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Resumo Fashion Rio Dia #3

Via @luigi_torre

TNG copy© Romeu Silveira

3º dia de desfile é tipo quarta feira (apesar de ter sido numa quinta). Bate aquele cansaço junto como a ansiedade pelo fim de semana (de moda). Ainda mais quando o primeiro desfile está marcado para as 11h da manhã e faz três dias que você dorme pouco mais de 4 horas por noite. Mas enfim, lá fomos nós para conferir o inverno 2011 de Walter Rodrigues.

Para esta temporada o estilista que adora um minimalismo, e mais ainda um japonismo, continua focado nas roupas para o dia. Fato que faz total sentido nessa sua nova fase com loja de rua, em São Paulo. “Pensei numa roupa que a mulher pudesse usar do dia à noite” , contou ao FFW para explicar a praticidade que permeia todos seus looks pretos, pontuados por alguns poucos listrados em branco e preto. Formas simples, silhueta alongada e algumas formas amplas falam dessa multi funcionalidade sempre elegante e sofisticada.

Ah, e tudo embalado por um trilha criada especialmente por Felipe Vanâncio. O DJ organizou um coral com mais de 20 crianças para cantar “Rosa de Hiroshima”, poema de Vinicius de Moraes, musicalizado pelos Secos e Molhados.

Teca - Fashion Rio Inverno 2011Têca © Agência Fotosite

De volta ao Píer Mauá, Helô Rocha continua sua fórmula de sucesso na Têca. A marca se tornou queridinha das garotas descoladas há algumas temporadas, e desde então vem investindo nessa imagem que mistura uma boa dosa de romantismo e feminilidade, com sensualidade e algo de força. Assim, sua mais recente coleção mistura a cultura japonesa _de onde vem as formas amplas, as peças derivadas do quimono e a estamparia_ com a lingerie do início do século 20.

Destaque para os acessórios lindos que Diego Catani desenvolveu para marca. Seguindo sua coleção de hits para Têca, o designer agora usou pedaços de louça quebrada para criar colares e brincos que eram praticamente um show a parte.

Na Totem foi o soul que deu o tom para coleção embalada no clima 70’s _que, aliás, tem tudo a ver com a marca. O mais interessante, para além das famosas estampas, formas amplas e influências da cultura negra, é o modo como o tema foi trabalho pela equipe de estilo de Fred D’Orey. Elementos do movimento que conta com James Brown, Sly Stone e Nina Simone como alguns de seus expoentes, vinham perfeitamente imersos no universo da grife, e com um jeito 100% carioca. De repente foi por isso que a coleção nem pareceu tão de inverno assim.

Printing - Fashion Rio Inverno 2011Printing © Agência Fotosite

A Printing que sempre gostou de um excesso, dessa vez segurou a mão e se focou sobre as texturas. Eram poucos os looks que vinham sem algum chamariz em sua superfície. E mesmo quando apareciam, traziam sobreposições de peças em tecidos de pesos diferentes. Porém, o que mais chama atenção no inverno 2011 da marca mineira são as cores _azul, amarelo fluo, laranja, verde e rosa_  que enchem de energia a coleção que traz bons looks ora estruturados, ora soltos em silhueta alongada, com alguma assimetria.

E para fechar, a TNG inspirando-se no movimento beatnik dos anos 50 e começo dos 60. Vem daí as peças básicas, do dia-a-dia, com um toque de rebeldia e intelectualismo característicos de tal geração, reforçados pelo sempre apurado e inteligente styling de Mauricio Ianês.

Resumo Fashion Rio Dia #3

Resumo Fashion Rio dia #2

Via @luigi_torre

2011/10/5172_collagemodas© Romeu Silveira

Ainda era cedo, por volta das 16h30. A modelo Aline Weber fumava um cigarro do lado de fora de um camarim com sua longa saia de renda preta, combinada com uma camiseta bem simplezinha. E assim, como quem não quer nada, seu look ecoou pelos principais e mais interessantes desfiles deste 2º dia de Fashion Rio.

Não é exatamente novo, e alguns podem acusar mimetismo de vontades internacionais _se é que tal argumento ainda faz sentido em tempos em que o mundo inteiro se veste igual. Sem dúvidas é algo diferente, principalmente para as mulheres brasileira. Há tempos tendo os comprimentos curtos como favoritos tanto pela sua sensualidade e jovialidade, estas agora irão encontrar nas coleções de inverno 2011 um indicativo de uma proposta que moda indicar mudanças em seus guarda-roupas.

Saem os comprimentos curtos românticos e menininhas, entram os longos maduros (no bom sentido) e naturalmente sofisticados, alongando a silhueta feminina. Saias longas _até o chão ou terminando na região do tornozelo_, de preferência amplas, combinadas com camisetas, regatas ou cardigans mais simplezinhos, de proporção mais próxima ao corpo.

