Eles são honestos, e você?

16/04/2012

por | ECOSTYLE

por Andreia Tavares

Uma das peças da coleção de Calla para Honest By ©Reprodução

Lembra da marca Honest By? Ela foi criada pelo designer belga Bruno Pieters (ex-Hugo Boss) depois de uma viagem pelo mundo que o levou até à India, onde leu uma frase de Gandhi que o inspirou: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”. E assim foi. Provavelmente Pieters queria um mundo mais honesto e transparente e criou uma marca que justifica aos seus consumidores cada centavo que pagam. Honesta.

A novidade é que Bruno quer arrastar o mundo consigo (alguém tem que fazê-lo), e já prometeu que vai desafiar uma série de designers a fazer o mesmo. A primeira que aceitou a proposta foi Calla Haynes, 29, nascida em Toronto e que vive há oito anos em Paris, onde trabalhou com Olivier Theyskens na Rochas e Nina Ricci. A proposta da designer é “luxo descontraído, moderno e fácil de usar”. As estampas são a base das suas coleções e para a Honest By não foi diferente.

Confira imagens da campanha abaixo, fotografada pelo francês Mathieu César no parque parisiense Buttes des Chaumont:

+ honestby.com

DNA Ecoturismo

02/03/2012

por | ECOSTYLE

Fotos Mônica Horta

A cada dia um maior número de pessoas se certifica de que qualidade de vida não é poder de consumo, é paz interior. E momentos intensos dessa paz são facilmente conquistados através do ecoturismo, que antes era para “aventureiro de carteirinha”, mas hoje está estruturado em ambientes com super infraestruturas, que permitem que famílias inteiras de pessoas comuns se sintam protegidas e estimuladas a aderir a esse estilo de vida moderno.

Uma viagem com critérios de sustentabilidade é sempre um prazer, justamente por ter inserido nela todo o contexto da cultura local a ser conhecida, com toda a sua abrangência.

Entre todas as infinitas possibilidades que o nosso absurdo país nos disponibiliza, descer do avião em Campo Grande, – capital do Mato Grosso do Sul-, e ir de carro até Bonito é uma experiência adorável. A estrada é incrível, e as sensações que a cidade-paraíso Bonito tem para oferecer são pra lá de especiais.

Por ser oficialmente o destino de ecoturismo mais importante do nosso Brasil, Bonito dispensa apresentações (ainda que muita gente insista em dizer que fica no estado de Mato Grosso, e não em Mato Grosso do Sul), e achei mais interessante falar dos outros encantos dessa região.

Considerado o maior poeta brasileiro vivo, Manoel de Barros é um ilustre residente da capital do Estado.

No aeroporto do RJ, há tempos, eu e Manoel de Barros – meu ídolo da escrita

Visivelmente influenciada pela música paraguaia (por causa da divisa do estado com o Paraguai), que tem como principal instrumento a harpa, a música do MS, também chamada de “Prata da casa”, tem especificidades autorais de ótima qualidade, por desde sempre ter sido produzida por grandes artistas, como a tocadora de viola Helena Meirelles, que, ainda em vida, foi eleita pela revista americana “Guitar Player” (com voto de Eric Clapton), como uma das 100 melhores instrumentistas do mundo.

Almir Sater e o impecável Geraldo Espíndola são excelentes representantes contemporâneos dessa música regional de raiz.

O Estado possui uma das maiores populações indígenas do País, com a presença de nada menos do que a preciosa etnia Kadiwéu. E por falar em preciosidade, vale comentar que o Milton Nascimento participou de um batizado indígena durante um evento em Campo Grande, em plena praça pública, recebendo o novo nome de “Ava Nheyeyru Iyi Yvy Renhoi”, que em português significa “Semente da Terra”.

