Marco Berger, expoente do cinema LGBT

09/10/2012

por | CULTURA POP

Por Tino Monetti, em colaboração para o FFW

O cineasta Marco Berger, em entrevista ao FFW ©Tino Monetti

Gay assumido e sem o menor problema para falar abertamente sobre sua sexualidade, o diretor argentino de cinema Marco Berger pode ser considerado um dos maiores talentos da atualidade e de sua geração. Aos 34 anos, o cineasta de Buenos Aires descendente de noruegueses vive um dos momentos mais promissores de sua carreira e não pensa em parar tão cedo.

Berger estreou na tela grande com “Plan B” (2009), filme que conta a história de um garoto hétero que, para reconquistar sua ex-namorada, decide seduzir o atual parceiro da garota. Seu debut, aclamado pela crítica e público, lhe deu reconhecimento e espaço para o segundo longa-metragem, “Ausente” (2011), vencedor do maior prêmio do cinema LGBT no mundo, o Teddy Awards, concedido pelo Festival Internacional de Cinema de Berlim.

Atualmente, o diretor – que começou com curtas-metragens como “El Reloj” — está buscando uma nova forma de produzir suas obras. Seu terceiro longa, “Hawaii”, será totalmente financiado via Kickstarter, um dos maiores sites de crowdfunding da internet. O projeto, que conta com Manuel Vignau (um dos protagonistas de “Plan B”), aborda um reencontro entre dois amigos de infância que acaba se tornando uma relação de amor e poder, com forças medidas a todo momento.

Durante sua estadia em Montevidéu para participar como jurado da 6ª edição do Festival Internacional de Cine Llamale H, Berger respondeu nossas perguntas sobre seus primeiros trabalhos, os projetos atuais e também os sonhos do passado e do futuro, assim como o intenso mercado mundial do audiovisual.

(Para conhecer o novo projeto de Marco Berger, “Hawaii”, e contribuir com sua empreitada, clique aqui)

Para começar, por que o cinema?

Eu comecei a estudar, ou melhor, a me interessar por cinema porque gostava muito de ver filmes e sempre tive a sensação de que eu podia contar histórias, que eu tinha essa capacidade de criar universos. E comecei pelo teatro. Estudei nove anos com a fantasia de que eu poderia ser ator – e aí entrar no cinema – mas no meio do caminho percebi que o mais lógico era ir direto. Pensava que eu poderia estrelar meus filmes, mas depois essa fantasia se desfez.

Tanto que, no seu primeiro filme, você atua, certo?

Sim, no primeiro curta. Mas neste caso foi quase por necessidade, eu não conseguia um ator para o papel e era como uma forma fácil de resolver. Como era uma ideia estranha, eu não sabia se alguém iria aceitar. Então, escalei um ator amigo meu e eu. E depois daí não atuei mais. Só em “Plan B” que eu faço um cameo em uma cena em que os personagens estão vendo uma série de TV da qual eu faço parte.

Quando aconteceu a mudança definitiva do teatro para o cinema?

Aos 24 anos, eu já tinha feito muitos castings, e me cansei deste mundo, eu não me interessava por muitos dos papéis, fiz um piloto para um programa que não gostei… Enfim, comecei a perceber que a atuação não era para mim e a levar mais a sério a ideia de fazer cinema. Pensei que poderia não funcionar, mas eu queria tentar, ver o que acontecia. Fui para a Noruega querendo estudar lá, não consegui, mas recebi uma bolsa e um empréstimo para estudar cinema na Argentina.

Pôsteres de “Plan B” e “Ausente” ©Divulgação

Quais foram as maiores lições que você teve com seus primeiros filmes?

Sinto que sempre aprendo mais vendo filmes de outras pessoas, o cinema feito por outros. Fazer cinema é um exercício, então acho que aprendi pouco sobre mim filmando. Porém vejo que aprendi muito vendo cinema, tentando me aprofundar em seu mecanismo. Com “Plan B”, o que mais aprendi foi a reconhecer a possibilidade de ter uma ideia na cabeça e concretizá-la. Isso mudou tudo e foi o que mais aprendi. Acho que também aprendi mais sobre o ritmo (cinematográfico), levar uma história adiante com foco no tempo da narrativa. Já com “Ausente”, o que aprendi mais foi me arriscar, já que era um filme super estranho. Aprender a me entusiasmar com isso e ver o que sai daí. E aprendi que funciona. De certa forma, acho que me tornei menos popular com “Ausente”, no sentido de agradar o público. Porém, aprendi que o cinema é individual, feito para você mesmo, e que ajuda ser honesto com o que se quer contar. Aprendi a evitar cair em uma fórmula. Em “Plan B”, havia uma fórmula de sucesso, que eu poderia ter repetido, usado em outro filme, mas o que eu queria de verdade era tentar algo novo.

Em relação aos filmes, como foi sua experiência com os festivais internacionais de cinema, com os prêmios? Até que ponto eles importam e até que ponto você filma pensando nisso?

