Andre Rodrigues - Google +

A guerra dos mundos

via @randreh

A colagem “Daft Punk Vai Vir Tomar Café”, feita pelo @Romeuuu especialmente para esse post

Foi mais que divertido acompanhar o furdunço em torno do Daft Punk neste último fim de semana. Hehehe.

Pra quem perdeu o bonde, o boato surgiu com um “conhecido” dizendo que o duo francês de música eletrônica iria se apresentar durante o show do Phoenix, no Festival Planeta Terra, em São Paulo, supostamente repetindo a dose de uma aparição não-anunciada numa apresentação da mesma banda no Madison Square Garden, em Nova York. Assim, na intenção de mentir mesmo, descaradamente. Era pra ser uma piada.

A coisa começou a esquentar no Twitter com esse e aquele usuário garantindo que tinha “fontes seguras”. Aqueceu quando gente de mais credibilidade entrou na roda. Temperatura máxima quando o maior jornal do país publicou uma notícia na qual a assessoria de imprensa do evento garantia que, sim, eles estavam em São Paulo, e que se fossem ao festival seria em caráter “surpresa”. E dá-lhe balde d’água fria no sábado, quando o Daft Punk nunca subiu ao palco.

A essa altura, não importa mais quem inventou o que.

Enxergo isso como uma oportunidade de reaprendermos _principalmente os jornalistas_ como mergulhar nesse oceano de informações que é a internet. É muito fácil perder o fôlego, se afogar. Principalmente se você, companheiro, gosta de dar seus saltos ornamentais: o papel do jornalista não é se consagrar com uma notícia, exibir sua lista de contatos, acertar no palpite, propagar boatos, contabilizar audiência custe o que custar. Nosso papel é informar. Ponto. E quando informamos com imprecisão, não estamos cumprindo o nosso papel.

É muito diferente do que Orson Welles fez com a sua transmissão radiofônica, “A Guerra dos Mundos”, em 1938. Welles era um cineasta. Cabia ao seu papel recriar a realidade. No caso do Daft Punk, a única semelhança com Welles foi a “histeria coletiva”: teve gente que VIU (?) a dupla almoçando aqui, passeando ali…

Esse episódio tem um pouco a ver com o que a Erika Palomino escreveu aqui nessa Pensata, e levanta um questionamento meio sério: quantas notícias lemos diariamente? E quantas delas foram apuradas nas coxas? No fogo cruzado em que sites disputam cada milissegundo da atenção dos internautas _como se esse micro fragmento de tempo significasse algo de fato na existência humana_, muitas vezes quem sai ferido é você, leitor. É um Vale Tudo: mais distante da divertida novela de Odete Roitman e bem mais próximo de um Octógono onde socos, pontapés e sangue contam como bônus artístico.

A ética profissional é um voto sagrado de todo jornalista. É uma coisa que a gente aprende estudando. Leia Nietzsche, mas não para encontrar as suas famosas “frases de agenda”, nem só pra dizer que leu _tudo na vida tem que ter verdade. Converse com seus pais, seus irmãos, seus amigos, seus amores: ética também é uma coisa que a gente aprende em casa, na rua, na vida. Não no Facebook. Muito menos no Twitter.

O povo pode inventar o que quiser, sejamos espirituosos: encarar a vida com bom-humor é muito melhor! Mas é importante saber que tem hora pra rir, e que toda piada tem seu prazo de validade. Os veículos com um pézinho no sensacionalismo não vão mudar _eles precisam entregar “impressões” para seus anunciantes, gerar “pageviews”. Quanto mais quente… melhor? Os freaks do Twitter também não vão mudar: eles querem ganhar RT, querem estar no TT, querem + e + followers. Quem deve mudar é o internauta, que tem ao alcance de um click o direito da escolha.

Seja o editor das coisas que você acessa, das pessoas que você segue, do conteúdo que você absorve.

Sui Generis

04/11/2010

por | MODA

via @randreh

collage-generos-by-©RomeuuuColagem by @romeuuu

Essa coisa de “gêneros” _que foi pauta para o mais-que-querido-e-competente repórter Luigi Torre aqui no FFW_ sempre esteve muito acesa na minha cabeça. Do ponto de vista clínico, entendo pouco do assunto, quase nada: não sei se o “gênero” é uma condição biológica, uma filosofia, um estado de espírito, uma escolha. Mas sei que, pra mim, a “diferença” sempre foi algo absolutamente natural, parte da minha órbita.