Milton Nascimento sendo batizado

Artesanato regional é a lembrança certa, porque tem status autoral. E como não poderia deixar de ser, é possível encontrar coisas ótimas na Casa do Artesão da cidade, do tipo livros regionais como o Mani-oca (sobre o uso da mandioca na culinária), o livro de instrumentos sonoros alternativos, de Julio Feliz, e outras ecofofas, como bolsas de tecelagem com taboa, acessórios feitos com reaproveitamento de osso de boi, e os bonecos criados pela Conceição dos Bugres, hoje produzidos por seu neto.

Bolsa de taboa, livro regional, cerâmica Kadiwéu e bonecos Bugrinhos

Dali, caminhando mais duas quadras, chega-se ao mercado municipal da cidade, onde é possível degustar delícias regionais, como pastel de peixe, sopa paraguaia (torta com queijo), Chipa (um tipo de pão de queijo em outro formato); ter acesso a compotas de pequi, e ainda apreciar a guavira, maravilhosa fruta típica do Cerrado que só é encontrada no mês de novembro. Em meio às particularidades em design, o pegador feito com chifre de boi faz sucesso.

Pequi, sobá e pastel de peixe

Para a noite, uma opção perfeita é o restaurante “Lingüiça de Maracajú”, onde se pode saborear esse tipo exclusivo de linguiça, ao som de música regional como a Polca paraguaia, ao vivo.

E para apreciar ainda mais os sabores da terra, o programa turístico ideal é conhecer a “Feirona” e experimentar o sobá, um prato original da cidade, criado pela imensa colônia japonesa local.

Conhecer o “Parque das Nações Indígenas”, que fica na região mais nobre da cidade, e tem dentro de sua área o Museu de Arte contemporânea também vale a pena.

Parque das Nações Indígenas

Quem tiver por lá, também não pode deixar de conhecer a primeira aldeia urbana do Brasil. E no aeroporto e em outros locais, vale reparar nos orelhões em forma de bichos do Pantanal, e parar para contemplar um pôr do sol como poucos.

Aldeia urbana

E mais: vale pensar na possibilidade bacanérrima de pegar o “Trem do Pantanal”, que sai de Campo Grande com destino a Corumbá, outra bela cidade histórica, que faz divisa com a Bolívia, e tem tradições muitíssimo interessantes como a confecção da Viola de cocho, e é banhada pelo estonteante rio Paraguai.

Orelhão de peixe e Trem do Pantanal

Tudo lindo, como em um monte de outros dos nossos cantinhos. Já nem é o Brasil que merece ser conhecido; é a gente que merece conhecer o nosso luxuoso Brasil.

contato@monicahorta.com

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Estilo democracia

27/02/2012

por | DESIGN, ECOSTYLE

Bolsas feitas com a fibra do Tururi. Ele envolve e protege os cachos do coco da palmeira amazônica conhecida como Buçu. Produção da comunidade de Muaná, da Ilha de Marajó, no Pará ©Divulgação

O feito à mão é ancestral. A importância de buscar valores tradicionais e usá-los de forma moderna é que é a novidade da vez.

A solução para todo o mal é causar impacto socioambiental do bem. É viver o mesmo capitalismo, só que agora em um formato que inclui, que resgata e motiva; que faz os muitos que têm pouco darem um grande sentido à própria identidade, e os poucos que têm muito assumirem nossas tradições como um valor a ser transformado em renda com qualidade de vida, para todos.

Talentos do Brasil é o nome de um louvável projeto do Governo Federal, criado em 2005, que acontece em doze estados brasileiros e envolve o trabalho de quinze cooperativas. Muito bem fundamentado, já contou com colaboradores ilustres como Ronaldo Fraga, Jum Nakao e Mary Design, e, ao que parece, segue um ótimo caminho.