Está bem, é algo que sempre está nos cineastas, mas que não se pensa muito, porque senão é muita pressão na obra. Não dá para ficar pensando se vai entrar neste ou naquele festival… No princípio, é normal querer que o filme tenha visibilidade, para conseguir mais ajuda e filmar o segundo longa e poder ficar um pouco mais tranquilo no meio disso. Só que depois, é preciso se esquecer disso, tirar da cabeça, porque é torturante. E especulativo. É o que disse antes, é preciso ser honesto, filmar o que se quer e esperar o melhor. Claro que posso dizer que sou muito agradecido aos festivais e prêmios. Quando “Ausente” ganhou o Teddy Award (prêmio para o melhor filme LGBT do Festival de Berlim e o mais importante do mundo dentro do segmento), foi genial. Sendo sincero, eu não esperava ganhar. Talvez sim com “Plan B”, quando entrou no festival, porque era um filme mais “redondo”. Já “Ausente” era mais esquisito. Entendi, quando me deram o prêmio e a explicação, que o que se estava premiando aí era exatamente o risco que corre o filme. De qualquer forma, o que posso dizer é que a experiência dos festivais e a exposição que sofremos são muito fortes. Fazer cinema tem um lado positivo e um negativo, como tudo. O positivo é exatamente compartilhar sua história com o mundo. E o negativo talvez seja essa superexposição. O que normalmente as pessoas veem como o lado bom, que seria a fama e a divulgação, acaba sendo o mais asfixiante muitas vezes.

Qual é a ideia por trás de “Hawaii”, seu novo projeto? Como você o vê?

O projeto nasce, antes de tudo, pela vontade que eu tinha de me autoproduzir e não ter que depender tanto de pessoas externas ao filme. Quando faço um filme, crio um produto, uma obra de arte, mas é uma obra de arte que tem um mercado, e que vale muito dinheiro, que tem um sistema por trás muito intenso. Muitas vezes, eu pensei que como diretor seria mais fácil, que eu teria mais dinheiro, e este lado é complicado. As minhas economias não tinham um equilíbrio, independente do que acontecia com os meus filmes. E assim veio a ideia. Já que hoje existe o crowdfunding, e que no meu caso as pessoas que gostaram de “Plan B” e “Ausente” podem contribuir e ser parte do novo filme também, para mim, o maior benefício que tenho é ser dono de minha própria obra, ter todos os direitos… Se ganho uma grana com esse filme, fica mais fácil filmar meu próximo projeto e consigo me gerenciar. O principal é isso: estabelecer uma plataforma que me permita ter mais poder de decisão sobre meus filmes, decidir o futuro dele. Pode ser que não dê certo e eu nunca mais queira produzir, mas quero tentar, me arriscar novamente. Deste filme, acho que tirarei muitas lições. O melhor desta oportunidade é aproximar o criador e sua obra porque no cinema, que é tão caro, normalmente, os dois ficam muito separados.

Como as pessoas podem te ajudar com “Hawaii”?

Há duas formas. Penso que a primeira é que, as pessoas que gostaram dos meus filmes anteriores, podem contribuir financeiramente. Acho que a identificação com a minha filmografia é um bom motor para o projeto. Mesmo que o aporte seja mínimo, porque se muitas pessoas ajudarem com pouco, conseguimos alcançar o montante. A segunda forma de contribuir é apresentar o projeto para outras pessoas que possam ajudar; seria a divulgação em si.

O vídeo divulgado por Marco Berger no Kickstarter, em que ele fala sobre o projeto e mostra o teaser de “Hawaii”:

O que você pode nos adiantar de “Mariposa”, uma co-produção com o Brasil e também um projeto seu?

“Mariposa” foi o segundo filme que escrevi, logo depois de “Plan B”. Filmei “Ausente” antes porque “Mariposa” é um filme encomendado. Os produtores estavam animados com o sucesso de “Plan B” e acreditavam que eu tinha que fazer um produto maior. Neste momento, ainda não me importava em ser produtor dos meus filmes, apenas queria participar criativamente. Escrevi então “Mariposa”, um filme muito maior, muito mais complicado de realizar. O que aconteceu foi que o dinheiro não veio assim tão fácil e apareceram as dificuldades de fazer um projeto tão grande tão rápido. O que eu não queria era perder tempo e sentia que ficaria três ou quatro anos sem filmar entre um e outro. A ideia de fazer um filme grande era deles, dos produtores, de ter uma obra bastante comercial, mas eu não tinha essa inclinação, o que gosto mesmo é de filmar. Como diz Michel Gondry, eu acredito mais na qualidade do que na quantidade. Para resumir, “Mariposa” é isso, um grande projeto que foi atrasando. Agora ele começa a andar, conseguimos essa co-produção com o Brasil, temos apoio do INCAA (Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales), mas ainda não temos uma data certa de lançamento.

Você tinha me contado antes que assiste muitos filmes, uma média de dois a três por dia. Do que você gosta no cinema de hoje? Existe algum filme que te marcou tanto que você gostaria de ter feito?

Eu gostaria de ter feito todos os filmes de Kim Ki-duk, eu o vejo como um gênio. Há filmes dele que fico pensando horas em como ele pensou nisso. O bom de tê-lo como referência, para mim, é não cair nessa armadilha do cinema do êxito, da fama e do lugar imóvel dentro deste universo. Não me interessa ser um Maradona do cinema. Não dá para comprar essa ideia da massividade, do Oscar, que permeia todo o universo audiovisual. Vejo que Kim Ki-duk, apesar do reconhecimento, ainda faz os filmes que gosta, que quer, independente dos altos e baixos do mercado cinematográfico. Quero isso para mim: tirar a pressão de conquistar a massa, o público, e apenas fazer o que gosto.

