Jorge Grimberg - Google +

Miuccia & Britney

08/10/2013

por | MODA

Miuccia Prada tocou a nova música de Britney Spears no seu desfile Primavera/Verão 2014 em Milão. E tem mais: Britney cedeu o seu single – uma semana antes da estreia oficial – para o desfile com exclusividade. A canção com título “Work Bitch” começou a tocar no meio da apresentação para deleite (e choque) dos amantes da Prada. Afinal, em um desfile feminista e quase revolucionário, qual é o papel da Britney mesmo?

Backstage da Prada na semana de moda de Milão Verão 2014 ©Reprodução

Os bacanões de plantão sentem um prazer imenso em descobrir uma nova banda que ninguém nunca ouviu falar, um designer novo ou um artista desconhecido. Antes gostávamos de descobrir algo novo para nos sentirmos diferentes e especiais. Hoje gostamos de descobrir para compartilhar. Quem está à frente da informação ganha status de formador de opinião no seu grupo de amigos. O amante de moda é curioso por natureza e o senso de descobrimento e encantamento faz parte da nossa busca vital. Logo, entre os fashionistas-extremistas existe um preconceito com tudo que é muito popular e um tal de vira-o-olho para Britney Spears, Kardashians, Big Brother, etc.

Capa do single “Work Bitch” ©Reprodução

Essa separação entre o que é realmente cool e o que é realmente popular vem ficando cada vez mais frágil. Começou a perder força quando a Pamela Anderson desfilou para Vivienne Westwood (rainha do punk, tá?) e se concretizou quando Kanye West engravidou Kim Kardashian, que deu à luz o bebê North West. Kim não fazia parte da elite da moda novaiorquina e Kanye forçou sua entrada (de Givenchy florido) com debut no baile do MET, contrariando a poderosa Anna Wintour.

Voltando à Britney. O blogueiro, jornalista e editor contribuinte da “Harper’s Bazaar” americana, Derek Blasberg, postou no seu Facebook: “Britney Spears, poeta, é a Sylvia Plath da minha geração”. E completou o post, com um trecho da música tocada no desfile: “You want a Lamborghini / Sip martinis / Look hot in a bikini / You better work, bitch!” (Você quer um Lamborghini/Tomar martinis/Ficar gostosa num biquíni/ Melhor trabalhar, vadia!).

O que a Prada e a Britney têm em comum?

Nós vivemos em uma época em que cada pessoa é uma marca que vive alimentada por likes. Miuccia Prada e a Britney Spears são ímãs magnéticos do seu público e atraem milhões de likes com tudo o que fazem. O desfile da Prada é sempre o mais esperado da estação e é reproduzido infinitamente. Tudo o que Miuccia faz vira tendência. Britney Spears – mesmo depois de um surto em que raspou o cabelo, ganhou muitos quiilos e agrediu um fotógrafo – nunca deixou de fazer sucesso como cantora. Aliás, cada vez mais afiada, Britney pode ser acusada de ser cafona, não saber cantar, dublar, estar acima do peso de hot pants, mas os seus fãs são muito fiéis e suas músicas estão sempre no topo das paradas. A Prada, quando cria algo tão novo e revolucionário que ninguém entende, também está no topo das paradas da moda. Podemos incluir agora na lista de inovações de Miuccia (sim) o pré-lançamento do single da Britney, antes de todo mundo ouvir, em uma sala com os principais editores de moda do mundo.

Observar a evolução da Prada é fascinante pois a história da moda está sendo escrita diante dos nossos olhos. Enquanto Hedi Slimane recria Saint Laurent e Lagerfeld recria Chanel, Miuccia Prada cria Prada. Uma moda feita para a nossa época que interpreta nossos sentimentos e os transforma em moda. Britney também reflete a realidade dos nossos tempos. Um exemplo real do que o excesso de exposição na mídia faz com uma pessoa. A musa teve um colapso nervoso em público e uma volta por cima bem lenta – porém firme. No total, já são mais de dez anos de carreira. Sempre no topo.

