A maximização da experiência

28/05/2014

por | COMPORTAMENTO

Por Carlos Ferreirinha*, especial para o FFW

Imagem da rede de lojas Oasis, que usa a tecnologia para proporcionar novas experiências ao consumidor ©Reprodução

Outro dia, em um dos nossos materiais de pesquisa, me deparei com uma frase brilhante: “Memórias duram mais tempo que sonhos”. O que me fez, por um momento, parar o que estava fazendo para anotá-la no meu caderno. A frase tinha sido dita pelo avô de um famoso trend-hunter inglês, no dia que faleceu, em meados da década de 1970. Mas afinal, por que essa simples frase é tão importante, e tão atual? O sentido está na importância das memórias, o entendimento e percepção daquilo que levamos conosco para a eternidade.

Quando nas minhas palestras ou nos projetos de consultoria que coordeno com a minha equipe na MCF, faço questão de ressaltar sempre a importância das memórias e continuamente tentamos aplicar modelos de maximização das memórias, afinal, memórias são criadas por experiências. DEVEMOS ESTIMULAR EXPERIÊNCIAS!

E memórias sempre foram um diferencial das principais marcas de luxo. Marcas capazes de manter vivas as memórias, resgatá-las a todo tempo, atualizá-las e mantê-las como parte essencial do hoje! Quem poderia dizer: Louis Vuitton, 160 anos. Cartier, 167 anos. Hermès, 177 anos. Gucci, 93 anos. Prada, 101 anos. Tiffany, 177 anos. Chanel, 105 anos. Yves Saint Laurent, 53 anos. Bottega Veneta, 48 anos. Baccarat, 250 anos!

Vivemos hoje no auge de um momento da nossa sociedade guiado pela impessoalidade, padronização, intensidade, consumo e materialismo. O que faz com que as pessoas tentem suprir sua necessidade de boas memórias pelo consumo de produtos e mais produtos, num ciclo sem fim, um falso sentimento de que a felicidade está no acúmulo de bens.

Existem diversos estudos que explicam e relativizam a felicidade, o acúmulo de bens e sua relação com o capital, mas essa não é minha intenção com este artigo. Minha ideia aqui é propor uma pequena reflexão de como estamos oferecendo experiências para nossos clientes e de como o varejo deve se moldar nesse novo movimento de resgate da experiência.

Conhecer o seu cliente é um princípio fundamental para gerir o que nós chamamos de ciclo da experiência no varejo. Com a popularização de ferramentas tecnológicas temos uma infinidade de possibilidade de maximizar a experiência desse consumidor em todos os pontos de contato com a marca. UMA VERDADEIRA GESTÃO DA EXPERIÊNCIA.

A loja de roupas britânica Oasis, por exemplo, permite que o consumidor opte pela maneira que quer ser atendido, se quer comprar na loja ou online, se quer que seu produto seja despachado para casa. Todos os vendedores possuem um iPad conectado à internet, onde facilmente podem mostrar as possibilidades da coleção, verificar tamanhos e disponibilidade e enviar tudo para a casa do cliente.

Essa convergência e uso inteligente da tecnologia pode ser ampla e surpreendente. A rede de pizzarias Pizza Express, também no Reino Unido, possui um aplicativo em que se é possível consultar o menu, reservar a mesa, fazer o pedido e o pagamento, antes mesmo de chegar ao restaurante.

O aplicativo Ibeacon, que já vem sendo usado na gigante Macy’s em Nova York, permite que através do Bluetooth sejam enviadas mensagens personalizadas para o smart phone do clientes, com promoções dedicadas, mapas e dicas durante seu período dentro da loja.

Mas não é apenas através do uso de tecnologia que se pode proporcionar uma boa experiência de compra; obviamente a gestão de dados do cliente facilita a vida de grandes varejistas, mas o atendimento cuidadoso, humanizado e personalizado sempre terá lugar de destaque frente a utilização de gadgets.

Por isso que um investimento em equipe, naqueles que realmente tem contato com o cliente, é tão importante. Ainda, e muito forte no Brasil, as empresas tendem a pensar de forma convencional e não investir nas pessoas, já que é um custo alto. No entanto, os estudos mostraram que ativamente investir em pessoal compensa. As empresas devem não apenas concentrar em quanto monetariamente deve ser o retorno por funcionário para que este investimento seja válido. Aumentar a qualidade de serviço ao cliente deve ser um objetivo constante, almejando sempre a excelência.

Nessa era de solidão, a vantagem competitiva se dará na organização do foco da empresa. Tudo deve ser organizado em torno do cliente. A maioria dos clientes quer uma equipe capacitada para ouvir os seus problemas, oferecer soluções, e criar uma experiência desejável. O grande desafio é a gestão inteligente da experiência no varejo, a prolongação dessas “boas memórias”.

+ Leia a coluna “O luxo e seu significado”

*Carlos Ferreirinha é fundador e presidente da MCF Consultoria, especializada no negócio do luxo e premium, líder no Brasil e na América Latina.

