Juliana Lopes - Google +

Moda italiana… o que pensar dela?

28/02/2014

por | MODA

Backstage do desfile da Emporio Armani, segunda marca do estilista mais conhecido da Itália ©Imaxtree

Existe, há algum tempo, um certo incômodo de apaixonados seguidores de moda que se perguntam: mas… e as novidades na moda italiana? Não tenho aqui números estatísticos. É uma experiência de ouvir os comentários “all around”. Não apenas eu escuto, mas outros jornalistas escutam, de amigos da profissão. Numa época em que ficou tão acessível ver roupa, ver estilo e acompanhar notícias, parece que a oferta de novidade é menor que a procura. Estamos errados? Tomara. De qualquer modo, a vontade de ver novos nomes existe, mas a Itália parece ter uma certa “culpa” ou uma “obrigação” a mais. Pelo menos em seu calendário. Porque a Itália passa um ar de que é velha.

Primeiro de tudo, vamos pensar no que é moda italiana. Difícil delimitar. Os calendários estão todos mais globais. Tem marca italiana desfilando fora da Itália e marcas de fora desfilando na Itália. Moda italiana é produzida na Itália ou fundada na Itália? Como definir? Cada um vai puxar o peixe pro seu lado, mas não podemos esquecer que a matéria prima italiana de moda é uma das mais importantes do mundo. Os tecidos, os couros, os materiais para bolsas e sapatos. Vide as feiras Lineapelle e Piti Filati, que atraem compradores de todo o mundo, que adquirem a matéria prima italiana para ter um produto final de melhor qualidade. Os italianos são “chatos” para produzir, no bom sentido. Os compradores, chatos pra escolher. Qualquer tiozinho que você cruza num café sabe reconhecer entre uma camisa de bom algodão e uma de poliéster, que vai fazer ele suar e ficar reclamando (reclamar, como buzinar, também é made in Italy).

Melhor pensar no calendário italiano, então. Por que tem sempre alguma coisa que encrenca? É gente que vai embora antes, pulando inclusive o desfile de Giorgio Armani. É marca que se estressa com a Camara de Moda Italiana e fica num sai-e-entra no calendário (Dolce & Gabbana e outras). A questão da semana italiana “grudar” na de Paris é um problema, porque Paris dá o grito final, como se anunciasse: “E a estação então foi assim e ponto”. Não aconteceu uma, mas várias vezes, de perguntarmos alguma coisa para editoras como Suzy Menkes e Carine Roitfeld e ouvirmos um sonoro “vamos esperar Paris”. Ok.

Mas o que tem Paris? Paris tem um calendário denso! Muitas marcas importantes do começo ao fim do dia e são mais dias no total do que a semana de moda italiana. Os grandes nomes se misturam a novos borbulhantes e sempre tem alguma notícia que esquenta a temporada. Numa matéria para o BOF, Didier Grumbach, presidente da Chamber Syndicale (a câmara de moda de Paris), explica por que Paris tem um peso maior: “Nós temos 23 diferentes nacionalidades desfilando na semana de moda feminina. Os italianos acabaram ficando mais italianos. Em Paris, nós acreditamos que a moda não tem nacionalidade.” Pá! Então será que é isso? O bairrismo italiano é forte. Tão forte que não é apenas racismo com estrangeiros (acontece isso com franceses também). Por exemplo, a culinária de uma cidade pode ser muito diferente de outra cidade a menos de 100 km de distância e os respectivos moradores vão falar mal da comida e do vinho do outro.

E a situação atual do calendário italiano? Parece brincadeira, mas a pessoa que está ajudando a “abrir as portas” do calendário é o senhor Giorgio Armani, que está entre os mais antigos estilistas vivos na Itália. Conectado com os concursos Who’s On the Next, da “Vogue”, ele tem emprestado seu maravilhoso teatro Armani para novos estilistas desfilarem, como Andrea Pompilio e Stella Jean, a boa novidade da estação. +Leia entrevista que fizemos com Pompilio

Em conversa com o FFW antes do desfile da Gucci, o jornalista Tim Blanks, do Style.com, vai direto ao ponto: “Paris é vibrante, Milão é importante, mas é em Londres que as novidades acontecem. Londres é a líder”, afirma. E qual o problema de Milão? “Milão é uma cidade boa para estar, mas se vê menos novidade.”