As fronteiras entre o cool e o novo vs. o popular, o vulgar e o grotesco estão deixando de ter importância. O que Miuccia Prada está nos dando é uma carta de alforria para gostarmos de tudo que não é cool. Se a música da Britney teve um pré lançamento no desfile mais aguardado da semana de moda de Milão, a fusão de classes, estilos e culturas é a grande novidade do momento. Esse é um momento bacana para deixar qualquer preconceito de lado e abraçar as diferentes culturas como parte relevante da nossa história e, sim, referência de moda, e pra chegar lá we’d better work, bitch.

Para os que ainda não ouviram a música “Work Bitch”, número 1 em 35 países, assista ao vídeo abaixo:

Desfile Prada Primavera/Verão 2014:

Fashion Week do futuro

19/09/2013

por | TECNOLOGIA


Kanye West no desfile de Alexander Wang ©Reprodução

As redes sociais, as celebridades e os novos movimentos urbanos estão mudando o papel das semanas de moda. O consumidor final está cada vez mais ligado na moda e assiste aos desfiles, posta, dá opiniões e hoje todo mundo se tornou editor para os seus amigos na internet.

Em uma simples navegada no Instagram, eu acompanhei praticamente em tempo real todos os desfiles de Londres e Nova York, com vídeos, detalhes de produto e muitas opiniões. A fashion week era uma semana de trabalho fechada para um grupo de compradores e jornalistas – os especialistas – escolherem, criticarem, analisarem e desenharem a estação com antecedência para o consumidor final. Hoje em dia, alguns editores são super-stars, mas os estilistas, blogueiros e celebridades também são e a semana de moda, assim como a moda, se democratizou e hoje todo mundo tem acesso imediato.

Encomendas direto das passarelas, lojas pop up com os estilistas, transmissão ao vivo, shows de verdade na passarela — as capitais que sediam as semanas de moda passam a se apropriar da moda de maneira a atender o novo consumidor participativo.

Hoje, uma das maiores tendências de moda é a individualidade. É cada pessoa definir o seu estilo pessoal usando as marcas e os editores como fonte de inspiração para criar suas personalidades através das roupas. Daí o sucesso dos blogs. Inspiração de gente real com corpo real e um bolso não tão real, mas a inspiração fica mais palpável do que com modelos e atinge um grupo novo de consumidores de moda.

Para onde vamos daqui?

Os profissionais de moda ficam às vezes revoltados, escrevendo matérias em que reclamam, chamando até de circo as situações que ocorrem nas fashion weeks. Mas para os designers, todo esse agito só pode ser positivo. Indústrias criativas vivem da transformação e essa transformação é tão rápida que a cada temporada a interatividade dos desfiles com os consumidores muda de maneira surpreendente. Cada vez mais todos participam; ainda assim, a opinião de alguns editores dita as regras, mas não mais com a força de antigamente.

Contando que todos nós estamos conectados, marcas de varejo como Opening Ceremony e All Saints, estrearam na NYFW já em um momento de conversa com o consumidor final. As neo-celebridades, como Kanye West, Miley Cyrus e Miguel, vão de desfile em desfile com uma legião de fotógrafos atrás, profissionais ou amadores, e a ação é reportada imediatamente pelas redes sociais por milhares de pessoas no mundo inteiro, em russo, japonês, coreano e português.

Rihanna no desfile de Opening Ceremony ©Reprodução

Há 10 anos o consumidor nem assistia aos desfiles. Primeiro os desfiles passaram a ter cobertura por sites fechados para profissionais da indústria, como WGSN e Stylesight, logo sites como Style.com (e, aqui, o FFW.com.br) se consolidaram com os desfiles e hoje praticamente todas as mídias cobrem as semanas de moda com intensidade, do “The New York Times” à “Caras”.

A fashion week se torna cada vez mais um evento de mídia projetado no mundo inteiro e, provavelmente em pouco tempo, estaremos comprando diretamente das passarelas pelo celular em um grande show de moda para todo o mundo, sem mais separação. Todos querem fazer parte e todos farão.

Pop fashion

16/10/2012

por | MODA

“Vogue” America: Lady Gaga e Rihanna, respectivamente nas edições de setembro e novembro de 2012

Uma polêmica que cerca o mundo da moda há alguns anos é o uso constante de celebridades no lugar de modelos por revistas e estilistas.