Tudo isso via cultura pop.

A minha primeira lembrança do tema vem do Neil Gaiman _escritor norte-americano_ e de sua série de quadrinhos “Sandman”. Um dos personagens, Desejo, era representado por uma figura masculina/feminina. No roteiro, ela(e) é irmã(o) gêmea(o) de Desespero. Desejo vive num lugar chamado “O Limiar”, e é descrita(o) como sendo tudo aquilo que você já quis ter. Seja lá quem você for. Seja lá o que você for. Por isso Desejo não pode ter gênero. Tão simples, mas tão genial: uma entidade assexuada, mas que pode assumir o sexo que quiser, e que habita um local que fica na fronteira de tudo. Uau.

Também cresci soterrado em pilhas e mais pilhas de mangás e animes, sonhando com sushis, sashimis, bonsais, hideogramas, hentais, yaois. No Japão, a questão do gênero sempre foi abordada com um requinte extra de vanguardismo. O próprio teatro kabuki, em sua gênese no século 16, tinha homens no palco com vestimentas femininas. Tecnicamente, o estilo de desenhar japonês não existe sem a androginia, sem a transvestimenta, sem esse gender bender _para os mangakás, virar o sexo do avesso é via de regra. Até mesmo os mais conservadores, tipo o Osamu Tesuka, criador de “Astro Boy” e apelidado de “o deus do mangá”, escreveu uma história intitulada “A Princesa e o Cavaleiro”. Nela, a personagem feminina precisa fingir que é um homem para ter o direito de ocupar o trono. O desenho passava aqui no Brasil em meados dos anos 1980, e foi um grande sucesso.

Uma coisa que nunca chegou aqui no Brasil foram os astros do J-POP e do J-ROCK, movimentos musicais importantíssimos no Japão. Uma pena.  Eles dão uma aula de cross dressing, deixam nosso querido _e valente!_ Laerte no chinelo. Mana, guitarrista do grupo Malice Mizer, era macho de respeito que se transvestia de gothic lolita pra tocar. Ficava parecendo uma bonequinha, um bibelozinho possuído por Jimi Hendrix (em suas devidas proporções, claro).

Descendo a ladeira da memória, vieram Shun em “Cavaleiros do Zodíaco”, Leiga e Hyouga em “Shurato”, “Bronze & Zetsui”, Olho de Peixe em “Sailor Moon”. E a pergunta: Eram homens? Eram mulheres? Eu ainda era muito, muito novo quando vi o Boy George na televisão pela primeira vez. Foi um baque. Pow. E de novo: Era uma mulher? Era um homem? Era um gênio. Daí fui buscar gente que tinha feito isso antes mesmo de eu nascer, tipo Annie Lennox e David Bowie, e outras épocas _como os anos 1970_, onde “todo tipo de amor era válido”.

Veio também o Marilyn Manson, primeiro em sua fase horrenda, macabra _”Portrait of an American Family” era um pesadelo em forma de disco. E, de repente, ele e sua trupe (destaco aqui Twiggy Ramirez, sempre vestido de boneca assassina) se tornaram praticamente uma religião. “Mechanical Animals” foi lançado bem na época em que eu estava começando o colégio. Todos os colegas de sala tiravam o maior sarro, esbravejavam ódio contra o artista que aparecia na capa do disco nu, sem órgãos genitais, com peruquinha vermelha e seios brotando de uma fisionomia alienígena. A raiva da turma só era maior quando o vídeo de “Dope Show” ficava em #1 lugar no Disk MTV. E foram muitos dias de raiva: o clipe não saía do topo das paradas aqui no Brasil. Na MTV também ouvi sobre o Placebo, “uma banda que tinha um vocalista andrógino”. E o VJ abria um parêntesis pra explicar o que significava androginia: andros (homem) + gyne (mulher).

“Constantine”, HQ que foi adaptado para o cinema com casting estelar, se tornou uma referência máxima: no cinema, a über andrógina Tilda Swinton interpreta com louvores o arcanjo Gabriel. Porque um anjo, como todos sabem, não tem “gênero”.