Luxo e seu significado

25/04/2014

por | COMPORTAMENTO, Sem categoria

Por Carlos Ferreirinha*, especial para o FFW

Liz Taylor foi dona das joias mais raras e esplêndidas, ainda hoje consideradas sinônimo de total exclusividade ©Reprodução

O LUXO. Como identificá-lo? Essa palavra tão curta, restrita, intensa e que se origina do latim LUX, significa LUZ! Seu significado vai muito além, uma vez que define de estilo de vida, comportamento e status até alguns setores econômicos. A palavra lux ou luz está intimamente ligada ao brilho, à intensidade e ao magnífico, por isso só a palavra luz consegue nos levar ao entendimento de que o luxo traduz algo adorado, esplêndido, perfeito e belo.

Mas o luxo, que existe desde a Era Paleozóica, veio se transformando e adequando até chegar aos nossos tempos modernos. A evolução do luxo fez com que o mesmo deixasse de ser apenas um estilo de vida concedido a poucos e fosse democratizado, tendo como combustível a essência do capitalismo: o lucro. Esta transformação facilitou aparentemente o acesso ao luxo quando se trata de bens facilmente  adquiridos; por outro lado, o mesmo sistema permitiu a democratização e intensificou ainda mais sua inacessibilidade quando os artigos independem de qualquer correção inflacionária ou econômica, ou seja, o que hierarquiza o bem de luxo não é apenas o seu preço, mesmo que este seja um importante balizador para os sonhos, mas também os desejos e a essência em si, fundamentais para o processo de vendas. Neste contexto podemos identificar três hierarquias do luxo:

* Inacessível

* Intermediária

* Acessível

Manter-se consumidor de bens de luxo inacessível é cada dia mais difícil; por outro lado, aqueles que se mantêm nesta posição têm um poder de compra cada vez maior, da mesma forma que, cada vez mais, os consumidores de bens de luxo acessível e intermediário raramente conseguem ultrapassar a barreira do inacessível, ou seja, o acessível está cada vez mais acessível e o inacessível, cada vez mais inacessível, alimentando ainda mais o motor  do luxo, que é o desejo! Quanto mais inacessível estiver uma hospedagem no Ritz ou um colar cravejado de diamantes, mais pessoas os desejarão.

Um produto de luxo acessível funciona como um dispositivo para aumentar a velocidade de compra do potencial novo cliente.

Independentemente de estarmos na era em que tudo é mutável, afirmo que o luxo só deveria ser reconhecido como tal quando algumas regras coexistirem, sendo uma delas o conceito da inacessibilidade, do preço, da gestão do desejo, da distribuição precisa e seletiva, da atemporalidade, do alto grau de excelência, da qualidade acima do esperado… da sedução, do que é belo…

O luxo, entretanto, ainda tem os valores de tradição, história, artesania e excelência de detalhes, como seus maiores ativos.

Massificar o luxo talvez seja a consequência de toda essa transição pela qual o mundo está passando. Refiro-me à Era do Nunca e aos Tempos Hipermodernos. O luxo nunca foi tão valorizado, mas precisou também se renovar, se inventar… Massificar talvez fosse uma ideia abominada há algumas décadas pelos proprietários das maisons; por outro lado, isso se fez necessário… O luxo historicamente foi sempre para poucos e sempre esteve associado diretamente à aristocracia. O mundo mudou, o dinheiro mudou de mãos, novos comportamentos de consumo surgiram, o mundo está rápido, o consumo está focado em sensações e emoções, não mais em produtos! Estamos em um novo tempo, em uma nova era! O luxo precisava acompanhar este momento. O luxo virou segmento expressivo de negócios e, para isso, sua base de consumo e acesso teve de ser aumentada, fomentada e potencializada. E isto vem se aplicar fortemente e muito bem aos países latino-americanos como o Brasil e o Chile.

Atualmente, o que temos são operações de negócios importantes para a economia. Negócios com grandes investimentos em marketing, comunicação, desenvolvimento de produtos, logística e distribuição. É fascinante um determinado produto ser desejado fortemente por indivíduos em diversos pontos do mundo. Estratégia! Toda expansão do luxo contemporâneo nos obriga a reconsiderar valores e crenças. O luxo, atualmente, é uma bem-sucedida experiência profissional, ainda que bem temperada por aquilo que todos os segmentos almejam: o poder do desejo… do sonho… do lúdico… do subjetivo… do prazer!

Entender as práticas do setor do luxo e aplicá-las no dia-a-dia profissional é possuir uma poderosa vantagem competitiva neste mundo marcado pela instabilidade e pela mudança. Conhecer o sucesso de certas corporações é estar com o que há de mais moderno em gestão empresarial. Entender os insucessos é a forma mais eficaz de preveni-los.

O reconhecimento do luxo com todos os seus códigos, com toda a sua história e, mais que isso, interpretá-lo sem miopia nos tempos de hoje, carregados de hierarquizações e massificações, é fundamental para que o luxo seja visto como um novo e forte segmento de negócios do mundo contemporâneo.

 

*Carlos Ferreirinha é fundador e Presidente da MCF Consultoria, especializada no negócio do luxo e premium, líder no Brasil e na América Latina.