Durante o Minas Trend Preview, o Projeto apresentou em um desfile impecável a coleção “Flores”. A sua primeira coleção “Passarada – em cada canto, um canto”, de 2010, foi toda inspirada em aves e pássaros brasileiros, e muitíssimo bem construída e argumentada: “Os pássaros têm compromisso com seu lugar de origem, fazem saídas estratégicas sem perder vínculos, vivem em plena integração com o meio ambiente e guardam intimidade com a natureza e suas mudanças. Assim também são as pessoas que fazem parte do programa Talentos do Brasil. Por isso, suas origens e cultura local são tão importantes – elas são sua identidade”.

Conheça em detalhes sobre o que, onde e quem produz para o Projeto e aproveite para também conferir a loja virtual da marca. Trata-se da comprovação de que as mãos, de fato, é que têm a vocação de transformar o mundo.

Cachecol Pena Colorida ©Divulgação

Detalhes do excelente desfile da marca, apresentado no Minas Trend Preview ©Agência Fotosite

Manta Vison, no desfile e em detalhe ©Agência Fotosite / Divulgação

contato@monicahorta.com

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Ecostyle

10/02/2012

por | ECOSTYLE

Dois anos é um tempo bom demais. E dezoito então… é uma história e tanto.

Dois anos foi o meu tempo empenhado a escrever essa coluna, e dezoito foi o tempo total da minha vida dedicado ao jornalismo. Vale comemorar.

Por aqui, na Ecostyle do FFW, fiz descobertas de caminhos sendo percorridos por aí, por um povo bacana que quer sustentar seus valores, e não seu ego.

Em dezoito anos por muitos lugares, eu descobri que vale a pena sonhar.

É bem verdade que muitas vezes me sinto meio perdida e me pergunto “onde é que foi parar a tal da ética?”, mas na grande maioria das vezes, a decisão sobre divulgar boas novas sob a ótica da cultura sustentável (que aos poucos vai sendo descoberta e estabelecida) é prazer puro.

Pra comemorar 2012 (que chega chegando), preparei uma série de matérias com personalidades geniais que fazem a diferença, e mostrarei aqui nas próximas semanas, porque, assim, a vida até parece uma festa.

Salve salve as novidades de vida que serão abordadas durante essa comemoração: experimentalismos na moda através de adoráveis tramas têxteis; literatura de novas formas; música regional, sensorial, orgânica; arte em toda parte; artesanato luxo; neovalorização da cultura popular; arquitetura com seu Retrofit; relações e negócios customizados; gastronomia funcional; a filosofia inteligente da Economia criativa; os preceitos da Economia azul; a ciência com sua teoria Multiverso;… e bem mais… muito mais “bens”. Na próxima semana tem.

Alexandre Heberte – e suas experimentações têxteis


Obra “O que nasce nas minhas mãos” © divulgação

Samir Mesquita – literatura de formas inteligentemente trabalhadas


Dois Palitos – o seu livro de microcontos © Divulgação

Mary Design – artesanato, design, arte conceitual


Colar da sua última coleção “Tempos modernos” – manifesto ao apreço © Divulgação

Projeto Talentos do Brasil – neovalorização da nossa cultura popular


O “Renascimento” de Fernanda Yamamoto

18/01/2012

por | ECOSTYLE

Com sua capacidade de gerar idéias, Fernanda Yamamoto prova que sabedoria não faz mal a ninguém. É um grande nome da moda brasileira, porque possui competências essenciais a um criador; tem um trabalho conceitual importantíssimo, que desperta motivação, e por isso mesmo já é referência.

Produzi um teaser da sua coleção inverno 2012, porque aposto que fará a gente se deliciar com um desfile espetacular. Vem ver: Fernanda Yamamoto por ela mesma.

fernandayamamoto.com.br

O melhor lugar do mundo é aqui, e agora

16/01/2012

por | ECOSTYLE

Começando a comemorar minha maioridade em jornalismo, compilei algumas imagens registradas por mim entre 94 e hoje, de algumas pessoas (e de outras coisas) pra lá de bacanas que passaram pelos eventos de moda, pra dividir com vocês que também são amantes do mundinho fashion, porque 18 anos não é pouca coisa não. Todas as fotografias são de minha autoria, fruto de contemplação/paixão mesmo.