Os sonhos de Tim Walker

08/10/2012

por | FOTOGRAFIA

O fotógrafo Tim Walker e a ovelha azul ©Reprodução

Com cada vez mais frequência, os museus e galerias abrem seu espaço para receber mostras de moda. Agora é a vez do fotógrafo britânico Tim Walker, 42, explorar mais uma vez as paredes de uma galeria em uma grande exposição na Somerset House, em Londres.

Ex-assistente de Richard Avedon, Tim calcou sua carreira em imagens lúdicas e de sonho publicadas em revistas como “Vogue” e “W”, as principais plataformas para a exibição de seu trabalho.

A mostra chama-se “Story Teller”, tudo a ver com o conceito de fotografia de Walker, já que seus ensaios contam, de fato, histórias, misturando modelos a crocodilos, criando mundos e situações de fantasia.

Seu processo de produção é extravagante, para dizer o mínimo, já que muitas de suas ideias malucas e maravilhosas necessitam de uma grande equipe e uma boa quantia de dinheiro para serem realizadas. “É muito difícil transformar as ideias que passam pela minha mente em realidade, mas mais duro ainda é fazer com que pareçam simples”, diz o fotógrafo em uma entrevista ao site da “Vogue” britânica.

Com patrocínio da Mulberry, a mostra tem 175 imagens e um livro que acompanha os trabalhos exibidos (publicado pela Thames & Hudson e disponível a partir desta segunda, 08/10). Veja abaixo algumas das imagens que estarão na exposição.

Tim Walker Story Teller @ Somerset House, Londres
De 18 de outubro de 2012 a 27 de janeiro de 2013

+ Ícones da fotografia: saiba mais sobre a obra de Tim Walker

Karlie Kloss, Rye, 2010 ©Tim Walker

Stella Tennant, Howick Hall, 2010 ©Tim Walker

Guinevere Van Seenus, 2011 ©Tim Walker

Karlie Kloss, 2010 ©Tim Walker

Rollo Hesketh-Harvey e o avião feito de baguete  ©Tim Walker

Alber Elbaz, da Lanvin, 2009 ©Tim Walker

2010 ©Tim Walker

Bullett Proof

04/10/2012

por | CULTURA POP

Por Jorge Grimberg, em colaboração para o FFW

Sah D´Simone ©Reprodução

Ele tem apenas 25 anos e é de Londrina, mas já fundou um grupo de mídia com revista, site e web-tv nos EUA. Conheci Sah D´Simone por acaso na minha última viagem a Nova York e fui visitar o escritório da Bullett Media no Chelsea. Tive contato com a revista há um ano, quando comprei uma edição na banca do aeroporto JFK e entrei em uma viagem de inspiração como há muito tempo não acontecia.

Cada edição da revista trabalha um tema e cada sessão tem um símbolo gráfico que guia o leitor. O conteúdo vai de matérias de comportamento, novos designers, entrevistas e arte a celebridades com um styling ousado e contemporâneo, com imagens assinadas por fotógrafos novos e desconhecidos e grandes nomes. Além da revista, há o site com direito a Bullett TV, com uma linguagem bem nasty e autoral, um ‘luxo downtown’, como comentou o próprio fundador.  Leia abaixo entrevista que fizemos com Sah.

Capas da edição de Outono 2012 com Pharrel Wiiliams e Elisabeth Olsen | The Romance Issue ©Reprodução

Como você começou a Bullet?

Foi há dois anos. Eu tinha acabado de ser aceito para o programa de Fine-arts na Parsons em Nova York, e ao mesmo tempo estava trabalhando como stylist para revistas coreanas e fazendo consultoria criativa para novas bandas em Nova York. Conheci a Erin & Nick Ralph e o James Orlando e começamos a conversar sobre as nossas frustrações com o mercado de revista e mídia em Nova York. Foi então que surgiu a ideia de começar esse projeto, que seria uma companhia de mídia com uma revista trimestral, um website pra criar uma comunidade social e a parte da TV online. Sentimos que havia uma lacuna no mercado de mídia para o “young international taste-maker”. Trabalhamos dia e noite por seis meses no meu apartamento no East Village. Éramos seis pessoas em um apartamento de um quarto com não mais que 50 metros quadrados. Depois de quase um ano de muita dificuldade e da separação entre os parceiros Erin and Nick, começamos em nova direção. Estamos nos esforçando para trazer um novo olhar para uma indústria que tem usado o mesmo formato de transmissão há anos.

Quais os maiores desafios em começar um business em Nova York sendo brasileiro? 

Acredito que ser brasileiro ajudou um pouco! Nós, brasileiros, temos muita criatividade e versatilidade. O maior desafio era tentar fazer qualquer coisa artística no mundo de mídia e revista, especialmente porque eu não tinha experiência em publicidade/mídia. Agora, quando olho para trás, vejo que isso foi ótimo, porque não segui os caminhos tradicionais. As nossas ideias nunca foram convencionais. Foi o que chamou a atenção dos nossos investidores e das agências de publicidade.

Elisabeth Olsen | The Romance Issue ©Reprodução

A linha editorial da revista é bem diferente da maioria das publicações. Existe sempre um estímulo para criação do novo nas páginas da revista? Como vocês desenvolveram esse conceito para ser diferentes em um mercado super saturado de informação?  