Quiz do futebol!

02/04/2014

por | COMPORTAMENTO

Por Elis Martini, em colaboração para o FFW

São experts em moda, mas quando o assunto é a paixão nacional, eles deixam muito a desejar. Aproveitamos o ano de Copa no Brasil para testar os conhecimentos de alguns dos maiores fashionistas do país sobre futebol e a seleção brasileira. Ainda tem muita gente que acredita que o goleiro da seleção é o Rogério Ceni! Os vencedores do quiz foram Sylvain Justum e Erika Palomino, que acertaram todas as perguntas. Confira as respostas:

 

Erika Palomino, publisher da “L’Officiel”

Quem é o goleiro da seleção?

Júlio César!

E onde será o primeiro e o último jogo da Copa?

O primeiro é no Itaquerão e a final é no Maracanã!

 

Gloria Kalil, consultora de moda e dona do site Chic

Qual o nome do técnico da seleção?

Felipão!

E do goleiro?

Não é o Rogério?

 

Lilian Pacce, editora de moda e dona do site lilianpacce.com.br

Qual o nome do goleiro da seleção?

Bruno?

Qual o estádio da abertura da Copa?

Itaquerão.

O que é pênalti?

Por que você não me pergunta qual o último cabelo do Neymar?

 

Marcelle Bittar, modelo

Quem é o goleiro da seleção?

É o Rogério ainda? Não sei, sou da época do Rogério!

Qual foi a última vez que o Brasil foi campeão?

Foi em 2008?

 

Lula Rodrigues, jornalista e consultor de moda

Quem é o treinador da seleção?

Não tenho ideia!

Como funciona o impedimento?

Já me obriguei a entender e foi muito cansativo, não aprendi de jeito nenhum!

 

Lara Gerin, stylist e DJ

Onde acontece o pênalti?

Na área do gol.

E onde será o primeiro jogo da Copa?

Eu sei! Amazonas! Manaus!

 

Cris Guerra, publicitária e escritora

Quem é o técnico da seleção?

Felipão, sei porque ele faz propaganda!

E em quais anos o Brasil foi campeão?

58, 62, 70, 94 e 2002. Sei por causa dos brindes do Mc Donald’s!

 

Chris Francini, consultora de moda

Qual o nome do técnico da seleção?

Felipão!

Onde acontecerá o primeiro jogo?

Não tenho ideia, mas vou em um jogo das quartas de final.

 

Manu Carvalho, stylist

Qual o nome do goleiro da seleção?

Júlio César!

E quando acontece um pênalti?

É quando um jogador faz uma infração grave, tipo dar porrada?

Onde acontece o primeiro jogo da Copa?

Rio de Janeiro.

 

Sylvain Justum, editor da “Harper’s Bazaar”

Quem é o capitão da seleção brasileira?

Thiago Silva

Qual jogo abre a Copa do Mundo?

Brasil x Croácia.

Quantas seleções participam?

32.

O que é pênalti?

É uma falta dentro da grande área cobrada com bola parada a 11 metros do gol.

 

Jorge Wakabara, editor do site lilianpacce.com.br

Quem é o capitão da seleção?

Não sei…

O que é pênalti?

Eu sei, mas não sei explicar.

Chanel e a cultura do consumo

05/03/2014

por | COMPORTAMENTO

O  público assiste enquanto as modelos vão às compras no supermercado da Chanel ©Reprodução

Os desfiles da Chanel são conhecidos por seus grandes cenários e locações. Sempre magníficos, impressionantes e muito bem executados, eles chamam tanta atenção quanto a roupa e os acessórios, que são os motivos finais.

Nesta temporada de Inverno 2014/15, a marca conseguiu se superar e transformou o Grand Palais em um “grand” supermercado, devidamente montado com corredores e prateleiras lotadas de tudo o que precisamos e queremos no nosso dia a dia: frutas, verduras e legumes frescos, café, os melhores queijos, pães, capachos, vassouras, utensílios para a cozinha e produtos de limpeza. Havia Choco Chanel e Jambon Cambon, boas tiradas com a Coco e a rue de Cambon. Ah, um pequeno, mas importante, detalhe: tudo em embalagens customizadas com os icônicos Cs cruzados. Como brinca uma amiga minha, “sem poqueza”.

+ Veja a coleção completa aqui.

A apresentação termina e uma voz no microfone anuncia que o shopping vai fechar. “Sinta-se livre para pegar uma fruta ou legume de cortesia no seu caminho de saída.” Frutas e legumes? Infelizmente a cortesia da Chanel não foi suficiente para os convidados do desfile.

E o que acontece? As pessoas ficam malucas e voam para as prateleiras. Você já deve ter visto centenas de vezes no seu feed. “Como animais vorazes, membros da primeira fila subiram nos displays, enfiando os souvenirs em suas bolsas e mastigando cenouras com casca. Editoras foram vistas escondendo cebolas em suas clutches”, diz a reportagem da Dazed Digital. Cebola, minha gente. Uma repórter do “The Telegraph” pegou um acessório, mas logo desistiu e se contentou com uma mexerica. Os saqueadores só não imaginavam que, na saída, uma equipe de seguranças confiscava os produtos roubados.