Maria Bonita Extra - Fashion Rio Inverno 2011Maria Bonita Extra ©Agência Fotosite

Foram estas que chamaram atenção no inverno 2011 da Maria Bonita Extra. Ainda que reservadas apenas a três entradas, se mostram como favoritas na coleção, principalmente pela inteligente proporção que geram com os bons cardigans de comprimento mais curto, tipo logo acima do umbigo.

Essa mesma proporção aparece também na British Colony, tanto no masculino como no feminino. Neste, funciona maravilhosamente bem com as saias longas de cintura bem alta _as vezes meio clochard_ que Máxime Perelmuter apresentou nesta seu 2ª e tão aguardado desfile no Fashion Rio.

British Colony - Fashion Rio Inverno 2011British Colony ©Agência Fotosite

A coleção girou mais uma vez em torno dos clássicos, que, graças aos acertados estudos de modelagem e proporção, nem ficam tão clássicos assim. Encontra-se aí uma das sacadas mais inteligentes da marca. Afinal, consegue propor novas formas e proporções de maneira consistente, porém sem espantar consumidores menos suscetíveis as mudanças moda.

Seu inverno 2011 vem carregado num clima navy, com origem no personagem Steve Zissou, de Bill Murray em “A Vida Marinha com Steve Zissou” de Wes Anderson. Daí os contrapontos entre o vermelho e amarelo, e o clássico azul marinho e branco, os acessórios em forma de iscas de pescas e todo aquele universo que na mão de Máxime Perelmuter e Daniel Ueda (stylist) ganham contornos 100% contemporâneo.

É na modelagem esperta, com pequenas alterações naquelas formas clássicas de camisas, blazeres, capas e cardigans que o masculino sai ganhando. Encurtando casacos e alongando camisas e camisetas; dando corte angular/geométrico para blazeres e subindo alguns centímetros as barras da calças, equilibra bem o desejo por uma imagem de moda, com o comercial.

No feminino não é diferente, apesar da maior intensidade nesses de modelagem. Some-se a isso a força quase que natural das saias longas _aqui um pouco mais curtas para revelar as lindas botas e com fendas para acrescentar um pouco mais de sensualidade_ e a proporção final é ainda mais interessante.

Coven - Fashion Rio Inverno 2011Coven © Agência Fotosite

Na Coven são as silhuetas alongadas que se mostram mais interessante. Talvez por conversar melhor com essa imagem “quirky”, ou esquisitinha que a grife quis investir nesse inverno, ao revisitar peças tradicionais, subvertidas graças ao interessantíssimo _e complexo_ trabalho com tricô e tecelagem, somados ao ótimo stylign de Pedro Sales. Combinações inusitadas de texturas, estampas e formas, resultam em imagens fortes, cheias de informação, mas com peças também repletas de apelo comercial.

O 2º dia de Fashion Rio contou ainda com a coleção de vestidos esculturais da Acquastudio e o divertido desfile da promissora e talentosa Giulia Borges. Seu inverno 2011 vem inspirado no Hanpanda _ animal que é metade panda, metade outro animal, superfofo e bem característico da pop art japonesa_, trabalho da artista japonesa Nagi Noda . Cores fortes, clash de estampas e uma brincadeira com o poá, que pontua toda a coleção, de diversas maneiras e materiais.

Resumo Fashion Rio dia #2

Resumo Fashion Rio Dia #1

Via @luigi_torre

2011/10/5087_collage© Romeu Silveira

>> Começou assim, meio escuro, úmido e com uma chuva que não tem nada a cara do Rio. Mas começou. Lá pela hora do almoço o sol ameaçou sair, mas logo foi embora. E assim veio o 1º dia de Fashion Rio, meio volta às aulas, meio festa de réveillon atrasada _fashionistas reunidos aos abraços e beijinhos de feliz ano novo.

A moda? Só se falava em outra coisa. Pelo menos durante os primeiros desfiles. Afinal, Amy Winehouse se apresentou na noite anterior. Daí todo mundo queria ouvir a opinião da pessoa ao lado. Coçou o nariz? Bebeu? Soltou a voz? Esqueceu a letra? Foi bom?

2011/10/5086_alessa-inverno-2011Alessa inverno 2011 © Agência Fotosite

>> Bem, o show eu não sei, mas o desfile da Alessa que abriu oficialmente a semana da moda carioca foi uma ótima injeção de bom humor, tão essencial para um começo de temporada.

“Mais texturas e menos estampas”, foi assim que a estilista idealizou e sintetizou seu inverno 2011. A coleção falava de doces, e como estes remetem quase que diretamente à festas, foi ocasião perfeita para a estilista mostrar seus primeiros looks nesse segmento. Obviamente tudo a seu jeito. Daí as longas saias paetizadas, os macacões todos brilhantes e até alguns detalhes em pele, responsável por adicionar uma dose de glamour e sofisticação ao universo kitsch da estilista.