O mundo de mídia e revista tem trabalhado com os mesmos formatos de apresentação por muito tempo. A nossa geração é super informadaO que a “Bullett” explora é a mistura do luxo com a cultura “downtown”, trabalhando com talentos renomados e super novos. Cada revista tem um tema específico e ao mesmo tempo vasto. Isso ajuda a criar o clima que sugerimos a cada edição. Estamos criando uma discussão e um produto para a nossa própria geração.

Como você sente que os americanos vêem a moda brasileira hoje? 

Infelizmente, eles conhecem a moda brasileira só superficialmente – fora os grandes nomes, só conhecem as top models. Eu acho que temos que fazer alguma coisa pra mudar isso. Os investidores deveriam valorizar mais o mundo da moda e das artes. Tenho certeza que existem grandes talentos no Brasil que poderiam ser revelados se recebessem o investimento adequado.

Como é começar hoje um negócio em Nova York, onde já existe muito de tudo? 

O fato de começar um negócio sem experiência não é recomendável, mas na área de mídia e revista isso pode ajudar, contanto que você tenha uma equipe com a mesma vontade de inovar e de introduzir novos conceitos. Nós não olhamos as celebridades, a arte ou a cultura como um simples tópico. Tudo o que fazemos é colaborativo e cru. A colaboração é enorme entre a nossa equipe, com todos que participam do “making of” de cada projeto, das menores matérias até as histórias de capas. Sempre tentamos fazer histórias que tenham uma narrativa. 

Alexander Skarsgart | The Sin Issue  ©Reprodução

Alexander Skarsgart | The Sin Issue ©Reprodução

Blake Lively | The Sin Issue ©Reprodução

Foto do ensaio In the Name of Love ©Reprodução

Christina Ricci | The Cosmic Issue ©Reprodução

O que você está olhando no Brasil hoje em moda, arte ou design? O que tem chamado sua atenção?

Acho o Ernesto Neto incrível, arte imersa é minha favorita! Vik Muniz eu adoro também. Acompanho o trabalho dos irmãos Campana, acho bárbaro!! A modelo Alícia Kuczman, paranaense como eu, está no seu melhor momento. Acompanho o trabalho do fotógrafo Jacques Dequeker. Sempre que tenho tempo vou ao desfile da Osklen e do Alexandre Herchcovitch em Nova York.

A Bullett Media tem revista, site, tv e redes sociais. Qual a sua visão sobre o futuro da mídia?

Nessa velocidade que estamos, com o crescimento do poder da internet a cada dia, acho que tudo será imersivo e interativo, vivendo-se no mundo digital.

+ bullettmedia.com

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Prepare a… barriga!

28/09/2012

por | MODA

 Até tu, Nicolas? Barrigas de fora na coleção da Balenciaga ©ImaxTREE

“Esta foi a minha coleção mais sensual. Queria mostrar mais pele”, disse Nicolas Ghesquière a Suzy Menkes, sobre a coleção da Balenciaga para o Verão 2013.

“Acho desafiador fazer uma coleção mais sexual e mais divertida. Para mim, a palavra do momento é liberdade”, Raf Simons disse a Cathy Horyn sobre seu desfile para a Dior.

“Muito sensual, extremamente feminino”, foi como Miuccia Prada descreveu sua coleção também para Suzy Menkes.

Liberdade, sexual, sensual, pele… São termos que de fato têm guiado os lançamentos do Verão 2013. Decotes, cores vibrantes e comprimentos curtíssimos estão firmemente marcando a temporada.

Peter Som, Versace e Isabel Marant ©ImaxTREE

O verão é uma estação que exala sensualidade, por motivos óbvios, mas há um grupo de estilistas que têm uma forma peculiar de trabalhar com o corpo feminino e de traduzir a beleza da mulher. Quando o sexy chega em forma de inspiração criativa a estilistas como Miuccia, Raf Simons e Ghesquière, aí não tem jeito. É porque o bicho vai pegar mesmo.

No meio dessa festa quente, uma parte do corpo tem seu lugar de destaque: a barriga. Ai, que difícil! Justo ela? Não é a moda que sempre prega a elegância? Não fica aí às voltas com a cintura alta? Hora de soltar a franga então! As barrigas à mostra estão em quase todas as coleções, de Nova York a Paris, em níveis de exposição variados.

Despojada e super baixa em Marc Jacobs, ladylike na visão de Peter Som, discretíssima por Isabel Marant, sexy-avant garde na Balenciaga e por aí vai. Até a Prada achou uma maneira de revelar um micropedacinho da barriga. Aqui no Brasil, vale lembrar da Osklen, que mostrou looks lindos e praianos em sua coleção no SPFW.

Em uma conversa com Anna Dello Russo em Paris, ela confirmou: “Esta é a temporada da barriga”! Minha amiga, não tem jeito. Arrasa aí na malhação, porque a gente ainda sai na desvantagem: nosso verão começa logo mais.