+ Assista aos vídeos:

Karl Lagerfeld é um gênio de marketing e deve estar rindo do frenesi que seu supermercado causou. Mais ainda, bastante satisfeito com os zilhões de virais que isso gerou em perfis de redes sociais do mundo inteiro.

Só o fato de criar um supermercado inteiro para uma apresentação de 15 minutos já mostra onde estamos: um mundo surreal, mágico, perfeito, um Elysium. Esse é o mundo Chanel, construído por uma equipe que vai muito além de Lagerfeld, e que trabalha sob o comando da impecabilidade.

É também o universo do luxo, das experiências únicas. Se pararmos para pensar, luxo é um ponto de vista. Luxo para mim é tempo para ficar com meus filhos sem culpa ou ansiedade. Para a minha avó, nos seus mais de 85 anos, é saúde. Para muitos é uma televisão. Um prato de comida, uma viagem, um sapato com sola vermelha, um iPhone, um casaco para o frio, um teto para dormir, uma companhia.

O que faz frequentadores de um evento de luxo subirem um por cima do outro para roubar uma cebola ou um espanador?

Peraí, nós vemos cenas de pessoas saqueando mercados ou brigando por água e comida e, na maioria das vezes, são outros os motivos que desencadeiam essas ações.

Aqui, o motivo foi a ganância. A falta de educação, de bom senso, que fez pessoas hiper privilegiadas agirem como mortos de fome. O desejo de ter sua casa embrulhada em logomarca. E aí você pega um queijo da Chanel e faz o quê? Pendura na parede? Ou come e guarda a embalagem…

O que aconteceu após o desfile da Chanel é um espelho atual da cultura do consumo. Previsível, e ainda assim inacreditável.

Lena Dunham para a “Vogue”

17/01/2014

por | COMPORTAMENTO

Gif que mostra Lena Dunham antes e depois do Photoshop ©Reprodução

Nesta semana, quando postamos a capa da “Vogue” com Lena Dunham, os comentários diziam: “amo Lena e sua beleza inteligente” e “gosto do fato de fugir do carão super diva que geralmente a ‘Vogue’ adota”.

Mal sabia Lena a polêmica que enfrentaria quando topou ser a estrela da edição de fevereiro da revista, uma das publicações femininas mais poderosas do mundo.

Ao ver as fotos do ensaio, o site Jezebel publicou uma nota em que oferecia US$ 10 mil para quem entregasse as imagens de Lena sem retoque. Pouco tempo depois tinham em mãos um exemplo pré-Photoshop que logo virou um gif comparando a verdadeira Lena com sua versão “perfeita”. Retoques foram nitidamente feitos no rosto, pescoço e colo.

Esse assunto é uma polêmica anunciada. Já não cansamos de ver erros trágicos de Photoshop (não só na “Vogue”) e transformações que deixam as mulheres com menos expressão do que uma boneca Barbie? Muitas publicações fazem um uso moderado da ferramenta, que hoje, parece indissociável de um editorial ou um retrato. Hoje, isso não está nem certo, nem errado. É simplesmente como funciona.

Já não se sabe que a “Vogue” e praticamente todas as publicações de moda no mundo retocam as mulheres, independente de idade ou forma física? Quem ousa fazer o contrário? A revista “Elle” francesa já mostrou Monica Bellucci fotografada “natural” por Peter Lindbergh. A chamada de capa explicitava o feito como um projeto inovador: “Sans maquillage; sans retouches”. Parece tão impossível colocar uma modelo/atriz/celebridade na capa sem finalização que, quando acontece, tem que avisar.

O ponto no post da Jezebel não é o Photoshop em si, mas o Photoshop em uma menina que não é um ícone de beleza tradicional. Que não é skinny nem sarada. Ou ainda, o fato de uma menina que não é skinny nem sarada estar na capa de uma revista como a “Vogue”. Porque de tratamento ninguém escapa, viu?

Vejam só, a Sandra Bullock, com toda sua chatice, poderia estar nesta capa. Ou a namoradinha da América mil vezes indicada ao Oscar, Jennifer Lawrence. No lugar delas, uma jovem, talentosa, desengonçada e nada óbvia que tem cativado jovens mundo afora (e também ganhado muitos prêmios, ok, Jen?).

Lena Dunham, de camisa Burberry na capa da “Vogue” em foto de Annie Leibovitz ©Reprodução

O ponto é que Lena está de boa com sua aparência e nós também (os milhões de fãs de “Girls”). E é justamente sua “imperfeição” o segredo de seu sucesso. Ela aparece nua no seriado, saudável com seu corpo,  satisfeita com sua imagem de mulher real. Mas então vem uma revista e coloca isso abaixo, transformando Dunham em alguém que não existe. Isso só mostra como a mídia ainda é implacável com a imagem da mulher.