Também é muito fresca a lembrança que eu tenho da Marcelona na porta dos primeiros clubs que frequentei em São Paulo, no comecinho dos anos 2000. Again: Era um homem? Era uma mulher? É uma das pessoas mais queridas que já conheci. O mesmo aconteceu com o Johnny Luxo. Ainda morava em Santo André (cidade que eu carinhosamente apelidei de San Andreas) quando Regina Casé apresentou Johnny no programa “Brasil Legal”. A pergunta que me fiz, você já sabe. Ele se tornou um ídolo, hoje um grande amigo. O mesmo vale para o performer Alisson Gothz, que se aproxima muito dos astros da montação J-POP.

E essa nova geração de gender benders? A revista “Candy”, Andrej Pejic, Lady Gaga, Lea T., Felipe Abe, Uni Corrêa, Renata Bastos, Caio Tavares, a trupe dos Underaged Heartbreakers (não poderia deixar o vampiro-mirim Adler David de fora dessa lista) até a Katylene, que faz uma transgressão apenas virtual de “gênero”. Não importa se são meninos, se são meninas, se são gays, se são heteros. Que tipo de pergunta é essa??

Oscar Wilde escreveu num dos seus livros mais legais, “O Retrato de Dorian Gray”, que quem se define, se limita. Isso sim é filosofia pra vida. É um mantra de tolerância que todos deveriam praticar. Essa conversa sobre “gêneros” na moda _no mundo_ não é novidade, mas muito me interessa. Se interesse também.

Aprendi em casa que as outras pessoas são “gente como a gente, filho”.

Essas palavras do meu pai ecoam até hoje.

Muitas vezes num som ensurdecedor.

Pensata da Palô #28: Dez coisinhas sobre a temporada de Paris

via @ErikaPalomino

Seguem alguns “penchamentos” que queria dividir aqui com vocês sobre a temporada de verão 2011 de Paris. Do que, por algum motivo, gostei.

1. Balenciaga
Que coisa faz o Nicolas Ghesquière a cada temporada com a gente, não? Sou meio deslumbradinha por ele, confesso (bom, eu e a torcida do Flamengo, como se diz no Rio). Agora ainda mais, porque ele mostrou peças e valores que têm bastante a ver com minhas vontades atuais. Punk, atitude de rua, garotas invocadas, plásticos, texturas, layers inventivos… Gosto do leve toque pauperista Comme des Garçons também (ando gostando de um mendiguismo).

2. YSL
Chique, moderno. Lapidado. A Cathy Horyn disse que Stefano Pilatti não desenvolveu seu estilo; uma marca própria na casa. A coleção é desejável e o desfile vem cheio de energia. Na temporada em que o nome Yves Saint Laurent é mais falado do que merci beaucoup pelos fashionistas (a exposição, você sabe), Pilatti não fez feio, não. E não é cool a imagem dele entrando pra agradecer mostrando os braços tatuados? Sexy. Updated. Sem mofo. E bem YSL.

3. Chanel
Também veio com um mendiguismo no começo, né? Mas chique, claro. E Chanel. Bom, com a grandiosidade armada pela marca, claro que todo mundo amou ver o desfile. Gosto das plumas, do preto e branco, adoro quando entram as cores (apesar de não gostar das estampas). E como KL consegue fazer aquilo jovem, não? E bom mesmo ver Inès de La Fressange de volta à maison. A palavra aqui é desempertigado. Coisa difícil quando se tem uma herança como a de Chanel. Mas bem que Lagerfeld podia não mostrar o masculino.

4. Miu Miu
Tão esquisito que se destaca. E quem está desenhando? Parece um encontro de Marcelo Sommer com Giselle Nasser. As estrelas são bonitas, as cores, os arabescos… Tem moda, tem um senso de “nowness” que me intriga, mas algo me parece fora do lugar.

5. Lanvin
Alber Elbaz, o estilista mais FOFO do mundo, deu uma chacoalhada em seu design. Não é minha coleção favorita dele, mas tem fundamentos fortes. Leveza, movimento, a coisa dos plissados, o controle. E tem roupas que realmente você tem vontade de comprar. Eu tenho, ao menos. Quem tiver oportunidade de viajar e ver as lojas da marca deve conferir o que eles andam fazendo em termos de experiência de marca e de varejo. Tipo um luxury que não intimida. Tanto.