Prada ©ImaxTREE

Balmain ©ImaxTREE

Jason Wu à esquerda; no meio e à direita, looks de DKNY ©ImaxTREE 

À esquerda e no meio, looks de Marc Jacobs; à direita, Phillip Lim ©ImaxTREE

À esquerda e no meio, looks da marca Edun; à direita, Victoria Beckham ©ImaxTREE

 Osklen ©ImaxTREE

Raf Simons / Hedi Slimane

27/09/2012

por | MODA

Hedi Slimane e Raf Simons esquentam (mais ainda) a temporada de Paris ©Reprodução

Todos comentam, mas nem precisa. Qualquer pessoa que acompanha a moda mais de perto sabe que esta é uma temporada especial. O motivo é a estreia de dois grandes diretores criativos à frente das casas mais tradicionais da moda francesa, Dior e Saint Laurent Paris.

Mais de um ano após a demissão de John Galliano, Raf Simons entra em cena para revitalizar a marca e reconstruir a relação de confiança com as consumidoras que ficou um tanto perdida após a entrada de Bill Gayten, ex-assistente de Galliano, na direção criativa . Já o fotógrafo e ex-Dior Homme Hedi Slimane ficou com o lugar de Stefano Pilati, que parecia estar na berlinda fazia algum tempo (e que assumiu a Zegna recentemente).

Delicadeza, minimalismo e corte impecável: a última coleção de Raf Simons para a Jil Sander ©ImaxTREE

O masculino skinny proposto por Slimane na Dior ©Reprodução

Raf é belga; Hedi é francês. Ambos têm 44 anos e encaram o mesmo desafio no mesmo momento: revitalizar e rejuvenescer as marcas, trazer ar fresco e criar uma conexão com seus consumidores.

Outros pontos em comum: ambos começaram com marcas masculinas, têm apelo entre os jovens, são idolatrados pelo mainstream e pelo indie, e ainda dividem um gosto por uma estética minimalista, com rigor nas formas e na construção das roupas.

Raf é mais delicado, Hedi mais frio. Suas coleções para a Dior Homme, de certa forma, revolucionaram o guarda-roupa masculino com roupas skinny para homens e estética influenciada por artistas e bandas de rock. Os homens usaram gravatas fininhas e calças justas bem antes de Slimane aparecer, mas o fato é que ele trouxe um frescor na hora certa, com o approach certo.

Agora o desafio ao entrar no universo feminino é unir sua bagagem estética com a história da YSL, que também não é muito estranha aos conceitos da androginia. Uma olhada em suas fotos, sempre em preto e branco, pode dar algumas dicas de como ele enxerga a mulher. Sua ligação com a música também deve permanecer em sua trajetória pela Saint Laurent. A primeira foto da campanha masculina traz o músico Christopher Owens em vez de um modelo, seguindo a mesma linha de seu amigo Nicola Formichetti na Mugler, que tem Lady Gaga como uma embaixadora informal.

A coleção de alta-costura da Dior, a primeira sob direção criativa de Raf Simons: mergulho na herança da marca ©ImaxTREE

Espera-se que ambos estilistas olhem para o legado das marcas, respeitando seus códigos e tradições, porém sem se prender somente a eles. Na última temporada de alta-costura, Raf Simons mergulhou na história de Christian Dior e apresentou uma coleção-homenagem, que flertava também com seu último desfile para a Jil Sander. Agora que já mostrou um respeito pela história da Dior, Raf fica mais livre para o prêt-à-pôrter, e para poder ser ele mesmo, mais Raf do que Christian. Galliano então, nem pensar.

Em tempo: o desfile da Dior acontece nesta sexta, às 9h30, com transmissão ao vivo pelo site live.dior.com; Saint Laurent desfila na segunda, às 15h, ambos horários de Brasília.

+ Acompanhe aqui a temporada de Paris Verão 2013

+ Saiba mais sobre a história de Raf Simons

+ Veja a primeira coleção de Simons para a Dior, na temporada de Alta Costura Inverno 2012

+ Relembre o caso Galliano e seus desdobramentos

Vejo flores (e cores) em você

26/09/2012

por | MODA

A temporada de Milão terminou, mas impossível não ser contagiado pela explosão de cores e estampas florais que desfilaram pelas passarelas. Do branco ao preto, muitas cores têm seu lugar garantido no Verão 2013, com destaque para tons vibrantes de amarelo, rosa, verde e azul. Vestidos curtos e longos, esportivos ou de festa, em tecidos tradicionais ou tecnológicos, sóbrios ou sexy, românticos ou masculinos: não há impedimento para se cobrir de cores e flores na próxima estação.

Marni, Jil Sander e Missoni

Gucci, Fendi e Versus

Etro, Gucci e Fendi

Etro, Gucci e Versus

Gucci,  Jil SanderPrada

Bottega Veneta, Etro e Gucci

Just Cavalli, Blugirl e Marni

Prada

Guia fashion BsAs

19/09/2012

por | MODA

Por Jorge Grimberg, em colaboração para o FFW

Ay Not Dead Primavera/Verão 2013

Maria Cher Primavera/Verão 2013

Crescendo no Brasil nos anos 80 existia uma invejinha da Argentina. Mais cool e sofisticada que o Brasil, a Argentina era um pedacinho da Europa na América Latina.

Nos últimos anos, o cenário econômico mudou e passamos de primos pobres para primos ricos e a Argentina entrou em um período de isolação fashion. Enquanto em São Paulo abriram lojas gringas sem parar –  desde American Apparel até Prada – em Buenos Aires você quase não encontra produtos que não sejam Made in Argentina.