O Jezebel se defende: “Para deixar bem claro: nosso desejo por essas imagens não é para ver como Lena é de verdade; nós podemos vê-la todos os domingos à noite. Nós já sabemos como é o seu corpo. E não há nenhuma vergonha nele. Tampouco criticamos o fato de Dunham posar para a ‘Vogue’, afinal de contas, o entretenimento é um negócio e a ‘Vogue’ oferece um nível de exposição ainda maior que o do HBO. Isso tem a ver com o que ela decide fazer com uma mulher específica, que já declarou publicamente que está bem como está. O quão resistente a ‘Vogue’ é em relação a isso? As imagens inalteradas dirão”.

No final, sabemos que o buraco está bem abaixo; a “Vogue” é apenas uma parte de uma engrenagem gigante que simplesmente traduz nossa época. “É que Narciso acha feio o que não é espelho”, já cantarolava Caetano em “Sampa”.

Dunham, autora da frase que diz “meu corpo nu é uma expressão realista do que significa estar vivo”, apenas tuitou: “Tem coisas que são ridículas demais pra gente prestar atenção. Vamos usar nossa energia de uma forma mais sensata, 2014”.

Um brinde a Lena, com ou sem Photoshop.

Veja abaixo algumas das imagens que estão no ensaio de Lena Dunham para a edição de fevereiro da “Vogue” americana, fotografada por Annie Leibovitz:

Melissa Nation

05/11/2013

por | COMPORTAMENTO

Por Daniela Polis*, em colaboração para o FFW

A sala de desfile da Melissa pouco antes da apresentação da marca no SPFW Inverno 2014 ©Reprodução

Eu acompanho Melissa desde que ela era a “sandália da abelhinha”, e a vi ganhar o Brasil e o mundo por meio da constante evolução dos modelos e do material dos calçados. Por isso, quando soube que a marca iria apresentar a sua coleção de inverno em um desfile, oscilei muito entre a ansiedade e a curiosidade. Até que o desfile aconteceu na última sexta-feira (01.11) e eu pude ver os sapatos de plástico ganharem as passarelas.

Ao entrar na Sala 3, já pudemos ver o efeito visual que foi criado para o desfile – na sala escura brilhavam diversas bolsas Refraction,  no mesmo material usado para fazer dois sapatos em parceria com Vivienne Westwood, que também brilham no escuro, e ao fundo podíamos ver o logo da nova coleção estampado – Melissa Nation.

Orquestra Voadora no desfile da Melissa no SPFW Inverno 2014 ©Murilo Ganesh/Agência Fotosite

A (ótima) Orquestra Voadora começou a tocar e logo depois veio a primeira modelo desfilando por uma passarela toda desconstruída e formada por cubos em diversos níveis, para que todos pudessem ver os sapatos de vários ângulos. Alguns monitores também estavam instalados pelo local, mostrando um close dos modelos, para que pudéssemos ver todos os detalhes enquanto as garotas passeavam pelo caminho de cubos coloridos.

A  Melissa Nation trouxe a inspiração de diversos lugares e culturas não só para o figurino colorido e étnico das modelos, mas também para os sapatos. A mistura de cores e efeitos me agradou muito! Além do tradicional flocado (material aveludado), tivemos também muitos materiais que imitavam a aparência de couro e que criaram um efeito lindo. Inclusive muitos dos modelos, como a Boho e a bota Satyr,  podem ser até confundidos como sendo de outros materiais que não plástico. A Boho, aliás, foi paixão à primeira vista, juntamente com a Tailoring, que vai ser uma ótima pedida para quem trabalha com roupas mais formais.

Alguns dos modelos de Melissa desfilados no SPFW Inverno 2014 ©Agência Fotosite

Foi legal ver também ao vivo os modelos assinados por Karl Lagerfeld, que até então só tinha visto através de imagens de divulgação, e que ao vivo se mostraram ainda mais bonitas. São modelos bem marcantes e em cores que com certeza agradaram, principalmente a Glove Love e a Ultragirl Heel em amarelo  neon. E com certeza o que amei foi ver a parceria com Gareth Pugh voltando em um modelo totalmente novo e cheio de personalidade.

Sem contar que a imagem de moda criada pelos stylists Daniel Ueda e Pedro Sales é forte, vibrante e colorida, tudo a ver com a identidade da Melissa. Os lindos looks étnicos montados para o desfile couberam como uma luva no tema da coleção, Melissa Nation.

No final, todas as modelos entraram pela passarela e pararam, cada uma em um cubo, enquanto a banda tocava e a plateia aplaudia de pé. Foi um desfile memorável, e não só por ser o primeiro, mas também por mostrar ali que Melissa vai além de sapatos de plástico – é sonho, cultura, estilo de vida. E que ali naquela passarela com certeza estava presente um pouco de cada consumidora da marca.

