Chegando perto da temporada de desfiles no Brasil, estilistas, stylists, bookers e modelos estão à toda no mundo dos castings.
As novas garotas, os cachês A, B, C, os castings especiais, as tops, as neotops, as new faces, as apostas de cada agência, as preferidas de cada produtor…
Eu jamais seria modelo. Primeiro, por conta dos meus atributos naturais
Mas mesmo com dez centímetros a mais e/ou dez quilos a menos não teria estofo para tanto.

Não tiro a razão das meninas que querem fazer parte desse universo – ainda que muitas delas, quando começam a acalentar o tal “sonho de ser modelo” nem saibam exatamente o que vão encontrar pela frente.
Tendo feito por três temporadas parte da banca de jurados do “Brazil’s Next Top Model”, programa da Sony dedicado a revelar novas modelos para o mercado, ouvi isso tantas vezes: “Meu sonho é ser modelo”. Quando perguntadas o porquê, elas mal conseguiam responder. Acham que se trata de estar à frente de flashes, vestir roupas bonitas e ser uma estrela. Um misto, talvez, de busca por atenção e vaidade. E conhecer gente diferente, viajar pelo mundo, aprender outros idiomas… De uma chance na vida.
Quando dá certo, pode dar muito certo. Quando dá errado, pode dar muito errado. E as conseqüências podem ser pesadas para administrar.
Neste celeiro multiétnico único que é o Brasil, temos belezas para todos os gostos. E os scouters percorrem todo o território, de Norte a Sul, de favelas a shoppings e fazendas, atrás de biotipos que possam agradar ao mercado nacional e, principalmente, internacional, onde fica o dinheiro grande.
Com o sistema educacional precário que temos, não é de se admirar que as famílias invistam de um lado em suas filhas ajeitadinhas e nos seus filhos com habilidade para serem aí um Neymar. Parece mais fácil do que colocar tempo, salários e energia nos estudos. Mais rápido, talvez.
Para as meninas, entrentanto, a coisa fica, como se sabe, em valores que esbarram menos no talento com os pés do que na sorte grande de representar a beleza que vai estar “na moda” naquele momento.
Porém, haja autoestima. Não ser aceita para um casting não quer dizer que a garota seja “feia”. Mas que simplesmente não serve para aquele trabalho.
Cada vez mais profissional, este mercado já consegue fazer este preceito ser compreendido, mas sabemos de garotas que podem mergulhar no mais profundo abismo depois de muitos nãos, depois de gramar de ônibus de casting para casting, dias e dias, às vezes meses, sem conseguir pegar trabalho nenhum com o book humildemente debaixo do braço.

E como podemos ser cruéis. No processo de escolher uma menina para um trabalho, na pressa de ter que ver dezenas de modelos, muitas vezes nos esquecemos de que estamos diante de seres humanos como nós. “Muito alta”. “Muito baixa”. “Muito gorda”. “Muito magra”. E por aí vai.
Para um desfile, o que se busca é a homogeneidade. E esses adjetivos estão, em geral, na cabeça de quem está bookando (escolhendo). Não quer dizer exatamente um defeito. Mas para a menina, principalmente para as mais jovens, isso pode ter como eu disse efeitos devastadores e ela realmente sair de lá achando que é “alta demais”, “baixa demais”, “gorda demais” ou “magra demais”.
Escrevo isso porque ontem mesmo eu estava nesta condição, fiz um casting para um desfile em Porto Alegre (daí o motivo do atraso desta pensata, o que serve também para um pedido de desculpas aqui aos meus fieis leitores).
Uma menina linda estava evidentemente acima do peso – e eu não quis falar isso para ela não ficar chateada e eventualmente desenvolver algum distúrbio alimentar. Longe de mim querer ser responsável por isso…! No “Brazil’s Next Top Model” tomávamos o maior cuidado com isso, cobrando delas que se mantivessem saudáveis, mas tentassem entrar nas medidas do mercado.
E será que essas tais medidas vão começar a mudar por aqui? Vimos agora na Prada e na Vuitton mulheres “maiores”, que nem de longe eram do segmento “plus size”, mas que conseguiram destaque neste momento de belezas mais próximas das ruas ou dos estúdios fotográficos do que das passarelas (e ainda seguimos os modelos europeus, bem mais magros).
Temos agora uma temporada de moda praia. E quem será que vai aparecer de biquíni? Aquele “monte de ossos”, como diz meu querido José Simão? Ou a garota gostosa que faz parar a praia quando chega e que até então gerava comentários maldosos dos fashionistas nas fileiras das salas de desfiles?

Será que os bookers estão mandando as meninas muito magras comerem mais, em tempo de ganhar peso para os desfiles? Será que elas estão acreditando e obedecendo?
Pessoalmente, acho que ninguém vai querer pegar para o casting uma menina que esteja magra demais, por conta da recente patrulha sobre o tema – até necessária, mas algo exagerada, como todas as patrulhas.
O objetivo é a saúde das meninas, física e, principalmente, emocional e psicológica. Saber comer é mais importante do que não comer – o que mais engorda do que emagrece, pois o organismo acumula o que se eventualmente come, achando que estamos em tempos de privação nas cavernas, e não em tempo de temporada de moda (não sou médica nem quero pagar de Dr. Dráuzio Varella, mas tenho lá minhas experiências com alimentação, como bailarina por quinze anos, como jornalista de moda por vinte e um anos, e como mulher há quarenta e dois).
Acho certo restringir meninas de menos de 16 anos de desfilar. Acho errado medir o índice de massa corporal para desfilar. E acho fundamental o tratamento humanizado em castings e trabalhos. Quantas vezes fotografamos a garota o dia inteiro e o fotógrafo lá pelas tantas nos pergunta, cochichando, o nome da modelo?
O grande Juergen Teller eternizou os castings no livro “Go-Sees” (cujas imagens ilustram esta pensata), como se chamam os castings ao vivo – e não por composite. Lindo ver os rostos e a solidão das meninas, as expressões e nuances, a vontade de agradar, o desencanto e a luz de cada garota.

Quem gosta desse mundo (mesmo sem querer fazer parte dele) pode acompanhar o blog Confessions of a Casting Director (confissões de um diretor de elenco), com garotas e garotos lindos e um pouco desta engrenagem que faz mover a moda.
Como é bom se deixar inspirar por um novo rosto, pela personalidade de uma modelo, pelo jeito que ela se move e pelo seu caminhar…
Nestes tempos loucos de castings, portanto, boa sorte a todos!
Muitos beijos e até breve.
Palô