Isso é uma oportunidade para os criadores locais, pois não tem essa competição internacional que está modificando a indústria aqui, mas esses mesmos designers também sofrem com a falta de uma indústria têxtil forte e escala de produção, já que o território argentino é menor que o nosso.

Vero Alfie e Lupe Primavera/Verão 2013

Mesmo com todas as dificuldades econômicas – o dólar americano a 5 pesos impede que os argentinos viagem com a mesma facilidade que nós brasileiros — a sofisticação continua reinando para algumas poucas e boas marcas e designers locais.

Jazmin Chebar

Para um mercado local muito restrito, existe uma nova geração de designers em Buenos Aires que se juntaram com pesos pesados da indústria local para criar um grupo de moda em Palermo Viejo – mais conhecido como Palermo Soho — o bairro mais low-profile-super-cool de Buenos Aires.

O grupo é pequeno e as marcas acabam sendo exclusivas, pois quase todas só existem na Argentina mesmo. Os estilistas trabalham em ateliês que ficam sobre as lojas e têm poucos pontos de vendas. O trabalho é local e artesanal. Para quem vai pra Buenos Aires, segue o mapinha do Circuito de Diseño de Palermo Viejo e uma seleção dos looks mais bacanas das novas coleções de Verão 2013.

(clique para ampliar)

Vero Alfie

Lupe

Jazmin Chebar

Hiuja 

Felix

Maria Cher

Paula Cahen Danvers

CORAGROPPO

Ay Not Dead

O espírito do tempo através da ilustração

12/09/2012

por | ARTE

Ilustração que é capa do livro “Masters of Fashion Illustration”, de David Downton ©Reprodução

Até meados da década de 1930, a moda se valia da ilustração como plataforma para divulgar as novidades do mercado: observando-se as capas da edição americana da revista “Vogue”, por exemplo, é perceptível a primazia dessa forma de representação pictórica na publicação até 1935, quando a fotografia tornou-se “popular” e nomes como Bert Stern, Horst P. Horst e Richard Avedon substituíram, mesmo que gradualmente, Georges Lepape, René Gruau, Helen Dryden e Carl “Eric” Erickson nos créditos. Hoje, a ilustração passa por um momento de renovação e, através de coletâneas lançadas nos últimos anos, voltou a ser destaque além do circuito artístico.

Ilustrações que integram o livro “Masters of Fashion Illustration”, de David Downton ©Reprodução

O FFW sempre busca apresentar novos talentos da ilustração, como Pedro Lucena, Herbert Loureiro, Anny WongSteve Kim e Camila do Rosário; mesmo quando não ligados intrinsecamente à moda, o trabalho de artistas que, por meio da expressão visual, transpõem a materialidade de pincéis e tintas para criar algo de beleza incorpórea é, sem dúvidas, compatível à máxima de que “a moda não existe sem imagem”, como bem colocou Juliana Lopes, correspondente do site em Milão. De passagem pelas páginas virtuais do “The Wall Street Journal”, nos deparamos com uma resenha do livro “Masters of Fashion Illustration”, uma compilação de David Downton que, à parte à obra do próprio britânico, apresenta a história da ilustração de moda através da produção artística de seus grandes mestres (do final do século 19 até nomes contemporâneos).

Ilustrações que integram o livro “Masters of Fashion Illustration”, de David Downton. A da esquerda é de Tony Viramontes, já a da direita é de René Bouché ©Reprodução

Downton, que é parceiro da “Vogue” britânica e já trabalhou com marcas como Chanel, L’Oréal, Topshop e até com o Victoria & Albert Museum, em Londres, reuniu em “Masters of Fashion Illustration” obras de Erté [Romain de Tirtoff], Bernard Blossac, Giovanni Boldini, Tom Keogh e René Gruau, como também de artistas menos tradicionais: Andy Warhol, Tony Viramontes e Bob Peak, só para citar alguns. Divididos em quatro sessões, intituladas “The Age of Opulence”, “An Emerging Line”, “The New Graphisme” e “From the Salon to the Street”, o livro traça um panorama da evolução da representação pictórica de moda, que engloba pintura, ilustração e design gráfico, e abrange estéticas completamente diversas.

Capas da “Vogue” de janeiro de 1922 e de maio de 1934. A ilustração à esquerda é de Helen Dryden e a da direita é de Alix Zeilinger ©Reprodução

Em janeiro deste ano, foi lançado em São Paulo o quarto livro da série “Illustration Now!”, iniciativa em que Julius Wiedemann, da editora alemã Taschen, tomou para si a missão de divulgar a ilustração contemporânea. Em todos os volumes do projeto, desenvolvido aproximadamente a cada 18 meses, são selecionados cerca de 150 novos artistas, incluindo sempre representantes brasileiros, com o objetivo de promover não apenas o trabalho individual, mas também a importância da própria arte e de como ela espalha o espírito de cada época. Inclusive, nos sites da Condé Nast e da Art.com é possível comprar – ou apenas olhar, claro – capas muito antigas da “Vogue” e da “Harper’s Bazaar”, desde edições publicadas anteriormente à Primeira Guerra Mundial. É estupenda a beleza de algumas imagens e, ainda mais fascinante, é perceber o quão modernas parecem, mais inovadores que inúmeras fotografias produzidas na última década.