Desfile da Melissa no SPFW Inverno 2014 ©Murilo Ganesh/Agência Fotosite

*Dani Polis é melisseira de primeiro time e foi convidada pelo FFW para visitar o camarim da marca no SPFW e escrever suas impressões sobre o desfile


Tropical Nazi

02/09/2013

por | COMPORTAMENTO

Imagem racionalista feita entre 1925 e 1926 pelo fotógrafo húngaro e professor da escola de Bauhaus, László Moholy-Nagy (1895/1946) ©Reprodução

Quando estudei a fotografia da época do fascismo, a lição que aprendi foi a de que as mesmíssimas forças que conceberam uma louvável produção artística criaram uma grave violência contra a humanidade. O racionalismo na fotografia criou imagens de homens iluminados, homens do futuro. E, ao mesmo tempo, provocou uma ojeriza a qualquer coisa que não fosse “adequada” ao céu estrelado da modernidade, onde os homens são civilizados ao extremo, disciplinados ao extremo, poderosos ao extremo, brancos ao extremo.

E o que foi aquilo? Foi a vontade de ser moderno. O que isso tem a ver com o Brasil de hoje? Tudo. Porque vivemos uma fase em que tudo borbulha e o mundo nos observa. Muitos de nós temos a pretensão de sermos o país do futuro, o que é positivo. Mas essa mesma força de orgulho nacional tem um lado negro, que é conservador e cego. No ano passado me veio em mente esse termo: Tropical Nazi.

Tropical Nazi é o tipo de ser humano que o Brasil está produzindo, paralelamente a coisas maravilhosas. A mesma força que faz um país querer crescer tem impulsionado comportamentos ditatoriais. Como quem não sabe onde é o Afeganistão, mas fica indignado se um estrangeiro pensa que a capital do Brasil é Buenos Aires. Como aquela que topa pegar ônibus na Europa, mas diz que a médica cubana tem “cara de empregada”.

A obra “Abaporu”, pintada por Tarsila do Amaral em 1928, e que é uma das principais referências do movimento antropofágico, que se propunha a deglutir a cultura estrangeira e adaptá-la ao Brasil ©Reprodução

E na moda, infelizmente, o Tropical Nazi acabou de aparecer, acusando estilistas de serem “pouco brasileiros” para receberem dinheiro do governo. Cheira a fascismo. Não estamos aqui para julgar se Alexandre Herchcovitch e Pedro Lourenço deveriam ou não receber a quantia que receberam. O que suscita uma certa aflição é o fascismo batendo à nossa porta. Logo aqui. Pera lá, gente! Quem é mais brasileiro e quem é menos? Vamos voltar ao tempo: de que cores e origens eram as pessoas que construíram, na marra ou com vontade, o que hoje se chama de Brasil? Várias.

O orgulho nacional se infla quando Gisele Bündchen aparece nos noticiários. O sobrenome dela não vem de uma tribo tupi. Ela é menos brasileira? Quem passou a adolescência ouvindo rock inglês e não samba, não é brasileiro? Quem estuda moda a sério sabe considerar, e admirar, o estilo parisiense. Quem leva uma vida criativa a sério sabe que a faísca da inspiração pode aparecer em qualquer lugar. Como vamos arrancar isso de nossos desejos e nos obrigarmos a produzir coisas que acreditamos serem puramente regionais? Se não formos folclóricos não vale? É possível, hoje, seguir um purismo? Ou é a nossa eterna antropofagia, o devorar o que vem de fora, que deixa a gente ser lindo, interessante, maleável, espontâneo?  “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”, entre outras frases para serem revistas do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, em 1928.

Vivemos uma inebriante busca de nossa identidade. E não é criando a cota do mais ou menos brasileiro que vamos finalmente nos libertar de uma mágoa pós-colonialista.

Coleção africana que Yves Saint Laurent criou em 1967 ©Reprodução

Como vamos construir uma história verdadeira do nosso estilo se procurarmos o purismo? Nem tornando às tribos indígenas. O isolamento cultural nunca existiu. Pensemos na lendária coleção africana de Yves Saint Laurent. Vestidos com motivos africanos, feitos com miçangas de madeira e em formatos de dente de animais e conchas do mar. Se houve policiamento dos que acharam aquela moda “pouco francesa”, felizmente não foi forte o bastante para interromper o legado desse nome, até hoje um importante ponto de referência. Podemos filosofar mais: quem faz o estilo italiano, por exemplo? Prada, Versace ou Valentino? Todas essas, ainda que não tenham nenhum ponto em comum. Mas certamente o governo da Itália, o povo, a crítica, os consideram igualmente italianos. Por que não podemos então considerar, ou dar a chance, de que sejam genuínos expoentes da moda brasileira Ronaldo Fraga, Alexandre Herchcovitch e Pedro Lourenço?

Melhor deixar todas as portas das nossas cabeças abertas e apoiar qualquer impulso criativo. Nunca se sabe quem vai ser o próximo YSL. Se um jovem estilista promissor brasileiro achar apaixonante desfilar na Austrália, ou Japão, que vá. E brilhe! E que no futuro ninguém se lembre de que o Tropical Nazi existiu, mas sim de que a nossa moda é a nossa cara, ainda que branca, preta, amarela, cheia de tachinhas, miçangas, ou tudo.

Preconceito

28/08/2013

por | COMPORTAMENTO

Foto do banco de imagens Shutterstock 

Uma mulher negra entra em uma loja de bolsas em Zurique, na Suíça. Após ver alguns modelos, ela aponta para uma específica:

“Por favor, posso ver aquela bolsa?”, pergunta.