E por falar em mundinho fashion: os seus profissionais comprometidos, ele encanta; os desinformados ele incomoda; os fashionistas ele surpreende. E a roda da moda se movimenta em diferentes momentos e formatos, ano após ano.

Lá atrás, quando todo esse buxixo começou no Brasil já era interessante, porque tudo o que é cultura e expressão de um povo fascina; só que não havia centenas de fotógrafos nem dezenas de jornalistas sérios (e outros pseudo) cobrindo os eventos, nem um grande número de criadores participando deles, nem aconteciam em locais gigantescos, as modelos não eram tops, e nem existiam nomes definidos para as inúmeras funções que profissionais do metiér podem exercer, mas a festa era boa. Muito boa.

Esse é um mundinho que sempre quero estar por perto (agora focada em cultura sustentável e economia criativa). Ainda mais porque ele está passando por uma fase de plena transformação; vai se unir e evoluir, e veremos criações mais autorais, de criadores totalmente seguros e maduros, mostrando seus trabalhos pra pessoas menos preconceituosas, que respeitarão a essência do feito à mão da “moda brasileira”, e tudo isso sendo divulgado por um maior número de gente verdadeiramente envolvida com o nosso talentoso País. (A percepção sobre o que vem “do exterior”, de fato, não tem mais valor do que é daqui, está começando a brotar, finalmente…)

O SPFW já vai começar de novo. E “é nóis”, outra vez. Há tempos. Agora esse é o melhor lugar do mundo. Aproveite.

Inspiração X cópia

06/01/2012

por | ECOSTYLE

Há pouco tempo ouvi o Humberto Campana afirmar que obras com nome de “homenagens” são nada mais além de cópias – o que eu concordo inteiramente, em quase 100% das vezes.

Internet é fascinante, e abre sempre nosso mundo com possibilidades. Justo, é navegar por ela com a idéia de se inspirar, e não copiar… mesmo porque, exatamente por haver tanta informação disponível, é que essa balela de inspiração “adaptada” não convence mais. Convidei alguns amigos do Facebook muito bem informados, que trabalham antigos materiais com novas idéias, a compartilharem suas ecoinspirações aqui, para provar que, mesmo que tudo já tenha sido feito/dito, o olhar peculiar com atitude ética faz a grande diferença.

(Isso é só um papo bom para celebrar esses novos dias…)

#foranadasecriatudosecopia

 

A teoria moderna da evolução inspira Fabia Bercsek, que nessa performance imita um macaco

A artista plástica Sakaya Ganz inspira o trabalho de Bruno Honda

Essa imagem de filhotes de focas sendo vendidos por 5 Euros influenciou o trabalho de Thabata Gomes

Fabio Mesquita se inspira na Rua das Pedras em Búzios, para falar sobre sustentabilidade em suas aulas

O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros inspira Jéssica Abreu e seu ecodesign

Essa instalação em Oxford (UK) é uma das referências para as ambientações de Marcos Morcef

A Praia do Coqueirinho, em João Pessoa, inspira o som de Bruno Monstro e sua banda Twin Pines

Feliz vida orgânica

30/12/2011

por | ECOSTYLE

Orgânico é a palavra do momento, mas o que ela significa, nas entranhas, é que tem valor. É um termo que define processos ligados à vida. Pode dizer respeito a seres organizados que atuam e interagem entre si, também pode estar associado a grupo de pessoas, a órgãos de um ser vivo, ou a tudo o que é livre de substâncias sintéticas. Se é orgânico é inerente, profundamente arraigado, natural, pacífico, lógico, em resumo: de verdade.

