O direito à beleza

31/05/2012

por | BELEZA

por Juliana Lopes, de Milão

Observo o andamento das maquiagens no backstage do desfile. Alguns fotógrafos que se movimentam. Barulho de secador de cabelo, mil cores de sombras e batons, que se espalham pela mesa. Chego perto de uma das modelos que pede para eu ajudá-la a se vestir. A saia de veludo preta, uma peça de inverno desenhada e confeccionada um estudante da NABA, escola de moda de renome em Milão, tem um caimento impecável na moça. “Esse saia contorna bem meu corpo, adorei”, me conta. Até aí tudo parece bem comum, não fosse o fato da moça ser cega. O evento, “Lanormalità dela Bellezza” (em italiano funciona como um jogo de palavras entre normalidade e anormalidade da beleza), foi criado pela associação italiana Atlha, que organiza turismo e eventos culturais para pessoas com deficiências. Curiosamente, entre alguns apoiadores famosos, o Atlha recebeu durante anos doações e participações da modelo Naomi Campbell (que doou furgões específicos para transportar cadeiras de rodas).

Modelo cega se prepara para entrar na passarela com look cedido pela NABA, importante escola de moda de Milão ©Juliana Lopes

O desfile aconteceu na manhã do sábado passado, 26 de maio, em plena Fiera Rho, mesmo complexo de prédios high tech que hospeda o Salão do Móvel. A estrutura foi oferecida gratuitamente. Todos os maquiadores, cabeleireiros, fotógrafos, stylists, estilistas e outros tipos de assistentes trabalharam de graça. O governo de São Paulo (sim!!!) também foi convidado. Para quem não sabe, existe um projeto que se chama Moda Inclusiva, da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência. É um dos projetos pioneiros no setor. A gestora do projeto, Daniela Auler, que trabalha para a secretária Linamara Rizzo Battistella, trouxe para Milão looks confeccionados no Brasil com particularidades técnicas para pessoas com deficiências físicas. Sapatos com sola em braile, por exemplo. Essas roupas já haviam sido desfiladas em São Paulo, no ano passado, no Museu da Casa Brasileira. E foram, agora, recebidas com admiração pela capital da moda italiana. Os looks brasileiros eram os mais pesquisados para essas necessidades. Ponto pra nós, Brasil!

Arara do desfile em Milão mostra vestido desenhado e confeccionado no Brasil para meninas cegas. Os apliques em flores estimulam o toque. ©Juliana Lopes

Pessoas que geralmente participam dos desfiles da Milano Moda Donna passaram por ali, ajudando a vestir, maquiar, voluntariamente. Para, simplesmente, proporcionar a pessoas com diferentes deficiências a empolgante experiência do mundo da moda. Porque se grande parte da sociedade está completamente distante do necessário para subir numa passarela, imagine para quem tem deficiência, como a distância aumenta!

Clara Maroli, 28 anos, levanta da cadeira de rodas para mostrar look desenhado na Italia. O desfile foi organizado em prol do direito à beleza para pessoas com deficiência ©Juliana Lopes

A moda e a perfeição

Existem motivos justificáveis para que a moda pregue a perfeição. A moda trabalha pra gente sonhar com mundos fantasiosos. Moda é ficção! É utopia. Um editorial é como se fosse um filme. Equipes preparadas suam para criar esses mundos impossíveis. Como no cinema! Quem nunca sonhou em ser estrela de algum filme, sobrevivendo a uma tragédia ao lado de um galã, e todos esses deliciosos clichês que povoam nossa imaginação? O sonho da moda também é inatingível inclusive para Kate Moss: compare as fotos dela dentro e fora de um desfile ou editorial. Uma coisa é ver as top models sob a luz dos holofotes, a música perfeita, o stylist perfeito, a maquiagem e tudo o mais! Outra coisa é ver Kate passeando na pracinha com a filha. Continua linda, mas aquele glamour da moda já era.

Modelo que sofreu acidente de trabalho combina prótese com vestido, para entrar na passarela ©Juliana Lopes

É sabido, no entanto, que a perfeição da moda cria algumas loucurinhas. Tipo a menina que não quer comer mais. A senhora que exagera nas plásticas. E por aí vai. Por isso, para lembrar de vez em quando que existe todo um outro mundo que não aquele perfeito, é preciso parar pra refletir. Como Franca Sozzani, da “Vogue” Italia, que fez uma capa com modelos plus size, exibindo gordurinhas. Como o Atlha, a associação milanesa que organizou esse casting improvável para lembrar que nem todas as pessoas têm dois braços, duas pernas, olhos que enxergam, etc (só no Brasil, 45,6 milhões). Mas que elas desejam, como todas as outras, sentirem-se belas. Num evento assim descobri como o mundo da moda pode ser generoso, emprestando seus brilhos para quem geralmente se acha muito distante deles. Isso sim me pareceu perfeição.