“Não, ela é muito cara”, responde a vendedora. “Mas posso te mostrar outros modelos.

“Não, é essa mesma que eu quero ver”.

“Não, você não quer ver essa bolsa, ela é muito cara e você não poderá comprar”.

A bolsa em questão é uma Jennifer laranja, do Tom Ford, feita em pele de crocodilo, no valor de US$ 38 mil. A loja é a multimarcas de luxo Trois Pommes. A cliente, Oprah Winfrey. A vendedora, uma infeliz que agora é acusada de racismo e que detonou uma série de desavenças diplomáticas entre Suíça e Estados Unidos.

A bilionária Oprah não foi reconhecida pela vendedora, que em seu pedido de desculpas, afirma que não faz a menor diferença se a cliente é famosa ou não. “Minha profissão é vender e se eu consigo vender significa que estou fazendo meu trabalho direito”.

A bolsa da discórdia que Oprah Winfrey queria comprar ©Reprodução

Racismo é algo intolerável. Quem decide se vai comprar ou não é o cliente e mesmo se não finalizar a compra, cabe a ele o direito de ver os produtos que quiser. E ver significa também tocar, sentir a textura, o peso, o cheiro. Nós experimentamos roupas, cheiramos perfumes, folheamos revistas e livros. Toda compra ou a intenção de antecede uma experiência com o produto, mesmo que breve.

No caso de Oprah, todos se desculparam e, de racismo, o caso virou apenas um mal entendido. A vendedora disse que inglês não é sua primeira língua e que pode ter se expressado mal. Até o Departamento de Turismo da Suíça precisou interceder para que o país não passasse a ser alvo de revoltas e considerado um lugar preconceituoso. O fato é que foi reportado que o Governo suíço vai proibir que pessoas que pedem asilo político tenham acesso a locais públicos, como parques, livrarias e piscinas municipais.

Yelena Isinbayeva, que deu declarações infelizes e depois voltou atrás ©Reprodução

Outro episódio de preconceito muito recente envolve a campeã mundial russa Yelena Isinbayeva, que deu uma declaração na quinta (15.08) se colocando a favor da lei antigay aprovada em seu país. “Nós só vivemos com homens e mulheres, mulheres com homens. Nós nunca tivemos problemas na Rússia e não queremos ter no futuro. Talvez a gente seja diferente dos europeus e de outras nacionalidades”, ela disse. Após ter sido alvo de críticas, Yelena volta atrás com um texto que já ouvimos antes: “O inglês não é minha primeira língua, e acho que posso ter sido mal-entendida”. E finalizou: “Sou contra qualquer discriminação contra os gays em decorrência da sua sexualidade”.

O arrependimento (ou ao menos fingir que se arrependeu) é a fina linha que separa radicais de não radicais. Jovem, bonita e um ícone em seu país, manter essa afirmação custaria caro a sua carreira. A questão é: Isinbaieva realmente se arrependeu? Você ser a favor ou contra algo é como um ideal. Dificilmente esses valores mudam. E o que aconteceria se ela tivesse mantido sua opinião? Muitos atletas já pensam em boicotar os próximos Jogos de Inverno, que acontecem na Rússia em 2014 (e a Copa do Mundo em 2018).

A verdade é que a Rússia parece um país racista. Eu mesma vi uma cena triste em Moscou em plena Praça Vermelha. Aos finais de semana à noite, é onde a moçada se reúne para beber, paquerar, encontrar os amigos. Moçada 100% branca de olhos azuis. De repente uma turma de quatro jovens negros, vestidos com roupas esportivas, bonés e tênis, entra na praça. Para minha surpresa, os meninos russos, em bandos, partiram para cima imitando gorilas e macacos, no gesto e na voz. O pequeno grupo, vendo que seria impossível uma briga de quatro contra 200, simplesmente calou-se. Abaixaram a cabeça e continuaram andando. Vale registrar que minha passagem pela Rússia também teve bons momentos, como a visita a São Petersburgo, e que obviamente o racismo não é praticado por todos os seus cidadãos.

O logo do grupo Gays Arianos Nacional-Socialistas: para rir ou chorar? ©Reprodução

Tão absurdo e incompreensível é o movimento nazista skinhead gay. Isso mesmo: há o grupo Gays Arianos Nacional-Socialistas e ainda o GASH (Gay Arian Skinheads). Onde isso acontece? Na Rússia também, segundo li em uma matéria no site da Vice. “Estamos tentando limpar o mundo de pessoas desnecessárias que não são dignas desta terra”, diz um dos representantes do Gash. Meu Deus! E em todos os casos descritos aqui, estamos falando de pessoas jovens.

Voltando ao caso de Oprah, a questão do racismo esconde outra loucura: como assim pagar R$ 70 mil por uma bolsa? E a questão aqui não é nem se a pessoa tem ou não dinheiro para isso, e sim a ganância sem fim que a indústria da moda infiltra na sociedade. Mas isso é tema para outra história.