6. Haider Ackermann + Rick Owens
Ainda na tendência drama, taí um estilista que vem crescendo a cada temporada. Desconstrução, moda conceitual, feminilidade, masculinidade… Uso sábio e sóbrio das cores, lindos neutros. E o look de abertura, um remix de perfecto de tirar o fôlego. Bom contraponto, sempre, para outro nome outsider da temporada parisiense, Rick Owens (outsider porque segue suas vontades, mesmo que na contramão das tais tendências). Há quem se queixe que ele faz sempre a mesma coisa, mas eu me interesso muito por ele. A novidade de seu verão está num inédito otimismo, na maior leveza de sua roupa sempre tão intelectualizada. Lindo.

7. Céline
Um dos cases da estação, com seu frescor descomplicado impresso com a feminilidade e a mão de Phoebe Philo (ela está fazendo exatamente o que era para ser feito agora, na marca que parecia não ter mais salvação). Prepare-se para ver essas roupas copiadas sem dó nem piedade por aí. Bingo três vezes.

8. Stella McCartney
Coloque neste combo Stella McCartney, com menos acertos, mas que consegue bons momentos na  onda da simplicidade e do nem-aí. Vai ser reproduzida à vera também. Gosto dos basics, da ideia dos índigos, e principalmente nos terninhos com suaves variações de tons pastel, mas acho a estamparia de limões uma bobagem. As fendas nas coxas podem ficar vulgares, mas sabe que no vestido longo de limão funciona?

9. Cacharel
A comunidade da moda está dando um apoio para o estilista Cédric Charlier, que acerta também nesse caminho do descomplicado, essa tendência meio nada. Com ênfase nos detalhes, o minimalismo romântico, esses bordões da estação. Lindas cores e proporções corretinhas. E olho nele.

10. Isabel Marant
Você sabe, né? É a marca de que as modelos mais gostam, que deixou de ser o best kept secret de Paris e abriu uma loja em Nova York. Por conta desse novo apelo de varejo, ela veio um pouco mais comercial do que de costume, mas me interessa a nonchalance e a atitude (é, a palavra retornou ao vocabulário da moda). Observe como a silhueta vem bem justa ao corpo nos tubinhos, provando a diversidade da moda hoje. E note que sua “inspiração” é a mesma que de Rick Owens: a Califórnia. Waal.

beijos fashionísticos

Palô

Modelgeddon #FAIL

05/10/2010

por | MODA

Muita preguiça desse vídeo da “LOVE” feito numa colaboração entre Katie Grand + James Lima + Versace.

O remix de “Kill Bill” + “Sin City” + “Inception” embolou, desandou, não deu samba. Só gostei do nome, uma brincadeira com o “Armageddon” bíblico.

Só vale assistir pra ver 2 tops brasileiras belíssimas na fita _Alessandra Ambrósio e Ana Beatriz Barros:

Pensata da Palô #26: que venha logo este verão 2011!

22/09/2010

por | MODA

via @ErikaPalomino

Em tempo de temporada, nem dá pra fixar o pensamento (ou o penchamento) numa coisa só. Daí essas mal-traçadas algo fragmentadas. Curtas como tweets. Fritas, rolinhos de Primavera.

Talvez os blogs, talvez a moda das ruas, talvez a falta de grana, talvez o tédio. Talvez a megadifusão da internet. Talvez o fast-fashion _veneno e vacina_: Alguma coisa volta a acontecer na moda das passarelas. Começou em Nova York, e não necessariamente com Marc Jacobs, mas senti, daqui (ainda bem), alguma centelha. Que continuei confirmando em Londres.

Talvez meu desinteresse pelas eleições aqui no Brasil tenha contribuído, não sei também. Mas confesso que me animei mais em acompanhar (sem ter apenas o drive da obrigação profissional) o que está rolando por aí.

Curti muito o minimalismo de Francisco Costa para Calvin Klein (que, incansavelmente criativo, reforça e renova os credos da marca com seu estilo); a elegância inequívoca de Narciso Rodriguez e o excentrismo artsy da Rodarte, enérgico mas cheio de poesia. Bom pra moda americana.

Em Londres, me empolguei super com o refresh na página de Christopher Kane, delicioso remix de passado e futuro, e com os novos nomes que vem ultracoloridos como em Mary Katrantzou; futuristas (e contemporâneos) como Peter Pilotto, com o retorno sempre loucurinhas e deliciosamente nada-a-ver de Giles Deacon.