Encontramos as italianíssimas Giovanna Battaglia e Anna dello Russo e perguntamos quais as diferenças que elas percebem entre a semana de moda milanesa e a parisiense. “Diferença entre as semanas de moda? Numa chove, na outra neva”, respondeu Giovanna, sarcástica e mal humorada com a chuva em Milão. Insistimos na pergunta. “Ah, o calendário de Milão pode ter menos desfiles, mas tem muitas apresentações importantes. Você foi na da minha irmã?”, perguntou, referindo-se a Sara Battaglia, que apresentou sua coleção de bolsas num showroom de Milão. Impaciente, Anna dello Russo disse: “Ela sabe a diferença, mas não pode falar. Nós sabemos a diferença, mas não podemos falar. Usem as aspas de outra entrevista que eu dei pra vocês.” A editora Franca Sozzani, também italiana, respondeu de um modo mais centrado: “Acho que as impressões que se tinham sobre a diferença dos calendários estão mudando. Principalmente agora que temos novos nomes, e não podemos esquecer da chegada de Jeremy Scott (novo diretor criativo da italiana Moschino).”

+Veja aqui todos os desfiles da temporada de Inverno 2015 de Milão

Prada: entenda os looks de perto

25/02/2014

por | MODA

A Prada é uma das principais grifes que desfilam na semana de moda de Milão, que terminou nesta segunda-feira (24.02). O FFW foi convidado para o desfile da temporada Outono/Inverno 2014/15 e para o “resee”, uma oportunidade de ver tudo bem de perto e ter uma experiência mais próxima com a roupa e os conceitos da coleção. Nossa correspondente Juliana Lopes esteve nos dois eventos, e pode fotografar os modelos desfilados em detalhes, que você confere aqui.

Miuccia Prada chama esse modelo de “camisa explodida”. Como se uma camisa tivesse existido em seu modelo tradicional e de repente BUM, vira esse vestido, que, aliás, é macio, leve, chique e deve ser uma delícia de usar. Além de que o modelo é bastante democrático. Como um peignoir. O acessório no pescoço, uma quase gravata, já tinha sido anunciado no desfile masculino da marca.

Três elementos da coleção estão presentes aqui: as linhas, que vieram para delinear o corpo de forma conceitual. Porque geralmente a Prada não delineia o corpo, os modelos são sempre existentes em si mesmos, pensando prioritariamente no design deles para depois pensar no corpo, superficialmente analisando. Então aqui as linhas fazem esse papel. Como se ouvíssemos Miuccia dizendo “ok, vou delinear seu corpo, mas o meu modo é esse”. E pronto. O outro elemento é a transparência, o tecido que quase não existe, de tão leve. O terceiro é o lenço no pescoço.

Três looks da mesma série com transparências e pelos coloridos (bastante vistos na semana de moda no geral, cada marca interpretando de um modo, obviamente). A solução da calcinha aparecendo por baixo resolveu a questão no desfile, mas a marca deve pensar em outro modo de lançar a peça comercialmente, como colocando forro (ou não, nesse mundo Prada we never know!).

Série de estampas anos 30 que também influenciaram os anos 70.

Zoom nas estampas com motivos futuristas (o Futurismo nasceu na Itália).

Mais um modelo clássico – o chamado “Little Black Dress”, pra nós pode ser “Tubinho preto” – revistado por Prada, com as linhas que chamam atenção ao corpo e o lenço-gravata.

O desenho sensual deste modelo, nesta e nas próximas duas imagens, nos faz pensar que a Prada, inclusive, leva em consideração o desejo de mulheres de outros hemisférios, lugares onde, inclusive, é verão quando na Europa é inverno. Essa informação não é apenas um chute.

Vestido de manga comprida com estampas anos 30 em motivos futuristas com as linhas que foram destaque na coleção.

Essa bolsa, com a corrente, é um lançamento que relembra um outro modelo antigo de bolsa da Prada.

As peles e os pelos, tudo colorido, item irônico desse inverno que já está na wish list de muita gente, inclusive a nossa.