Suas famosas estampas continuam lá, agora como cupcackes, jujubas e outros doces. Tudo meio que imerso numa vontade 70’s que vem desde a temporada passada tomando força _ vide as saionas amplas, os vestidões estampados e as formas amplas de uma forma geral. Ah, e tudo sob olhar afiado do stylist Daniel Ueda, responsável por deixar esse banquete delicatessen ainda mais gostoso. O look de vestido com uma jaqueta de paetê amarrada na cintura já é um clássico de Ueda, que tem na moda urbana uma das raízes de seu trabalho. E na trilha, músicas que falam de… balas, claro. Como “I Want Candy”, do Bow Wow Wow, e a sempre incrível “Candy”, de Iggy Pop e Kate Pierson, do B-52’s.

2011/10/5088_filhas-de-gaia_inverno2011Filhas de Gaia inverno 2011 © Agência Fotosite

>> 2º desfile, atraso de pouco mais de 30 min, e Amy continuava no trending topics dos fashionistas. Mas à medida que portas abriam e fechavam misteriosamente sob uma névoa branca na passarela, o foco do assunto passava a ser outro: a coleção, descomplicada e menos estruturada, da marca Filhas de Gaia. O ponto de partida agora é o universo de mistério de Agatha Christie, trazendo junto um exercício com alfaiataria _algo que pareceu novo, ou no mínimo fresco, para o repertório das estilistas Marcela Calmon e Renata Salles.

Havia algo sexy e poderoso nas saias longas com fendas ousadas combinadas com borgues de saltos altos e camisas de seda transparentes. Ou então naqueles blazeres alongados ou com lapelas angulares lembrando o corte de gravatas. Uma androginia leve, ainda que imponente. Delicada ao mesmo tempo que forte. E já que mencionamos as gravatas, estas faziam as vezes de ajustes ou então emprestavam suas estampas para vestidos (de comprimento midi ou longuete) e macacões.

2011/10/5089_melk_inverno2011Melk Z-Da inverno 2011 © Agência Fotosite

>> O pernambucano Melk Z-Da olhou para Fernando de Noronha quando a ilha ainda era uma prisão. Da “Lenda da Alemõa” _uma loira que seduzia os homens na praia, para depois se revelar uma caveira e fazê-los se jogarem ao mar aterrorizados_ tirou a ideia para os cabelos _loiro, preto e até azul_ que decoravam suas saias, vestidos e casacos. E da rica e colorida vida marinha que rodeia a ilha, vêm a parte mais forte com os vestidos e o casaco estruturados que abrem o desfile. Uma alfaiataria construída em tecidos espessos de onde “brotam” tentáculos como de anêmonas e fiapos de lã fazendo das roupas quase como recifes de corais futuristas.

2011/10/5090_patachou-inverno-2011Patachou inverno 2011 © Agência Fotosite

>> A Patachou, fechou o 1º dia com trilha dramática, quase tensa, mas colocou na passarela uma coleção descomplicada de formas soltas, na dose certa da sensualidade e drama. Vestidos de formas alongadas, cintura deslocada para altura do quadril e uma certa assimetria quase que orgânica falavam de um sexy misterioso e sedutor, como os filmes clássicos de suspense que serviram como inspiração. Serviu-se de uma ótima equipe de styling e beleza, boas modelos na passarela e uma obra de Ravel tocada ao vivo pelo maestro e pianista João Carlos Martins.

Resumo Fashion Rio Dia #1

Teoria da conspiração fashion… Ou quase.

Via @luigi_torre

2011/10/4982_CDG2

Pode parecer teoria da conspiração, mas não podemos simplesmente ignorar os fatos.

Quando Yves Saint Laurent se aposentou lá no fim dos anos 1990, uma das razões foi seu desapontamento com o dinheiro falando mais alto que a criação. Era a época em que os conglomerados de luxo estavam ganhando força e o lado comercial começou a prevalecer o artístico. Tem até uma parte no documentário “Louco de Amor de Yves Saint Laurent” (“L’Amour Fou”) em que Pierre Bergé (companheiro do grande estilista) comenta isso.

Fast forward para o século 21, mais ou menos lá por 2009 e Suzy Menkes, editora e critica de moda do jornal International Herald Tribune, escreve uma matéria questionando se os jovens estilista realmente têm espaço e oportunidades para crescer numa indústria cada vez mais regida por empresa bilionárias.

