempre incrível “Candy”, de Iggy Pop e Kate Pierson, do B-52’s.

2011/10/5088_filhas-de-gaia_inverno2011Filhas de Gaia inverno 2011 © Agência Fotosite

>> 2º desfile, atraso de pouco mais de 30 min, e Amy continuava no trending topics dos fashionistas. Mas à medida que portas abriam e fechavam misteriosamente sob uma névoa branca na passarela, o foco do assunto passava a ser outro: a coleção, descomplicada e menos estruturada, da marca Filhas de Gaia. O ponto de partida agora é o universo de mistério de Agatha Christie, trazendo junto um exercício com alfaiataria _algo que pareceu novo, ou no mínimo fresco, para o repertório das estilistas Marcela Calmon e Renata Salles.

Havia algo sexy e poderoso nas saias longas com fendas ousadas combinadas com borgues de saltos altos e camisas de seda transparentes. Ou então naqueles blazeres alongados ou com lapelas angulares lembrando o corte de gravatas. Uma androginia leve, ainda que imponente. Delicada ao mesmo tempo que forte. E já que mencionamos as gravatas, estas faziam as vezes de ajustes ou então emprestavam suas estampas para vestidos (de comprimento midi ou longuete) e macacões.

2011/10/5089_melk_inverno2011Melk Z-Da inverno 2011 © Agência Fotosite

>> O pernambucano Melk Z-Da olhou para Fernando de Noronha quando a ilha ainda era uma prisão. Da “Lenda da Alemõa” _uma loira que seduzia os homens na praia, para depois se revelar uma caveira e fazê-los se jogarem ao mar aterrorizados_ tirou a ideia para os cabelos _loiro, preto e até azul_ que decoravam suas saias, vestidos e casacos. E da rica e colorida vida marinha que rodeia a ilha, vêm a parte mais forte com os vestidos e o casaco estruturados que abrem o desfile. Uma alfaiataria construída em tecidos espessos de onde “brotam” tentáculos como de anêmonas e fiapos de lã fazendo das roupas quase como recifes de corais futuristas.

2011/10/5090_patachou-inverno-2011Patachou inverno 2011 © Agência Fotosite

>> A Patachou, fechou o 1º dia com trilha dramática, quase tensa, mas colocou na passarela uma coleção descomplicada de formas soltas, na dose certa da sensualidade e drama. Vestidos de formas alongadas, cintura deslocada para altura do quadril e uma certa assimetria quase que orgânica falavam de um sexy misterioso e sedutor, como os filmes clássicos de suspense que serviram como inspiração. Serviu-se de uma ótima equipe de styling e beleza, boas modelos na passarela e uma obra de Ravel tocada ao vivo pelo maestro e pianista João Carlos Martins.

Resumo Fashion Rio Dia #1

PREVIEW: Filhas de Gaia

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PREVIEW: Filhas de Gaia

PREVIEW: Filhas de Gaia

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PREVIEW: Filhas de Gaia

Pensata da Palô #2: nada se cria, tudo se copia!

E já que um dos personagens da semana foi o Chacrinha, por conta do programa que passou na TV Globo e do documentário “Alô Alô Terezinha”, podemos começar citando um dos aforismos mais conhecidos do Velho Guerreiro, a de que “nada se cria, tudo se copia”, interpretando como sempre com liberdade a frase de Lavoisier, de que “na natureza nada se cria, tudo se transforma”.

2011/10/1107_chacrinha-lavoisierNa pintura original de Jacques-Louis David, o cientista Lavoisier figura ao lado de sua esposa. No nosso remix, ele divide a cena com Chacrinha © Divulgação/MetMuseum

Pra gente, aqui da moda, este viés vem valendo há tempos. Até porque, o próprio surgimento do conceito da moda se deu a partir da cópia. Lá no aparecimento da vida nas cidades, os burgueses copiavam as modas e modismos dos nobres, que por sua vez para deles se diferenciarem inventavam novas modas e modismos, e por aí vai.

Não precisa saber muito de história de moda para saber que, de lá para cá, a velocidade dessas mudanças se acelerou deveras, e a velocidade das cópias também.

Quando comecei a escrever sobre moda, em 1988, e sobretudo em meados dos anos 1990, quando o Brasil começou a querer mostrar sua cara como lançador de moda, estive no front dos que lutavam por autoria e criação legítimas. Precisávamos construir a identidade da tal Moda Brasil; precisávamos construir uma auto-estima que passasse pelas mãos de quem desenhava as roupas e pelas mãos de quem fosse pegar a carteira para pagar por elas. Que não se achasse que o que custava em moeda estrangeira fosse melhor. Para isso, precisaríamos aniquilar a mentalidade colonizada que nos foi imposta, de que só o que vem de fora é bom.

2011/10/1113_fever-rayKarin Dreijer Andersson, do Fever Ray, e seu famoso make de esqueleto © Divulgação

Nos dias de hoje, personagens da elite e não apenas da elite da moda se sentem confortáveis e orgulhosos o suficiente para dizer até com a boca cheia o nome de uma marca brasileira quando perguntados de quem é sua roupa – ai, que casaco lindo; que linda sua blusa, etc.

Em 2010, confesso que me incomoda menos quando vejo “citações”, influências, “inspirações” de marcas internacionais em coleções nacionais. O jornalista Godfrey Deeny super concorda! Quem não tem Balenciaga caça com gato; quem não pode pagar Lanvin troque por lebre. E pense pelo lado bom: podemos pagar com nossos reais e ainda parcelar no cartão ou no cheque em zilhões de vezes.

2011/10/1105_filhas-de-gaia-inverno-2010As armaduras com florais da grife Filhas de Gaia para o Inverno 2010 © Agência Fotosite

Também acompanho o mundo das artes, em que o copy-left, as apropriações, as referências vem sendo chacoalhadas sob o conceito do remix. Quem fez primeiro, quem fez o quê… Tudo isso me importa menos.

2011/10/1108_mona-lisa-vik-munizAs Mona Lisas do brasileiro Vik Muniz: geleia de morango, manteiga de amendoim e quinhentos anos as separam da original de da Vinci © Divulgação/MASP

Como na natureza, o supermercado de estilos dos 90 deu lugar ao liquidificador de tendências: inverno, verão, Prada, Marni, Marc Jacobs. UI! Como diria Regina Guerreiro.

A questão é: assumir. Se assumir também. E não se assumir como o último grito da moda, a próxima cocada preta. Assumir também influências. E a angústia delas. Para os mais cabeçudos, recomendo o leitura de “A Angústia da Influência”, do critico literário Harold Bloom.

É digno assumir suas influências e suas referências. Afinal, estamos em plena era do remix. E do Google e do Youtube. E para remixar outra frase famosa: uma saia é uma saia é uma saia. Tudo já foi feito. Ou não?

2011/10/1106_banksy-rouba-picassoO mote de Pablo Picasso – “os maus artistas imitam, os grandes roubam” – na pedra filosofal “furtada” pelo britânico Banksy © Reprodução

+ Pensata da Palô #1: blogs, Twitter, Suzy Menkes, Slimane e Prada

Pensata da Palô #2: nada se cria, tudo se copia!