Off-catwalk, olho no biker da Burberry, que chacoalha o alto luxo com seu explícito relacionamento com o online e o e-commerce (certamente vai influenciar um monte de marca boa por aí). E claro que emocionou a homenagem a Alexander McQueen (com a surpreendente parada de modelões dos convidados, tendência luto-chic total _o que era Daphne Guinness???). E a volta de Björk.

2011/10/3708_daphne-guinness-mcqueen-memorialA herdeira/fashionista Daphne Guinness com seu look épico no memorial em homenagem ao estilista Alexander McQueen ©Reprodução

Ah, que bom ter Björk entre nós, cantando Billie Holiday no memorial, e na festinha em sua homenagem do amigo Jefferson Hack (pra sua capa na “AnOther Magazine”). Sopram os ventos de suas novas canções. E, com tudo isso, quem sabe algum alento de beleza nesses estranhos dias de setembro parecendo agosto. Num ano que parece correr, sombria continuação de um 2009 que todos queremos esquecer. Xô 2010. Que venha logo este verão 2011.

Beijos primaveris,

Palô.

DO ask, DO tell

Tá vendo como gente assim é que movimenta o mundo?

Go, Gaga:

+ http://www.sldn.org/blog/archives/gaga

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E daí que você já viu isso antes?

via @randreh

Já disseram tudo _ou nunca se diz tudo?_ que havia pra ser dito sobre a Lady Gaga. Aqui mesmo no FFW, a primeira matéria que publicamos sobre ela foi no final de 2007 (via @gab_marchi, antena ligadíssima em cultura pop na brilhante equipe que eu comando).

Lembro que nem “Poker Face” havia sido lançada, Gaga afirmava ser uma extraterrestre em missão na Terra (tinha uma série de vídeos no You Tube sobre isso, mas já sumiram com tudo), não tinha perfil no Twitter, zero prêmios no currículo e, o mais bizarro, sua gravadora no Brasil dizia que “ela provavelmente não seria lançada por aqui porque era muito alternativa”.

Então.

Estamos em 2010 e Gaga é o maior fenômeno da cultura pop, da música e da moda _do mundo!_ desde, sei lá, Madonna ou Michael Jackson? Tem a coisa do figurino-apoteose, tem a coisa do videoclipe-filme, tem a coisa da internet-magia. Tem alguma coisa aí. O querido Marcelo Sebá explicou num texto que publicamos aqui esse magnetismo não-quantificável que a torna tão absolutamente qualificada para ocupar o trono.

2011/10/3052_lady-gaga-sunday-times-camille-pagliaLady Gaga no recheio da revista  dominical do jornal americano “Sunday Times”: alvo de chumbo-grosso ©Reprodução

Mas nem todo mundo tem motivos para celebrar. Camille Paglia, feminista americana e autora de best-sellers sobre o tema, publicou um texto DE-TO-NAN-DO até o último fio de cabelo de Stefani Joanne Angelina Germanotta, ou, como todo mundo a conhece, Lady Gaga, uma “menina que teve uma vida incrível, nunca passou por nenhuma dificuldade notável e ainda estudou no mesmo colégio particular onde estudaram as irmãs/herdeiras Paris e Nicky Hilton”.

Para a escritora, Gaga representa o fim da revolução sexual. Camille atira seu poderoso arsenal sem dó nem piedade: “Lady Gaga não é sexy, ela sofre de uma disfunção sexual”. No texto que foi publicado só parcialmente no site do “Sunday Times”, a cantora é dissecada viva e ganha um novo título: “Déjà vu diva”. A diva do “eu já vi isso antes”. A feminista cita Marlene Dietrich, Madonna, Janis Joplin, Tina Turner, Cher, Jane Fonda no papel de Barbarella, Gwen Stefani, Pink, Isabella Blow e Daphne Guinness como referências de mulheres que facilitaram a vida de Lady Gaga na hora de construir a sua imagem.

Dá pra engordar essa lista com David Bowie, Boy George, Jimi Hendrix, Prince, Grace Jones, Cyndi Lauper e ____________ (<– complete o espaço com praticamente qualquer artista pop). Além disso, depois que Lady Gaga conheceu Nicola Formichetti, não tem como não olhar para as bandas de J-POP, as goth-lolitas e todo aquele povo que vive numa realidade paralela no fantástico bairro de Harajuku, no Japão.