Avance mais um pouquinho, mais precisamente para o dia 4 de janeiro de 2011 e temos uma entrevista de Rei Kawakubo para o WWD em que ela diz: “A motivação sempre foi criar algo novo, algo que não existia antes. Quanto mais experiência eu tenho e quanto mais roupas eu faço, mais difícil fica para criar algo novo. Uma vez tendo feito algo, não quero fazer novamente, então as possibilidades estão ficando cada vez menores”.

É da essência da moda a busca constante pela inovação. A mudança pela simples mudança, a negação do passado, do velho, em detrimento do futuro e do novo. Durante quase todo século 20 essa lógica permaneceu inalterada em sua base, tendo como único objetivo tornar a moda vigente obsoleta o mais rápido possível.

Deu no que deu. A busca por essa velocidade máxima absurda que foi reduzindo décadas em anos, anos em semestres, semestres em bimestres resultou na própria falência dessa lógica em busca do sempre novo. Ao invés da criação de novos estilos ou modas, passou-se então a revisitar aqueles do passado. Substituiu-se a inovação pela reciclagem. Tanto que muitos teóricos que se debruçam sobre esse “fenômeno moda”, atestam sua completa incapacidade em cumprir seu papel primordial: inovar.

Talvez seja simplesmente o modo como a moda passe a operar no século 21, talvez seja apenas uma fase _o que todos esperamos. Afinal, os períodos cada vez mais curtos em que uma moda se sobrepões _sempre através da reciclagem_ à outra, acaba gerando um verdadeiro esvaziamento de significado. Pluralidade e acúmulos de estilos símbolos, signos e histórias que recicladas ad infinitum, significam nada em si próprias. São modas, estilos e tendências cada vez mais dependentes de contextos e interpretações externas em busca de alguma validade ou significado para algo que por si só, já não tem relevância alguma. Se é possível ser tudo, no fundo também se é nada.

Tomara que seja só uma fase…

Teoria da conspiração fashion… Ou quase.

Ideas network

via @luigi_torre

Conheci o trabalho da Tell No One neste último fim de semana. Trata-se de uma dupla de filmmakres baseada em Londres que, de uns tempos para cá, vem experimentando uma considerável dose de sucesso. O motivo do hype são seus vídeos experimentais, ao mesmo tempo que simples. Quase como exercício estéticos em imagens com movimento. Alías, pelos seus vídeos experimentais, ao mesmo tempo que simples. Vidoezinho curtos, as vezes com menos de um minuto de duração, intitulados como experimentos.

O mais legal disso tudo, porém, é o modo como Luke White e Remi Weekes, os jovens de 20 e poucos anos por trás do Tell No One, se relacionam com a internet. Esses tais “experimentos” – videozinhos curtos, muitas vezes com menos de um minuto de duração -, são postados no blog do duo não como trabalhos concluídos. Mas, sim, como exercícios. Ideias em desenvolvimento. Projetos em construção. São etapas de um processo criativo que nasceu já conectado ao Facebook ou ao Twitter.

Se antes o mero pensamento em dividir uma referência, ou um pedaço de obra em desenvolvimento, era algo inconcebível, hoje já é essencial para jovens artistas. Sem medo de cópias ou ter suas ideias roubadas, os meninos do Tell No One colocam seus experimentos on-line justamente para ouvir o que as pessoas têm a dizer. Para assimilar novas idéias, novas propostas e construir em cima daquele ponto inicial. Quase como um trabalho colaborativo. Só que a infinitas mãos.

Essa postura me lembrou bastante o trabalho que Felipe Carpestano vem fazendo em seu blog, Face Couture. Assim como White e Weekes, Felipe posta imagens de trabalhos em construção + algumas imagens e vídeos que servem de inspiração para construção de suas máscaras incríveis. “Ainda não dá pra saber até onde esse compartilhamento todo, falando de mundo, vai ser bom. Parece que todo mundo está querendo experimentar um pouco dessa exposição, vamos ver onde isso vai dar”, disse ele em entrevista ao FFW.

“Tenho gostado muito desse novo sistema de trabalho. No meu caso o mais interessante é receber um feedback durante o processo de criação. Não que eu me deixe influenciar, ou fique esperando por isso, mas faz dar uma vida útil maior as ideias. Por exemplo, se eu tivesse fazendo as minhas máscaras quieto no meu canto e deixando para apresentar ao mundo o resultado final todo de uma vez, eu provavelmente já teria terminado a coleção inteira pois não estaria investindo o tempo que o blog requer, mas ao mesmo tempo correria o risco de ter todo esse trabalho visto por apenas cinco minutos.”

Ideas network

Casa de Criadores: operando na zona de desconforto

via @luigi_torre e @randreh

forca de vontadeColagem ©Romeuuu/FFW

A 28ª edição da casa de Criadores terminou na última quarta-feira (01/12) deixando algumas impressões marcantes para a equipe FFW.