Segundo look total em vermelho forte. Os pelos viraram regra.

Tropical Nazi

02/09/2013

por | COMPORTAMENTO

Imagem racionalista feita entre 1925 e 1926 pelo fotógrafo húngaro e professor da escola de Bauhaus, László Moholy-Nagy (1895/1946) ©Reprodução

Quando estudei a fotografia da época do fascismo, a lição que aprendi foi a de que as mesmíssimas forças que conceberam uma louvável produção artística criaram uma grave violência contra a humanidade. O racionalismo na fotografia criou imagens de homens iluminados, homens do futuro. E, ao mesmo tempo, provocou uma ojeriza a qualquer coisa que não fosse “adequada” ao céu estrelado da modernidade, onde os homens são civilizados ao extremo, disciplinados ao extremo, poderosos ao extremo, brancos ao extremo.

E o que foi aquilo? Foi a vontade de ser moderno. O que isso tem a ver com o Brasil de hoje? Tudo. Porque vivemos uma fase em que tudo borbulha e o mundo nos observa. Muitos de nós temos a pretensão de sermos o país do futuro, o que é positivo. Mas essa mesma força de orgulho nacional tem um lado negro, que é conservador e cego. No ano passado me veio em mente esse termo: Tropical Nazi.

Tropical Nazi é o tipo de ser humano que o Brasil está produzindo, paralelamente a coisas maravilhosas. A mesma força que faz um país querer crescer tem impulsionado comportamentos ditatoriais. Como quem não sabe onde é o Afeganistão, mas fica indignado se um estrangeiro pensa que a capital do Brasil é Buenos Aires. Como aquela que topa pegar ônibus na Europa, mas diz que a médica cubana tem “cara de empregada”.

A obra “Abaporu”, pintada por Tarsila do Amaral em 1928, e que é uma das principais referências do movimento antropofágico, que se propunha a deglutir a cultura estrangeira e adaptá-la ao Brasil ©Reprodução

E na moda, infelizmente, o Tropical Nazi acabou de aparecer, acusando estilistas de serem “pouco brasileiros” para receberem dinheiro do governo. Cheira a fascismo. Não estamos aqui para julgar se Alexandre Herchcovitch e Pedro Lourenço deveriam ou não receber a quantia que receberam. O que suscita uma certa aflição é o fascismo batendo à nossa porta. Logo aqui. Pera lá, gente! Quem é mais brasileiro e quem é menos? Vamos voltar ao tempo: de que cores e origens eram as pessoas que construíram, na marra ou com vontade, o que hoje se chama de Brasil? Várias.

O orgulho nacional se infla quando Gisele Bündchen aparece nos noticiários. O sobrenome dela não vem de uma tribo tupi. Ela é menos brasileira? Quem passou a adolescência ouvindo rock inglês e não samba, não é brasileiro? Quem estuda moda a sério sabe considerar, e admirar, o estilo parisiense. Quem leva uma vida criativa a sério sabe que a faísca da inspiração pode aparecer em qualquer lugar. Como vamos arrancar isso de nossos desejos e nos obrigarmos a produzir coisas que acreditamos serem puramente regionais? Se não formos folclóricos não vale? É possível, hoje, seguir um purismo? Ou é a nossa eterna antropofagia, o devorar o que vem de fora, que deixa a gente ser lindo, interessante, maleável, espontâneo?  “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”, entre outras frases para serem revistas do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, em 1928.

Vivemos uma inebriante busca de nossa identidade. E não é criando a cota do mais ou menos brasileiro que vamos finalmente nos libertar de uma mágoa pós-colonialista.

Coleção africana que Yves Saint Laurent criou em 1967 ©Reprodução

Como vamos construir uma história verdadeira do nosso estilo se procurarmos o purismo? Nem tornando às tribos indígenas. O isolamento cultural nunca existiu. Pensemos na lendária coleção africana de Yves Saint Laurent. Vestidos com motivos africanos, feitos com miçangas de madeira e em formatos de dente de animais e conchas do mar. Se houve policiamento dos que acharam aquela moda “pouco francesa”, felizmente não foi forte o bastante para interromper o legado desse nome, até hoje um importante ponto de referência. Podemos filosofar mais: quem faz o estilo italiano, por exemplo? Prada, Versace ou Valentino? Todas essas, ainda que não tenham nenhum ponto em comum. Mas certamente o governo da Itália, o povo, a crítica, os consideram igualmente italianos. Por que não podemos então considerar, ou dar a chance, de que sejam genuínos expoentes da moda brasileira Ronaldo Fraga, Alexandre Herchcovitch e Pedro Lourenço?