2011/10/3057_ladygagaandfriendsAs mil e uma fontes de inspiração de Lady Gaga numa colagem extraordinária do artista @romeuuu ©Romeuuu/FFW

O discurso de Camille Paglia pode ser apenas mais um desses rancores que jornalistas “antigos” alimentam contra tudo aquilo que é “novo”. Mágoa de caboclo. Mesmo assim, Camille é uma das críticas culturais mais respeitadas dos EUA _e uma das mulheres (públicas) indubitavelmente mais inteligentes do mundo.

Esse caldo já começou a engrossar, por exemplo, com Cathy Horyn, crítica de moda do “NYT” que na sequência de Camille publicou uma resenha com o título “Gaga-free” (livres de Gaga), onde argumenta que “a moda está ficando farta da frieza intergaláctica de Lady Gaga. Queremos algo mais próximo da nossa realidade terrestre”.

Eu, particularmente, gosto da figura da Lady Gaga. Essa coisa de mentir que venceu na vida against all odds, de estar sempre com uma puta cara de tédio, de fingir que foi excluída pelo mundo, de ser total produto e nada _ou quase nada_ verdade. É uma caricatura que só. E é também uma figura de linguagem, uma metonímia do mundo em que vivemos _do mundo em que eu vivo, o volátil mundo da moda. Ela é a parte que representa o todo. Lady Gaga é o que os cientistas chamam de “amostragem”.

Mas eu gosto mesmo é desses questionamentos que ela desperta, dessa discussão que ela causa. Todo mundo quer ter uma opinião quando o assunto é Lady Gaga. Todo mundo TEM uma opinião. Não importa se ela vai durar pouco ou muito, o importante é o que ela tem feito com o tempo que lhe resta. Isso continua valendo mesmo se ela estiver mais interessada nos cifrões do que nas cifras.

E daí que você já viu isso antes? Gente assim é que empurra o mundo pra frente.

Go, Gaga.

Beyond Good and Evil

He who fights with monsters might take care lest he thereby become a monster. And if you gaze for long into an abyss, the abyss gazes also into you (Friedrich Nietzsche, “Beyond Good and Evil”)

THE FLY (1986)

DISTRICT 9 (2009)

BLACK SWAN (2010)


Óleo de fígado

05/08/2010

por | MODA

Via @randreh

Fazia um tempinho que um ensaio de moda não me deixava absolutamente com vontade de ir pra casa refletir.

Simples, direto e reto, “Water & Oil” é um soco bem dado no fígado de quem acompanhou o maior vazamento da história da indústria petrolífera _que começou no dia 20 de abril no Golfo do México depois de uma explosão. No ato, 11 pessoas morreram. No after, ainda é impossível calcular quantas centenas de milhares de vidas serão afetadas.

Esse ensaio de moda é prova concreta de que o mercado editorial pode e deve fazer um statement que extrapole a roupa da estação ou a tendência do momento.

Franca Sozzani _editora da “Vogue Italia”, revista onde o ensaio foi veiculado neste mês de agosto_ capitaneou Steven Meisel, fotógrafo que é seu parceiro profissional de longa data, e a supermodelo Kristen McMenamy: mitológica, bestial, orgânica, sci-fi, Kristen parece uma criatura marinha lutando pela sobrevida à beira mar. No final, padece sobre uma pedra, como se a estivesse abraçando.

Imagem tensa, cheia de significados e com muito impacto.

O tipo de coisa que só uma editora de moda que prioriza o conteúdo (e não a forma), um fotógrafo genial e uma modelo absurdamente capacitada seriam capazes de fazer.

Não sei exatamente o motivo, mas esse ensaio me fez lembrar imediatamente a música “Another World” (talvez pelo refrão? “Eu preciso de um outro mundo/ Esse está quase no fim / Vou sentir falta do mar / Sentir falta das coisas que crescem”), do Antony And The Johnsons.

Aperte o play e, com a trilha sonora de fundo, veja as fotos.

É de chorar.

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[Fotos via Fashion Copious]

CNN Revealed: Dolce & Gabbana

22/07/2010

por | MODA

Depois de Carine Roitfeld _editora da “Vogue Paris”_ os novos personagens da moda “revelados” pela CNN são a dupla Domenico Dolce e Stefano Gabbana. No combo de vídeos, os italianos mostram um behind the scenes do desfile de inverno 2010, abrem sua casa de veraneio em Portofino e falam sobre a comemoração dos 20 anos de sua linha masculina.

Aperte o play:

Parte 1

Parte 2

Parte 3

[via CNN]