Pensata da Palô #22: se você ficar parado, é levado no fluxo

24/08/2010

por | MODA

via @ErikaPalomino

Sobrevivi à Primark. Mas admito que comprei uma ou outra coisinha…

Um nome é comum em todas as listas de “dicas” (odeio a palavra) para quem vai a Londres: Primark. A rede de moda a preços baixos é um dos maiores fenômenos do varejo da atualidade. Uma camiseta a uma libra. Seis meias por 3 libras. Um vestido a seis libras. Três cuecas por 2 libras.

Diante desses preços, não tem como não pensar em como esta roupa é fabricada, transportada, em que margem de lucro eles colocam nas peças. Bem, o sistema é capitalista, logo, é baseado no lucro. Caridade é que não é. Então para uma marca ter lucro numa camiseta de uma libra… Waal.

Muitos jornalistas se fizeram as perguntas acima, e vieram à tona recentemente matérias e documentários sobre condições de trabalho em países como Bangladesh, Índia e China. A Primark diz que consegue os bons preços nas negociações com os fornecedores, na quantidade dos pedidos e no volume das negociações, e no fato de as peças serem produzidas em pouca variação de tamanhos e cores. Nega que incentive condições sub-humanas de trabalho.

Consumidores éticos passam longe dali. Quem não pode ou não quer pagar, ou quer pagar de esperto, esses vão (são imensas as discussões nos fóruns de moda em blogs e sites). Dentro da loja, as pessoas compram como se não houvesse amanhã. Como se estivessem na liquidação da vida delas, adquirindo coisas valiosíssimas a preço de banana. Histeria total. Se você ficar parado, é levado no fluxo. As filas nos provadores e nos caixas são imensas. Os consumidores são meio tratados feito gado e não há vendedores para dar qualquer informação, apenas para dobrar as peças novamente nas prateleiras.

Ter passado pela loja da Primark de Oxford Street foi uma das experiências mais bizarras a que já me submeti. Parece um transe louco, uma bad trip, um pesadelo. Algo assim. Saindo de lá, andando pela rua (também cheia), você continua tentando desviar das pessoas, mas fica ainda com a sensação daquilo na mente. Aquele rush, aquela adrenalina que tenta de toda forma contagiar você; as pessoas em surto sem olhar na cara uma das outras, apenas atrás da melhor oferta, revirando araras, prateleiras e o que for. Pior é que contamina mesmo, e você acaba efetivamente LEVANDO alguma coisa. Afinal, você não pode perder aquela oportunidade.

Pra mim, não levei nada. Da minha parte, prefiro pagar um pouco a mais pelo sossego de poder andar entre os corredores de uma loja. Experimentar ou escolher com calma. Sem estresse. Prefiro me permitir a isso ou prefiro ficar sem comprar. Mas entendo que para muitos essa opção não existe (este é outro tópico dos fóruns).

Nem passei no feminino: além de eu estar completamente atordoada, preferi colar em S. e P., os dois rapazes que me acompanhavam, apavorada de me perder naquela turba ensandecida. Admito: para meus filhos, comprei. Para meu pai também. Estou levando para ele um suéter de 5 libras que faço questão de entregar com o preço. Ele vai ficar feliz nem tanto pelo presente. Mais por achar que, finalmente, aprendi a não gastar dinheiro com roupas de grife.