Eu, inspirada e comprometida – até a alma – com/pelo mundo orgânico {que tem toda razão, em tudo}, através desta coluna Ecostyle, desejo que, em 2012: você tenha a força de buscar a simplicidade; que abra espaço para emoções, em várias versões; que sua busca por realizações profissionais seja baseada em ternura; que parta do seu íntimo uma gostosa invasão de liberdade; que suas pretensões sejam bem humoradas; que sua rotina tenha muitos momentos aventura.

E ainda, porque não há tempo a perder: que você aposte na mistura de conceitos; viva a praticidade; reverencie a inteligência; deseje os prazeres da ideologia; homenageie as coisas que fizeram parte do seu despertar; reverencie a sabedoria; invista no seu jeito. Permita-se muito e incomode-se quase nada. Vibre com novos tons, delicie-se com novos sons, queira novos dons.

Tenha um feliz ano todo, orgânico, de verdade.

Ouça o som orgânico do Lenine – “Chão”, seu último CD © Divulgação

Aprecie a obra orgânica dos Irmãos Campana. Essa, “Diamantina III”, feita em 2008, com aço, vime e ametistas, simboliza os muitos tesouros escondidos e ameaçados do Brasil © Fernando Lazlo

Conheça/use o jeans orgânico da Eden – uma entre as raríssimas marcas do mundo que o produzem © Rafael Sartori

A arte necessária do consumo inteligente

23/12/2011

por | ECOSTYLE

Nada pode ser tão interessante quanto investir, de fato, na hora de presentear; e uma excelente escolha para esse investimento é “garimpar” preciosidades em uma loja existente em espaços culturais contemporâneos.

Primeiro, porque se tem a chance de ser eternizado, pois quem recebe um presente exclusivo, costuma guardá-lo para sempre.

Segundo, porque quem dá um presente inteligente, é visto e lembrado como uma pessoa especial.

Terceiro, porque o simples fato de ir a um espaço cultural fazer uma compra, pode significar uma evolução pessoal, pois é impossível não ser acrescido de conhecimento útil depois de um passeio desse.

Quarto, porque a vibe desse presente vai ser a melhor possível, já que nessa intenção, certamente está embutido o desejo de felicidade plena, que alguém só é capaz de conquistar, aprendendo a valorizar o que realmente tem importância.

Quinto: provas de carinho/amor são indispensáveis, e praticar o consumo para isso é necessário; mas a prática irracional do consumo é justamente a grande responsável por essa falta de amor nas relações, porque o afeto, respeito, etc., não podem ser trocados por valor material. Isso é uma farsa, e a manifestação desses sentimentos tem que ser de verdade.

Sexto: parar para pensar no porque de estar fazendo, falando, comprando tal coisa, faz uma diferença enorme, principalmente com relação à preservação do meio ambiente; e responsabilidade socioambiental é dever de todos.

Enfim: vale pensar se a demonstração de amor através da compra de um presente será mesmo mais eficiente do que uma ação surpresa, como a produção de um momento a sós em um local novo, a preparação de um prato ou a confecção de um presente feito à mão por você mesmo, e coisas luxuosas desse tipo. Afinal, exclusividade é o novo luxo. E todo mundo que interessa gosta é disso.

Se depois dessa avaliação, a decisão for mesmo comprar um presente, aqui em São Paulo, eu indico esses espaços (porque amo):

Loja do MUBE e produtos do MAM © Divulgação e fachada do Tomie Ohtake © Mônica Horta)

O MAM, além de estar no adorável Ibirapuera, e poder usufruir tudo o que ele oferece, de exposições e eventos incríveis, a um restaurante/café com uma vista valiosa, entrar na sua “lojinha” é puro prazer, porque lá tem arte, literatura e objetos funcionais da melhor qualidade.

O MUBE é uma sugestão deliciosa de passeio, porque sua programação é bacanérrima…além disso, tem um restaurante incrível {e acessível}, e fica ao ladinho do MIS. Na sua loja é possível encontrar uma variedade superinteressante de arte popular, inclusive sustentável.