É verdade que não foi uma das temporadas mais fortes em termos de conteúdo. Coleções fracas _sem muita emoção e, principalmente, pouco criativas_ desapontaram aqueles que esperavam uma estação tão boa quanto a anterior. Ainda assim, há alguns pontos no evento que merecem destaque.

O Projeto Lab, por exemplo, continua se mostrando como um dos alicerces da CdC e foi responsável por algumas das melhores coleções apresentadas ao longo dos 4 dias _entre Fashion Mob e desfiles.

Nesta edição, o grande destaque foi a Jacinto, marca dos estilistas Douglas Pranto e Glaucio Paiva. Toda trabalhada em cima das noções de androginia, a coleção para o inverno 2011 mostrou um incrível trabalho de desconstrução de alfaiataria. Excelente escolha de tecidos, modelagem e proporção acertadíssimas, acabamento idem, e uma maturidade impressionante para uma grife iniciante. União perfeita entre o lado conceitual e o comercial da moda.

O Fashion Mob é outro case de sucesso. A energia que emana daquela aglomeração jovem e criativa é algo que merece uma atenção ainda maior. Na verdade, a Casa de Criadores como um todo possui um tremendo potencial de mobilizar verdadeiras micromassas de juventude.

Em tempos em que se fala tanto de democracia na moda, a Casa de Criadores é um dos eventos que leva esse conceito às últimas consequências. Seja nas ruas do Centro de São Paulo em plena tarde de domingo, ou nas pequenas multidões que se reúnem no centro de convenções do Shopping Frei Caneca durante os noites de desfiles.

O convite físico ainda se faz necessário para entrar na sala, mas ainda assim os interessados não precisam se esforçar muito para poder fazer parte de tudo aquilo que acontece. Mesmo que na posição de meros espectadores.

Ah, com um adendo: sem precisar gastar alguns milhares de reais para tanto. André Hidalgo e sua equipe constroem um evento totalmente na “zona do desconforto”. É aquela coisa de acreditar tanto num sonho ou ideal que o dinheiro não possa ser um fator impeditivo. O apoio da imprensa especializada _mais o crescente número de blogs_ é um dos poucos casos atuais em que se pode falar verdadeiramente de “mídia espontânea”. E tudo isso sem que os “privilegiados” do mundo da moda tenham que abrir mão de seus privilégios. Democracia total.

Como um dos principais expoentes do evento, a Der Mertopol, de Mario Francisco, levou o posto de melhor coleção com seu inverno 2011 mostrando um streetwear mais afiado do que nunca. Dos moletons de proporções boxy/quadradas em maxi tressê do começo do desfile, até sua excelente alfaiataria sempre em serviço do street, tudo segue a mais pura coerência. Com um produto autoral, de qualidade e com muita criatividade, não é de se espantar que Mario já desponte como um dos principais estilistas da moda masculina nacional.

Teve também a estreia de Ale Brito, estilista que depois de 4 anos trabalhando com a grife Gêmeas, fez seu debut solo na CdC. Inspirado no punk _principalmente em sua musa, a cantora Siouxsie Sioux_ ganhou destaque pelo seu masculino poderoso _com uma leve pitada de androginia e muita atitude rock ‘n roll. E Danilo Costa, sempre lúdico e divertido, cresceu e apareceu _principalmente com seu masculino felpudo.

André Hidalgo e sua Casa de Criadores seguem rotulados como underground, mas orquestram uma revolução juvenil como aquela que tomou as ruas de Paris em 1968, ou que pintou as caras dos jovens brasileiros nos anos 90, só que na moda. E  com isso eles começam não apenas a ser notados, como também servem de exemplo ao mainstream. Porque o novo sempre vem.

+ Veja todos desfiles e resenhas da 28ª da Casa de Criadores

Casa de Criadores: operando na zona de desconforto

Nu com a mão no bolso

via @luigi_torre

2011/10/4833_beautiful_francois_sagat2“Quis fazer do meu corpo, a minha roupa”, disse ao FFW o modelo e ator pornô (premiado) François Sagat. O francês nascido no sudoeste da França veio ao Brasil para o 18º Festival Mix Brasil de Cinema, evento no qual dois de seus mais recentes _e comentados_ filmes foram exibidos: “L.A Zombie”, do diretor canadense Bruce LaBruce, e “Homem Ao Banho”, do francês Christophe Honoré.

Ambos são filmes que atingiram _ou simplesmente ganharam sem qualquer preocupação com adequação_ status de cults do cinema gay, ou, no caso de Bruce LaBruce _numa meio que continuação de “Otto” e “Up With Dead People”_ do cinema homoerótico. Mas enfim, não é bem disso que gostaria de falar aqui. Mas sim da relação de Sagat com a moda.