Esse fenômeno – muito questionado por profissionais do setor – se consolida cada vez mais como nova regra para a moda global. Com as recentes capas da “Vogue” americana com imagens de Lady Gaga e Rihanna – ambas retornando à capa da revista em pouco mais de um ano – ficou muito claro que os tempos mudaram. A moda é feita para o povo e não mais para uma pequena elite e deve mais do que nunca abraçar a cultura popular.

O império americano é feito de celebridades. Elas despertam desejo, aumentam as vendas e conectam-se imediatamente com o consumidor através de suas músicas, seriados, filmes e também por causa de seus estilos e redes sociais. Sendo assim, marcas e editores usam o status dos artistas para vender seus produtos.

Kristen Stewart na campanha do novo perfume da Balenciaga

O Brasil ainda nada contra a corrente. As já tradicionais – e novas – publicações de moda usam praticamente apenas modelos em suas capas de revistas, assim como as grandes marcas de moda. É um conceito mais próximo da realidade francesa que da americana, mas será que não está na hora de editores e estilistas transformarem nossas celebridades em ícones de estilo?

Capas brasileiras de outubro/2012: modelos

Capas americanas de outubro/2012: celebridades

A moda brasileira precisa encontrar um formato integrado de estilo e vendas ainda muito pouco explorado. Da qualidade do desfile à campanha, chegando ao produto na loja. Os americanos são craques no que chamamos de full-circle, uma integração de moda-cultura-estilo-vendas que, sim, envolve celebridades para engajar o grande público.

Os europeus de alguma forma estão abraçando essa ideia, pois também precisam vender. Kristen Stewart é musa dos perfumes Balenciaga. A Prada apresentou sua coleção Outono/Inverno 2012 masculina com celebridades que também participaram da campanha. Miu Miu já trabalha faz um bom tempo com celebridades em seus anúncios. Chanel usou Lily Allen em sua campanha em 2009. Dior trabalha com musas – de Natalie Portman a Marion Cotillard – e as principais publicações de moda da Itália e da França já trazem celebridades estampadas em suas capas revezando com as modelos. A Gucci já usou Jennifer Lopez e também Rihanna em seus anúncios.

Chloe Sevigny para Miu Miu

Lily Allen para Chanel

É importante ressaltar que essas personalidades – com algumas excessões – foram transformadas pelas publicações e criadores. A maioria dessas estrelas não era ícone de estilo antes de suas relações com editores, stylists e estilistas.

Jennifer Lopez para Gucci e Marion Cotillard para Dior

Na edição comemorativa de 120 anos da “Vogue” americana – aquela com a Lady Gaga na capa – foi publicado um trecho do novo livro “Vogue: The Editor’s Eye”, que celebra os editores da publicação ao longo da sua história. O texto escrito por Hamish Bowles celebra o trabalho de Tonne Goodman, diretora de moda da revista, e a transformação que ela opera nas celebridades. “Os olhos infalíveis de Goodman têm desempenhado um papel na redefinição da imagem de quase toda celebridade que a revista considerou digna de celebração, em uma época em que a moda não é feita por mulheres elegantes socialmente ascendentes, mas por ícones culturais, de Lady Gaga a Michelle Obama”.

Muito mais que usar celebridades, estamos passando por uma transformação cultural em que editores e estilistas – profissionais que transmitem informação e tendências para o consumidor final – passaram a utilizar ícones populares para se comunicar melhor e aumentar seu público alvo.

Mas por que os criadores e editores de moda brasileiros insistem em usar somente modelos?

Existe uma linha de moda conceitual que valoriza as modelos. Além disso, há um certo desleixo com as celebridades no Brasil. Quando vemos as fotos de divulgação dos prêmios de TV e cinema no Rio de Janeiro dá uma certa tristeza. A impressão é que muitas atrizes correram, fizeram uma escova e compraram um vestido no shopping. Quando aparecem no tapete vermelho carioca, não parecem estrelas. Compare o Prêmio Contigo com o Emmy. Já pensou?