O Instituto Tomie Ohtake é o meu predileto. Seu prédio é absurdamente moderno, com estrutura completa, e sua programação de exposições, cursos e eventos é impecável. Na loja IT, que integra o espaço, é possível encontrar trabalhos exclusivos de designers geniais.

Ronaldo Fraga: ontem, hoje e sempre

14/12/2011

por | ECOSTYLE

© Cael Horta

Morro de amores pelo Ronaldo Fraga, admito; muito porque é um homem à frente do seu tempo, que olha para o passado com genialidade, e sempre consegue nos fascinar. Se até há bem pouco tempo era tachado por “críticos” como criador de moda teatral, hoje, com os rumos definidos de um caminho absolutamente novo que o mundo da moda vai ter que percorrer, ele é considerado, cada vez mais, um exemplo de sabedoria, força e identidade.

Sua vibe é totalmente do bem. Não se coloca em disputas de egos do metiér, e não é conivente com a idéia de um progresso conseguido a qualquer custo, pelo contrário, é adepto da construção social. Ele pratica o desafio, levando sua moda às últimas conseqüências, contando belas histórias de outros, e escrevendo a própria história rompendo os limites do possível, olhando as coisas que ainda ninguém viu.

Nos anos 90, quando apresentou sua primeira coleção no Brasil, “Eu amo coração de galinha”, ainda no Phytoervas fashion, Ronaldo disse que fazia funny wear e já se servia de técnicas de alfaiataria para “refletir essa identidade de quem somos nós enquanto brasileiros”, instigando a individualidade no vestir ludicamente. Em 2008 me concedeu uma breve entrevista, e como tudo o que diz respeito a ele é atemporal, e merece ser conhecido porque tem superfundamento, decidi reproduzi-la, já que ele “causou”, decidindo não desfilar no próximo SPFW, que é o evento-orgulho do Brasil.

Quem já teve o privilégio de assistir a um desfile dele, sabe o quanto Ronaldo fará falta, porque todas as vezes saímos da sala surpreendidos, e com a sensação de que amar o mundo da moda vale a pena. Reciclando idéias, lá vai ele ensinar mais uma vez como se faz: “parar para respirar, para observar o entorno, investigar outros suportes para o pensar…”

Como é o início dessa sua história com roupa?
Foi em 84. Eu sempre tive uma proximidade muito grande com desenho. Então foi por isso, pelo traço. Talvez em virtude disso, sempre percebi o quanto é importante a memória gráfica, o registro gráfico numa coleção. Logo depois eu ingressei no curso de estilismo da UFMG, em Belo Horizonte, que foi o primeiro curso de moda do País, numa época em que nem em São Paulo existia (as pessoas saiam de São Paulo pra vir estudar em Minas), e em 90 eu mandei um projeto pra um concurso que investia nessa ferveção de novos talentos que a gente vê hoje, de novos estilistas, que era um concurso promovido pela Santista, que o primeiro lugar era uma pós-graduação na Parsons, em Nova York. Ganhei. Eu fiquei um ano em NY, de lá fui pra Londres. Em Londres fiquei três anos e meio, ingressei na Saint Martin, e voltei pro Brasil em 96, na época do extinto Phytoervas fashion – um evento que viria originar, anos depois, o São Paulo Fashion Week.

O que te inspira? O que pode virar moda para você?
Tudo pode virar moda. Tudo. Tudo que tente estabelecer um mínimo de diálogo com o tempo que a gente tá vivendo. Tudo que registra o tempo. Acho que esse é o desafio da moda: retratar o tempo de uma forma digna. Existem duas coisas: uma é a roupa, a outra é a moda. A moda é um documento do tempo, é um dos documentos mais eficazes que o homem inventou. A gente está começando a assumir isso agora. Eu diria que daqui a vinte anos a moda virá a ser estudada como ciência, porque através da moda você traça todo o caminho da humanidade. Através do que o homem vestiu. Agora, o significado da roupa na maioria das vezes funciona como um ingresso que permite a pessoa pertencer ou não a um grupo. Se ela vai pertencer e ficar no grupo, a roupa não vai sustentar isso. Mas considerando como um ingresso para ela se inserir, em determinado contexto, esse é o papel da roupa.