François de fato não é um estranho nesse meio. E não estou apenas falando de sua colaboração para campanha de verão 2008 de Bernhard Willhelm, clicada por Lukas Wassman. Aos 19 anos, no fim da década de 90, estudou no famoso Studio Berçot, em Paris. Foi de lá que partiu para uma série de trabalhos de assistência para nomes como Thierry Mügler, Nicolas Ghesquière, Givenchy, Paco Rabanne, Carine Roitfeld e V Magazine.

“Era meu único sonho, desde que era muito jovem, por volta dos 11 e 12 anos de idade”, contou François. “Mas eu nem posso falar que tive uma verdadeira carreira na moda. Estudei por três anos e não cheguei nem a ficar dois anos no meio”. A frustração com a moda veio pela falta de reconhecimento e pouco retorno financeiro. “O dinheiro que eu estava recebendo não era o suficiente e estava cansado de ser um assistente-escravo. Eu era muito jovem e não estava sentindo retorno suficiente no que estava fazendo, sentia que precisava me provar algo, talvez tentar ser menos invisível – ou simplesmente não tive a paciência de esperar isso acontecer na moda”.

“Aos 25 anos mudei meu ponto de vista, e estava me interessando mais por me metamorfosear, levar tudo para um nível mais superficial, menos poético, menos romântico”, explica François sobre os momentos que o levaram a migrar para a indústria pornô. “Estava focando tudo sobre minha carne, minha pele, meus músculos e a nudez – eu fui para o aspecto essencial e primitivo do meu ser”.

Então podemos dizer que você fez do seu corpo a sua roupa? “A questão é exatamente essa, quis fazer do meu corpo minha roupa”.

2011/10/4832_sagat_02Fotos de François Sagat para campanha verão 2008 de Bernhard Willhelm. Os cliques são de Lukas Wassman e as imagens foram inspiradas no ator pornô dos anos 1970, Peter Berlin © Reprodução

Hoje François enxerga seu corpo meramente como uma mercadoria, algo plástico, mutável e adaptável às diversas exigências que surgem em sua vida. E por mais que certo moralismo social nos faça olhar para essa história com alguma tristeza, o fato é que ela é o mais puro reflexo de algo extremamente comum em nossas vidas: que nunca estamos verdadeiramente nus.

Passei boa parte do meu tempo livre do ano passado somente com uma toalha amarrada no corpo, observando o comportamento de frequentadores de saunas gay na cidade de São Paulo. Era uma pesquisa para minha tese de conclusão de curso (o tal TCC) da faculdade de jornalismo, na qual eu partia do pressuposto que grande parte do sucesso desse tipo de estabelecimento se dá pela ausência de roupas _e por conseqüência, de todos os códigos e símbolos que carregamos com ela. Sem código, sem julgamentos, e um suposto lugar mais feliz.

Ledo engano. Acontece que o corpo tornou-se um objeto de moda especialmente privilegiado nas últimas décadas. Tornou-se algo plástico que pode mudar constantemente para se adequar às novas normas à medida que elas surgem. Pense em figuras que fizeram do seu corpo sua identidade máxima como Amanda Lepore, Angela Bismarchi _já reparou como independente do que elas estão vestindo a imagem é quase a mesma, mesmo quando nuas?_ e mais ainda da artista performer Orlan, que no começou dos anos 1990 fez de seu corpo sua obra de arte. Na performance The Reincarnation of St. Orlan submeteu-se a uma série de cirurgias plástica para recriar traços de outras obras de artes, como o queixo da “Vênus” e Botticelli e os olhos de “Europa” de Boucher.

“Na era pós-moderna, a configuração da identidade pessoal é, num sentido decisivo, um projeto corporal. Podemos observar que o corpo tende a se tornar cada vez mais seminal para uma compreensão de identidade pessoal”, escreveu Lars Svendsen em seu livro “Moda – Uma Filosofia”.

2011/10/4839_lafaceDaí que a busca por nossa identidade começa essencialmente em nossos corpos. As roupas são apenas uma continuação dele. Tanto que nossa percepção do corpo humano é influenciada diretamente pela moda vigente em determinado período de tempo.

Vem daí a noção de que o corpo despido, está também vestido. “Nossa percepção do corpo humano é sempre dependente das modas dominantes na época, e nossa percepção das modas é por sua vez dependente de como são apresentadas visualmente em pinturas, fotografias e outros meios”, explica Svendsen.

Um dos melhores exemplos disso encontra-se no livro de Anne Hollander, “Seeing Through Clothes”. Nele a escritora mostra através de uma série de retratos nus como o corpo e a roupa mantém um diálogo que extrapolam as explicações fisiológicas. Na época em que os espartilhos eram amplamente usados, podíamos ver o espartilho ausente moldando o corpo nu. Barbatanas e anquinhas em vestidos davam origem a figuras nuas com cinturas finas e quadris amplos. “As roupas reescrevem o corpo, dão-lhe uma forma e uma expressão diferente”, escreveu Hollander.