Podemos melhorar, mas para isso os designers devem apadrinhar estrelas, e os editores e stylists, educá-las e produzi-las.

O Baile Anual do Metropolitan em Nova York é o exemplo perfeito do modelo americano funcional. Cada estilista entra com a sua musa. Eles escolhem roupa, cabelo, styling, tudo. Não elas. Elas são transformadas em estrelas pelos criadores. Aí está a magia.

Alexander McQueen e Sarah Jessica Parker em 2006 e Lana Del Rey e Joseph Altuzarra em 2012

Em um momento em que os grandes estilistas globais são concorrentes diretos nos nossos shoppings, quem quiser continuar aberto e crescendo deve começar a pensar em negócios de moda e construção de marca de forma mais abrangente. Temos que consolidar nossos estilistas na mente de uma nova classe média com poder aquisitivo e abraçar a cultura local, ou seja: desde novela ao Carnaval, a moda deve usar a cultura para se promover.

Parece estranho, mas é um direcionamento concreto. O mercado no Brasil tem o desafio de se integrar e criar o nosso full-circle, que deve ir da sala de criação ao consumidor final, passando pelo desfile e campanha – usando modelos ou celebridades – já com olho no resultado. A criação deve ser integrada. É dever da indústria de moda educar e inspirar o mercado consumidor.

Bullett Proof

04/10/2012

por | CULTURA POP

Por Jorge Grimberg, em colaboração para o FFW

Sah D´Simone ©Reprodução

Ele tem apenas 25 anos e é de Londrina, mas já fundou um grupo de mídia com revista, site e web-tv nos EUA. Conheci Sah D´Simone por acaso na minha última viagem a Nova York e fui visitar o escritório da Bullett Media no Chelsea. Tive contato com a revista há um ano, quando comprei uma edição na banca do aeroporto JFK e entrei em uma viagem de inspiração como há muito tempo não acontecia.

Cada edição da revista trabalha um tema e cada sessão tem um símbolo gráfico que guia o leitor. O conteúdo vai de matérias de comportamento, novos designers, entrevistas e arte a celebridades com um styling ousado e contemporâneo, com imagens assinadas por fotógrafos novos e desconhecidos e grandes nomes. Além da revista, há o site com direito a Bullett TV, com uma linguagem bem nasty e autoral, um ‘luxo downtown’, como comentou o próprio fundador.  Leia abaixo entrevista que fizemos com Sah.

Capas da edição de Outono 2012 com Pharrel Wiiliams e Elisabeth Olsen | The Romance Issue ©Reprodução

Como você começou a Bullet?

Foi há dois anos. Eu tinha acabado de ser aceito para o programa de Fine-arts na Parsons em Nova York, e ao mesmo tempo estava trabalhando como stylist para revistas coreanas e fazendo consultoria criativa para novas bandas em Nova York. Conheci a Erin & Nick Ralph e o James Orlando e começamos a conversar sobre as nossas frustrações com o mercado de revista e mídia em Nova York. Foi então que surgiu a ideia de começar esse projeto, que seria uma companhia de mídia com uma revista trimestral, um website pra criar uma comunidade social e a parte da TV online. Sentimos que havia uma lacuna no mercado de mídia para o “young international taste-maker”. Trabalhamos dia e noite por seis meses no meu apartamento no East Village. Éramos seis pessoas em um apartamento de um quarto com não mais que 50 metros quadrados. Depois de quase um ano de muita dificuldade e da separação entre os parceiros Erin and Nick, começamos em nova direção. Estamos nos esforçando para trazer um novo olhar para uma indústria que tem usado o mesmo formato de transmissão há anos.

Quais os maiores desafios em começar um business em Nova York sendo brasileiro? 

Acredito que ser brasileiro ajudou um pouco! Nós, brasileiros, temos muita criatividade e versatilidade. O maior desafio era tentar fazer qualquer coisa artística no mundo de mídia e revista, especialmente porque eu não tinha experiência em publicidade/mídia. Agora, quando olho para trás, vejo que isso foi ótimo, porque não segui os caminhos tradicionais. As nossas ideias nunca foram convencionais. Foi o que chamou a atenção dos nossos investidores e das agências de publicidade.