Melhor deixar todas as portas das nossas cabeças abertas e apoiar qualquer impulso criativo. Nunca se sabe quem vai ser o próximo YSL. Se um jovem estilista promissor brasileiro achar apaixonante desfilar na Austrália, ou Japão, que vá. E brilhe! E que no futuro ninguém se lembre de que o Tropical Nazi existiu, mas sim de que a nossa moda é a nossa cara, ainda que branca, preta, amarela, cheia de tachinhas, miçangas, ou tudo.

Eu, você, a moda e o papa

19/07/2013

por | COMPORTAMENTO

Look da marca Valentino, na temporada de Inverno 2013 ©Reprodução

Às vésperas da chegada do papa Francisco ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude, notamos como o novo pontífice tem influenciado a moda. “The New York Times” (com Suzy Menkes), “Vogue” britânica e a “Marie Claire” italiana estão entre os veículos que já apontam a influência do papa nas últimas coleções italianas.

Suzy apontou para jovens designers e também para as atuais vitrines de Roma, já prevendo o espírito do outono. A “Marie Claire” olhou ainda mais pra trás e viu nas coleções de Primavera/Verão 2013 outros bons exemplos. Valentino colocou na passarela, entre outros looks, um vestido vermelho com punhos brancos que parecia “saído do armário de um cardeal”. Dolce & Gabbana, que já vinha no clima de mulheres do interior da Sicília, sempre muito religiosas, continuou apostando em seus pesados crucifixos, dignos de porta de igreja não fosse pelo tamanho. Ferragamo também usou crucifixos. E a Marni, sandálias franciscanas.

Olhando todo o processo que a moda italiana, e não só, vem passando desde que a crise econômica sufocou a dolce vita, podemos dizer que… ok, vemos o papa na passarela, mas não somente.

A escolha do papa e a admiração que a sociedade tem por esse novo não é apenas por causa dele. É causa também do que acontece dentro das pessoas. Isso se sente no ar, não somos nós que ditamos. Permitam uma comparação bem fashion-pobre: é como exibir na vitrine uma roupa que não se encaixa com o espírito da época. Simplesmente não vende. O mesmo serve para o papa. Não causaria esse furor um papa que nada tivesse a ver com o espírito do nosso tempo. A ideia não venderia. Capisci?

Dois looks do Inverno 2013 da Valentino, uma das marcas que mais vem explorando o tema ©Imaxtree

E o que representa um papa, senão alguém a quem não olhamos a aparência? Ninguém julga se o papa é bonito ou feio, se está bem ou mal vestido. Ninguém reparou se é magro, gordo, se tem mãos bonitas, cabelo. Um religioso é geralmente uma pessoa esteticamente livre de olhares analisadores. Quando olhamos o papa, o olhar o atravessa sem ver. Vamos procurar entendê-lo, julgá-lo, apenas de acordo com as atitudes. Materialmente é como se fosse invisível. Você vai procurar no papa o quê? O espírito. E talvez seja isso que as pessoas estejam procurando.

Então se existe o papa no alto do foco de atenções e simpatias, é porque do lado de cá o mundo mudou. Ficou feio, ficou chato, ficou sem jeito não olhar o valor das coisas. Ficou, inclusive, cafona. É cafona demais ostentar hoje em dia. Um outro paralelo com o papa atual, que recusou o tratamento luxuoso que o Vaticano guarda para os papas. Repare nas pessoas que realmente ditam a moda. São discretas. E mesmo as últimas tendências de barroquismo, princesismos e outros ismos cheio de firulas… São ironias. Ninguém em sã consciência, e são poucos que têm dinheiro para isso, sairia com um colar, o tal colar statement, por exemplo, se ele realmente valesse um patrimônio. São maravilhosas bijuterias e nós sabemos. Talvez nos países onde o consumo ficou mais possível agora, como Rússia, China e Brasil, a coisa seja um pouquinho diferente, com gente falando tanto de dinheiro, do quanto custou isso e aquilo, ostentando logos de grifes, se sentindo superior ao usá-los. Mas só um pouquinho diferente, porque a nova rica do terceiro mundo quer parecer a rica antiga, então para isso ela vai imitar exatamente a discrição. A perolinha. O esmalte nude. A riqueza que não aparece.

