Ronaldo Fraga: ontem, hoje e sempre

14/12/2011

por | ECOSTYLE

© Cael Horta

Morro de amores pelo Ronaldo Fraga, admito; muito porque é um homem à frente do seu tempo, que olha para o passado com genialidade, e sempre consegue nos fascinar. Se até há bem pouco tempo era tachado por “críticos” como criador de moda teatral, hoje, com os rumos definidos de um caminho absolutamente novo que o mundo da moda vai ter que percorrer, ele é considerado, cada vez mais, um exemplo de sabedoria, força e identidade.

Sua vibe é totalmente do bem. Não se coloca em disputas de egos do metiér, e não é conivente com a idéia de um progresso conseguido a qualquer custo, pelo contrário, é adepto da construção social. Ele pratica o desafio, levando sua moda às últimas conseqüências, contando belas histórias de outros, e escrevendo a própria história rompendo os limites do possível, olhando as coisas que ainda ninguém viu.

Nos anos 90, quando apresentou sua primeira coleção no Brasil, “Eu amo coração de galinha”, ainda no Phytoervas fashion, Ronaldo disse que fazia funny wear e já se servia de técnicas de alfaiataria para “refletir essa identidade de quem somos nós enquanto brasileiros”, instigando a individualidade no vestir ludicamente. Em 2008 me concedeu uma breve entrevista, e como tudo o que diz respeito a ele é atemporal, e merece ser conhecido porque tem superfundamento, decidi reproduzi-la, já que ele “causou”, decidindo não desfilar no próximo SPFW, que é o evento-orgulho do Brasil.

Quem já teve o privilégio de assistir a um desfile dele, sabe o quanto Ronaldo fará falta, porque todas as vezes saímos da sala surpreendidos, e com a sensação de que amar o mundo da moda vale a pena. Reciclando idéias, lá vai ele ensinar mais uma vez como se faz: “parar para respirar, para observar o entorno, investigar outros suportes para o pensar…”

Como é o início dessa sua história com roupa?
Foi em 84. Eu sempre tive uma proximidade muito grande com desenho. Então foi por isso, pelo traço. Talvez em virtude disso, sempre percebi o quanto é importante a memória gráfica, o registro gráfico numa coleção. Logo depois eu ingressei no curso de estilismo da UFMG, em Belo Horizonte, que foi o primeiro curso de moda do País, numa época em que nem em São Paulo existia (as pessoas saiam de São Paulo pra vir estudar em Minas), e em 90 eu mandei um projeto pra um concurso que investia nessa ferveção de novos talentos que a gente vê hoje, de novos estilistas, que era um concurso promovido pela Santista, que o primeiro lugar era uma pós-graduação na Parsons, em Nova York. Ganhei. Eu fiquei um ano em NY, de lá fui pra Londres. Em Londres fiquei três anos e meio, ingressei na Saint Martin, e voltei pro Brasil em 96, na época do extinto Phytoervas fashion – um evento que viria originar, anos depois, o São Paulo Fashion Week.

O que te inspira? O que pode virar moda para você?
Tudo pode virar moda. Tudo. Tudo que tente estabelecer um mínimo de diálogo com o tempo que a gente tá vivendo. Tudo que registra o tempo. Acho que esse é o desafio da moda: retratar o tempo de uma forma digna. Existem duas coisas: uma é a roupa, a outra é a moda. A moda é um documento do tempo, é um dos documentos mais eficazes que o homem inventou. A gente está começando a assumir isso agora. Eu diria que daqui a vinte anos a moda virá a ser estudada como ciência, porque através da moda você traça todo o caminho da humanidade. Através do que o homem vestiu. Agora, o significado da roupa na maioria das vezes funciona como um ingresso que permite a pessoa pertencer ou não a um grupo. Se ela vai pertencer e ficar no grupo, a roupa não vai sustentar isso. Mas considerando como um ingresso para ela se inserir, em determinado contexto, esse é o papel da roupa.

Sei que você despreza tendências, não se sente um pouco solitário na sua trajetória?
Não. Houve uma época que sim. Mas na verdade não se fala de uma evolução, de uma transformação; falam de tendência como uma coisa imediata, que é lançada em Paris e imediatamente já está no Bom Retiro. É preciso cuidado na análise das tendências. Não é: “vai usar”… vai usar durante duas semanas e a tendência já se esgotou. Hoje não existem tendências, não existe um grão de movimento de tendências. Hoje o que existe é um olhar individual de quem cria voltado para o indivíduo que vai usar.

Percebo muita ética em suas propostas. Que tipo de compromisso você tem com a chamada moda brasileira?
Antes de qualquer coisa a escolha da roupa já é um ato político. A escolha da cara que você quer ter, a escolha do cabelo que você quer ter, a escolha das cores que você quer usar… isso o tempo inteiro é um ato político. Em se tratando de um país como o Brasil, onde a gente vem de uma história – desde o descobrimento e a colonização – de uma cultura, uma identidade extremamente sublimada, eu acho, acredito sim, que a moda é um instrumento extremamente eficiente não no resgate (não gosto de usar essa palavra resgate, acho muito forte), mas de estímulo a apropriação dessa identidade que durante muito tempo ficou escondida em baixo do tapete. Isso gera muitas discussões, porque as pessoas acham que o fazer moda brasileira – e eu insisto muito nisso – não a coisa de bordar uma arara, bordar um coqueiro e achar que isso é brasileiro, mas entender que a identidade do povo brasileiro é intangível, é aquilo que provoca uma sensação. Isso é identidade de um povo.

Quais são os seus tecidos? E as suas cores?
Eu privilegio, desde o início da carreira, o 100% algodão. Acho que pelo clima, o acabamento é ótimo, e neles encontro a simplicidade e a sofisticação que eu busco. Fibras naturais também, é nessa seara que eu gosto de apresentar meu trabalho.

Você trabalha tamanhos maiores, abaixo do joelho; se refere ao Viagra de forma poética, como um perfeito estimulante ao amor, rs… Você é “do contra”? Rs… o que a sua estética propõe?
A coisa do Viagra, foi naquela coleção de Lupicínio Rodrigues, que tinha uma coisa de sexo no ar, afinal ele foi o inventor da dor de cotovelo, né… acho que naquela ocasião ali, coube a brincadeira.

Você é essencialmente um criador, que sempre apresenta grandes coleções em homenagem a grandes nomes como Zuzu Angel, Tom Zé, Drumond… Já que vejo seu trabalho como arte, que tipo de relação você mantém com as outras formas de arte?
Eu procuro estabelecer um diálogo; acho que a moda hoje, no mundo contemporâneo, com facilidade aceita estabelecer um diálogo com outras mídias de comunicação, que é o cinema, a literatura, que é os grandes nomes da arte mundial, enfim, a música… Eu acho que há um movimento meio desenvolto nesse sentido.

Não considero você pretencioso; acho que é o cara que sabe o que faz e ponto. Qual é a sua expectativa com relação à sua carreira?
O que eu quero é continuar criando. Meu maior prazer é criar um universo através da moda. E que através desse trabalho as pessoas consigam – não vou falar a ter uma relação mais feliz com elas mesmas – mas eu faço um convite a repensar uma série de coisas, repensar valores que estão escorrendo pelos dedos, repensar o mundo que vivemos agora, embora sejamos todos do século passado, temos o compromisso de dar o tom desse século, que ainda não deu, todo o mundo ainda está muito calcado no século passado, enfim, acho que é isso.