Elisabeth Olsen | The Romance Issue ©Reprodução

A linha editorial da revista é bem diferente da maioria das publicações. Existe sempre um estímulo para criação do novo nas páginas da revista? Como vocês desenvolveram esse conceito para ser diferentes em um mercado super saturado de informação?  

O mundo de mídia e revista tem trabalhado com os mesmos formatos de apresentação por muito tempo. A nossa geração é super informadaO que a “Bullett” explora é a mistura do luxo com a cultura “downtown”, trabalhando com talentos renomados e super novos. Cada revista tem um tema específico e ao mesmo tempo vasto. Isso ajuda a criar o clima que sugerimos a cada edição. Estamos criando uma discussão e um produto para a nossa própria geração.

Como você sente que os americanos vêem a moda brasileira hoje? 

Infelizmente, eles conhecem a moda brasileira só superficialmente – fora os grandes nomes, só conhecem as top models. Eu acho que temos que fazer alguma coisa pra mudar isso. Os investidores deveriam valorizar mais o mundo da moda e das artes. Tenho certeza que existem grandes talentos no Brasil que poderiam ser revelados se recebessem o investimento adequado.

Como é começar hoje um negócio em Nova York, onde já existe muito de tudo? 

O fato de começar um negócio sem experiência não é recomendável, mas na área de mídia e revista isso pode ajudar, contanto que você tenha uma equipe com a mesma vontade de inovar e de introduzir novos conceitos. Nós não olhamos as celebridades, a arte ou a cultura como um simples tópico. Tudo o que fazemos é colaborativo e cru. A colaboração é enorme entre a nossa equipe, com todos que participam do “making of” de cada projeto, das menores matérias até as histórias de capas. Sempre tentamos fazer histórias que tenham uma narrativa. 

Alexander Skarsgart | The Sin Issue  ©Reprodução

Alexander Skarsgart | The Sin Issue ©Reprodução

Blake Lively | The Sin Issue ©Reprodução

Foto do ensaio In the Name of Love ©Reprodução

Christina Ricci | The Cosmic Issue ©Reprodução

O que você está olhando no Brasil hoje em moda, arte ou design? O que tem chamado sua atenção?

Acho o Ernesto Neto incrível, arte imersa é minha favorita! Vik Muniz eu adoro também. Acompanho o trabalho dos irmãos Campana, acho bárbaro!! A modelo Alícia Kuczman, paranaense como eu, está no seu melhor momento. Acompanho o trabalho do fotógrafo Jacques Dequeker. Sempre que tenho tempo vou ao desfile da Osklen e do Alexandre Herchcovitch em Nova York.

A Bullett Media tem revista, site, tv e redes sociais. Qual a sua visão sobre o futuro da mídia?

Nessa velocidade que estamos, com o crescimento do poder da internet a cada dia, acho que tudo será imersivo e interativo, vivendo-se no mundo digital.

+ bullettmedia.com

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Guia fashion BsAs

19/09/2012

por | MODA

Por Jorge Grimberg, em colaboração para o FFW

Ay Not Dead Primavera/Verão 2013

Maria Cher Primavera/Verão 2013

Crescendo no Brasil nos anos 80 existia uma invejinha da Argentina. Mais cool e sofisticada que o Brasil, a Argentina era um pedacinho da Europa na América Latina.

Nos últimos anos, o cenário econômico mudou e passamos de primos pobres para primos ricos e a Argentina entrou em um período de isolação fashion. Enquanto em São Paulo abriram lojas gringas sem parar –  desde American Apparel até Prada – em Buenos Aires você quase não encontra produtos que não sejam Made in Argentina.

Isso é uma oportunidade para os criadores locais, pois não tem essa competição internacional que está modificando a indústria aqui, mas esses mesmos designers também sofrem com a falta de uma indústria têxtil forte e escala de produção, já que o território argentino é menor que o nosso.

Vero Alfie e Lupe Primavera/Verão 2013

Mesmo com todas as dificuldades econômicas – o dólar americano a 5 pesos impede que os argentinos viagem com a mesma facilidade que nós brasileiros — a sofisticação continua reinando para algumas poucas e boas marcas e designers locais.