Maquiadora prepara Mathilde Pocaterra, 8 anos, para entrar na passarela ©Juliana Lopes

Maquiada e penteada, Mathilde aguarda na fila para desfilar com sua cadeira de rodas elétrica super veloz ©Juliana Lopes

Maquiadora prepara modelo que sofreu acidente de trabalho para entrar na passarela em Milão ©Juliana Lopes

Após o desfile de Moda Inclusiva, garotas com deficiência são maquiadas e penteadas por makeup artists e hairstylists que trabalharam como voluntários no evento em Milão ©Juliana Lopes

O homem e a máquina

27/04/2012

por | TECNOLOGIA

Em Milão

A entrada do evento ©Juliana Lopes

Aconteceu há alguns dias, na Semana de Design de Milão, no meio de umas 400 exposições de design em toda a cidade que hospeda, sempre em abril, o evento mais disputado da cidade em todo o ano. É quando, no mínimo, a Europa inteira quer estar lá. Vasculhamos o guia da revista italiana “Interni”, o mais completo e respeitado, pra achar as manifestações mais jovens e de ponta possível.

Vamos à mais curiosa: Hacked – 100 horas de Imaginação Rebelde. Uau, que título. Imaginava uns hackers se encontrando num porão com seus computadores clandestinos com IPs alterados e softwares paralelos ao resto do mundo, criados por eles próprios! E o endereço? Surpresa! A loja Rinascente, templo mainstream, com todas as labels de cosméticos e roupas que atrai madames e turistas. Bolsas Miu Miu, cup cakes de sushi, playboys milaneses tomando prosecco no fim de tarde. O cenário é esse, normalmente. Muito curioso a Rinascente querer hospedar exatamente esse evento.

Chovia do lado de fora. Dentro da megastore uma mesa foi montada, no meio de tudo. Arrastaram prateleiras e cabides pra criar a cena. A briga vai começar. O evento se chama: “3D PRINTER X WILCOX”. Homem (Dominic Wilcox) contra máquina (impressora 3D). Ganha quem fizer o protótipo mais bonito do Duomo, a igreja central de Milão, de arquitetura gótica, cheia de detalhes. Wilcox trabalhou com argila e a impressora com resina. Claro que a impressora não funciona sozinha, sempre tinha os assistentes mexendo pra coisa não dar pau. Então, de pronto, venceram os humanos, não? As máquinas não existem sem nós, certo?

 O homem e a máquina criada para disputar o prêmio ©Juliana Lopes

Quando pensamos nesse discurso é impossível não lembrar do disco “The Man-Machine” do Kraftwerk, lançado na década de 70. É uma questão bem vintage. Mas nesse evento, em plena Semana do Design, ver uma impressora 3D e um artista, trabalhando paralelamente, nos traz uma sensação boa de um estranho e novo sentimento. Parece que estamos falando de outra questão, não é nem o homem, nem a máquina. Vamos lá.

Ao fundo, o pequeno Duomo de resina feito pela máquina ©Juliana Lopes

A MÁQUINA: impressora 3D construída por estudantes italianos de engenharia.

A parafernália já traz o ar geek na hora: uma impressora construída dentro de uma caixa de madeira vazada, pra você ver todos aqueles cabos e o objeto se formando, magicamente, tendo apenas como input um arquivo 3D criado digitalmente. Essa pequena esculturinha do Duomo foi o que a impressora criou ao vivo, com resina, no meio da Rinascente.

Na plateia, meninos e meninas com looks meio anos 80, estilo “Revolta dos Nerds”, assistiam ao milagre da tecnologia, concentrados. E também um senhor, bem vovô, que fotografava tudo com uma avidez inacreditável. Como se ele estivesse esperando uns 50 anos por esse momento.

Dominic, o humano ©Juliana Lopes

O HOMEM: Dominic Wilcox, artista

Do outro lado da mesa, o “humano” Dominic Wilcox, que é um sensível artista. Nessa performance ele foi o modelador “analógico” de argila, para fazer seu Duomo. Na camiseta branca a escrita “I eat computer chips”. E na (tão amável) viseira a escrita “Human”, para que saibamos que ele é o humano. Aqui abaixo outros trabalhos de Wilcox, que transmitem sua sensibilidade humana.

Projeto “Watch Sculptures”, em que ele faz protestos e demonstra amor com cenas que aconteceram na vida real, usando suas mini esculturas.

Projeto “Waiting Room”, que Dominic criou em um escritório de um prédio histórico em Londres, antes que fosse demolido. A fofura é que ele “fantasiou” o quarto de branco, esperando para morrer.

A BRIGA: quem construísse o protótipo do Duomo mais bonito, ganhava a disputa.

Voltemos ao evento da Semana do Design. Os geeks começam a tuitar dando a largada para a disputa começar. Uma das meninas pega o microfone e começa a anunciar os adversários, como numa luta. Os italianos, que adoram um microfone, não param de falar.

No final das contas, quem ganhou o troféu foi Dominic. Ninguém entendeu as justificativas, mas talvez fosse mais simpático premiar uma pessoa. A máquina terminou o Duomo primeiro, uns 20 minutos antes, enquanto o humano ainda suava.

Algumas discussões surgiram entre plateia e organizadores. Considerações como: “Mas a máquina não trabalha sozinha, o rapaz está sempre mexendo nela, não vale”. Ou então: “É, mas o artista mal consegue respirar enquanto os donos da máquina tomam cerveja”. Também teve essa: “Essa máquina pode reproduzir vários idênticos”. Quem venceu então? Prefiro dizer que foi o tempo. Que podemos aproveitar de todas as maneiras: assistindo a uma máquina, sujando a mão na argila ou tomando uma cerveja. A escolha é nossa.

O vencedor do concurso e seu Duomo de argila ©Juliana Lopes