E aí está mais um momento em que podemos dizer aos que ainda não acreditam, que a verdadeira moda reflete o âmago dos seres urbanos do planeta aqui e agora. Inclusive dos que nem sabem disso ou que juram que não seguem tendência. É esperar pra ver. O designer que escolheu o papa como referência é alguém extremamente observador. É ele próprio uma esponja dos sentimentos do momento. Quem não é esponja dos sentimentos que estão no ar não consegue criar. Nem na moda, nem na arte, nem num novo sabor de sorvete.

A moda é uma das maiores esponjas estéticas contemporâneas porque ela não fica num museu, ela vai parar no seu corpo. E quer vitrine melhor que o corpo da gente circulando por aí? A verdadeira tendência, aquela que funciona e vai do topo para a fast-fashion e para as ruas, saiu do sentimento de algum criativo, conectado a seu tempo, que materializou isso na passarela. E os outros observadores, igualmente conectados, pescaram o recado. E publicaram. E o leitor, se deparando com isso, sente que algo retorna, que o coração também fica tocado. Resultado? Você, naturalmente, aposenta o animal print e fecha um pouquinho mais o decote (se é que já não havia feito antes). E se sente adequado assim. Mas não porque foi culpa da jornalista, do papa, da Valentino ou da Dolce & Gabbana. E sim porque estamos todos nessa onda. Eu, você, a moda, e o papa.

O direito à beleza

31/05/2012

por | BELEZA

por Juliana Lopes, de Milão

Observo o andamento das maquiagens no backstage do desfile. Alguns fotógrafos que se movimentam. Barulho de secador de cabelo, mil cores de sombras e batons, que se espalham pela mesa. Chego perto de uma das modelos que pede para eu ajudá-la a se vestir. A saia de veludo preta, uma peça de inverno desenhada e confeccionada um estudante da NABA, escola de moda de renome em Milão, tem um caimento impecável na moça. “Esse saia contorna bem meu corpo, adorei”, me conta. Até aí tudo parece bem comum, não fosse o fato da moça ser cega. O evento, “Lanormalità dela Bellezza” (em italiano funciona como um jogo de palavras entre normalidade e anormalidade da beleza), foi criado pela associação italiana Atlha, que organiza turismo e eventos culturais para pessoas com deficiências. Curiosamente, entre alguns apoiadores famosos, o Atlha recebeu durante anos doações e participações da modelo Naomi Campbell (que doou furgões específicos para transportar cadeiras de rodas).

Modelo cega se prepara para entrar na passarela com look cedido pela NABA, importante escola de moda de Milão ©Juliana Lopes

O desfile aconteceu na manhã do sábado passado, 26 de maio, em plena Fiera Rho, mesmo complexo de prédios high tech que hospeda o Salão do Móvel. A estrutura foi oferecida gratuitamente. Todos os maquiadores, cabeleireiros, fotógrafos, stylists, estilistas e outros tipos de assistentes trabalharam de graça. O governo de São Paulo (sim!!!) também foi convidado. Para quem não sabe, existe um projeto que se chama Moda Inclusiva, da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência. É um dos projetos pioneiros no setor. A gestora do projeto, Daniela Auler, que trabalha para a secretária Linamara Rizzo Battistella, trouxe para Milão looks confeccionados no Brasil com particularidades técnicas para pessoas com deficiências físicas. Sapatos com sola em braile, por exemplo. Essas roupas já haviam sido desfiladas em São Paulo, no ano passado, no Museu da Casa Brasileira. E foram, agora, recebidas com admiração pela capital da moda italiana. Os looks brasileiros eram os mais pesquisados para essas necessidades. Ponto pra nós, Brasil!