Sei que você despreza tendências, não se sente um pouco solitário na sua trajetória?
Não. Houve uma época que sim. Mas na verdade não se fala de uma evolução, de uma transformação; falam de tendência como uma coisa imediata, que é lançada em Paris e imediatamente já está no Bom Retiro. É preciso cuidado na análise das tendências. Não é: “vai usar”… vai usar durante duas semanas e a tendência já se esgotou. Hoje não existem tendências, não existe um grão de movimento de tendências. Hoje o que existe é um olhar individual de quem cria voltado para o indivíduo que vai usar.

Percebo muita ética em suas propostas. Que tipo de compromisso você tem com a chamada moda brasileira?
Antes de qualquer coisa a escolha da roupa já é um ato político. A escolha da cara que você quer ter, a escolha do cabelo que você quer ter, a escolha das cores que você quer usar… isso o tempo inteiro é um ato político. Em se tratando de um país como o Brasil, onde a gente vem de uma história – desde o descobrimento e a colonização – de uma cultura, uma identidade extremamente sublimada, eu acho, acredito sim, que a moda é um instrumento extremamente eficiente não no resgate (não gosto de usar essa palavra resgate, acho muito forte), mas de estímulo a apropriação dessa identidade que durante muito tempo ficou escondida em baixo do tapete. Isso gera muitas discussões, porque as pessoas acham que o fazer moda brasileira – e eu insisto muito nisso – não a coisa de bordar uma arara, bordar um coqueiro e achar que isso é brasileiro, mas entender que a identidade do povo brasileiro é intangível, é aquilo que provoca uma sensação. Isso é identidade de um povo.

Quais são os seus tecidos? E as suas cores?
Eu privilegio, desde o início da carreira, o 100% algodão. Acho que pelo clima, o acabamento é ótimo, e neles encontro a simplicidade e a sofisticação que eu busco. Fibras naturais também, é nessa seara que eu gosto de apresentar meu trabalho.

Você trabalha tamanhos maiores, abaixo do joelho; se refere ao Viagra de forma poética, como um perfeito estimulante ao amor, rs… Você é “do contra”? Rs… o que a sua estética propõe?
A coisa do Viagra, foi naquela coleção de Lupicínio Rodrigues, que tinha uma coisa de sexo no ar, afinal ele foi o inventor da dor de cotovelo, né… acho que naquela ocasião ali, coube a brincadeira.

Você é essencialmente um criador, que sempre apresenta grandes coleções em homenagem a grandes nomes como Zuzu Angel, Tom Zé, Drumond… Já que vejo seu trabalho como arte, que tipo de relação você mantém com as outras formas de arte?
Eu procuro estabelecer um diálogo; acho que a moda hoje, no mundo contemporâneo, com facilidade aceita estabelecer um diálogo com outras mídias de comunicação, que é o cinema, a literatura, que é os grandes nomes da arte mundial, enfim, a música… Eu acho que há um movimento meio desenvolto nesse sentido.

Não considero você pretencioso; acho que é o cara que sabe o que faz e ponto. Qual é a sua expectativa com relação à sua carreira?
O que eu quero é continuar criando. Meu maior prazer é criar um universo através da moda. E que através desse trabalho as pessoas consigam – não vou falar a ter uma relação mais feliz com elas mesmas – mas eu faço um convite a repensar uma série de coisas, repensar valores que estão escorrendo pelos dedos, repensar o mundo que vivemos agora, embora sejamos todos do século passado, temos o compromisso de dar o tom desse século, que ainda não deu, todo o mundo ainda está muito calcado no século passado, enfim, acho que é isso.