A nudez só diz alguma coisa quando em diálogo com as roupas, mesmo que imaginariamente ou secundariamente. Desde os anos 60, quando a busca pela juventude começou, as roupas foram ficando cada vez mais em segundo plano nas fotografias de moda. Hoje, muito mais do que apresentar a última calça de estação, busca-se mostrar uma imagem em que o corpo da modelo é o portador de valores simbólicos.

Nas saunas isso fica evidente ao passo que, mesmo despido de suas roupas, os frequentadores continuavam agrupando-se de acordo com as regras que dividem os vários sub-grupos gays: barbies, bears, clubbers, etc.

Hoje não existe nada que possamos chamar de corpo completamente nu. Este estará sempre vestido em razão de suas definições sociais. Removendo todas as roupas, não encontramos um corpo “natural”, mas um corpo moldado pela moda. Nas palavras de Lars Svendsen, “o corpo não é mais “natural” que as roupas que veste.”

Nu com a mão no bolso

Tem 10 minutos?

O vídeo abaixo é o resultado de 5 anos de pesquisa da Box 1824, agência, criada pelos publicitários gaúchos Rony Rodrigues e João Paulo Cavalcanti e especializada em pesquisa e mapeamento de tendências de consumo no mundo todo.

Para quem não conhece, o trabalho da Box consiste em detectar novas tendências de comportamento e consumo ao redor do mundo. O endereço da agência? O mundo. O contato? A internet. A Box 1824 não possui um endereço físico. Quer dizer, até existem espécies de sedes da empresa _uma São Paulo e outra em Porto Alegre. Mas os cerca de 20 funcionários da empresa que tem a internet como principal plataforma de comunicação e trabalho se espalham por vários países, em festas, ruas, shoppings, clubes, museus, feiras, etc.

Nada mais óbvio para uma agência que se propõem a misturar-se e entender o comportamento das pessoas, principalmente as com idades entre 18 e 24 anos _entendeu de onde vem o nome da agência?_, já que é essa faixa que mais influenciam as faixas de consumo, como ficou bem explicado no vídeo, não é mesmo.

Os pesquisadores da Box1824, esses que ficam espalhados mundo à fora, são divididos em três grupos: o alfa _cerca de 2% a 4 % da população_, que consiste em pessoas super inovadoras, porém que tem pouco potencial de disseminação de tendências; o beta que representa de 10% a 15% da população geral _são aquelas pessoas que embora não sejam tão inovadoras, captam as tendências muito rápido, quando elas estão ainda aflorando e ajudam na sua disseminação; e o último grupo, o mainstream _ ou seja, a maior parte das pessoas.

Vale lembra que os pesquisadores são profissionais de várias áreas. Tem psicólogos, jornalista, publicitários, economistas, estudantes e por aí vai. O único requisito básico é ser ótimo observador, e saber identificar novos movimentos comportamentais e de consumo.

A partir da pesquisa de cada um desses pesquisadores são então formadas bases de dados que servem para detectar os possíveis rumos do comportamento e do consumo num futuro próximo. Assim, dando um bom feed back para estratégias de marketing de uma série de produtos.

+ http://www.box1824.com.br

+ @box1824

Tem 10 minutos?

Teoria das Cores

O que seriam dos filmes de Pedro Almodóvar sem as fortes cores com as quais o diretor compõem suas cenas? Seriam suas personagens tão emocionalmente intensas sem aqueles vermelhos dramáticos em seus figurinos? E suas narrativas _e imagens cinematográficas_ seriam tão passionais e carregadas de sentimento sem todo aquele colorismo kitsch?

Se no cinema, assim como na arte e na publicidade, as cores exercem extrema importância na comunicação visual de qualquer elemento que seja, assim é também na moda. Então, quando para o verão 2011 estilistas quiseram falar de um certo otimismo, nada mais natural do que usar as cores para comunicar toda essa vibe “feel good”.

2011/10/4732_alexandreAlexandre Herchcovitch verão 2011 © Agência Fotosite

O movimento começou cedo e ainda em solo nacional. Alexandre Herchcovitch, ao olhar para o expressionismo abstrato se fez colorista. Trabalhou forma, corte, modelagem, proporção e materiais sempre a serviço das cores. São essas, em variadas tonalidade que mandam e desmandam na coleção. São para elas que estruturas se armam e desarmam. Concebida para e a partir das cores. Abstrata e expressionistas, tendo como acessórios toda emoção e sentimento que emanam de cada cominação cromática.

Depois na temporada masculina foi a fez de Raf Simons na Jil Sander, onde combinações das mais inusitadas dava toque quase que elétrico às roupas de modelagem simples e imagem limpa. A partir de então, as cores se mostraram como antídoto perfeito a monotonia minimalista que vinha dominando as duas últimas temporadas.