Arara do desfile em Milão mostra vestido desenhado e confeccionado no Brasil para meninas cegas. Os apliques em flores estimulam o toque. ©Juliana Lopes

Pessoas que geralmente participam dos desfiles da Milano Moda Donna passaram por ali, ajudando a vestir, maquiar, voluntariamente. Para, simplesmente, proporcionar a pessoas com diferentes deficiências a empolgante experiência do mundo da moda. Porque se grande parte da sociedade está completamente distante do necessário para subir numa passarela, imagine para quem tem deficiência, como a distância aumenta!

Clara Maroli, 28 anos, levanta da cadeira de rodas para mostrar look desenhado na Italia. O desfile foi organizado em prol do direito à beleza para pessoas com deficiência ©Juliana Lopes

A moda e a perfeição

Existem motivos justificáveis para que a moda pregue a perfeição. A moda trabalha pra gente sonhar com mundos fantasiosos. Moda é ficção! É utopia. Um editorial é como se fosse um filme. Equipes preparadas suam para criar esses mundos impossíveis. Como no cinema! Quem nunca sonhou em ser estrela de algum filme, sobrevivendo a uma tragédia ao lado de um galã, e todos esses deliciosos clichês que povoam nossa imaginação? O sonho da moda também é inatingível inclusive para Kate Moss: compare as fotos dela dentro e fora de um desfile ou editorial. Uma coisa é ver as top models sob a luz dos holofotes, a música perfeita, o stylist perfeito, a maquiagem e tudo o mais! Outra coisa é ver Kate passeando na pracinha com a filha. Continua linda, mas aquele glamour da moda já era.

Modelo que sofreu acidente de trabalho combina prótese com vestido, para entrar na passarela ©Juliana Lopes

É sabido, no entanto, que a perfeição da moda cria algumas loucurinhas. Tipo a menina que não quer comer mais. A senhora que exagera nas plásticas. E por aí vai. Por isso, para lembrar de vez em quando que existe todo um outro mundo que não aquele perfeito, é preciso parar pra refletir. Como Franca Sozzani, da “Vogue” Italia, que fez uma capa com modelos plus size, exibindo gordurinhas. Como o Atlha, a associação milanesa que organizou esse casting improvável para lembrar que nem todas as pessoas têm dois braços, duas pernas, olhos que enxergam, etc (só no Brasil, 45,6 milhões). Mas que elas desejam, como todas as outras, sentirem-se belas. Num evento assim descobri como o mundo da moda pode ser generoso, emprestando seus brilhos para quem geralmente se acha muito distante deles. Isso sim me pareceu perfeição.

Maquiadora prepara Mathilde Pocaterra, 8 anos, para entrar na passarela ©Juliana Lopes

Maquiada e penteada, Mathilde aguarda na fila para desfilar com sua cadeira de rodas elétrica super veloz ©Juliana Lopes

Maquiadora prepara modelo que sofreu acidente de trabalho para entrar na passarela em Milão ©Juliana Lopes

Após o desfile de Moda Inclusiva, garotas com deficiência são maquiadas e penteadas por makeup artists e hairstylists que trabalharam como voluntários no evento em Milão ©Juliana Lopes

O homem e a máquina

27/04/2012

por | TECNOLOGIA

Em Milão

A entrada do evento ©Juliana Lopes

Aconteceu há alguns dias, na Semana de Design de Milão, no meio de umas 400 exposições de design em toda a cidade que hospeda, sempre em abril, o evento mais disputado da cidade em todo o ano. É quando, no mínimo, a Europa inteira quer estar lá. Vasculhamos o guia da revista italiana “Interni”, o mais completo e respeitado, pra achar as manifestações mais jovens e de ponta possível.

Vamos à mais curiosa: Hacked – 100 horas de Imaginação Rebelde. Uau, que título. Imaginava uns hackers se encontrando num porão com seus computadores clandestinos com IPs alterados e softwares paralelos ao resto do mundo, criados por eles próprios! E o endereço? Surpresa! A loja Rinascente, templo mainstream, com todas as labels de cosméticos e roupas que atrai madames e turistas. Bolsas Miu Miu, cup cakes de sushi, playboys milaneses tomando prosecco no fim de tarde. O cenário é esse, normalmente. Muito curioso a Rinascente querer hospedar exatamente esse evento.