Made in China

23/08/2013

por | COMPORTAMENTO

Medicamentos falsificados sendo descartados na China ©Reprodução

República Popular da China, China ou, simplesmente, o paraíso do que “parece, mas não é”. De acordo com o site da revista “Dazed & Confused”, o país é responsável pela produção de 67% dos bens falsificados em todo o mundo. Boa parte, no entanto, não sai de lá — é criada para atender a população local, em especial aos habitantes das cidades pequenas, distantes de Pequim ou Xangai.

Cão mastiff tibetano “apresentado” como leão africano no zoológico de Luohe, na China ©Reprodução

Na última quinta-feira (15.08), por exemplo, espalhou-se na internet a notícia de que o zoológico da cidade de Luohe, na província de Henan, havia posto um cão da raça mastiff tibetano como se fosse um leão africano. A farsa, até bem engraçada, foi descoberta quando o animal latiu para os visitantes. Talvez, tal comportamento possa ser atribuído à cultura da cópia, Shanzhai (山寨), ou “Xing Ling”, como ela é conhecida no Brasil, que surgiu quando a China se abriu comercial e economicamente, lá pelos idos da década de 1980.

Após citar genéricos dos eletrônicos da Apple ou cópias das roupas da Nike e Adidas, a “Dazed & Confused” compartilhou imagens de estabelecimentos comerciais na China que mais parecem saídos de filmes de comédia escrachada. O restaurante KFC virou OFC – com direito, inclusive, a Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, desenhado na logomarca –, o Starbucks tornou-se Starfucks e o uísque Jack Daniel’s transformou-se em Johns Daphne (estima-se que 80% das bebidas alcoólicas de Xangai sejam falsas).

OFC, cópia do restaurante americano KFC ©Reprodução

Na China, o uísque Jack Daniel’s transformou-se em Johns Daphne ©Reprodução

Estaria “tudo bem” se a China apenas plagiasse nomes ou copiasse bolsas, mas produz até armas, camisinhas e medicamentos falsificados. Todos os anos, cerca de 2,2 trilhões de cigarros são consumidos no país e, desses, 400 bilhões não são regulamentados, ou seja, são confeccionados em fábricas ilegais. Além do número elevadíssimo de nicotina, o pior são os compostos muitas vezes encontrados neles, como fezes humanas e larvas de insetos.

Quase todas as situações acima seriam engraçadas, não fossem trágicas. A “Dazed & Confused” ainda se questiona que, considerando que os cigarros e medicamentos produzidos na China contém ativos quase letais, “imagina o que eles colocam em suas drogas ilegais?”.

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“Awkward Years Project”

02/08/2013

por | COMPORTAMENTO

Autumn, em fotografia publicada no Tumblr “Awkward Years Project” ©Reprodução

As dores do crescimento. Diria que é quase impossível tornar-se adulto sem senti-las, sem experimentar, nem que por alguns poucos anos, a infelicidade de ser a chacota da turma, o pré-adolescente estranho que, cheio de espinhas, usa aparelhos nos dentes e óculos. Se tal realidade estivesse apenas nos filmes da atriz Molly Ringwald ou nas comédias reprisadas com frequência na sessão da tarde da Globo, não teria me tornado a pessoa que sou hoje e, aposto, nem você.

Ao esbarrar com o Tumblr “Awkward Years Project” e com sua respectiva descrição, percebi que apesar de (provavelmente) ter me tornado uma pessoa mais interessante pelas experiências negativas que vivi, o passado ainda incomoda. E não é só a mim. Entre os anos de criança meiga até a idade adulta, em que já possuímos noção de como nos apresentar em sociedade, aquele período de “estranheza” física e psicológica são tão difíceis que, em geral, tendemos a escondê-lo, como se fosse uma mancha negra que nos comprometesse aos olhos dos outros.

Merilee, criadora do Tumblr “Awkward Years Project” ©Reprodução

Revelar tal “mancha” e compará-la com o que se é no presente é a proposta de “Awkward Years Project”. A criadora do Tumblr, Merilee Allred, 35, contou em um post introdutório que a ideia surgiu de uma conversa com uma amiga recente, que a questionava sobre seus “anos estranhos”. Para comprovar que, infelizmente, os viveu, buscou uma fotografia antiga, da época do colégio. Ao perceber que não queria mostrá-la, talvez por insegurança, ela decidiu retratar-se segurando a imagem. Foi uma forma de dizer: “Olha o que eu era, mas não esqueça de como sou agora”.

É possível que digam que o raciocínio acima estimule sentimentos meio que superficiais, mas, no fundo, é uma maneira de mostrar a si mesmo a própria “evolução” e que todo aquele bullying foi superado, fazendo-nos mais fortes. É também um jeito de assegurar a quem está nos “anos estranhos” que eles vão passar e, sobretudo, que eles pavimentarão o seu caminho e definirão o seu futuro.

+ Veja abaixo mais fotografias do Tumblr “Awkward Years Project”:

Martie, em fotografia publicada no Tumblr “Awkward Years Project” ©Reprodução

Gina, em fotografia publicada no Tumblr “Awkward Years Project” ©Reprodução

Laura, em fotografia publicada no Tumblr “Awkward Years Project” ©Reprodução