Jazmin Chebar

Para um mercado local muito restrito, existe uma nova geração de designers em Buenos Aires que se juntaram com pesos pesados da indústria local para criar um grupo de moda em Palermo Viejo – mais conhecido como Palermo Soho — o bairro mais low-profile-super-cool de Buenos Aires.

O grupo é pequeno e as marcas acabam sendo exclusivas, pois quase todas só existem na Argentina mesmo. Os estilistas trabalham em ateliês que ficam sobre as lojas e têm poucos pontos de vendas. O trabalho é local e artesanal. Para quem vai pra Buenos Aires, segue o mapinha do Circuito de Diseño de Palermo Viejo e uma seleção dos looks mais bacanas das novas coleções de Verão 2013.

(clique para ampliar)

Vero Alfie

Lupe

Jazmin Chebar

Hiuja 

Felix

Maria Cher

Paula Cahen Danvers

CORAGROPPO

Ay Not Dead

Da Zâmbia à Itália, análises de um mundo mutante


Uma girafa na Zâmbia e as grutas mágicas nos arredores de Capri

Meninos italianos na escadaria em Capri e meninos na escola em Mwfue

Esse ano tive a sorte de fazer duas viagens para locais totalmente contraditórios. Primeiro fui à Zâmbia, na África, e duas semanas depois para um barco no Mediterrâneo, passando pelas ilhas de Sardenha e Capri, na Itália.

Mundos opostos? Passado e futuro? Vamos por partes.

Meninos na escola em Mwfue, Zâmbia

África. Um safári organizado pelos meus amigos Josh Rubin e Evan Oresten, fundadores do site Coolhunting.com de Nova York. Foi a primeira viagem organizada por eles, que são pioneiros no uso da expressão coolhunting. Além de conhecermos pessoas fantásticas e estarmos realmente cercados por animais – com leões e hienas nos assombrando nas noites dos acampamentos onde dormíamos – visitamos as comunidades locais, conversamos com crianças em uma escola e descobri um pouco sobre como é viver em uma cidade como Mwfue, na Zâmbia.

Cool Hunting: nosso grupo posando para uma foto na árvore

A capital da Zâmbia se chama Lusaka e quando estávamos aterrizando, a paisagem não remetia em nada à capital de um país. O cenário é muito árido. Tudo parece ser em tons de marrons e terra. De lá, voei para Mwfue, onde foi a nossa base. Nos hospedamos em um acampamento chamado Bush Camps, que tem uma sede com vinte quartos, aproximadamente, e mais alguns acampamentos separados com apenas quatro quartos cada um – sem energia elétrica – no meio do nada, literalmente.

Bush Camps em Mwfue, Zâmbia

Na cidade de Mwfue, fomos visitar a escola local e, no caminho, passamos por toda a comunidade. Parece que as ruas não têm nomes, as casas não têm água e as pessoas não têm informação. Quando falamos de África, pensamos que, em comparação ao Brasil, aqui também temos pobreza, mas o que eu senti de diferença é o acesso à informação.

Meninas se apresentando na escola

No Brasil, todo mundo tem Rede Globo e existem cidades muito avançadas. Na África, poucos países têm recursos. Na Zâmbia, existem apenas dois canais de TV, sendo que pouca gente tem eletricidade — logo, ninguém tem acesso. Nem nos acampamentos que ficamos – que eram super luxuosos – tínhamos energia elétrica.

Usávamos energia solar e era divertido ver a turma de coolhunters com os iPads e iPhones tentando escolher o que carregar, já que só podíamos carregar um aparelho por dia e tinha que ser enquanto o sol estava brilhando. Enfim, se começar a comparar com o Brasil vou precisar de dados, e a história que quero contar aqui é mais comportamental.

Conversei com meninos e meninas de 2 a 25 anos na escola. Metade dos alunos da escola que visitamos são órfãos e vivem em um alojamento na escola. Uma boa parte tem o vírus HIV, segundo me contou um dos responsáveis do Bush Camps. Todos muito doces e simpáticos, vinham conversar com o grupo, pediam nosso telefone e endereço – até agora não entendi por que, daqui a pouco vai aparecer um na minha casa – e tinham muita curiosidade, queriam saber de onde éramos e o que fazíamos. Quando disse que trabalhava com moda, um menino perguntou: “O que é moda? Como posso trabalhar com isso?”.