Ilustração de Tony Viramontes que integra o livro “Masters of Fashion Illustration”, de David Downton ©Reprodução

Ilustrações que integram o livro “Masters of Fashion Illustration”, de David Downton. A da direita é de Coby Whitmore ©Reprodução

Capa da “Vogue” americana de  março de 1947. A ilustração é de René Bouché ©Reprodução

Capas da “Vogue” de  outubro de 1929 e de setembro de 1939. A ilustração à direita é de Georges Lepape, a da esquerda é de Christian Berard ©Reprodução

Capas da “Harper’s Bazaar” de junho de 1932 e de abril de 1933 ©Reprodução

Capas da “Harper’s Bazaar” de setembro de 1929 e de julho de 1932 ©Reprodução

Richardson #6

06/09/2012

por | COMPORTAMENTO

Capa da sexta edição da revista “Richardson”

Na livraria da Serpentine Gallery, em Londres, fiquei zonza de tanta revista interessante na minha frente. Muitas delas eu não conhecia. Entre as que me chamaram mais atenção está a “Richardson”, que tem uma mulher nua com um taco de baseball na capa. Bom, liguei as coisas e imaginei de se tratar de uma revista do Terry Richardson, que inclusive assina esse ensaio e outros da edição. Mas na verdade trata-se de Andrew Richardson, conhecido stylist e colaborador de revistas como “Harper’s Bazaar” e “V Magazine”.

Bom, a “Richardson” é uma publicação erótica/pornô, bem ao estilo Terry, mas muito bem feita e produzida. A ligação de Andrew com o sexo vem desde o tempo em que ele foi assistente de Paul Cavaco no livro “Sex”, da Madonna. “Esse trabalho influenciou meu ponto de vista completamente”, disse em uma entrevista ao Style.com.

Andrew fazia fotos com Terry e Mario Sorrenti que a maioria das revistas jamais publicaria. A “Richardson” surgiu como uma plataforma para expor esses trabalhos e também para provocar e estimular debates. “Na última década, as revistas tornaram-se cada vez mais criaturas de seus próprios anunciantes. Eu era chamado para fazer um ensaio e descobria que 90% das roupas já estavam decididas pela publicação”, ele conta.

Fotos, ilustrações, desenhos e pinturas são acompanhados por textos e entrevistas bem escritos e transparentes (no caso das entrevistas). Andrew quer ainda fazer documentários e lançar livros, mas por enquanto, trabalha no site da “Richardson”, que é bem interativo e mostra todo o universo editorial da revista. “Sexo é algo universal. As possibilidades são ilimitadas”.

Ah, e quanto à “modelo” da capa, eu não sabia, mas um colega bem informado aqui do site já me atualizou que se trata de Belladonna, uma estrela pornô, conhecida por “gostar” de tacos de baseball. Imagine só. Um teaser abaixo.

Belladonna por Terry Richardson

Belladonna por Terry Richardson

Fotos de Martin Parr inspiradas no “Garotas da Page 3″, uma coluna do tabloide britânico “The Sun”

Fotos de Martin Parr inspiradas no “Garotas da Page 3″, uma coluna do tabloide britânico “The Sun”

Uma das fotos possíveis de publicar do ensaio hard sex fotografado por Terry Richardson

Fotos de Dash Snow feitas em uma reunião bem safada entre amigos

+ Relembre o post publicado em 2011, que fala mais sobre Andrew Richard, seus trabalhos e sua revista

Da Zâmbia à Itália, análises de um mundo mutante


Uma girafa na Zâmbia e as grutas mágicas nos arredores de Capri

Meninos italianos na escadaria em Capri e meninos na escola em Mwfue

Esse ano tive a sorte de fazer duas viagens para locais totalmente contraditórios. Primeiro fui à Zâmbia, na África, e duas semanas depois para um barco no Mediterrâneo, passando pelas ilhas de Sardenha e Capri, na Itália.

Mundos opostos? Passado e futuro? Vamos por partes.

Meninos na escola em Mwfue, Zâmbia

África. Um safári organizado pelos meus amigos Josh Rubin e Evan Oresten, fundadores do site Coolhunting.com de Nova York. Foi a primeira viagem organizada por eles, que são pioneiros no uso da expressão coolhunting. Além de conhecermos pessoas fantásticas e estarmos realmente cercados por animais – com leões e hienas nos assombrando nas noites dos acampamentos onde dormíamos – visitamos as comunidades locais, conversamos com crianças em uma escola e descobri um pouco sobre como é viver em uma cidade como Mwfue, na Zâmbia.

Cool Hunting: nosso grupo posando para uma foto na árvore

A capital da Zâmbia se chama Lusaka e quando estávamos aterrizando, a paisagem não remetia em nada à capital de um país. O cenário é muito árido. Tudo parece ser em tons de marrons e terra. De lá, voei para Mwfue, onde foi a nossa base. Nos hospedamos em um acampamento chamado Bush Camps, que tem uma sede com vinte quartos, aproximadamente, e mais alguns acampamentos separados com apenas quatro quartos cada um – sem energia elétrica – no meio do nada, literalmente.