Chovia do lado de fora. Dentro da megastore uma mesa foi montada, no meio de tudo. Arrastaram prateleiras e cabides pra criar a cena. A briga vai começar. O evento se chama: “3D PRINTER X WILCOX”. Homem (Dominic Wilcox) contra máquina (impressora 3D). Ganha quem fizer o protótipo mais bonito do Duomo, a igreja central de Milão, de arquitetura gótica, cheia de detalhes. Wilcox trabalhou com argila e a impressora com resina. Claro que a impressora não funciona sozinha, sempre tinha os assistentes mexendo pra coisa não dar pau. Então, de pronto, venceram os humanos, não? As máquinas não existem sem nós, certo?

 O homem e a máquina criada para disputar o prêmio ©Juliana Lopes

Quando pensamos nesse discurso é impossível não lembrar do disco “The Man-Machine” do Kraftwerk, lançado na década de 70. É uma questão bem vintage. Mas nesse evento, em plena Semana do Design, ver uma impressora 3D e um artista, trabalhando paralelamente, nos traz uma sensação boa de um estranho e novo sentimento. Parece que estamos falando de outra questão, não é nem o homem, nem a máquina. Vamos lá.

Ao fundo, o pequeno Duomo de resina feito pela máquina ©Juliana Lopes

A MÁQUINA: impressora 3D construída por estudantes italianos de engenharia.

A parafernália já traz o ar geek na hora: uma impressora construída dentro de uma caixa de madeira vazada, pra você ver todos aqueles cabos e o objeto se formando, magicamente, tendo apenas como input um arquivo 3D criado digitalmente. Essa pequena esculturinha do Duomo foi o que a impressora criou ao vivo, com resina, no meio da Rinascente.

Na plateia, meninos e meninas com looks meio anos 80, estilo “Revolta dos Nerds”, assistiam ao milagre da tecnologia, concentrados. E também um senhor, bem vovô, que fotografava tudo com uma avidez inacreditável. Como se ele estivesse esperando uns 50 anos por esse momento.

Dominic, o humano ©Juliana Lopes

O HOMEM: Dominic Wilcox, artista

Do outro lado da mesa, o “humano” Dominic Wilcox, que é um sensível artista. Nessa performance ele foi o modelador “analógico” de argila, para fazer seu Duomo. Na camiseta branca a escrita “I eat computer chips”. E na (tão amável) viseira a escrita “Human”, para que saibamos que ele é o humano. Aqui abaixo outros trabalhos de Wilcox, que transmitem sua sensibilidade humana.

Projeto “Watch Sculptures”, em que ele faz protestos e demonstra amor com cenas que aconteceram na vida real, usando suas mini esculturas.

Projeto “Waiting Room”, que Dominic criou em um escritório de um prédio histórico em Londres, antes que fosse demolido. A fofura é que ele “fantasiou” o quarto de branco, esperando para morrer.

A BRIGA: quem construísse o protótipo do Duomo mais bonito, ganhava a disputa.

Voltemos ao evento da Semana do Design. Os geeks começam a tuitar dando a largada para a disputa começar. Uma das meninas pega o microfone e começa a anunciar os adversários, como numa luta. Os italianos, que adoram um microfone, não param de falar.

No final das contas, quem ganhou o troféu foi Dominic. Ninguém entendeu as justificativas, mas talvez fosse mais simpático premiar uma pessoa. A máquina terminou o Duomo primeiro, uns 20 minutos antes, enquanto o humano ainda suava.

Algumas discussões surgiram entre plateia e organizadores. Considerações como: “Mas a máquina não trabalha sozinha, o rapaz está sempre mexendo nela, não vale”. Ou então: “É, mas o artista mal consegue respirar enquanto os donos da máquina tomam cerveja”. Também teve essa: “Essa máquina pode reproduzir vários idênticos”. Quem venceu então? Prefiro dizer que foi o tempo. Que podemos aproveitar de todas as maneiras: assistindo a uma máquina, sujando a mão na argila ou tomando uma cerveja. A escolha é nossa.

O vencedor do concurso e seu Duomo de argila ©Juliana Lopes