Fui me dando conta de que não existe indústria lá. As mulheres se vestem em tecidos amarrados como saias e camisetas. Existe uma falta de perspectiva muito grande. Não há conhecimento, nem possibilidades e nem referências. Aqui no Brasil temos tudo. Um menino brasileiro de origem humilde tem onde se inspirar e buscar inspiração. Lá não tem direcionamento.

Quando perguntei o que faziam no fim de semana, um dos meninos mais velhos respondeu: “Não podemos sair à noite por causa dos animais”. E aí eu me dei conta de que não existia separação de onde estavam as zebras e os hipopótamos e de onde a população morava.

Os animais são maravilhosos. Entendi tudo sobre moda safári. Você realmente precisa usar roupas caquis e verde militar o tempo inteiro. É ordem do acampamento para você se camuflar na paisagem. As zebras, leopardos e girafas são inspirações de estamparia toda temporada e são realmente lindas. Como o safári era cool, a estilista da Califórnia Geren Ford customizou jaquetas vintage com couro e camurça marrom e detalhes em verde para o grupo inteiro e o próprio Cool Hunting desenvolveu botas especiais com a Vintage Shoe Company e malas em parceira com a Tumi. Isso foi chique. Além de um fotógrafo da Pentax que nos ensinava a tirar fotos e os inesquecíveis bares de Veuve Clicquot no meio de rios que estavam secos pelo inverno local – com taças de cristal vindas de Paris.

Malas Tumi e botas Vintage Shoe Company, ambos em colaboração com Cool Hunting

Capri. Passadas duas semanas, voei para Olbia, na ilha de Sardenha, na Itália. À convite de um amigo que conheci na Zâmbia, passei quatro dias em um super iate high tech passeando pelas ilhas do Mediterrâneo, passando por Capri e terminando em Nápoles.

Praia em Capri

O lugar que mais gostei foi Capri. Capri é uma ilha com apenas 10km². Pode ser considerado um dos lugares mais charmosos do mundo com suas mini praias com cavernas naturais. Descobri que a ilha é um destino de verão europeu desde o século 18. Tem restaurantes e hotéis ultra charmosos e ainda por cima, um centrinho bem antigo com mini lojas da Chanel, Prada, Hermès, Missoni, etc. Lojas super pequenas, mas com produtos super exclusivos que os italianos e franceses enviam especialmente para essas locações. Capri ficou famosa no cinema dos anos 60. Me senti num filme de Godard. As ruas minúsculas só permitem um carro por vez e as motos quase se batem com os táxis em cada curva.

Quisisana Grand Hotel | Capri

As mulheres ultra bronzeadas com cabelão jogado pro lado, mini shorts e joias. Os italianos super charmosos. A ilha tem história e você chega lá e automáticamente quer fazer parte daquilo.

Zâmbia e Capri. Em Capri não tem mais o que construir. Tudo é antigo e nada pode ser transformado. Na Zâmbia não tem nada e tudo pode ser construído. Como será que vai ficar nosso mundo no futuro?

Eu entendi a Angelina Jolie, Madonna, Sandra Bullock e tantas outras. Eu queria trazer os meninos para casa!

Eu com as crianças

Vindo da Europa, sente-se a crise. Os jovens realmente não trabalham mais e vivem com incentivos do governo. O povo sabe viver bem. Desfrutam a vida e as cidades permitem isso, mas ao mesmo tempo, não se vê mais crescimento. O governo inglês apresentou seu crescimento econômico para 2012, que mesmo com as Olimpíadas, será 0%. Mas o povo está nas ruas curtindo e na Zâmbia ninguém sai à noite por causa dos animais à solta.

Quanto contraste! Consigo entender por que o Brasil é a bola da vez.

Fotos por Jorge Grimberg, Kerrick James e Coolhunting.com

+ Álbum Cool Hunting com fotos da viagem

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