Ainda que dominadas por uma certa limpeza visual, estilistas dos mais variados estilo fizeram amplo uso de tonalidades vibrantes para dar mais vida as suas coleções. Talvez Miuccia Prada seja o melhor exemplo com seu barroco tropicalista. São elas _as cores_ que dão emoção às formas e modelagens simples. São elas que estabelecem conexões (das mais diversas) no imaginário de cada um. São elas que dão vida às roupas dessa coleção. São elas que enchem de bom-humor o verão 2011 da Prada. E assim também acontece com as coleções da Jil Sander, Marni, Gucci e tantas outras.

2011/10/4733_pradaPrada verão 2011 © firstVIEW

As cores têm vida em si mesma. Sempre atraíram e causaram predileção no ser humano de acordo com fatores de civilização, evolução do gosto e especialmente pelas influências e diretrizes sócio-culturais. Na artes-plásticas, na arquitetura, na moda, no cinema, na fotografia, no design e na publicidade, é geradora de emoções e sensações.

Quando, no início da década de 30, Herber Kalmus criou o tecnicolor, tornando a cor em mais um elemento artístico de um filme, alguns produtores revelaram-se pouco receptivos à técnica. Temiam que a nova paleta cromática atrapalhasse a atenção dos espectadores quanto à interpretação dos atores e ao desenrolar da história.

Porém, a partir deste momento, os filmes passaram a transmitir novos sentimentos, permitindo o desenvolvimento de ambientes visualmente mais ricos e tornando a composição de cena tão importante quanto a atuação. Em 1964, Michelangelo Antonioni, com seu “O Deserto Vermelho”, pintou áreas inteiras para que a fotografia de Carlo Di Palma pudesse expressar um ambiente industrial desolado, uma natureza morta de onde as cores naturais foram expulsas.

No expressionismo abstrato foi essencial para transmissão de sentimentos. Em Jackson Pollock, Mark Rothko e Barnet Newman, formas e explosão cromáticas falam mais alto do que qualquer imagem concreta.

Na publicidade, as cores são item indispensável para uma real conexão e comunicação visual. O logo amarelo do Mcdonalds dispensa qualquer outra explicação.

Na moda, as cores sempre foram fundamentais para construção da imagem. Personalidades, sentimentos, memórias e emoções construídas a partir de composições cromáticas. Christian Dior e o clássico cinza. Valentino e o intenso vermelho. Chanel e sofisticado preto.

Significados distintos em culturas diferentes, as cores enquanto elementos perceptivos e não algo material, têm diversas e profundas implicações psicológicas. Sua percepção pode desencadear uma série de sensações. enxurradas de emoções que variam de acordo com a cultura e memória de cada um.

Teoria das Cores

Paris Verão 2011: Rick Owens se afasta do street em nova coleção

Rick OwensComo falei no último post, o dia de hoje (30/09) contou ainda com o desfile do Rick Owens e suas longas saias. Longas tipo Mortícia Adams do futuro indo para uma festa underground.

E não seria de todo correto _ou até mesmo justo_ afirmar que só porque Sr. Owens alongou a barra de suas saias, entrou ele na tendencinha do momento. Na verdade, o estilista que sempre trabalhou dentro de um universo muito particular, há tempos vinha dando sinais de um comprimento mais alongado, pautado por uma certa verticalidade quase gótica. E agora parece ter atingido sua ápice.

Assim, em vestidos de saias extra compridas, dotadas de um elegância imponente, trabalhou toda aquelas técnicas de alta-costura com a qual flertou nas últimas coleções. Com partes de cima cobertas por suas incríveis peças em couro _agora bem finos, sem muito volume e com recortes angulares_ eles vinham em tecidos de aparência luxuosa, transportados para um universo, ainda que obscuro e com uma certa estranheza, muito mais sofisticado e requintado que o habitual.

O problema nisso tudo é que boa parte da força de Rick Owens estava justamente na sua forte ligação com a rua, ou melhor, com os estilos da moda de rua. Assim, a medida que seu verão 2011 _e as coleções anteriores_ se afastam de todo esse cenário, é como se sua imagem perdesse algo extremamente importante.

Em algumas coleções passadas, Owens chegou até a tentar adaptar a alta-costura a seu imaginário underground e obscuro, sem que para isso precisasse retirá-lo de seu local de origem. E nisso obteve imenso sucesso. Não é à toa que os vestidos curtos, com lindas dobras em tecidos leves parecem muito mais interessantes do que suas versões longas mais suntuosas. Ainda que tecnicamente perfeitos e relativamente novos para o repertório da marca, pareciam deslocados neste novo meio.

Paris Verão 2011: Rick Owens se afasta do street em nova coleção