Bush Camps em Mwfue, Zâmbia

Na cidade de Mwfue, fomos visitar a escola local e, no caminho, passamos por toda a comunidade. Parece que as ruas não têm nomes, as casas não têm água e as pessoas não têm informação. Quando falamos de África, pensamos que, em comparação ao Brasil, aqui também temos pobreza, mas o que eu senti de diferença é o acesso à informação.

Meninas se apresentando na escola

No Brasil, todo mundo tem Rede Globo e existem cidades muito avançadas. Na África, poucos países têm recursos. Na Zâmbia, existem apenas dois canais de TV, sendo que pouca gente tem eletricidade — logo, ninguém tem acesso. Nem nos acampamentos que ficamos – que eram super luxuosos – tínhamos energia elétrica.

Usávamos energia solar e era divertido ver a turma de coolhunters com os iPads e iPhones tentando escolher o que carregar, já que só podíamos carregar um aparelho por dia e tinha que ser enquanto o sol estava brilhando. Enfim, se começar a comparar com o Brasil vou precisar de dados, e a história que quero contar aqui é mais comportamental.

Conversei com meninos e meninas de 2 a 25 anos na escola. Metade dos alunos da escola que visitamos são órfãos e vivem em um alojamento na escola. Uma boa parte tem o vírus HIV, segundo me contou um dos responsáveis do Bush Camps. Todos muito doces e simpáticos, vinham conversar com o grupo, pediam nosso telefone e endereço – até agora não entendi por que, daqui a pouco vai aparecer um na minha casa – e tinham muita curiosidade, queriam saber de onde éramos e o que fazíamos. Quando disse que trabalhava com moda, um menino perguntou: “O que é moda? Como posso trabalhar com isso?”.

Fui me dando conta de que não existe indústria lá. As mulheres se vestem em tecidos amarrados como saias e camisetas. Existe uma falta de perspectiva muito grande. Não há conhecimento, nem possibilidades e nem referências. Aqui no Brasil temos tudo. Um menino brasileiro de origem humilde tem onde se inspirar e buscar inspiração. Lá não tem direcionamento.

Quando perguntei o que faziam no fim de semana, um dos meninos mais velhos respondeu: “Não podemos sair à noite por causa dos animais”. E aí eu me dei conta de que não existia separação de onde estavam as zebras e os hipopótamos e de onde a população morava.

Os animais são maravilhosos. Entendi tudo sobre moda safári. Você realmente precisa usar roupas caquis e verde militar o tempo inteiro. É ordem do acampamento para você se camuflar na paisagem. As zebras, leopardos e girafas são inspirações de estamparia toda temporada e são realmente lindas. Como o safári era cool, a estilista da Califórnia Geren Ford customizou jaquetas vintage com couro e camurça marrom e detalhes em verde para o grupo inteiro e o próprio Cool Hunting desenvolveu botas especiais com a Vintage Shoe Company e malas em parceira com a Tumi. Isso foi chique. Além de um fotógrafo da Pentax que nos ensinava a tirar fotos e os inesquecíveis bares de Veuve Clicquot no meio de rios que estavam secos pelo inverno local – com taças de cristal vindas de Paris.

Malas Tumi e botas Vintage Shoe Company, ambos em colaboração com Cool Hunting

Capri. Passadas duas semanas, voei para Olbia, na ilha de Sardenha, na Itália. À convite de um amigo que conheci na Zâmbia, passei quatro dias em um super iate high tech passeando pelas ilhas do Mediterrâneo, passando por Capri e terminando em Nápoles.

Praia em Capri

O lugar que mais gostei foi Capri. Capri é uma ilha com apenas 10km². Pode ser considerado um dos lugares mais charmosos do mundo com suas mini praias com cavernas naturais. Descobri que a ilha é um destino de verão europeu desde o século 18. Tem restaurantes e hotéis ultra charmosos e ainda por cima, um centrinho bem antigo com mini lojas da Chanel, Prada, Hermès, Missoni, etc. Lojas super pequenas, mas com produtos super exclusivos que os italianos e franceses enviam especialmente para essas locações. Capri ficou famosa no cinema dos anos 60. Me senti num filme de Godard. As ruas minúsculas só permitem um carro por vez e as motos quase se batem com os táxis em cada curva.

Quisisana Grand Hotel | Capri

As mulheres ultra bronzeadas com cabelão jogado pro lado, mini shorts e joias. Os italianos super charmosos. A ilha tem história e você chega lá e automáticamente quer fazer parte daquilo.

Zâmbia e Capri. Em Capri não tem mais o que construir. Tudo é antigo e nada pode ser transformado. Na Zâmbia não tem nada e tudo pode ser construído. Como será que vai ficar nosso mundo no futuro?

Eu entendi a Angelina Jolie, Madonna, Sandra Bullock e tantas outras. Eu queria trazer os meninos para casa!

Eu com as crianças

Vindo da Europa, sente-se a crise. Os jovens realmente não trabalham mais e vivem com incentivos do governo. O povo sabe viver bem. Desfrutam a vida e as cidades permitem isso, mas ao mesmo tempo, não se vê mais crescimento. O governo inglês apresentou seu crescimento econômico para 2012, que mesmo com as Olimpíadas, será 0%. Mas o povo está nas ruas curtindo e na Zâmbia ninguém sai à noite por causa dos animais à solta.

Quanto contraste! Consigo entender por que o Brasil é a bola da vez.

Fotos por Jorge Grimberg, Kerrick James e Coolhunting.com

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